<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3326216974110226786</id><updated>2012-02-16T00:43:12.926-08:00</updated><category term='Pseudo-Dioníso'/><category term='Evágrio Pôntico'/><category term='São Cesário de Arles'/><category term='Santo Ambrósio de Milão'/><category term='Papa'/><category term='São Pedro Crisólogo'/><category term='Aristides de Atenas'/><category term='Hipona'/><category term='Século IV'/><category term='São Leão Magno'/><category term='Didaquê'/><category term='Hérmias o Filósofo'/><category term='São Justino de Roma'/><category term='São Bento de Núrsia'/><category term='Pseudo-Inácio - Anônimo'/><category term='Século VII'/><category term='Século XIV'/><category term='Epístola de Barnabé'/><category term='São Dinis; o Areopagita'/><category term='Cânon de Muratori'/><category term='Kempense'/><category term='Século VI'/><category term='São Patricio'/><category term='Epístola a Diogneto'/><category term='Tomás Kempis'/><category term='Bispo'/><category term='Santo Urbano I'/><category term='Egéria de Constantinopla'/><category term='Oração Mariana'/><category term='São Sofrônio do Egito'/><category term='Hérmas de Roma'/><category term='Monge'/><category term='Policarpo de Esmirna'/><category term='Santo Agostinho'/><category term='Hipólito de Roma'/><category term='São Gregório de Nissa'/><category term='S. Gregório de Tours'/><category term='Século I'/><category term='Boécio'/><category term='Concílios'/><category term='São Basílio Magno'/><category term='Teófilo de Antioquia'/><category term='Atas Proconsulares'/><category term='Atenágoras de Atenas'/><category term='Caio'/><category term='São Zeferino'/><category term='Rústico Helpídio'/><category term='São João Cassiano'/><category term='Nicéia'/><category term='São Cipriano de Cartago'/><category term='Século XI'/><category term='Santo Efrém'/><category term='São Cirilo de Jerusalém'/><category term='S. Martinho de Braga'/><category term='São Ireneu'/><category term='S. Arsênio da Capadócia'/><category term='Tertuliano de Cartago'/><category term='São João Damasceno'/><category term='São Gildas da Bretanha'/><category term='São Pacômio'/><category term='São Jerônimo'/><category term='S. Atanásio de Alexandria'/><category term='Abércio de Hierápolis'/><category term='Pápias de Hierápolis'/><category term='São Beda; o Venerável'/><category term='São João Crisóstomo'/><category term='Inácio de Antioquia'/><category term='S. Anselmo de Cantuária'/><category term='Século III'/><category term='S. 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São-lhe  atribuidas cerca de 40 obras, o que o torna o maior   representante da  literatura devocional moderna. Um dos textos escrito por ele é o  conhecido "Imitação de Cristo", obra de inegável  influência no   cristianismo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Imitação de  Cristo é uma obra da literatura  devocional, publicada no século XIV. É a  obra mais lida  no mundo cristão depois da Bíblia. Seu texto é um  auxiliar à oração e  às práticas devocionais pessoais. Alguns o  consideram um dos maiores  tratados de moral cristã. A obra é atribuida  ao padre alemão Tomás de  Kempis, já que, segundo o Padre Fleury, na  edição brasileira da obra,  dos 66 manuscritos conhecidos do texto, 60  trazem a assinatura de Tomás  de Kempis, entre eles a mais respeitada  cópia, conhecida como Kempense,  escrita em 1441.&lt;br /&gt;____________________________________________________________________&lt;br /&gt;INÍCIO  DA OBRAS.&lt;br /&gt;---------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%; font-weight: bold;"&gt;Imitação de Cristo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Kempense.&lt;br /&gt;Livro  I.&lt;br /&gt;Avisos  para a vida espiritual.&lt;br /&gt;Autor: Tomás Kempis&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   I&lt;br /&gt;Da imitação de Cristo e do desprezo de todas as vaidades do mundo&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0kEm4V7qI/AAAAAAAAEW8/8D3PukOfYBc/s1600/Thomas_%25C3%25A0_Kempis_-_De_Imitatione_Christi.gif" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="225" src="http://4.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0kEm4V7qI/AAAAAAAAEW8/8D3PukOfYBc/s320/Thomas_%25C3%25A0_Kempis_-_De_Imitatione_Christi.gif" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;1.   Quem me segue não anda em trevas (S. João, VIII, 12). Com estas   palavras exorta-nos Cristo a que lhe imitemos a vida e os costumes, se   verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda a cegueira do   coração. Meditar na vida de Jesus Cristo seja, pois, a nossa maior   solicitude.&lt;br /&gt;2. A doutrina de Cristo sobreleva toda a doutrina dos   santos, e quem tiver o Espírito encontrará o maná que nela está   escondido. Quem quer, porém, entender e saborear toda a plenitude das   palavras de Cristo deve esforçar-se por moldar nEle toda a própria vida.&lt;br /&gt;3.   Que te aproveita discorrer profundamente sobre a Santíssima Trindade,   se não és humilde e, por isso, à Trindade desagradas? Em verdade as   palavras sublimes não fazem o homem santo e justo; é a vida pura que o   torna querido de Deus. Prefiro sentir compunção a saber-lhe a definição.   Se souberas toda a Bíblia de cor e todas as máximas dos filósofos, que   te aproveitaria tudo isto sem o amor e a graça de Deus? Vaidade das   vaidades é tudo vaidade, (Eccles. I, 12), exceto amar a Deus e só a Ele   servir. A suprema sabedoria consiste em tender para o reino do Céu pelo   desprezo do mundo.&lt;br /&gt;4. Vaidade, pois, amontoar riquezas caducas e   nelas pôr a sua confiança. Vaidade ainda, ambicionar honras e guindar-se   a altas posições. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar o que   mais tarde será gravemente punido. Vaidade, desejar viver muito e   descuidar viver bem. Vaidade, preocupar-se só da vida presente e não   prever a futura. Vaidade, amar o que tão vertiginosamente passa e não   demandar pressuroso a alegria que sempre dura.&lt;br /&gt;5. Lembra-te amiúde   daquela sentença do Sábio: Não se fartam os olhos de ver nem os ouvidos   de ouvir (Eccles. I, 8). Aplica-te, pois, a desapegar o teu coração do   amor das cousas visíveis para transportá-lo às invisíveis, porque os  que  se deixam levar pela própria sensualidade mancham a consciência e   perdem a graça de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;Do humilde sentir de si   mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Todo homem tem o desejo natural de saber, mas que vale a   ciência sem o temor de Deus? O camponês humilde que serve a Deus está,   sem dúvida, acima do filósofo soberbo, que, descuidando a sua alma,   observa o curso dos astros. Quem se conhece bem despreza-se a si mesmo e   não se compraz nos louvores dos homens. Se eu possuísse toda a ciência   do mundo e não tivesse caridade, que me aproveitaria aos olhos de Deus   que me há de julgar segundo as minhas obras?&lt;br /&gt;2. Modera o desejo   desordenado de saber que gera muita dissipação e muito desengano. Os que   têm muita ciência gostam de ser tidos e aplaudidos por sábios. Há   muitas coisas que sabê-las, pouco ou nenhum proveito traz para a alma, e   muito insensato é quem se ocupa do que não interessa à sua salvação.   Muita palavra não sacia a alma; é a vida santa que consola o coração, é a   consciência pura que inspira grande confiança em Deus.&lt;br /&gt;3. Quanto   mais e melhor souberes, tanto mais severamente hás de ser julgado se não   viveres mais santamente. Não te envaideças, pois, de qualquer arte ou   ciência; teme antes pelas luzes que recebeste. Se te parece que sabes e   compreendes bem muitas coisas, tem por certo que muito mais são as que   ignoras. Não te ensoberbeças (Rom. XI, 20), antes confessa a tua   ignorância. Como te queres preferir a outros se tantos há mais doutos e   mais versados que tu na lei de Deus? Queres saber e aprender algo de   útil? Folga em viver ignorado e ser tido por nada.&lt;br /&gt;4. A ciência mais   alta e mais proveitosa é o verdadeiro conhecimento e desprezo de si   mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem dos outros é grande sabedoria   e grande perfeição. Se vires outrem pecar abertamente e ainda cometer   faltas graves, nem por isto te deves ter por melhor, porque não sabes   por quanto tempo poderás perseverar no bem. Somos todos fracos, mas a   ninguém tenhas por mais fraco que tu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo III&lt;br /&gt;Da doutrina   da verdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Feliz aquele a quem a Verdade por si ensina, não   por figuras ou palavras que passam, senão por si mesma, mostrando-se  tal  qual é. Nossa razão e nossos sentidos vêem pouco e muitas vezes nos   enganam. Que aproveitam estas discussões sutis de coisas ocultas e   obscuras de que não seremos argüidos no juízo de Deus por as havermos   ignorado? Grande insensatez descuidarmos o que é útil e necessário para   nos aplicarmos com gosto ao curioso e nocivo. Em verdade, temos olhos e   não vemos.&lt;br /&gt;2. Que se nos dá dos gêneros e das espécies? De muitas   opiniões se desembaraça aquele a quem fala o Verbo eterno. Deste único   verbo procedem todas as coisas, e todas O proclamam; e Ele é o Princípio   que também dentro de nós fala (João VIII, 25). Sem Ele, ninguém  entende  ou julga retamente. Aquele que tudo encontra na Unidade  soberana, a ela  tudo refere e nela tudo vê por ter o coração firme e  descansar na paz  de Deus. Oh! Verdade! Oh! Deus! uni-me a Vós em  caridade perpétua!  Enfastia-me muitas vezes ler e ouvir tanta coisa; em  Vós se acha quanto  quero e desejo. Calem-se todos os doutores;  emudeçam em Vossa presença  as criaturas todas; falai-me Vós só!&lt;br /&gt;3.  Quanto maior progresso fizer  cada um na unidade e simplificação  interior, tanto mais numerosas e mais  sublimes coisas entenderá sem  esforço, porque do alto receberá a luz da  inteligência. A alma pura,  simples e constante não se dissipa ainda que  entenda em muitas  ocupações; porque todas refere à glória de Deus e,  tranqüila, em coisa  alguma busca a si própria. Que há que mais te  embarace e perturbe do  que os afetos imortificados de teu coração? O  homem bom temente a Deus  dispõe primeiro no seu interior as obras que  depois há de fazer  externamente; assim elas não o arrastam ao desejo de  alguma inclinação  viciosa mas ele as submete ao arbítrio da reta razão.  Quem peleja com  mais vigor do que aquele que trabalha por vencer a si  mesmo? Este  deverá ser o nosso maior empenho: vencermo-nos a nós mesmos,   tornarmo-nos cada dia mais fortes e fazermos algum progresso no bem.&lt;br /&gt;4.   Toda perfeição nesta vida anda mesclada de alguma imperfeição e na   nossa inteligência não há luz sem sombras. O humilde conhecimento de ti   mesmo é caminho que leva a Deus com mais segurança que as investigações   profundas da ciência. Não é que a ciência ou o simples conhecimento  das  coisas sejam condenáveis, porque em si são bons e ordenados por  Deus;  sempre, porém, se lhes há de preferir a boa consciência e a vida   virtuosa. Mas porque muitos se empenham mais em adquirir ciência do que   em bem viver, por isso erram a cada passo e pouco ou nenhum fruto  colhem  do seu trabalho.&lt;br /&gt;5. Oh! Se eles pusessem tanto ardor em  extirpar  vícios e plantar virtudes como põem em agitar questões, não se  veriam  tantos males e escândalos entre o povo nem tanta desordem nos  mosteiros.  Por certo, no dia do Juízo não se nos perguntará o que lemos  mas o que  fizemos; nem se falamos com eloqüência senão se vivemos com  piedade.  Dize-me: onde estão agora todos aqueles mestres e doutores que  bem  conheceste quando ainda viviam e floresciam nas escolas? Já outros   possuem as suas prebendas e talvez nem deles se lembrem; quando vivos   pareciam alguma coisa, hoje deles nem se fala.&lt;br /&gt;6. Oh! Quão depressa   passa a glória do mundo! Prouvera a Deus que a vida lhes concordasse  com  a doutrina; teriam então lido e estudado com proveito. Quantos  perecem  no mundo, entregues a uma ciência vã e descuidados do serviço  de Deus!  Esvaeceram em suas cogitações (Ad Rom I, 21) porque antes  quiseram ser  grandes que humildes. Verdadeiramente grande é quem tem  grande caridade!  Verdadeiramente grande, aquele, que, pequeno aos  próprios olhos, em  nada estima as maiores honras. Verdadeiramente  sábio, aquele que  considera “todas as coisas da terra como lodo para  ganhar a Cristo”  (Filip. III, 8). E verdadeiramente douto, aquele que  faz a vontade de  Deus e renuncia à própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IV&lt;br /&gt;Da  prudência nas ações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Não se deve dar crédito a qualquer  palavra nem obedecer a todo impulso,  mas pesar as coisas na presença de  Deus com prudência e vagar.  Infelizmente, tanta é a nossa fraqueza  que, muitas vezes acreditamos e  dizemos dos outros, com mais  facilidade, o mal que o bem! Mas os homens  perfeitos não prestam  facilmente fé a tudo o que se lhes conta porque  conhecem a natureza  humana, inclinada ao mal e leviana no falar.&lt;br /&gt;2.  Grande sabedoria é  não aferrar-se ao próprio parecer. E ainda, não crer  sem discernimento  tudo o que dizem os homens, nem encher os ouvidos  alheios do que  ouvimos ou cremos. Aconselha-te com varão sábio e  consciencioso; e  prefere ouvir outro melhor que tu a seguir as tuas  luzes. A vida  virtuosa faz ao homem sábio diante de Deus e dá-lhe muita  experiência.  Quanto mais o homem for humilde e submisso a Deus, tanto  maior será a  sua sabedoria e serenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo V&lt;br /&gt;Da lição  das Sagradas  Escrituras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Nas Sagradas Escrituras há de  procurar-se a  verdade, não a eloqüência. Os livros santos devem ser  lidos com o mesmo  espírito com que foram ditados. Neles demos buscar a  edificação mais  que as sutilezas da linguagem. De tão boa vontade  devemos ler os livros  singelos e devotos como os profundos e sublimes.  Não te embaraces com a  autoridade do escritor, se foi homem de grandes  ou de poucas letras;  mova-te a ler o puro amor da verdade. Considera o  que te dizem sem  indagar quem o diz.&lt;br /&gt;2. Os homens passam mas “a  verdade do Senhor  permanece eternamente” (Ps. XXXVIII, 7). Deus fala-nos  de diferentes  maneiras sem aceitação de pessoas. Na lição das  Escrituras  prejudica-nos muitas vezes nossa curiosidade, porque  pretendemos  compreender e discutir sobre o que se deveria passar com  simplicidade.  Se queres tirar proveito lê com humildade, singeleza e fé,  sem  aspirares à reputação de grande ciência. Interroga de bom grado e  ouve,  em silêncio, as palavras dos santos; nem te desagradem as  sentenças  dos velhos que, sem razão, não as proferem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VI&lt;br /&gt;Das   afeições desordenadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Todas as vezes que o homem deseja   alguma coisa desordenadamente entra logo a sentir-se inquieto. O soberbo   e o avarento nunca têm descanso; o pobre e o humilde de espírito vivem   em muita paz. Quem ainda não morreu perfeitamente a si mesmo é bem   depressa tentado e vencido em coisas pequenas e insignificantes. O fraco   de espírito, ainda um tanto carnal e inclinado às coisas sensíveis,   dificilmente pode desapegar-se de todos os desejos da terra; e por isto   sente-se muitas vezes triste quando deles se priva e com facilidade se   irrita se alguém o contraria.&lt;br /&gt;2. Mas se alcança o que desejava, logo  o  oprime o remorso de consciência, por haver seguido sua paixão que  lhe  não traz a paz que buscava. É com efeito resistindo e não  obedecendo às  paixões que se encontra a verdadeira paz de coração. Paz  não terá, pois,  o homem carnal nem o dissipado, mas o fervoroso e  espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  VII&lt;br /&gt;Que se há de fugir a vã esperança e o  orgulho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Insensato quem coloca a sua esperança nos homens ou  nas criaturas. Não  te envergonhes de servir aos outros por amor de  Jesus Cristo nem de  parecer pobre neste mundo. Não te apóies em ti mas  em Deus firma a tua  esperança. Fazei o que está em tuas mãos e Deus  ajudará tua boa vontade.  Não confies na tua ciência nem na indústria de  nenhuma alma viva, mas  na graça de Deus que ajuda os humildes e  humilha os presunçosos.&lt;br /&gt;2.  Não te glories nas riquezas se as  tiveres, nem nos amigos por serem  poderosos, mas em Deus que tudo nos  dá e acima de tudo deseja dar-se a  si mesmo. Não te envaideças da  robustez ou da formosura do corpo que a  menor enfermidade quebranta e  desfigura. Não te comprazes nas tuas  habilidades e talentos, para não  desagradares a Deus a quem pertencem  todos os teus dons naturais.&lt;br /&gt;3.  Não te julgues melhor que os outros  para que não sejas tido talvez  como pior aos olhos de Deus que sabe o  que há no homem. Não te  ensoberbeças por tuas boas obras, porque bem  diversos dos homens são os  juízos de Deus, a quem desagrada muitas vezes  o que aos homens agrada.  Se em ti reconheceres algum bem, pensa que são  melhores os outros e  assim te conservarás em humildade. Nenhum mal há  em te colocares abaixo  de todos; grande mal, porém, se ainda a um só te  preferires. No  coração humilde, paz contínua; no soberbo, freqüente o  ciúme e a  irritação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VIII&lt;br /&gt;Que se há de evitar a nímia   familiaridade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. “Não abras o teu coração a qualquer pessoa”   (Eccles. VIII, 22) mas trata das tuas coisas com homem sábio e temente a   Deus. Com os moços e pessoas de fora conversa pouco. Não bajules os   ricos nem gostes de aparecer na presença dos poderosos. Procura a   companhia dos humildes e simples, dos piedosos e de bons costumes e com   eles entretém-te de coisas edificantes. Não tenhas familiaridade com   mulher alguma, mas, em geral, encomenda a Deus todas as mulheres de   virtude. Intimidade deseja só com Deus e os Anjos; e evita ser conhecido   dos homens.&lt;br /&gt;2. Caridade, com todos; mas familiaridade, não convém.   Sucede, não raro, que uma pessoa, de longe, brilha com o esplendor da   fama, mas, de perto desmerece aos olhos dos que a vêem. Cuidamos às   vezes agradar aos outros com a nossa assiduidade, mas, com isto, lhes   desagradamos pelos defeitos que em nós vão descobrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   IX&lt;br /&gt;Da obediência e submissão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Grande coisa é viver em   obediência, sob a direção de um superior e não ser senhor de si. Muito   mais seguro é obedecer que mandar. Muitos vivem em obediência mais por   necessidade que por amor; e por isto andam desgostosos e murmuram com   facilidade; nunca chegarão à liberdade de espírito se não se submeterem   de todo coração por amor de Deus. Para onde quer que vás não  encontrarás  descanso senão na humilde sujeição à autoridade superior.  Muitos se têm  iludido imaginando que a mudança de lugar traz melhora.&lt;br /&gt;2.  É verdade  que cada qual gosta de seguir o próprio parecer e mais se  inclina para  os que pensam como ele. Mas se Deus está conosco é mister  que algumas  vezes renunciemos ao nosso modo de ver por amor da paz.  Quem é tão sábio  que chegue a saber tudo perfeitamente? Não confies,  pois, demais na tua  opinião mas de bom grado ouve também a dos outros.  Se for bom o teu  parecer e o deixares por amor de Deus para seguir o de  outrem, terás com  isto maior proveito.&lt;br /&gt;3. Muitas vezes ouvi que  mais seguro é tomar  que dar conselho. Bem pode também suceder que seja  bom o parecer de cada  um; mas não querer ceder aos outros quando a  razão ou as circunstâncias  o pedem, sinal é de soberba teimosia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  X&lt;br /&gt;Que se deve  evitar as palavras inúteis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Evita quanto  puderes o bulício do  mundo; tratar de coisas seculares, ainda com  intenção pura, traz sempre  grande detrimento. Bem depressa nos deixamos  inquinar e prender pela  vaidade. Tomara eu tantas vezes haver-me  calado e não ter estado entre  os homens! Por que razão gostamos tanto  de falar e conversar quando  raras vezes voltamos ao silêncio sem trazer  a consciência magoada? A  razão por que tão de boa vontade falamos é  porque nas nossas conversas  procuramos consolar-nos mutuamente e  queremos aliviar o coração fatigado  de tantas preocupações. E é sempre  agradável falar e pensar naquilo que  muito amamos e desejamos ou que  nos contraria.&lt;br /&gt;2. Mas, infelizmente,  quase sempre em vão: esta  consolação externa não é pequeno obstáculo às  consolações interiores e  divinas. Importa vigiar e orar para que não  passe inutilmente o tempo.  Quando for permitido ou conveniente falar,  fala de coisas edificantes. O  mau costume e o descuido do nosso  aproveitamento muito contribuem para  o desmando da língua. Muito, porém,  aproveitam para o progresso da  alma as conferências piedosas sobre  assuntos espirituais principalmente  quando se reúnem no Senhor, pessoas  animadas das mesmas intenções e do  mesmo espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XI&lt;br /&gt;Da  paz e do zelo da perfeição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  De muita paz poderíamos gozar se  não nos quiséramos meter com as  palavras e ações dos outros que não são  de nossa conta. Como poderá  permanecer muito tempo em paz aquele que se  intromete em negócios  alheios, que procura dissipar-se nas coisas  externas e dentro de si,  pouco ou raras vezes, se recolhe?  Bem-aventurados os simples porque  terão muita paz!&lt;br /&gt;2. Por que razão  foram alguns santos tão perfeitos e  contemplativos? Porque aplicaram-se  seriamente a renunciar a todos os  desejos terrenos e por isto puderam de  todo o coração fixar-se em Deus e  ocupar-se de si livremente. Nós,  porém, deixamos levar-nos  demasiadamente pelas próprias paixões e pela  solicitude das coisas que  passam; raras vezes vencemos um vício  perfeitamente; não nos alentamos  por fazer cada dia algum progresso: por  isto, ficamos sempre frouxos e  tíbios.&lt;br /&gt;3. Se estivéramos  inteiramente mortos a nós mesmos e menos  embaraçados no nosso interior,  poderíamos saborear as coisas divinas e  ter alguma experiência da  contemplação celestial. O maior, o único  obstáculo é que não nos  desvencilhamos das paixões e concupiscências  nem nos decidimos a entrar  no caminho perfeito dos santos. Mal surge  uma pequena contrariedade,  deixamo-nos logo entrar de desânimo e  voltamos às consolações humanas.&lt;br /&gt;4.  Se nos esforçáramos, como varões  fortes, por perseverar na luta,  sentiríamos por certo que do céu  desceria sobre nós o auxílio do Senhor;  Ele está pronto a ajudar os que  pelejam e confiam na sua graça e não  nos proporciona as ocasiões de  combate senão para que alcancemos a  vitória. Se apenas nas observâncias  exteriores ciframos o progresso da  vida religiosa, em breve se  extinguirá a nossa piedade. Levemos o  machado à raiz para que,  purificados das paixões, tenhamos a alma em  paz.&lt;br /&gt;5. Se cada ano  extirpássemos um vício bem depressa seríamos  perfeitos. Mas o que de  fato experimentamos é muitas vezes o contrário:  fomos melhores e mais  puros no princípio da nossa conversão do que após  muitos anos de  professo. Todos os dias devera aumentar o fervor e o  aproveitamento;  mas, infelizmente, hoje já se tem por muito se alguém  conserva parte do  zelo primitivo. Se no começo nos fizéssemos um pouco  de violência,  tudo poderíamos fazer em seguida com facilidade e alegria.&lt;br /&gt;6.   Custoso é deixar o costume antigo; mais custoso ainda, contrariar a   vontade própria; mas se não vences o pouco e o fácil como triunfarás do   difícil? Resiste no princípio à tua inclinação e desfase-te do hábito   mau para que, pouco a pouco, não te arraste talvez a maiores   dificuldades. Oh! Se consideraras quanta paz desfrutarias tu e quanto   prazer darias aos outros levando vida regrada, estou certo que serias   mais solícito pelo teu progresso espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XII&lt;br /&gt;Das   vantagens da adversidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Bom é que, de quando em quando,   passemos por sofrimentos e contrariedades, porque muitas vezes fazem o   homem entrar em si, lembrando-lhe que vive no desterro e em coisa   nenhuma do mundo deve por a sua esperança. Bom é que, por vezes,   padeçamos contradições e de nós se não tenha boa estima, ainda quando   são boas as nossas ações e intenções. Isto muito nos ajuda a ser   humildes e preserva-nos da vanglória. Quando, fora, os homens nos   desprezam e se não fiam de nós, procuramos com mais cuidado ter a Deus   por testemunha do nosso interior.&lt;br /&gt;2. Em Deus devera o homem de tal   modo firmar-se que não precisasse mendigar tantas consolações humanas.   Quando o homem de boa vontade é atribulado, tentado ou molestado de maus   pensamentos, compreende melhor que Deus lhe é necessário e sem Ele  nada  pode de bom. Então se entristece, geme e ora pelas suas misérias.   Pesa-lhe, também, o viver por tanto tempo e suspira pela morte para que   possa, “livre dos laços do corpo estar com Cristo” (Filip. I,23).  Então  ainda se persuade que segurança perfeita e paz completa não pode  haver  neste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XIII&lt;br /&gt;Da resistência às tentações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Enquanto vivemos neste mundo não podemos estar sem trabalhos e   tentações. Por isto está escrito no livro de Jó: “É milícia a vida do   homem na terra” (Jó VII,1). Deve, pois cada qual estar sempre alerta   sobre as tentações que o assaltam e vigiar e orar para que o não   surpreenda o demônio que não dorme “mas ronda sempre à procura de quem   devorar” (S. Petr. V, 8). Não há homem tão perfeito e santo que, de   quando em quando, não tenha tentações; totalmente livres delas não   podemos viver.&lt;br /&gt;2. As tentações, porém, ainda que molestas e graves,   são muitas vezes de grande utilidade para o homem; nelas se adquire   humildade, pureza e experiência. Por muitas tentações e tribulações   passaram todos os santos e com isto aproveitaram; os que não puderam   resistir-lhes, sucumbiram e perderam-se. Não há Ordem religiosa tão   santa nem lugar tão retirado onde não haja tentações e adversidades.&lt;br /&gt;3.   Enquanto viver, nenhum homem será de todo ao abrigo das tentações;   porque, nascidos na concupiscência, em nós está a causa pela qual somos   tentados. Quando se vai uma tentação ou tribulação, sobrevém outra; e   assim teremos sempre que sofrer, uma vez que perdemos o bem da nossa   primeira felicidade. Muitos procuram fugir às tentações e nelas caem   mais gravemente. Só com a fuga não as podemos vencer; é a paciência e a   verdadeira humildade que nos tornam mais fortes que todos os inimigos.&lt;br /&gt;4.   Quem evita somente as ocasiões exteriores e não extirpa o mal pela   raiz, pouco aproveitará; antes, mais depressa voltarão as tentações e se   achará pior. Pouco a pouco, com a ajuda de Deus, vencerás melhor, pela   paciência e longanimidade, do que pela violência e azedume. Toma   conselho mais vezes na hora da tentação; e não trates com aspereza a   quem é tentado; mas consola-o como desejavas que fizessem contigo.&lt;br /&gt;5.   A causa de todas as tentações perigosas é a inconstância e a falta de   confiança em Deus. Como o navio sem leme é joguete das ondas, assim o   homem remisso e pouco firme nos seus propósitos é agitado por toda sorte   de tentações. O fogo prova o ferro; a tentação, o justo. Ignoramos   muitas vezes o que valemos, a tentação faz-nos ver o que somos. Cumpre,   porém, vigiar, principalmente no princípio da tentação, mais fácil  então  é vencer o inimigo, se lhe fechamos logo a porta da alma e lhe   resistimos apenas se apresenta fora do limiar. Por isto disse alguém:   “Atalha no princípio; tarde chega o remédio se o mal, por longo tempo,   fundas raízes lançou” (“Principiis obsta; sero medicina paratur Quum   mala per longas invaluere moras” - Ovidio).&lt;br /&gt;Primeiramente   apresenta-se à alma um simples pensamento, a seguir uma imaginação viva,   depois a deleitação, o movimento desordenado e o consentimento. Assim,   aos poucos, força de todo a entrada o inimigo maligno a quem logo lhe   não resistiu; e quanto por mais tempo for a alma entorpecendo na   resistência, tanto mais fraca ela vai ficando e mais poderoso o seu   adversário.&lt;br /&gt;6. Uns padecem tentações mais violentas no início de sua   conversão; outros, no fim; alguns porém são atormentados quase toda a   vida; há também os que são tentados com mais brandura; assim o dispõe a   sabedoria e justiça da divina Providência que pesa o estado e os   merecimentos dos homens e tudo ordena para a salvação de seus   escolhidos.&lt;br /&gt;7. Por isso, não devemos perder a confiança quando somos   tentados, antes pedir a Deus com mais fervor que se digne ajudar-nos na   tribulação. Ele, que segundo a palavra de S. Paulo, “com a tentação  dará  o auxílio para que possamos resistir-lhe” (I Cor. X, 13).  Humilhemos,  pois, as nossas almas sob a mão de Deus na tentação e na  tribulação,  porque os humildes de espírito, Ele os há de salvar e  exaltar.&lt;br /&gt;8. Nas  tentações e tribulações vê-se quanto aproveitou a  alma; nelas maior é o  merecimento e melhor se manifesta a virtude. Não é  lá grande valor ser o  homem devoto e fervoroso quando nada lhe dá  pena; esperança de muito  aproveitamento haverá, porém, se suporta com  paciência o tempo da  adversidade. Alguns guardam-se das grandes  tentações e são vencidos  muitas vezes nas pequenas de cada dia, para  que, humilhados, não  presumam de si nas grandes ocasiões os que nas tão  insignificantes  fraquejam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XIV&lt;br /&gt;Que se há de evitar o  juízo temerário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Põe os olhos em ti e guarda-te de julgar as  ações alheias. Julgando os  outros o homem trabalha em vão, erra o mais  das vezes e facilmente peca;  julgando e examinando a si mesmo trabalha  sempre com proveito. Julgamos  freqüentemente das coisas conforme nos  falam ao coração; porque o amor  próprio turva facilmente a verdade dos  nossos juízos. Se Deus fora  sempre o único objeto de nossos desejos não  nos perturbaríamos tão  depressa quando contrariam a nossa vontade.&lt;br /&gt;2.  Há porém muitas vezes  alguma razão oculta ou algum motivo externo que  também em nós influi.  Muitos, no que fazem, buscam secretamente a si  mesmos, sem o saber.  Parecem também estar em perfeita paz quando as  coisas lhes correm à  medida dos desejos; mal, porém, lhes não sucedem à  vontade logo se  perturbam e entristecem. Por causa da diversidade de  sentimentos e  opiniões, nascem freqüentes discórdias entre amigos e  vizinhos, entre  religiosos e pessoas piedosas.&lt;br /&gt;3. É coisa difícil  deixar um costume  antigo e ninguém de boa mente renuncia ao seu modo de  ver. Se confias  mais em tua razão e habilidade do que na virtude que  nos submete a Jesus  Cristo, tarde e raras vezes terá a alma iluminada;  Deus quer que a Ele  nos sujeitemos perfeitamente, e, inflamados no seu  amor, nos elevemos  acima de toda a razão humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XV&lt;br /&gt;Das  obras que  procedem da caridade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Por coisa nenhuma deste  mundo, nem por  amor de quem quer que seja, se deve praticar o mal. É  livre, porém,  interromper uma ação boa ou substituí-la por outra melhor  para prestar  serviço a quem precisa; assim não se destrói a boa ação  mas  transforma-se em outra de maior valor. Sem a caridade de nada vale   nenhuma obra exterior. Tudo, porém, o que dela se inspira, por pequeno e   desprezível que seja, produz abundantes frutos: mais que a ação, Deus   pesa a intenção.&lt;br /&gt;2. Muito faz quem muito ama. Muito faz quem faz  bem.  Bem faz quem serve ao interesse comum mais que à vontade própria. O  que  muitas vezes parece caridade é concupiscência: porque raras vezes,  a  inclinação natural, a vontade própria, a esperança de recompensa, o  amor  às comodidades deixam de influir em nossas ações.&lt;br /&gt;3. Quem  possui a  verdadeira e perfeita caridade não busca a si em coisa alguma  mas seu  único desejo é que em tudo se realize a glória de Deus. A  ninguém  inveja, porque não aprecia nenhum prazer particular nem em si  mesmo quer  alegrar-se, mas, em Deus, acima de todos os bens, coloca a  sua  felicidade. A nenhuma criatura atribui bem algum, mas tudo refere a   Deus, fonte perene, donde promanam todos os bens, fim beatífico, em  que  descansam todos os santos. Oh! quem tivera uma centelha de  verdadeira  caridade! como lhe pareceriam vãs todas as coisas da terra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XVI&lt;br /&gt;Da paciência com os defeitos alheios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. O que não pode o   homem emendar em si ou nos outros deve suportar com paciência até que   Deus disponha de outra maneira. Considera que assim é talvez melhor  para  provar a tua paciência, sem a qual não são de grande peso os  nossos  merecimentos. Nestas contrariedades, porém, deves pedir a Deus  que se  digne ajudar-te para suportá-las serenamente.&lt;br /&gt;2. Se alguém,  advertido  uma ou duas vezes, se não emendar, não porfies com ele, mas  encomenda  tudo a Deus que sabe tirar o bem do mal, afim de que se faça a  sua  vontade e Ele seja glorificado em todos os seus servos. Esforça-te  por  suportar com paciência os defeitos e fraquezas alheias; também os  outros  terão muito que suportar de ti. Se não te podes fazer qual  quiseras,  como poderás alcançar se conformem os demais aos teus  desejos? Bem  folgamos, não tenham defeitos os outros; mas os nossos,  não os  emendamos.&lt;br /&gt;3. Queremos se corrijam os outros com rigor, mas  nós não  queremos ser repreendidos; parece-nos mal a demasiada liberdade  alheia  mas nós não queremos se nos negue o que pedimos; gostamos sejam  os mais  apertados com estatutos, mas nós não sofremos a menor  proibição. Por  onde se vê, como é raro usarmos da mesma balança para  nós e para os  outros. Se foram todos perfeitos que houvéramos de sofrer  por amor de  Deus?&lt;br /&gt;4. Assim, porém, o dispôs Deus para que  aprendêssemos “a levar a  carga, uns dos outros” (Gal. VI,2); porque  todos têm a sua carga;  ninguém há sem defeitos, ninguém basta a si  mesmo; nem é suficientemente  sábio para guiar-se; mas, reciprocamente,  devemos suportar-nos e  consolar-nos; uns aos outros devemos prestar  auxílio, instrução e  conselho. Na adversidade melhor se manifesta a  virtude de cada um; a  ocasião não faz o homem fraco, revela-o tal qual  é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XVII&lt;br /&gt;Da  vida monástica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Importa que  aprendas a dobrar-te em muitas  coisas, se queres ter paz e concórdia  com os outros. Não é pouco morar  em mosteiros ou comunidade, aí viver  sem queixas e perseverar fielmente  até à morte. Feliz aquele que aí  vive bem e acaba santamente. Se queres  conservar-te firme e crescer na  virtude, considera-te como desterrado e  peregrino sobre a terra. É  mister que te faças “louco por amor de  Cristo” se queres seguir a vida  religiosa.&lt;br /&gt;2. De pouco valem o hábito  e a tonsura; é a mudança dos  costumes e a perfeita mortificação das  paixões que fazem o verdadeiro  religioso. Quem procura outra coisa fora  de Deus e da salvação de sua  alma só achará tribulação e dor. Não pode  também viver muito tempo em  paz quem não se esforça por ser o menor e o  mais submisso de todos.&lt;br /&gt;3.  Vieste para servir, não para mandar;  persuade-te que foste chamado a  trabalhar e sofrer e não a descansar e  palestrar. Aqui se provam os  homens como o ouro no crisol; aqui ninguém  pode perseverar se de todo  coração não quiser humilhar-se por amor de  Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XVIII&lt;br /&gt;Dos  exemplos dos Santos Padres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Contempla os exemplos vivos dos  Santos Padres nos quais resplandeceu a  verdadeira perfeição da vida  religiosa e verás quão pouco é e quase nada  o que fazemos. Ai! que é  nossa vida comparada com a deles? Os Santos e  amigos de Cristo serviram  ao Senhor “em fome e sede, em frio e nudez, em  trabalhos forçados e  fadigas, em vigílias e jejuns” (II Cor. XI, 27),  em orações e santas  meditações, em mil perseguições e opróbrios.&lt;br /&gt;2.  Oh! quantas e quão  graves tribulações padeceram os apóstolos, os  mártires, os confessores,  as virgens e todos os mais que quiseram seguir  as pegadas de Cristo.  “Odiaram as suas almas neste mundo para  possuí-las na vida eterna”  (João XII,25). Que vida abnegada e austera  levaram os Santos Padres no  ermo! que fortes e porfiadas tentações  sofreram! quantas vezes foram  atormentados pelo inimigo! que orações  contínuas e fervorosas  ofereceram a Deus! que rigorosas abstinências  praticaram! que zelo, que  ardor em seu aproveitamento espiritual! que  combates ríspidos para  domar as próprias paixões! que intenção pura e  reta sempre dirigida  para Deus! De dia trabalhavam, e as noites passavam  em oração; ainda  durante o trabalho não interrompiam a oração mental.&lt;br /&gt;3.  Todo o tempo  empregavam utilmente; pareciam-lhes curtas as horas para  tratar com  Deus; com a grande doçura da contemplação esqueciam até a  necessária  refeição do corpo. A todas as riquezas, dignidades, honras,  amigos e  parentes, renunciaram; do mundo nada queriam; apenas tomavam o   necessário à vida; afligiam-se de servir ao corpo ainda nas coisas   necessárias. Pobres eram em bens da terra; mas muito ricos de graças e   de virtude. No exterior faltava-lhes tudo, mas internamente eram   confortados pela graça e pelas consolações divinas.&lt;br /&gt;4. Alheios ao   mundo, eram íntimos e familiares amigos de Deus. Por nada se tinham e o   mundo os desprezava, mas eram queridos de Deus e preciosos aos seus   olhos. Viviam em humildade sincera, em obediência simples, em caridade e   paciência; por isso, cresciam cada dia no espírito e alcançavam muita   graça diante de Deus. São exemplo a todos os religiosos, e mais nos   devem eles estimular ao progresso no bem que a multidão dos tíbios ao   relaxamento.&lt;br /&gt;5. Oh! como foi grande o fervor de todos os religiosos   nos primeiros tempos de seus santos institutos! que piedade na oração!   que emulação na virtude! que vigor na disciplina! como florescia em   todos a submissão e obediência à regra do santo fundador! O que deles   ainda nos fica bem atesta que foram na verdade santos e perfeitos   aqueles varões que, pelejando com tanto denodo, calcaram aos pés o   mundo. Hoje já se tem em muito o religioso que não transgride a sua   regra e suporta com paciência o jugo que sobre si tomou.&lt;br /&gt;6. Oh! por   causa da tibieza e negligência em nosso estado, tão depressa arrefecemos   do primeiro fervor; lânguidos, cansados, até o viver já nos enfada!   Praza a Deus que, tendo contemplado tantos exemplos de varões piedosos,   não deixes de todo adormecer em ti o zelo de adiantar na virtude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XIX&lt;br /&gt;Dos exercícios do bom religioso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A vida do bom   religioso deve ser adornada de todas as virtudes afim de que tal seja no   interior qual aparece exteriormente aos homens. E na verdade, muito   mais perfeito deve ser por dentro do que se mostra por fora, porque Deus   nos vê e onde quer que estejamos devemos prestar-lhe profunda   reverência e andar na sua presença puros como anjos. Cumpre renovar o   nosso propósito e excitar-nos ao fervor cada dia como se fora o primeiro   da nossa conversão e dizer: “Ajudai-me, meu Deus e Senhor, nas minhas   boas resoluções e no vosso santo serviço, dai-me que comece hoje  deveras  porque nada é o que até agora tenho feito.”&lt;br /&gt;2. A decisão do  nosso  propósito é a medida do nosso aproveitamento; e de muita  diligência há  mister quem deseja progredir no bem. Se o que propõe com  firmeza muitas  vezes fraqueja, que será do que propõe poucas, ou com  menos energia?  Contudo somos infiéis às nossas resoluções e a mais leve  omissão nos  nossos exercícios dificilmente deixa de causar-nos algum  dano. Os justos  nos seus propósitos contam mais com a graça de Deus que  com a própria  sabedoria; e em tudo quanto empreendem nEle põem sempre a  sua confiança.  Porque “o homem propõe e Deus dispõe; e não estão nas  mãos do homem os  seus caminhos” (Jerem. X,23).&lt;br /&gt;3. O exercício  habitual que se omite  por motivo de piedade ou para o bem de nossos  irmãos poderá depois  facilmente ser reparado; mas o que se deixa  levianamente por tédio ou  negligência é culpa séria e de conseqüências  funestas. Por mais que nos  esforcemos, faltas leves havemos de cometer  muitas. Ainda assim deve  propor-se sempre alguma coisa determinada  principalmente contra o que  mais impede o nosso progresso espiritual.  Importa examinar e ordenar  tanto o nosso exterior quanto o interior  porque um e outro contribuem  para o nosso aproveitamento.&lt;br /&gt;4. Se te  não podes recolher  continuamente, recolhe-te de quando em quando; ao  menos uma vez ao dia,  pela manhã ou à noite. Pela manhã toma as tuas  resoluções; à noite,  examina as tuas ações, como te houveste hoje em  palavras, obras e  pensamentos; porque pode ser que nisso muitas vezes  tenhas ofendido a  Deus e ao próximo. Arma-te com animo varonil contra  as ciladas do  demônio; refreia a gula e mais facilmente refrearás todas  as inclinações  da carne. Nunca estejas ocioso; 1ê ou escreve, reza,  medita ou trabalha  em alguma coisa útil aos outros. Os exercícios  corporais, porém, convém  fazer-se com discrição; nem a todos convêm na  mesma medida.&lt;br /&gt;5. O que  sai das práticas comuns não deve ostentar-se  publicamente; os  exercícios particulares é mais seguro fazê-los em  segredo. Guarda-te,  porém, de ser negligente para os exercícios comuns e  pronto para os  singulares. Mas satisfeitos inteira e fielmente os  deveres prescritos,  se ainda sobrar tempo, recolhe-te em ti conforme te  pede a tua devoção.  Nem todos podem aplicar-se aos mesmos exercícios,  uns convêm mais a  este, outros, àquele. É bom também variá-los segundo  os tempos; uns mais  se apreciam nos dias de festa, outros, nos dias  úteis. Destes  necessitamos na hora da tentação, daqueles, no tempo de  paz e de  sossego. Certos pensamentos agradam-nos quando estamos  tristes, outros,  quando alegres no Senhor.&lt;br /&gt;6. Nas festas principais  cumpre renovar  nossos exercícios de piedade e implorar com mais fervor a  intercessão  dos Santos. De uma solenidade para outra, façamos o  propósito de viver,  como se tivéramos então que deixar este mundo e  entrar na festa da  eternidade. Por isso devemos preparar-nos  solicitamente nos tempos  festivos, com uma vida mais fervorosa e uma  observância mais severa das  regras como se em breve houvéramos de  receber de Deus o prêmio do nosso  trabalho.&lt;br /&gt;7. E se este momento for  diferido, tenhamos por certo que  ainda não estamos preparados nem  somos dignos desta glória imensa que a  seu tempo “se há de revelar em  nós” (Rom. VIII, 18) e esforcemos por nos  dispor melhor para a partida.  “Bem-aventurado o servo”, diz o  evangelista São Lucas, “a quem o  Senhor, quando vier, encontrar  vigilante; em verdade vos digo que o  constituirá sobre todos os seus  bens” (Lucas XII, 43-44).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XX&lt;br /&gt;Do amor da solidão e do  silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Procura tempo  oportuno para estar contigo e pensa  amiúde nos benefícios de Deus.  Deixa-te de curiosidades e entrega-te a  leituras que antes excitem a  compunção do que distraiam o espírito.  Aparta-te das conversas  supérfluas e dos passeios ociosos, fecha os  ouvidos às novidades e às  atoardas e acharás tempo suficiente e propício  para te entregar às  santas meditações. Os maiores santos evitavam,  quanto podiam, a  companhia dos homens e preferiam viver a sós com Deus.&lt;br /&gt;2.  Já disse  um antigo (Sêneca, epíst. VII): “Quantas vezes estive entre  homens,  volvi menos homem.” É o que experimentamos tantas vezes quando  nos  entretemos em largas conversas. Mais fácil é calar de todo do que se   não exceder falando. Mais fácil é encerrar-se em casa que guardar-se   como convém fora. Quem aspira à vida interior e espiritual deve, com   Jesus, apartar-se das turbas. Só aparece em público com segurança quem   gosta de viver oculto. Só fala com acerto quem cala de boa vontade. Só   ocupa sem risco os primeiros lugares quem de bom brado se coloca nos   últimos. Só não corre perigo em mandar quem se exercitou em obedecer.&lt;br /&gt;3.   Não há alegria segura sem o testemunho de uma boa consciência. A   segurança dos santos, porém, é sempre cheia de temor de Deus; por mais   que sobressaíssem em grandes virtudes e graças não deixaram por isso de   ser menos vigilantes e humildes. A confiança dos maus, porém, nasce da   soberba e presunção e por fim resolve-se em engano. Nunca te dês por   seguro nesta vida, por mais que pareças bom religioso ou devoto ermitão.&lt;br /&gt;4.   Muitas vezes os melhores na estima dos homens incorreram nos mais   graves perigos por confiarem demasiado em si mesmos. Por isso, para   muitos é mais útil que lhes não faltem de todo tentações e que sejam   combatidos, para que não presumam de si, nem se exaltem em soberba ou se   entreguem com excesso às consolações exteriores. Oh! que pureza de   consciência conservaria quem nunca buscasse alegrias passageiras, e   nunca se ocupasse do mundo! Oh! quanta paz e sossego lograria quem   cortasse pelos vãos cuidados para não se ocupar senão das coisas do céu e   da sua salvação, colocando em Deus toda a sua esperança!&lt;br /&gt;5. Só é   digno das consolações celestes quem se exercitou com diligência na santa   compunção. Se queres arrepender-te de coração recolhe-te em teu   aposento e afasta-te do bulício do mundo, segundo está escrito:   “compungi-vos em vosso cubículo” (Salmos IV,5). Nele encontrarás o que   muitas vezes hás de perder fora. Continuamente habitada, a cela torna-se   agradável; mal guardada, gera fastio. Se no princípio de tua conversão   te acostumares a ela e a guardares bem, ser-te-á, depois amiga querida  e  gratíssima consolação.&lt;br /&gt;6. No silêncio e no sossego aproveita a  alma  piedosa e penetra os segredos da Escritura. Aí é que encontra as  fontes  de lágrimas com que todas as noites se lava e purifica para  unir-se  tanto mais familiarmente a seu Criador quanto mais longe vive  do tumulto  do mundo. De quem se aparta de conhecidos e amigos,  aproxima-se Deus  com os seus santos anjos. Mais vale viver escondido e  cuidar de sua  alma, do que, descuidando-a, fazer milagres. É louvável  no religioso  sair pouco e não gostar de ver os homens ou ser deles  visto.&lt;br /&gt;7. Para  que queres ver o que não te é permitido possuir?  “Passa o mundo com a  sua concupiscência!” (João II, 17). Os desejos dos  sentidos arrastam-te  aos divertimentos; mas, passada aquela hora, que  te fica senão o remorso  da consciência e a dissipação do coração? A uma  saída alegre sucede  muitas vezes uma volta triste; e a uma noite  passada em prazeres, uma  manhã de tristezas. Assim todo prazer dos  sentidos insinua-se  brandamente mas no fim resolve-se em sofrimentos e  morte. Que podes ver  em outro lugar que aqui não vejas? Aqui tens o  céu, a terra e todos os  elementos; deles foram feitas todas as coisas.&lt;br /&gt;8.  Onde poderás ver o  que seja estável debaixo do sol? Pensas talvez  satisfazer-te plenamente  mas não o conseguirás. Se viras diante de ti  todas as coisas que seria  senão uma vã miragem? Levanta teus olhos a  Deus nas alturas e ora pelos  teus pecados e negligências. Deixa as  vaidades aos vãos; e tu, aplica-te  ao que Deus ordena. Encerra-te em  teu aposento e chama por Jesus, o  Amigo dileto. Permanece com Ele em  tua cela; em nenhum outro lugar  encontrarás tanta paz. Se não saíras  nem ouviras novidades, melhor te  conservaras em paz. Mas porque de  quando em quando gostas de ouvir novas  terás depois que sofrer  tribulações do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXI&lt;br /&gt;Da  compunção do coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Se queres fazer algum progresso  conserva-te no temor de Deus; não  vivas com demasiada liberdade mas  submete os teus sentidos a uma severa  disciplina e não te entregues à vã  alegria. Dá-te à compunção do  coração e acharás a piedade; a compunção  traz consigo muitos bens que a  dissipação logo nos faz perder. É para  maravilhar que nesta vida possa  ter alegria perfeita o homem que medita e  considera o seu exílio e os  muitos perigos a que está exposta a sua  alma.&lt;br /&gt;2. Por causa da  leviandade do nosso coração e do esquecimento  dos nossos defeitos não  sentimos os males de nossa alma e rimos muitas  vezes sem motivo quando  com razão devêramos chorar. Verdadeira liberdade  e alegria pura não há  sem temor de Deus e boa consciência. Ditoso  aquele que pode  desembaraçar-se do impedimento das distrações para  unir-se a Deus no  recolhimento da santa compunção! Ditoso aquele que de  si aparta tudo o  que lhe pode manchar ou agravar a consciência! Peleja  varonilmente;  hábito com hábito se vence. Se souberes deixar os homens  também eles te  deixarão fazer o que quiseres.&lt;br /&gt;3. Não te metas na vida  alheia e não  te enredes nos negócios dos grandes. Põe sempre os olhos  em ti  primeiro; e repreende-te a ti mesmo de preferência a todos os teus   amigos. Não te aflijas por não ter o favor dos homens; só deve   entristecer-te o não viver com a virtude e circunspecção que convém a um   servo de Deus e a um bom religioso. É muitas vezes mais útil e seguro   não ter nesta vida muitas consolações, sobretudo consolações sensíveis.   Contudo, se não temos as consolações divinas ou só raras vezes as   experimentamos, a culpa é nossa porque não nos damos à compunção do   coração nem de todo rejeitamos as vãs consolações exteriores.&lt;br /&gt;4.   Reconhece-te por indigno das consolações de Deus e merecedor de muitas   tribulações. Ao homem que se deixa penetrar da compunção perfeita o   mundo todo entra logo a parecer-lhe fastidioso e amargo. O justo sempre   acha motivo bastante para afligir-se e chorar; porque ou se considere a   si ou pense no próximo sabe que ninguém passa pela vida sem  tribulações;  e quanto mais atentamente se considera tanto maior é a sua  dor. Matéria  de justa aflição e de compunção interior são os nossos  pecados e vícios  em que estamos de tal maneira enterrados que raras  vezes podemos  contemplar as coisas do céu.&lt;br /&gt;5. Se mais amiúde  pensaras na morte do  que na duração da vida, sem dúvida te emendarias  com mais fervor. Se  meditaras também seriamente nas penas futuras do  Inferno ou do  Purgatório estou certo que suportaras de boa vontade o  trabalho e o  sofrimento e não temeras nenhuma austeridade. Mas porque  estas verdades  nos não penetram o coração e amamos ainda tudo o que nos  afaga os  sentidos, ficamos frios e preguiçosos.&lt;br /&gt;6. É muitas vezes  por fraqueza  da alma que tão facilmente se lastima nosso miserável  corpo. Ora pois  com humildade ao Senhor para que te conceda o espírito  de compunção e  dize com o Profeta: “Dai-me Senhor a comer o pão das  lágrimas e a beber a  água abundante de meu pranto. (Salmos LXXIX,6).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXII&lt;br /&gt;Da  consideração da miséria humana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Miserável és onde  quer que  estejas e para onde quer que te voltes se te não convertes a  Deus. Por  que razão te inquietas por não te irem as coisas como queres e  desejas?  Quem é que tem tudo à medida de seu gosto? Nem eu, nem tu,  nem homem  algum na terra. Ninguém há neste mundo, ainda que rei ou  papa, sem  alguma tribulação ou angústia. Quem está melhor? Certamente o  que pode  padecer alguma coisa por Deus.&lt;br /&gt;2. Na sua fraqueza e  imbecilidade  dizem muitos: “Que vida feliz leva aquele homem! Como é  rico! nobre!  poderoso e elevado!” Considera, porém, os bens do céu e  verás que os  bens temporais nada valem: muito incertos, são mais um  fardo porque  nunca se possuem sem temores e cuidados. Não consiste a  felicidade do  homem em ter abundância de bens terrenos: basta-lhe a  mediania. Em  verdade, grande miséria é viver na terra. Quanto mais  espiritual quer  ser o homem tanto mais amarga se lhe torna a vida  presente, porque sente  melhor e vê com mais clareza as deficiências da  natureza humana  corrompida. Comer, beber, velar, dormir, descansar,  trabalhar, estar  sujeito às demais necessidades da natureza é, de fato,  grande miséria e  aflição para o homem piedoso que deseja viver  desatado dos laços do  corpo e livre de todo pecado.&lt;br /&gt;3. Muito  oprimido, com efeito, se sente  neste mundo, o homem interior com as  necessidades do corpo. Por isto  pede devotamente o Profeta de ver-se  livre delas, dizendo: “De minhas  necessidades, livrai-me Senhor”  (Salmos XXIV,17). Infelizes os que não  conhecem a sua miséria! e mais  infelizes ainda os que amam esta vida  miserável e transitória! Porque  alguns há que a ela se apegam tão  fortemente, ainda que trabalhando ou  mendigando mal consigam o  necessário, que se pudessem viver sempre  aqui, nada se lhes daria do  reino de Deus.&lt;br /&gt;4. Oh! corações  insensatos e sem fé! tão profundamente  míseros nas coisas da terra que  já não sabem apreciar senão o que é  carnal! Infelizes, sentirão um dia  dolorosamente a vileza e o nada de  quanto amaram. Mas os santos de Deus  e os fiéis amigos de Cristo não  atendiam ao que agradava à carne ou ao  que brilhava no mundo; com toda a  sua esperança e intenção aspiravam  aos bens eternos. Todo o seu desejo  elevava-se para os bens invisíveis e  perenes, afim de que não os  arrastasse para a terra o amor das coisas  visíveis.&lt;br /&gt;5. Não percas,  irmão, a esperança de progredir na vida  espiritual: tens ainda tempo e  oportunidade. Por que razão queres adiar  o teu propósito? Levanta-te,  começa neste mesmo instante e dize: “É  tempo de agir, é tempo de  pelejar, é tempo de corrigir-me.” Quando te  sentes aflito e atribulado,  então tempo é de merecer. É preciso  “passares por fogo e por água antes  de chegares ao refrigério” (Salmos  LXV,11). Se te não fizeres violência  não vencerás o vício. Enquanto  estamos neste frágil corpo não nos  podemos conservar sem pecado nem  viver sem tédio e sem dor. Bem  quiséramos fruir de um descanso livre de  toda miséria; mas, porque pelo  pecado perdemos a inocência perdemos  também a verdadeira felicidade.  Importa-nos, por isso, perseverar na  paciência e aguardar a misericórdia  de Deus, “até que passe esta  iniqüidade” (Salmos LXVI,2) e “o que é  mortal seja absorvido pela vida”  (II Cor. V,4).&lt;br /&gt;6. Oh! como é grande a  fragilidade humana sempre  inclinada aos vícios! Hoje confessas os teus  pecados e amanhã tornas a  cair neles; agora propões estar sobre ti e  daqui a uma hora procedes  como se nada houveras proposto. Bem razão  temos de nos humilharmos e  não nos termos em grande conta: somos tão  frágeis e inconstantes! Em  pouco tempo também se pode perder por  negligência o que só à custa de  muito trabalho se adquiriu, com o  auxílio da graça.&lt;br /&gt;7. Que será de  nós no fim se já no princípio somos  tão tíbios? Ai de nós se queremos  entregar-nos ao descanso como se já  estivéramos em paz e segurança,  quando em nossa vida não se vislumbra  ainda nenhum sinal de verdadeira  santidade! Bem precisaríamos ser de  novo instruídos na virtude como  bons noviços para ver se haveria ainda  alguma esperança de emenda para o  futuro e de maior proveito espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXIII&lt;br /&gt;Da  meditação da morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Bem depressa chegará o teu  fim; vê lá como  te portas. Hoje o homem está vivo e amanhã já não  existe; e quando  desapareces dos olhos bem depressa passa também da  lembrança. Oh!  cegueira e dureza do coração humano que só pensa no  presente e não  prevê o futuro. Deves pensar e agir sempre como se hoje  houveras de  morrer. Se tiveras boa consciência não temerás muito a  morte. Melhor  fora evitar o pecado que fugir à morte. Se hoje não estás  preparado,  como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto; quem sabe  se lá  chegarás?&lt;br /&gt;2. Que importa viver muito se tão pouco nos  corrigimos? A  vida longa nem sempre traz emenda e muitas vezes aumenta  os pecados.  Oxalá um só dia sequer tivéssemos vivido bem neste mundo!  Muitos contam  os anos de sua conversão; mas, de ordinário, bem pouco é o  fruto da  emenda. Se terrível é morrer, mais perigoso, talvez, seja  viver muito.  Feliz daquele que traz sempre diante dos olhos a hora da  morte e cada  dia se prepara para morrer. Se já viste morrer alguém,  pensa que pelo  mesmo transe hás de passar.&lt;br /&gt;3. Pela manhã pensa que  não chegarás à  noite; e à noite não contes chegar ao dia seguinte. Por  isso está  sempre aparelhado e vive de tal forma que nunca a morte te  surpreenda  desapercebido. Muitos morrem súbita e improvisamente; porque  “na hora  que não se pensa virá o Filho do Homem” (Luc. XII,40) Quando  chegar  aquela hora extrema, do modo muito diferente começarás a julgar  toda a  tua vida passada e muito te arrependerás de ter sido tão  negligente e  relaxado.&lt;br /&gt;4. Quão ditoso e prudente é o que se esforça  por ser tal  em vida qual deseja que o encontre a morte! Grande confiança  de bem  morrer lhe dará o completo desprezo do mundo, o desejo ardente  de  aproveitar na virtude, o amor da observância, o trabalho da  penitência,  a prontidão da obediência, a abnegação de si mesmo, a  constância em  sofrer todas as adversidades por amor de Cristo. Muito bem  podes fazer  enquanto tens boa saúde; mas, não sei de que serás capaz  quando  estiveres enfermo. Poucos melhoram com a enfermidade; como raros  são os  que se santificaram com muitas romarias.&lt;br /&gt;5. Não confies em  parentes  e amigos, nem deixes para mais tarde o negócio de tua salvação;  mais  depressa do que imaginas, de ti se hão de esquecer os homens.  Melhor é  prover a tempo e mandar boas obras diante de ti do que esperar  no  auxílio dos outros. Se não cuidas de ti agora, quem cuidará de ti  mais  tarde? Agora é o tempo precioso; “eis o tempo propício, eis os dias  de  salvação” (II Cor. VI,2). Mas, que tristeza, não aproveitares melhor   agora esse tempo em que podes merecer a vida eterna. Virá o momento em   que suspirarás por um dia ou uma hora para te corrigires e não sei se   alcançarás.&lt;br /&gt;6. Coragem, irmão, não imaginas de quantos perigos e de   quanto temor te poderás livrar, se agora pensares sempre na morte com   receio e desconfiança. Procura viver agora de tal maneira que na hora da   morte tenhas mais motivo de alegria que de temor. Aprende agora a   morrer para o mundo afim de então começares a viver com Cristo. Aprende   agora a desprezar todas as coisas afim de voares então livremente para   Cristo. Castiga agora o teu corpo com a penitência para teres então uma   confiança certa.&lt;br /&gt;7. Oh! insensato! por que pensas que hás de viver   muito quando não tens um dia seguro? Quantos se iludiram e foram   arrancados do corpo quando menos esperavam! Quantas vezes ouviste dizer:   este homem morreu assassinado, aquele afogou-se, o outro caiu e  quebrou  a cabeça; um expirou comendo, outro jogando; este pereceu pelo  ferro,  aquele pelo fogo; este pela peste, aquele às mãos dos ladrões. E  assim o  fim de todos é a morte e a vida passa como uma sombra.&lt;br /&gt;8.  Quem se  lembrará de ti depois da morte? Quem rezará por ti? Faze, faze  agora,  irmão meu, tudo o que puderes; não sabes quando hás de morrer  nem o que  te há de suceder depois da morte. Enquanto tens tempo,  entesoura  riquezas imperecíveis. Preocupa-te unicamente com a tua  salvação e cuida  só das coisas de Deus. “Faze, agora, amigos”,  venerando os santos de  Deus e imitando-lhes as ações, para que, “ao  saíres desta vida, eles te  recebam nas moradas eternas” (Luc. XVI,9).&lt;br /&gt;9.  Vive na terra como  hóspede e peregrino a quem nada se lhe dá dos  negócios do mundo.  Conserva o coração livre e elevado para Deus, porque  “não tens aqui  morada permanente” (Hebr. XIII,14). Para o céu dirige  todos os dias as  tuas preces, os teus gemidos e lágrimas para que,  depois da morte,  mereça a tua alma passar ditosamente ao Senhor. Assim  seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXIV&lt;br /&gt;Do juízo e das penas dos pecadores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Em todas as coisas  considera o fim e como um dia comparecerás ante o  Juiz severo, a quem  nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas  nem admite  desculpas, mas julga com justiça. Oh! miserável e insensato  pecador! que  responderás a Deus que conhece todas as tuas maldades, tu  que às vezes  treme à vista de um homem irado! Por que não te preparas  para o dia do  juízo em que ninguém poderá ser escusado ou defendido por  outrem mas  cada qual terá bastante que ver consigo? Agora produz fruto  o teu  trabalho; as tuas lágrimas são acolhidas e aceitos os teus  gemidos; a  tua dor é satisfatória e purificativa.&lt;br /&gt;2. Grande e  salutar purgatório  tem o homem paciente que, injuriado, mais se aflige  com a maldade  alheia do que com a ofensa própria; que roga sinceramente  pelos que o  contrariam e de coração lhes perdoa; se a alguém magoa,  não tarda em  pedir-lhe perdão; que mais facilmente se inclina à  compaixão do que à  cólera; que, muitas vezes, faz violência a si mesmo e  se esforça por  sujeitar de todo a carne ao espírito. Mais vale  purificar agora os  pecados e extirpar os vícios do que deixar para  expiá-los na outra vida.  Em verdade nos enganamos a nós mesmos pelo  amor desordenado que temos à  carne.&lt;br /&gt;3. Que há de devorar aquele fogo  senão os teus pecados?  Quanto mais agora te poupares e seguires os  apetites da carne tanto mais  rigoroso será depois o castigo e mais  matéria ajuntas para o fogo  eterno. No que o homem mais pecou será mais  severamente punido. Ali os  preguiçosos serão exasperados com aguilhões  ardentes e gulosos,  atormentados com grande fome e sede. Ali os  luxuriosos e amantes da  volúpia serão imersos em pez abrasador e fétido  enxofre; e, como cães  danados, uivarão de dor os invejosos.&lt;br /&gt;4.  Nenhum vício há que não  tenha o seu suplício próprio. Ali, os soberbos  estão cheios de confusão e  os avarentos, reduzidos à mais miserável  indigência. Ali será mais  terrível uma hora de tormento do que aqui cem  anos da mais rigorosa  penitência. Aqui, de quando em quando, cessam os  trabalhos e  consolamo-nos com os amigos; lá, para os condenados,  nenhum descanso,  nenhuma consolação. Tem agora cuidado e dor de teus  pecados para que no  dia do juízo possas partilhar a segurança dos  bem-aventurados: porque  “então os justos estarão com grande confiança  contra os que os  angustiaram” (Sap. V,1) e oprimiram. Então se erguerá  para julgar o que  agora humildemente se curva ao juízo dos homens.  Então grande confiança  terá o pobre e humilde; e de pavor será  envolvido o soberbo.&lt;br /&gt;5.  Ver-se-á então como foi sábio neste mundo o  que aprendeu a ser louco e  desprezado por Cristo. Então dará prazer  toda tribulação suportada com  paciência “e a iniqüidade não ousará  abrir a boca” (Salmos CVI,42).  Então exultará de alegria o homem devoto  e de tristeza se consternará o  ímpio. Mais se alegrará então a carne  mortificada que se fora nutrida  com delícias. Então resplandecerá o  hábito grosseiro e perderão o seu  brilho as vestes suntuosas. Mais  louvores terá então o casebre do pobre  que o palácio resplandecente de  ouro. Então mais aproveitará a paciência  constante que todo o poder do  mundo. Mais exaltada será a obediência  simples que toda a astúcia do  século.&lt;br /&gt;6. Então mais alegria causará a  pureza de uma boa  consciência que a douta filosofia. Mais peso terá o  desprezo das  riquezas que todos os tesouros da terra. Mais consolação te  dará a  oração fervorosa, que as iguarias delicadas. Mais alegria terás  pelo  silêncio guardado do que pelas longas conversas. De maior valor  serão  as obras santas que as belas frases. Mais te há de agradar então a  vida  estreita e a penitência rigorosa que todos os prazeres do mundo.   Aprende agora a sofrer pouco para te livrares então de sofrimentos mais   graves. Experimenta primeiro nesta vida o de que serás capaz na outra.   Se não puderes agora suportar tão pouco como poderás sofrer tormentos   eternos? Se o menor incômodo te causa agora tanta impaciência, que fará   então o inferno? Em verdade duas venturas não poderás reunir:   deliciar-te neste mundo e reinar depois com Cristo.&lt;br /&gt;7. Se até hoje   houveras vivido sempre em honras e prazeres, de que te aproveitaria tudo   isso se viesses a morrer nesse instante? Assim, pois, “tudo é vaidade”   (Ecles. I,2) exceto amar a Deus e só a Ele servir. Quem ama a Deus de   todo coração não teme nem a morte nem o castigo, nem o Juízo, nem o   Inferno: porque o perfeito amor nos dá acesso seguro junto a Deus. Não   admira, porém, que tema a morte e o juízo, aquele que ama ainda o   pecado. Se contudo o amor de Deus não te aparta ainda do mal, bom é que,   ao menos, te retenha o temor do inferno. Aquele, porém, que despreza o   temor de Deus não terá forças para perseverar no bem por muito tempo e   bem depressa cairá nas ciladas do demônio.&lt;br /&gt;Capítulo XXV&lt;br /&gt;Da   fervorosa emenda de toda a nossa vida&lt;br /&gt;1. Sê vigilante e fervoroso no   serviço de Deus; pensa muitas vezes a que vieste e porque abandonaste o   mundo; não foi porventura afim de viver para Deus e ser homem   espiritual? Afervora-te, pois, no desejo de progredir, porque em breve   receberás a recompensa dos teus trabalhos e não terás mais temores nem   sofrimentos. Agora, pouco trabalho, mais tarde, grande descanso, ou   melhor, alegria perpétua. Se continuares a proceder com fidelidade e   fervor, Deus, por certo, será fiel e generoso em retribuir. Alimenta a   santa esperança de alcançar a palma da glória, mas não te entregues à   segurança demasiada para que não caias na tibieza ou na presunção.&lt;br /&gt;2.   Alguém que vivia ansioso, oscilando entre o medo e a esperança, certa   vez, acabrunhado de tristeza entrou numa igreja prostrando-se ante o   altar, para fazer oração, dizia de si para si: Oh! se eu soubera que   haveria de perseverar! No mesmo instante, ouviu no íntimo d'alma esta   resposta divina: “Que farias se soubesses? Faze agora o que farias então   e terás paz”. E logo consolado e reconfortado entregou-se à vontade   divina e cessaram as suas ansiosas perplexidades. Não quis mais   perscrutar com curiosidade o que lhe haveria de acontecer no futuro mas   aplicou-se a conhecer o que era mais perfeito e agradável à vontade de   Deus para começar e levar a termo santamente todas as suas ações.&lt;br /&gt;3.   “Espera no Senhor e faze o bem”, diz o profeta, “e habitarás a terra e   te alimentarás de tuas riquezas” (Salmos XXXVI,3). Uma coisa arrefece  em  muitos o fervor do progresso e da emenda: o horror às dificuldades  ou o  trabalho da luta. Com efeito, aproveitam mais na virtude os que se   empenham com coragem em vencer-se no que mais lhes custa e contraria  as  inclinações. Porque o homem tanto mais adianta e maiores graças  merece  quanto mais a si mesmo se vence e mortifica espiritualmente.&lt;br /&gt;4.  Mas  nem todos têm igualmente em que se vencer e mortificar. Aquele,  porém,  que for diligente e zeloso, ainda que tenha mais paixões, fará  maiores  progressos que outro, de bom natural, porém, menos fervoroso na   aquisição das virtudes. Duas coisas, particularmente, contribuem para   uma boa emenda: resistir com violência às inclinações da natureza   viciada e trabalhar com ardor em adquirir a virtude de que mais   carecemos. Procura também evitar e vencer em ti o que nos outros mais te   desagrada.&lt;br /&gt;5. Aproveita de tudo para teu aproveitamento: se vires  ou  ouvires bons exemplos anima-te a imitá-los; se perceberes, porém,   alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, ou, se já a fizeste,   trata de corrigir-te quanto antes. Como observas os outros, assim também   os outros te observam a ti. Como é agradável e consolador ver irmãos   fervorosos e devotos, bem morigerados e observantes! Como, pelo   contrário, é triste e penoso vê-los andar fora da regra, esquecidos   daquilo a que foram chamados! Como é nocivo descuidarem os deveres da   própria vocação e inclinarem o afeto ao que não lhes pertence!&lt;br /&gt;6.   Lembra-te do que prometeste e tem sempre diante dos olhos a imagem do   Crucificado. Bem te podes envergonhar ao considerares a vida de Jesus   Cristo, por não haver feito mais esforço de te conformar com ela apesar   de trilhares há tanto tempo o caminho de Deus. O religioso que devota e   atentamente medita na santíssima vida e paixão do Senhor, nela  encontra,  com abundância, tudo o que lhe é útil e necessário nem  precisa  procurar, fora de Jesus, coisa melhor. Oh! se Jesus Crucificado  entrara  em nosso coração quão depressa seríamos instruídos em tudo!&lt;br /&gt;7.  O  religioso fervoroso suporta e aceita bem tudo o que se lhe manda. O   tíbio e o negligente experimenta tribulação sobre tribulação e de todos   os lados se vê angustiado porque lhe faltam as consolações interiores e   não lhe é permitido buscar as de fora. O que não observa a sua regra   expõe-se à grave ruína. O que procura uma vida fácil e relaxada estará   sempre em angústias; alguma coisa haverá sempre que lhe desagrade.&lt;br /&gt;8.   Como procedem tantos outros religiosos que vivem com austeridade na   disciplina do claustro? Saem raras vezes, vestem burel grosseiro,   trabalham muito, falam pouco, velam até alta noite, levantam-se de   madrugada, prolongam a oração, entregam-se a leituras freqüentes e em   tudo observam exata disciplina. Considera os cartuxos, os cistercienses e   tantos outros monges e monjas de várias ordens como se levantam todas   as noites para a salmodia do Senhor. Bem vergonhoso seria que te   deixasses vencer pela preguiça em exercício tão santo quando tantos   religiosos começam a entoar louvores da Deus.&lt;br /&gt;9. Oh! quem te dera não   ter outra coisa que fazer senão louvar com o coração e com os lábios  ao  nosso Deus e Senhor! Oh! quem te dera não precisar de comer, nem  beber,  nem dormir para poderes louvar a Deus sem interrupção e  entregar-te  unicamente aos exercícios espirituais! Muito mais feliz  serias do que  agora que deves servir ao corpo e suas necessidades!  Prouvera a Deus  fossemos isentos dessas necessidades e só tivéssemos  que pensar no  alimento da alma, que, infelizmente, tão raras vezes  saboreamos!&lt;br /&gt;10.  Quando o homem chega a não buscar consolação em  criatura alguma começa  então a gostar perfeitamente de Deus, e vive  sempre contente, aconteça o  que acontecer. Então não se alegra com  grandezas nem se entristece com  ninharias mas abandona-se inteiramente e  com toda a confiança nas mãos  de Deus, que lhe é tudo em todas as  coisas, para quem nada acaba nem  morre, mas para quem vivem todas as  criaturas e a cujo aceno obedecem  todas sem demora.&lt;br /&gt;11. Lembra-te  sempre do fim e de que o tempo  perdido não volta. Sem cuidado e sem  esforço não hás de adquirir  virtudes. Se principias a entibiar  começarás a sentir-te mal. Se, porém,  te deres ao fervor terás muita  paz; a graça de Deus e o amor da virtude  far-te-ão mais leve o  trabalho. O homem fervoroso e diligente está  preparado para tudo. Mais  penoso é resistir aos vícios e às paixões do  que suportar as fadigas do  corpo. Quem não evita as faltas pequenas  pouco a pouco cairá nas  grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite quando  houveres empregado bem o  dia. Vela sobre ti mesmo; anima-te; admoesta-te  e aconteça o que  acontecer aos outros, não te descuides de ti.  Aproveitarás na medida da  violência que te fizeres. Assim seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Imitação Cristo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Kempense&lt;br /&gt;Livro II.&lt;br /&gt;Instruções   para a vida interior.&lt;br /&gt;Autor: Tomás Kempis&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Capítulo I&lt;br /&gt;Da conversão interior&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   “O reino de Deus está dentro de vós”, diz o Senhor (Luc. XVII, 21).   Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável e tua   alma encontrará descanso. Aprende a desprezar as cousas exteriores,   entrega-te às interiores e verás o reino de Deus vir a ti. Porque o   reino de Deus é “paz e alegria no Espírito Santo” (Rom. XIV, 17), o que   não é dado aos ímpios. Se lhe preparares no teu coração digna morada,   Jesus Cristo virá a ti trazendo-te suas consolações. Para Ele “toda a   glória e beleza vem de dentro” (Ps. XLIV, 14) e aí é que se compraz.   Para o homem interior tem Ele visitas freqüentes, doces colóquios,   suaves consolações, grande paz e familiaridade verdadeiramente inefável.&lt;br /&gt;2.   Eia, pois, alma fiel, prepara o teu coração para que o Esposo se digne   vir e estabelecer em ti a sua morada. Assim o disse Ele mesmo: “Se   alguém me ama guardará a minha palavra e o meu Pai o amará, a ele   viremos e nele estabeleceremos a nossa morada” (João XIV, 23). Dá, pois,   entrada a Jesus e não permitas que entre nenhum outro. Possuindo a   Jesus serás rico e terás quanto te é preciso. Ele velará por ti e tomará   fielmente cuidado de ti em todas as cousas de modo que não precises   esperar nos homens. Os homens, com efeito, mudam depressa e faltam de   repente; Jesus Cristo permanece sempre e constante, acompanha-nos até o   fim.&lt;br /&gt;3. Não deves por grande confiança num homem frágil e mortal   ainda quando útil e querido, nem entristecer-te muito se alguma vez te   contraria e contradiz. Os que hoje estão contigo, amanhã poderão estar   contra ti, e vice-versa; são volúveis os homens como o vento. Põe toda a   tua confiança em Deus; seja Ele o teu temor e o teu amor; Ele   responderá por ti e fará como melhor te convier. “Não tens aqui morada   permanente” (Hebr. XIII, 14), onde quer te encontres serás sempre   estrangeiro e peregrino; só terás repouso quando intimamente unido a   Jesus.&lt;br /&gt;4. Que procuras ao redor de ti? Não é este o lugar de teu   descanso; no céu deve estar a tua morada, e as cousas da terra, hás de   olhá-las só como de passagem. Passam todas as cousas e tu com elas. Toma   cuidado de não apegar-te a cousa alguma, afim de que te não cative e   venhas a perecer. Que ao Altíssimo se eleve sempre o teu pensamento e a   Jesus, a tua oração. Se não sabes remontar às contemplações sublimes,   detém-te na Paixão de Cristo, e acolhe-te com prazer às suas santas   chagas. Se te refugiares com devoção nestas chagas, estigmas preciosos   da Paixão de Jesus, experimentarás grande conforto na tribulação, pouco   te inquietarás com o desprezo dos maldizentes.&lt;br /&gt;5. Também Jesus  Cristo  foi neste mundo desprezado pelos homens e na maior necessidade   desamparado, entre opróbrios, por amigos e conhecidos. Cristo quis   padecer e ser desprezado e tu ousas queixar-te de alguém! Cristo teve   inimigos e detratores e tu só queres ter benfeitores e amigos! Como será   coroada a tua paciência se não passares por nenhuma adversidade? Se   nenhum contraste queres sofrer como serás amigo de Cristo? Padece com   Cristo e por amor de Cristo se com Cristo queres reinar.&lt;br /&gt;6. Se uma só   vez entrarás perfeitamente no Coração de Jesus e algo saborearás de  seu  abrasado amor, pouco te importarás com o que te agrada ou incomoda;   antes folgarás com a injúrias recebidas, porque o amor de Jesus ensina  o  homem a desprezar-se a si mesmo. Quem ama a Jesus e a verdade, quem é   verdadeiramente interior e livre de toda a afeição desregrada, pode   aproximar-se sem obstáculos de Deus, e, elevando-se em espírito acima de   si mesmo, nEle descansar em suavíssimo gozo.&lt;br /&gt;7. Quem estima as   cousas pelo que são, e não pelo que delas dizem ou julgam os homens, é   verdadeiramente sábio, instruído mais por Deus do que pelas criaturas.   Quem sabe viver recolhido dentro de si e pouco se inquieta com as coisas   exteriores não precisa escolher lugar nem aguardar tempo para seus   exercícios de devoção. O homem interior bem depressa se recolhe porque   nunca se espalha de todo nas cousas externas. Não o estorva o trabalho   material nem a ocupação às vezes necessária; acomoda-se às cousas como   ocorrem. A quem está bem disposto e ordenado no seu interior pouco se   lhe dá dos feitos famosos ou perversos dos homens. O homem não é   embaraçado e distraído pelas cousas senão na medida em que a elas se   apega.&lt;br /&gt;8. Se procedesses com retidão e estivesses bem purificado,   tudo contribuiria para o teu bem e aproveitamento. Muitas cousas te   desagradam e perturbam freqüentemente porque ainda não estás de todo   morto a ti mesmo nem desapegado das cousas da terra. Nada contamina e   embaraça tanto o coração do homem como o amor impuro das criaturas. Se   renunciares às consolações externas, poderás contemplar as cousas do céu   e gozar muitas vezes as alegrias interiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;Da   humilde submissão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Não dês grande importância em saber quem   está por ti ou contra ti, mas cuida que Deus seja sempre contigo em tudo   o que fizeres. Tem boa consciência e Deus será teu defensor; a quem   Deus ajuda nenhum mal fará a malícia dos homens. Se souberes calar e   sofrer, o Senhor virá sem dúvida em teu auxílio. Ele sabe o tempo e a   maneira de livrar-te; entrega-te, pois, nas suas mãos. De Deus é que vem   o socorro, Ele é que livra de toda confusão. Para melhor conservar a   humildade muito convém algumas vezes que os outros conheçam os nossos   defeitos e no-los lancem em rosto.&lt;br /&gt;2. Quando um homem se humilha   pelas suas faltas, aplaca facilmente os outros e sem custo se reconcilia   com os que se irritaram contra ele. Deus protege e livra o humilde;   ama-o e consola-o; para ele se inclina; prodigaliza-lhe suas graças e,   depois do abatimento, o eleva à glória; revela-lhe os seus segredos e   docemente o convida e atrai a si. O humilde ainda quando recebeu afronta   conserva-se em paz, porque se firma em Deus e não no mundo. Não  julgues  ter feito algum progresso enquanto te não tiveres por inferior a  todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  III&lt;br /&gt;Do homem bom e pacífico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Começa  por te conservares em  paz; depois, poderás pacificar os outros. Mais  vale o homem pacífico que  o sábio. O homem apaixonado, até o bem  converte em mal e facilmente crê  o mal. O homem bom e de paz tudo  converte em bem. Quem está em paz não  suspeita de ninguém; mas quem  anda descontente e inquieto vive combatido  de suspeitas diversas; não  sossega nem deixa os outros sossegarem. Diz  muitas vezes o que não  deveria dizer e deixa de fazer o que mais lhe  conviria. Atende aos  deveres alheios e descura os próprios. Sê, pois,  antes de tudo zeloso  contigo, depois, poderás com justiça zelar pelo teu  próximo.&lt;br /&gt;2. Bem  sabes colorir e desculpar as tuas faltas, mas não  queres ouvir as  desculpas alheias; mais justo fora que te acusasses a ti  e desculpasses  ao teu irmão. Se queres que te suportem, suporta os  outros. Vê quão  longe estás ainda da verdadeira caridade e humildade que  não sabe  indignar-se e irritar-se senão contra si. Conviver com os que  são bons e  mansos não é difícil, porque isto a todos naturalmente  agrada; cada  qual ama a paz e gosta mais dos que com ele concordam. Mas  poder viver  em harmonia com pessoas ríspidas e perversas, que não têm  educação ou  nos contrariam, é grande graça, ação varonil e digna de  muito louvor.&lt;br /&gt;3.  Alguns há que vivem em paz consigo e com o próximo;  outros que nem a  têm, nem a deixam ter aos demais, pesados a todos e  mais a si mesmos;  outros ainda que se conservam em paz e trabalham por  dá-la aos que não a  têm. Toda a nossa paz nesta vida de misérias mais  consiste em sofrer  com humildade do que em não sentir contrariedades.  Quem melhor souber  sofrer, maior paz terá, e será vencedor de si e  senhor do mundo, amigo  de Cristo e herdeiro do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IV&lt;br /&gt;Da  pureza e  simplicidade de intenção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A simplicidade e a pureza  são as  duas asas com que se eleva o homem acima da terra. A simplicidade  está  na intenção, a pureza, no afeto; a simplicidade procura a Deus, a   pureza O encontra e frui. Nenhuma ação boa te será difícil, se   interiormente estiveres livre de toda afeição desordenada. Se não   quiseres senão a vontade de Deus e a utilidade do próximo, gozarás de   liberdade interior. Se reto for o teu coração, toda criatura ser-te-á   espelho de vida e livro de santa doutrina. Não há criatura, por pequena e   vil, que não manifeste a bondade de Deus.&lt;br /&gt;2. Se fosses  interiormente  bom e puro, tudo verias bem e compreenderias sem  dificuldade. O coração  puro penetra o céu e o inferno. Cada qual julga  das coisas exteriores  conforme as suas disposições internas. Se há  alegria no mundo, o coração  puro a possui; e se, em algum lugar há  tribulações e angústias, é a má  consciência quem melhor as conhece.  Assim como o ferro posto no fogo  perde a ferrugem e se torna todo  candente, assim quem se converte  inteiramente para Deus sacode o torpor  e transmuda-se em novo homem.&lt;br /&gt;3.  Quando o homem começa a entibiar,  receia o menor trabalho e procura  avidamente as consolações externas.  Mas quando começa a vencer-se  perfeitamente e a caminhar com coragem  nos caminhos de Deus, logo tem  por insignificante o que antes lhe  parecia pesado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo V&lt;br /&gt;Da  consideração de si mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Não podemos ter muita confiança em  nós mesmos porque muitas vezes nos  faltam a graça e o discernimento.  Pouca luz há em nós e essa bem  depressa por negligência nossa a  perdemos. De freqüente não advertimos  como é grande a nossa cegueira  interior. Muitas vezes são más as nossas  ações e piores as nossas  desculpas. Move-nos não raro a paixão e  cuidamos que é zelo. Censuramos  nos outros pequenas faltas e exculpamos  as nossas, mais graves. Bem  depressa sentimos e ponderamos o que dos  outros sofremos, mas não  advertimos no que de nós sofrem os outros.  Quem examinasse sinceramente  as próprias ações não julgaria com  severidade as alheias.&lt;br /&gt;2. O homem  interior antepõe o cuidado de sua  alma a todos os mais cuidados; e quem  olha para si com diligência  abstém-se facilmente de falar dos outros.  Nunca serás homem interior e  devoto se não guardares silêncio das coisas  alheias e não te ocupares  especialmente de ti. Se voltares toda a tua  atenção para ti e para Deus  pouco te impressionará o que perceberes em  roda de ti. Onde estás  quando não estás presente a ti mesmo? De que te  aproveita haver  percorrido tudo se te descuidaste de ti? Se queres ter  paz e verdadeira  união com Deus despreza tudo o mais afim de só olhares  para a tua  alma.&lt;br /&gt;3. Muito progresso farás se te desembaraçares dos  negócios  temporais; muito afrouxarás, pelo contrário, se lhes deres  importância.  Aos teus olhos nada avulte como grande ou elevado,  agradável ou  aceito, senão Deus só ou o que de Deus vem. Tem por vã toda  consolação  que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza  tudo o que  está abaixo de Deus. Só Deus, eterno e imenso, que tudo  enche, é  consolação da alma e verdadeira alegria do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  VI&lt;br /&gt;Da  alegria da boa consciência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A glória de um homem de  bem é o  testemunho de uma boa consciência. Tenha boa consciência e  sempre terás  alegria. Muitas coisas pode suportar uma boa consciência e,  ainda nas  adversidades, conservar-se alegre. A má consciência anda  sempre receosa  e inquieta. Descansarás tranqüilamente se de nada te  repreender o  coração. Não te alegres senão quando houveres praticado o  bem. Os maus  nunca têm verdadeira alegria nem experimentam paz interior;  porque,  “para os ímpios não haverá paz”, diz o Senhor (Is. LVII, 21). E  se  disserem: “vivemos em paz, nenhum mal nos há de acontecer, quem se   atreverá a ofender-nos?” não lhes dês crédito, porque quando menos   cuidarem, levantar-se-á contra eles a cólera de Deus, a nada serão   reduzidas as suas obras e se “desvanecerão os seus pensamentos” (Ps.   CXLV, 4).&lt;br /&gt;2. A quem ama não é difícil gloriar-se nas tribulações;   gloriar-se assim é gloriar-se na cruz do Senhor. Breve é a glória que o   homem dá e recebe. A tristeza acompanha sempre a glória do mundo. A   glória dos bons está na própria consciência e não nos lábios dos homens.   A alegria dos justos é de Deus e em Deus; e da verdade vem o seu   regozijo. Quem deseja a glória verdadeira e eterna, não cuida da   temporal; e quem procura a temporal ou não a despreza de coração bem   mostra que ama pouco a eterna. Grande tranqüilidade de coração goza   aquele que se não preocupa com louvores ou vitupérios.&lt;br /&gt;3. Facilmente   viverá em paz e contente quem tiver a consciência pura. Não és mais   santo porque te louvam nem mais desprezível porque te censuram. És o que   és; e o que poderão dizer de ti não te fará maior do que vales aos   olhos de Deus. Se considerares o que és em teu interior, não se te dará   do que de ti disserem os homens. O homem vê o rosto, Deus, o coração; o   homem considera as ações, Deus pesa as intenções. Agir sempre bem e   ter-se em pouco, indício é de alma humilde. Não querer consolações das   criaturas sinal é de grande pureza e confiança interior.&lt;br /&gt;4. Quem não   procura ao redor de si nenhum testemunho em seu favor, bem manifesta  que  se entregou completamente a Deus. “Não aquele que se louva é  aprovado”,  diz São Paulo, “senão aquele a quem Deus louva” (Cor. X,  18). Andar  internamente unido a Deus sem prender-se a nenhuma afeição  externa é o  estado do homem espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VII&lt;br /&gt;Do amor  de Jesus  sobre todas as coisas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Feliz aquele que entende o que  é amar a  Jesus e desprezar-se por amor de Jesus. Por este amor é  mister deixar  qualquer outro amor, porque Jesus quer ser amado só,  sobre todas as  coisas. Falaz e instável é o amor das criaturas; fiel e  constante, o  amor de Jesus. Quem se prende à criatura com ela cairá;  quem com Jesus  se abraça ficará firme para sempre. Ama-O e conserva-O  por amigo a Ele  que não te faltará quando todos te desampararem nem  permitirá que  pereças eternamente. Queiras ou não, de todas as coisas,  terás que  separar-te um dia.&lt;br /&gt;2. Na vida e na morte abraça-te com  Jesus e  confia-te à fidelidade dAquele que, só, poderá valer-te quando  todos te  venham a faltar. Teu amado é de tal natureza que não admite  competidor;  Ele, só, quer possuir o teu coração e nele reinar como  soberano em seu  trono. Se souberes desprender-te inteiramente das  criaturas Jesus se  comprazerá em habitar contigo. Verás que foi quase  tudo perdido o que,  fora de Jesus, dedicaste aos homens. Não confies  nem te firmes no caniço  que o vento agita; “toda a carne é feno e sua  glória, como a flor do  campo” (Isaías XL, 6), fenece.&lt;br /&gt;3. Muitas  vezes te enganarás se  julgares os homens só pela aparência. Se neles  procurares vantagens e  consolações o mais das vezes só experimentarás  detrimento. Se em todas  as coisas buscares a Jesus, a Jesus  encontrarás; se buscares a ti  encontrar-te-ás também mas para tua  perdição; o homem que não busca a  Jesus causa a si mesmo maior mal que  todos os seus adversários e o mundo  inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VIII&lt;br /&gt;Da  familiaridade com Jesus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Quando Jesus está presente tudo é  suave e nada parece difícil; quando  Jesus se ausenta tudo se torna  penoso. Quando Jesus não fala  interiormente nenhuma consolação tem  valor, mas basta que Ele diga uma  só palavra, sentimo-nos plenamente  consolados. Não vês Maria Madalena  como se levantou logo do lugar em  que estava a chorar, quando Marta lhe  disse: “O Mestre aí está e  chama-te” ? (João XI, 28). Hora feliz aquela  em que Jesus chama das  lágrimas à alegria espiritual! Como és árido e  insensível sem Jesus!  Que vaidade e loucura a tua se desejas alguma  coisa fora de Jesus! Não é  essa maior desgraça que se perderas todo o  mundo?&lt;br /&gt;2. Que te pode  dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus,  insuportável inferno; viver com  Jesus, doce paraíso. Se contigo estiver  Jesus nenhum inimigo te poderá  fazer mal. Quem encontra Jesus encontra  um precioso tesouro, ou  melhor, um bem acima de todos os bens; quem  perde a Jesus perde muito,  muito mais que se perdera todo o mundo. Viver  sem Jesus, indigência  extrema; estar bem com Jesus, imensa riqueza.&lt;br /&gt;3.  Grande arte, saber  conversar com Jesus; saber conservar a Jesus, grande  prudência. Sê  humilde e pacífico e Jesus será contigo. Sê piedoso e  comedido e  contigo ficará Jesus. Bem depressa podes afugentar a Jesus e  perder a  sua graça se te derramares nas coisas exteriores; mas se O  afugentares e  perderes, a quem hás de recorrer e buscar por amigo? Sem  amigo não  poderás viver feliz e se Jesus não for teu amigo acima de  todos os  outros, indizível será a tua tristeza e desolação. Insensato  serás,  pois, se em outra pessoa puseres a tua confiança e a tua alegria.  Antes  ter todo o mundo contra si que ofender a Jesus. Que Ele, pois, te  seja  mais caro de todos os que te são caros.&lt;br /&gt;4. Amemos a todos por   Jesus; a Jesus, por si mesmo. Só Jesus Cristo deve ser amado com amor   singular, porque acima de todos os amigos, só Ele é bom e fiel. Por amor   dEle e nEle ama os teus amigos e os teus inimigos; e ora por todos  para  que todos o conheçam e amem. Não desejes nunca uma preferência  singular  na estima e no amor dos homens; porque isso pertence só a Deus  que não  tem igual; não queiras que alguém se ocupe contigo em seu  coração nem te  ocupes tu com o amor dos outros, mas Jesus reine em ti e  em todo o  homem de boa vontade.&lt;br /&gt;5. Sê interiormente puro e livre,  sem apego a  criatura alguma. É mister desprender-se de tudo e oferecer a  Deus um  coração puro se queres descansar e ver quão suave é o Senhor.  E, na  verdade, não o conseguirás se não fores prevenido e atraído pela  graça,  de modo que, excluídas e desterradas todas as coisas, te possas  unir só  com Ele só. Porque quando a graça de Deus visita o homem, ele  se sente  com forças para tudo; quando ela se afasta, torna-se logo  pobre e fraco,  como que reservado para o castigo. Mas ainda neste  estado não deve  abater-se nem desesperar, senão submeter-se de bom  grado à vontade de  Deus e sofrer por amor de Jesus Cristo tudo o que  lhe sobrevier; porque  ao inverno sucede o verão; à noite, o dia; e à  tempestade, grande  bonança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IX&lt;br /&gt;Da carência de toda  consolação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Não é difícil desprezar as consolações humanas  quando temos as divinas.  Grande coisa, porém, e bem grande é poder  passar sem as consolações e  sem as consolações de Deus, suportar de boa  vontade, para a sua glória, o  exílio do coração, não buscar a si mesmo  em coisa alguma nem atender ao  próprio mérito. Que maravilha estares  alegre e fervoroso quando te  assiste a graça! Por esta hora suspiram  todos. Mui suavemente caminha  quem é levado pela graça de Deus. E como  sentiria o peso quem é ajudado  pelo Onipotente e conduzido pelo supremo  Guia?&lt;br /&gt;2. De bom grado  procuramos as consolações e só com  dificuldade se despe o homem de si  mesmo. Venceu ao mundo o mártir S.  Lourenço em união com o seu bispo,  porque desprezou todos os atrativos  do século e sofreu tranqüilamente  por amor de Cristo, que o separassem  do sumo sacerdote de Deus, S.  Xisto, a quem muito amava. Assim, com o  amor de Deus venceu o afeto às  criaturas, e às consolações humanas  preferiu o beneplácito divino.  Aprende também tu a deixar por amor de  Deus um amigo íntimo e querido.  Nem te aflijas demasiadamente se te  abandona algum amigo, lembrando-te  que um dia nos havemos todos de  separar uns dos outros.&lt;br /&gt;3. Muito e  por muito tempo deverá o homem  lutar consigo antes que aprenda a  vencer-se completamente e a orientar  todos os seus afetos para Deus. O  homem que confia em si facilmente  desliza para as consolações humanas.  Mas o que ama deveras a Jesus  Cristo e se dá seriamente à virtude não  procura consolações nem doçuras  sensíveis, antes, prefere fortes pelejas  e duros sofrimentos por  Cristo.&lt;br /&gt;4. Quando Deus te der alguma  consolação espiritual, recebe-a  com gratidão; lembra-te, porém, que é  dom de Deus e não merecimento  teu. Não te desvaneças, não te regozijes  em excesso nem presumas  vãmente de ti; pelo contrário, que o dom de Deus  te torne mais humilde,  mais vigilante e timorato em todas as tuas  ações, porque passará  aquela hora e voltará a tentação. Quando te for  tirada a consolação não  desanimes logo; aguarda com humildade e  paciência que Deus de novo te  visite, porque bem pode Ele dar-te  consolação ainda maior. Isto não é  coisa nova nem estranha aos que têm  experiência nos caminhos do Senhor;  por estas alternativas passaram os  grandes santos e os antigos  profetas.&lt;br /&gt;5. Por isso, na presença da  graça, exclama um deles: “Em  minha abundância disse: não vacilarei  nunca” (Ps. XXIX, 7); em se  ausentando, porém, a graça, acrescenta o que  em si experimentou:  “Apartastes de mim o vosso rosto e fiquei  conturbado” (Ibid. 8). Nesta  perturbação, porém, não se entrega ao  desespero mas com insistência  roga ao Senhor e diz: “A vós, Senhor,  bradarei; ao meu Deus dirigirei  as minhas súplicas” (Ibid. 9). Colhe por  fim o fruto de sua oração e  atesta que foi atendido dizendo: “Ouviu-me o  Senhor e teve compaixão de  mim; o Senhor veio em meu auxílio” (Ibid.  11). De que modo?  “Trocastes”, continua, “o meu pranto em gozo e  inundastes-me de  alegria” (Ibid. 12). Se assim foram tratados os grandes  santos, não  devemos desanimar nós, fracos e pobres, se ora nos sentimos  fervorosos,  ora tíbios; O Espírito de Deus vem e vai como Lhe apraz. Lá  disse o  Santo Jó: “Visitais o homem pela manhã e logo o provais” (Jó  VII,18).&lt;br /&gt;6.  Em que posso eu, pois, esperar, e em que devo por a minha  confiança  senão unicamente na misericórdia de Deus e na esperança da  graça  celeste? Homens de virtude, religiosos devotos ou amigos fiéis,  livros  santos ou tratados eloqüentes, hinos e cânticos suaves, tudo isto  de  pouco me serve e pouco me agrada quando me sinto desamparado pela  graça  e entregue à minha própria miséria. Não há então melhor remédio  que a  paciência e a renúncia de mim mesmo na vontade de Deus.&lt;br /&gt;7.  Nunca  encontrei homem tão perfeito e piedoso que, de quando em quando,  não  experimentasse esta subtração da graça e diminuição do fervor.  Nenhum  santo houve, tão altamente arrebatado e iluminado, que, cedo ou  tarde,  não fosse tentado. Não é digno de ser elevado à sublime  contemplação de  Deus quem por amor de Deus não sofreu alguma tribulação.  A tentação é,  de ordinário, sinal da consolação que se lhe há de  seguir. Aos  provados pelas tentações é prometida a consolação celeste:  “ao que  vencer”, diz o Senhor, “darei a comer da árvore da vida” (Apoc.  II,7).&lt;br /&gt;8.  Deus dá a consolação afim de que o homem tenha mais força  para  suportar a adversidade. Segue-se-lhe também a tentação para que se  não  desvaneça do que tem de bom. O demônio não dorme nem a carne está   morta. Não cesses, por isso, de preparar-te para a luta; à direita e à   esquerda há inimigos que nunca descansam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo X&lt;br /&gt;Da   gratidão pela graça divina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Por que procuras descanso, tu que   nasceste para o trabalho? Dispõe-te mais à paciência que à consolação, a   levar a cruz mais que a ter alegria. Que homem mundano não aceitaria  de  bom grado as consolações e alegrias espirituais se delas pudera  sempre  gozar? Na verdade as consolações espirituais sobrelevam todas as   delícias do mundo e os prazeres da carne, porque as delícias mundanas  ou  são vãs ou torpes, só as espirituais são agradáveis e honestas,  geradas  pela virtude e infundidas por Deus nas almas puras. Mas destas   consolações divinas, ninguém pode fruir à medida dos seus desejos,   porque as tentações não nos dão trégua por muito tempo.&lt;br /&gt;2. Grande   obstáculo às visitas do céu são a falsa liberdade da alma e a demasiada   confiança em si. Deus faz bem dando a graça da consolação mas o homem   faz mal não agradecendo e não referindo inteiramente a Deus o dom   recebido. Se a nós não descem abundantes os dons da graça é porque somos   ingratos ao seu Autor e não atribuímos tudo à sua Fonte de origem. Com   efeito, a graça é sempre concedida ao que a recebe com a devida  gratidão  e Deus costuma dar ao humilde o que tira ao soberbo.&lt;br /&gt;3. Não  quero  consolação que me tire a compunção, nem desejo uma contemplação  que me  leve ao orgulho. Nem tudo que é elevado é santo; nem tudo o que é  doce é  bom; nem todo o desejo é puro; nem tudo o que nos agrada a Deus  agrada.  De boa vontade aceito a graça que me torna mais humilde e  timorato e  melhor me dispõe à renúncia de mim mesmo. O homem instruído  pelo dom da  graça e escarmentado pela sua privação não ousará  atribuir-se bem algum,  antes se confessará pobre e desprovido de tudo.  Dá a Deus o que é de  Deus e a ti atribui o que é teu; isto é, agradece a  Deus pelas graças  recebidas e reconhece que só a ti é devida a culpa e  o justo castigo da  culpa.&lt;br /&gt;4. Põe-te sempre no último lugar e  ser-te-á dado o primeiro  porque não haverá primeiro lugar senão para  quem se coloca no último. Os  maiores santos aos olhos de Deus foram os  menores na própria estima;  quanto mais gloriosos tanto mais humildes.  Cheios da verdade e da glória  do céu não cobiçam uma glória vã.  Fundados e confirmados em Deus, de  nenhum modo se podem ensoberbecer.  Referindo a Deus todo o bem recebido  não procuram a glória que dão os  homens, mas querem só a glória que vem  de Deus. Seu único desejo e sua  contínua aspiração é que Deus, em si e  em seus santos, seja sempre  louvado acima de todas as coisas.&lt;br /&gt;5. Sê,  pois, agradecido pelo  mínimo benefício e tornar-te-ás digno de receber  maiores. Tem por  grandes os menores dons e por dádiva singular o que os  homens julgam  desprezível. Para quem considera a dignidade de quem dá  nenhum dom  parecerá pequeno ou insignificante; não pode ser pouco o que  vem de um  Deus infinito. Deves agradecer-Lhe ainda quando te envie penas  e  castigos, porque é para nossa salvação quanto permite que nos  aconteça.  Quem deseja conservar a graça de Deus seja reconhecido quando  Ele lha  dá e paciente quando lha retira; ore para que se lhe restitua;  ande  cauteloso e humilde para não a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XI&lt;br /&gt;Do  pequeno  número dos que amam a cruz de Cristo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Tem Jesus muitos  que  amam seu reino celeste, poucos que carreguem a sua cruz; muitos  desejam  as suas consolações, poucos, os seus sofrimentos; muitos são os   companheiros de sua mesa, poucos, de sua abstinência. Todos almejam   gozar com Ele, poucos querem sofrer algo por seu amor. Muitos acompanham   Jesus até ao partir do pão, poucos até ao beber do cálice de sua   paixão. Muitos admiram os seus milagres, poucos abraçam a ignomínia da   cruz. Muitos amam a Jesus enquanto não lhes bate à porta a adversidade;   louvam-no e bendizem-no enquanto dele recebem consolações. Se Jesus,   porém, se esconde ou deles se afasta por algum tempo entram logo a   queixar-se e a cair em excessivo desalento.&lt;br /&gt;2. Os que amam a Jesus   por Jesus e não pela própria satisfação bendizem-no tanto nas   tribulações e angústias como nas maiores consolações. E ainda quando os   não quisesse consolar nunca, eles O louvariam sempre e sempre Lhe  dariam  graças.&lt;br /&gt;3. Oh! quanto pode o amor de Jesus quando puro e sem  mescla  de interesse ou de amor próprio! Não merecem porventura o nome  de  mercenários os que andam sempre à busca de consolações? Não dão  provas  de amar mais a si que a Cristo os que não pensam senão em seus  cômodos e  interesses? Onde se encontrará quem queira servir a Deus  gratuitamente?&lt;br /&gt;4.  É raro encontrar uma alma tão adiantada na vida  espiritual que esteja  desapegada de tudo. O verdadeiro pobre de  espírito, desprendido de todas  as criaturas, quem o achará? “Tesouro  precioso que debalde se buscaria  até às extremidades da terra” (Prov.  XXXI, 10). Se o homem abrir mão de  toda a sua fortuna, isso é nada. Se  fizer grande penitência ainda é  pouco. Se adquirir todas as ciências,  ainda está longe. Se tiver grandes  virtudes e piedade fervorosa, muito  ainda lhe falta; falta-lhe a coisa  mais necessária. Qual? Que, tendo  deixado tudo, deixe a si mesmo e saia  totalmente de si, sem nenhuma  reserva de amor próprio; e tendo cumprido o  que julga se seu dever,  sinta que nada fez.&lt;br /&gt;5. Não tenha em muita  conta o que por grande  poderiam estimar os homens, mas com sinceridade  se confesse servo  inútil, conforme a palavra da Verdade: “quando  fizerdes tudo o que vos  foi mandado dizei: servos inúteis somos.” (Luc.  XVII, 10). Poderá ser  então verdadeiramente pobre de espírito e  desapegado de tudo, dizer com  o Profeta: “sou pobre e só no mundo” (Ps.  XXIV, 16). Ninguém, todavia,  é mais rico, mais poderoso, mais livre do  que aquele que soube deixar a  si mesmo e a todas as coisas e colocar-se  no último lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XII&lt;br /&gt;Da estrada real da Santa Cruz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  A muitos parece dura  esta linguagem: “Nega a ti mesmo, toma a tua cruz e  segue a Jesus”  (Luc. IX, 23). Muito mais dura, porém, será ouvir aquela  última  sentença: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”  (Mat. XXV,  41). Os que agora ouvem e seguem de boa vontade a palavra da  Cruz, não  hão de temer um dia a da condenação eterna. “Este sinal da  Cruz  aparecerá no Céu quando o Senhor vier a julgar” (Mat. XXIV, 30).  Todos  os discípulos da Cruz que conformaram a sua vida com a de Jesus   crucificado com grande confiança aproximar-se-ão de Cristo juiz.&lt;br /&gt;2.   Por que temer, pois, tomar a Cruz pela qual se vai ao reino do céu? Na   Cruz está a salvação, na Cruz a vida, na Cruz a proteção contra os   inimigos. Na Cruz, a fonte das suavidades celestiais, na Cruz a   fortaleza da alma, na Cruz a alegria do espírito, na Cruz a consumação   da virtude, na Cruz a perfeição da santidade. Não há salvação para a   alma nem esperança de vida eterna senão na Cruz. Toma, pois, a tua Cruz,   segue a Jesus e chegarás à vida eterna. Ele te precedeu carregando a   sua Cruz e na Cruz morreu por ti, para que tu também carregues a tua   Cruz e na Cruz desejes morrer. Porque se com Ele morreres, com Ele   viverás e se Lhe fores companheiro no sofrimento, sê-lo-ás também na   glória.&lt;br /&gt;3. Tudo, pois, se encerra na Cruz e se resume em morrer nela.   E não há outro caminho que leve à vida e à verdadeira paz interior   senão o caminho da santa Cruz e da mortificação cotidiana. Anda por onde   quiseres, procura quanto quiseres, não encontrarás caminho mais  sublime  acima do caminho da santa Cruz, nem abaixo dele, caminho mais  seguro.  Dispõe e ordena todas as coisas conforme o teu gosto e parecer,  e verás  que sempre, queiras ou não, hás de padecer alguma coisa, e  assim sempre  encontrarás a Cruz; porque ou hás de sofrer dores no corpo  ou  tribulações na alma.&lt;br /&gt;4. Ora serás desamparado por Deus, ora   atormentado pelo próximo e, o que mais é, muitas vezes serás pesado a ti   mesmo. E não encontrarás nem remédio que e cure, nem consolação que te   alivie, mas terás que sofrer enquanto Deus quiser. Deus quer, com   efeito, que aprendas a sofrer sem consolo, a Ele te submetas totalmente   com a tribulação te tornes mais humilde. Ninguém sente tão intimamente a   paixão de Cristo como o que passou por tormentos semelhantes aos seus.  A  Cruz, portanto, está sempre preparada e em todo lugar te espera. Não   poderás fugir onde quer que te refugies, porque aonde quer que fores  te  levarás contigo e te encontrarás a ti. Volta-te para cima ou para  baixo,  volta-te para fora ou para dentro, sempre acharás a Cruz e  sempre é  necessário que tenhas paciência se queres possuir paz interior  e merecer  a coroa eterna.&lt;br /&gt;5. Se de bom grade levares a Cruz ela te  levará a ti  e te conduzirá ao fim que desejas, onde já não terás que  sofrer; mas  não será neste mundo. Se de má vontade a levares,  aumentar-lhes-ás o  peso e agravarás a tua carga, e, ainda assim, é  forçoso que a suportes.  Se rejeitares uma Cruz, outra encontrarás com  certeza e talvez mais  pesada.&lt;br /&gt;6. Cuidas escapar àquilo de que se não  eximiu nenhum mortal?  Que santo houve no mundo que não teve cruzes e  tribulações? Nem Jesus  Cristo, Senhor Nosso, passou em toda a sua vida,  uma só hora, sem as  dores de sua Paixão. “Era mister”, disse Ele, “que  Cristo sofresse e  ressuscitasse dos mortos e assim entrasse em sua  glória” (Luc. XXIV, 26 e  46). Como, pois, buscas outro caminho fora da  estrada real da santa  Cruz?&lt;br /&gt;7. Toda a vida de Cristo foi Cruz e  martírio e queres descanso e  gozo? Andas errado e muito errado, se  buscas outra coisa que não  sofrimentos; toda esta vida mortal é cheia  de misérias e cercada de  cruzes. E quanto mais progressos na vida  espiritual fizer uma alma,  tanto mais pesadas serão, muitas vezes, as  suas cruzes; porque com o  amor crescem as penas do exílio.&lt;br /&gt;8. Mas,  entretanto, a quem se acha  no meio de tantas provações, não lhe faltará  o alívio e consolo, porque  sentirá o grande fruto que lhe advém da  paciência em levar a sua cruz.  Pois quando alguém se submete de bom  grado, o peso da tribulação todo se  converte em confiança que o  consola. E quanto mais se quebranta a carne  pela aflição tanto mais se  fortalece interiormente o espírito pela  graça. E, algumas vezes o  desejo de sofrer penas e adversidades para  mais se assemelhar a Cristo  crucificado inspira tanta força à alma que  ela já não quisera viver sem  dores e tribulações, persuadida que será  tanto mais agradável a Deus  quanto mais e maiores trabalhos sofrer por  seu amor. Não é isto virtude  humana senão graça de Cristo que tanto pode  e tanto faz numa carne  frágil, que o homem, pelo fervor do espírito ame  e abrace o que,  naturalmente, lhe causa aversão e horror.&lt;br /&gt;9. Não é  natural ao homem  levar a cruz, amar a cruz, castigar o corpo e  submetê-lo ao espírito,  fugir das honras, sofrer de bom grado as  afrontas, desprezar-se e  querer ser desprezado, aturar as adversidades e  desgraças e não desejar  nenhuma prosperidade neste mundo. Se a ti só  olhares, de nada disto és  capaz por ti mesmo. Mas se confiares no  Senhor, do alto ser-te-á dada a  força com que dominarás o mundo e a  carne; e se estiveres armado com  fé e com o sinal da cruz de Cristo nem o  mesmo inimigo infernal  temerás.&lt;br /&gt;10. Dispõe-te, pois, como bom e fiel  servo de Cristo a  levar com ânimo a cruz do teu Senhor, por teu amor  crucificado.  Prepara-te para sofrer muitas adversidades e toda a sorte  de trabalhos  nesta vida miserável; porque é o que te espera onde quer  que estejas e o  que encontrarás onde quer que te escondas. É uma  necessidade; e não há  outro meio de escapar à tribulação dos males e à  dor senão ter  paciência contigo. Bebe amorosamente o cálice do Senhor se  queres ser  seu amigo e partilhar a sua herança. Deixa que Deus disponha  de suas  consolações; que Ele as distribua como for de seu agrado.  Quanto a ti,  prepara-te para padecer tribulações considerando-as como as  consolações  mais preciosas, porque “todos os sofrimentos desta vida não  tem  proporção alguma com a glória futura, que em nós se há de  manifestar”  (Rom. VIII, 18), e não poderias merecê-la ainda que, só, os  pudesses  suportar todos.&lt;br /&gt;11. Quando chegares a ponto de saborear e  achar  doces as tribulações, por amor de Cristo, dá-te por feliz porque   encontraste o paraíso na terra. Mas enquanto te pesa ainda o sofrimento e   procuras evitá-lo ir-te-á mal e a tribulação que foges seguir-te-á em   toda a parte.&lt;br /&gt;12. Se, porém, te dispões ao que deves, isto é, a   sofrer e a morrer logo te sentirás melhor e acharás a paz. Ainda que   foras como São Paulo, arrebatado ao terceiro céu, não estás por isso   seguro de nada sofrer. “Mostrar-lhe-ei”, disse Jesus, “quanto há de   sofrer por meu nome” (Atos, IX, 16). Não te resta, portanto, senão   sofrer se queres amar a Jesus e servi-lo sempre.&lt;br /&gt;13. Prouvera a Deus,   fosses digno de padecer alguma coisa pelo nome de Jesus! Que glória   para ti! Que alegria para os santos de Deus! Que edificação para o   próximo! Na verdade, todos aconselham a paciência, mas poucos querem   exercitá-la. Com razão deveras sofrer um pouco por amor de Cristo,   quando tantos por amor do mundo padecem males mais graves.&lt;br /&gt;14. Tem   por certo que a tua vida deve ser uma morte contínua; quanto mais cada   um morre a si mesmo tanto melhor começa a viver para Deus. Só é capaz de   compreender as coisas do céu quem se resigna a suportar por amor de   Cristo as adversidades. Nada mais agradável a Deus, nem mais proveitoso   para ti neste mundo, que padecer de boa vontade por Cristo. E se te   dessem a escolher, deveras preferir sofrer, trabalhar por Ele a ser   recreado com muitas consolações, porque assim te assemelharias mais a   Cristo e melhor e conformarias com o exemplo de todos os santos. O nosso   merecimento e o progresso na perfeição consistem menos na abundância   das doçuras e consolações do que em passar por grandes trabalhos e   provações graves.&lt;br /&gt;15. Se para a salvação do homem, alguma coisa   houvera de melhor e mais útil que o sofrimento, Cristo, sem dúvida,   no-lo houvera ensinado com suas palavras e exemplos. Ora, aos discípulos   que o acompanhavam e a quantos desejam segui-lo ele exorta claramente a   levar a Cruz dizendo: “Quem quiser vir após mim renuncie a si mesmo,   tome a sua cruz e siga-me” (Mat. XVI, 24). Assim, pois, lidas e bem   pesadas todas as coisas, seja esta a última conclusão: “Para entrar no   reino de Deus é mister passar por muitas tribulações” (Atos XIV, 21).&lt;br /&gt;________________________________________&lt;br /&gt;Fonte:   Imitação de Cristo. Tradução de P. Leonel Franca, S.J. Rio de Janeiro:   José Olympio, 1944.&lt;br /&gt;A partir daqui é uma versão de outro tradutor,   não posso garantir a tradução, na verdade não posso garantir por nenhum   texto, mais a esse eu alerto que o site eu não conheço a intenção dos   donos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%; font-weight: bold;"&gt;Imitação de Cristo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Kempense.&lt;br /&gt;Livro  III.&lt;br /&gt;Avisos  para a vida espiritual.&lt;br /&gt;Da Consolação interior&lt;br /&gt;Autor:  Tomás Kempis&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  I&lt;br /&gt;Da  comunicação íntima de Cristo com a alma fiel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Ouvirei o  que  em mim disser o Senhor meu Deus (Sl 84,9). Bem-aventurada a alma  que  ouve em si a voz do Senhor e recebe de seus lábios palavras de   consolação! Benditos os ouvidos que percebem o sopro do divino sussurro e   nenhuma atenção prestam às sugestões do mundo! Bem-aventurados, sim,  os  ouvidos que não atendem às vozes que atroam lá fora, mas à Verdade  que  os ensina lá dentro! Bem-aventurados os olhos que estão fechados  para as  coisas exteriores e abertos para as interiores! Bem-aventurados  aqueles  que penetram as coisas interiores e se empenham, com  exercícios  contínuos de piedade, em compreender, cada vez melhor, os  celestes  arcanos. Bem aventurados os que com gosto se entregam a Deus e  se  desembaraçam de todos os empenhos do mundo. Considera bem isso, ó  minha  alma, e fecha as portas dos sentidos, para que possas ouvir o que  em ti  falar o Senhor teu Deus. Eis o que te diz o teu Amado:&lt;br /&gt;2. Eu  sou tua  salvação, tua paz e tua vida. Fica comigo e acharás paz. Deixa  todas as  coisas transitórias e busca as eternas. Que é todo o temporal,  senão  engano sedutor? E de que te servem todas as criaturas, se o  Criador te  abandonar? Renuncia, pois, a tudo, entrega-te dócil e fiel a  teu  Criador, para que possas alcançar a verdadeira felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   II&lt;br /&gt;Que a verdade fala dentro de nós, sem estrépito de palavras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Falai, Senhor, que o vosso servo escuta: Vosso servo sou eu, daí-me   inteligência para que conheça os vossos ensinamentos. Inclinai meu   coração às palavras de vossa boca; nele penetre, qual orvalho, vosso   discurso (1Rs 3,10; Sl 118.36.125; Dt 32,2). Diziam, outrora, os filhos   de Israel a Moisés: Fala-nos tu e te ouviremos; não nos fale o Senhor,   para que não morramos (Êx 20,19). Não assim, Senhor, não assim, vos  rogo  eu; antes, como o profeta Samuel, humilde e ansioso, vos suplico:   Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Não fale Moisés, nem algum dos   profetas, mas falai-me de vós, Senhor, Deus, que inspirastes e   iluminastes todos os profetas, porque vós podeis, sem eles, me ensinar   perfeitamente, ao passo que eles, sem vós, de nada me serviriam.&lt;br /&gt;2.   Podem muito bem proferir palavras, mas não conseguem dar o espírito;   falam com muita elegância, mas, se vós vos calais, não inflamam o   coração. Ensinam a letra; vós, porém, explicais o sentido. Propõem os   mistérios, mas vós descobris a significação das figuras. Proclamam os   mandamentos, mas vós ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho, mas vós   dais força para segui-lo. Eles regam a superfície, mas vós dais a   fecundidade. Eles clamam com palavras, mas vós dais a inteligência ao   ouvido.&lt;br /&gt;3. Não me fale, pois, Moisés, mas vós, Senhor meu Deus,   Verdade eterna, para que não morra sem ter alcançado fruto algum, se só   for admoestado por fora e não abrasado interiormente; e não seja minha   condenação a palavra ouvida e não praticada, conhecida e não amada,   criada e não observada. - Falai, pois, Senhor, que o vosso servo escuta;   porque possuís palavras de vida eterna (1 Rs 3,10; Jo 6,69). Falai-me   para consolação de minha alma e emenda de minha vida, também para   louvor, glória e perpétua honra vossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo III&lt;br /&gt;Como as   palavras de Deus devem ser ouvidas com humildade e&lt;br /&gt;como muitos não as   ponderam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Ouve, filho, as minhas palavras, palavras   suavíssimas que excedem toda a ciência dos filósofos e sábios deste   mundo. As minhas palavras são espírito e vida (Jo 6,64), e não se devem   interpretar humanamente. Não devem ser abusadas para vã complacência,   mas devem ser ouvidas em silêncio e recebidas com máxima humildade e   grande afeto.&lt;br /&gt;2. A alma: E disse eu: Bem-aventurado o homem a quem   instruís, Senhor, e lhe ensinais a vossa lei, para suavizar-lhe os dias   maus e dar-lhe consolo neste mundo (Sl 93, 12.13).&lt;br /&gt;3. Jesus: Eu, diz  o  Senhor, desde o princípio ensinei aos profetas e ainda agora não  cesso  de falar a todos; mas muitos são insensíveis e surdos à minha  voz. A  muitos agrada mais a voz do mundo que a de Deus; mais facilmente  seguem  os apetites da carne que o preceito divino. O mundo promete  apenas  coisas temporais e mesquinhas e é servido com grande ardor; eu  prometo  bens sublimes e eternos, e só encontro frieza nos corações dos  mortais.  Quem há que me sirva e obedeça em tudo com tanto empenho como  se serve  ao mundo e aos seus senhores? Envergonha-te, Sidon, diz o mar  (Is 23,  4). E se queres saber por que, ouve o motivo: Por um pequeno  salário se  empreendem grandes viagens, e pela vida eterna muitos nem  dão um passo  sequer. Busca-se o lucro vil; por um vintém, às vezes, há  torpes brigas;  por uma ninharia e promessa mesquinha não se teme a  fadiga, nem de dia,  nem de noite.&lt;br /&gt;1. Mas que vergonha! Pelo bem  imutável, pelo prêmio  inestimável, para honra suprema e pela glória sem  fim, o menor esforço  nos cansa. Envergonha-te, pois, servo preguiçoso e  murmurador, por serem  os mundanos mais solícitos para a perdição que  tu para a salvação.  Procuram eles com mais gosto a vaidade que tu a  verdade. Entretanto, não  raro, sua esperança os engana; mas minha  promessa a ninguém falta, nem  despede com as mãos vazias ao que em mim  confia. Darei o que prometi,  cumprirei o que disse, contanto que se  persevere fiel no meu amor até ao  fim. Eu sou quem&lt;br /&gt;2. remunera todos  os bons e sujeita a provas duras  todos os devotos.&lt;br /&gt;3. Grava minhas  palavras em teu coração e medita-as  atentamente, porque te serão muito  necessárias na hora da tentação.  Coisas que agora não entendes quando  lês, entenderás quando eu te  visitar. De dois modos costumo visitar  meus eleitos: pela tentação e  pela consolação. E duas lições lhes dou  cada dia: numa repreendo-lhes os  vícios e noutra exorto-os ao progresso  na virtude. Quem ouve a minha  palavra e a despreza, por ela será  julgado no último dia.&lt;br /&gt;4. Oração  para implorar a graça da devoção&lt;br /&gt;4.  A alma: Meu Senhor e meu Deus!  Vós sois todo o meu bem. E quem sou eu  para me atrever a falar-vos? Eu  sou vosso paupérrimo servo, um vil  vermezinho, muito mais pobre e  desprezível do que sei e ouso dizer.  Lembrai-vos, Senhor, de que sois  bom, justo e santo; vós tudo podeis,  tudo dais, tudo encheis, e só ao  pecador deixais vazio. Lembrai-vos de  vossas misericórdias (Sl 24,6) e  enchei meu coração com a vossa graça,  pois não quereis que sejam  infrutuosas vossas obras.&lt;br /&gt;5. Como poderei  eu, nesta miserável vida,  suportar-me a mim mesmo, se não me confortar  vossa graça e misericórdia?  Não desvieis de mim a vossa face, não  demoreis a vossa visita, não me  tireis o vosso consolo, para que não  fique a minha alma diante de vós  qual terra sem água (Sl 142, 6).  Ensinai-me, Senhor, a fazer vossa  vontade (Sl 142, 10), ensinai-me a  andar em vossa presença, digna e  humildemente; pois vós sois minha  sabedoria, que em verdade me conheceis  antes de ser feito o mundo, e  antes de eu nascer na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  IV&lt;br /&gt;Que devemos andar  perante Deus em verdade e humildade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho, anda diante  de mim em verdade e procura-me sempre com  simplicidade de coração.  Quem anda diante de mim na verdade será  defendido dos ataques inimigos,  e a verdade o livrará dos enganos e das  murmurações dos maus. Se te  libertar a verdade, serás verdadeiramente  livre e não farás caso das  vãs palavras dos homens.&lt;br /&gt;2. A alma:  Verdade é, Senhor, o que dizeis;  peço-vos que assim se faça comigo. A  vossa verdade me ensine, me  defenda e me conserve até meu fim salutar.  Ela me livre de toda má  afeição e amor desregrado e assim poderei andar  convosco, com grande  liberdade de coração.&lt;br /&gt;3. Jesus: Eu te ensinarei,  diz a Verdade, o  que é justo e agradável a meus olhos. Relembra teus  pecados com grande  dor e pesar e jamais te desvaneças por tuas boas  obras. Com efeito, és  pecador, sujeito a muitas paixões e preso em seus  laços. De ti pendes  sempre para o nada; depressa cais, logo és vencido,  logo perturbado,  logo desanimado. Nada tens de que possas gloriar-te;  muito, porém, para  te humilhar; pois és muito mais fraco do que podes  imaginar.&lt;br /&gt;4.  Nada, pois, do que fazes te pareça grande, nada precioso  e admirável,  nada digno de apreço, nada nobre, nada verdadeiramente  louvável e  desejável, senão o que é eterno. Acima de tudo te agrade a  eterna  verdade, e te desagrade a tua extrema vileza. Nada temas, nada   vituperes e fujas tanto como os teus vícios de pecados, que te devem   entristecer mais do que quaisquer prejuízos materiais. Alguns não andam   diante de mim com simplicidade, mas, curiosos e arrogantes, pretendem   saber meus segredos e compreender os sublimes mistérios de Deus,   descurando-se de si próprios e de sua salvação. Estes, por sua soberba e   curiosidade, não raro caem em grandes tentações e pecados, porque me   afasto deles.&lt;br /&gt;5. Teme os juízos de Deus, treme da ira do Onipotente.   Não queiras discutir as obras do Altíssimo; examina antes as tuas   iniqüidades, quanto mal cometestes e quanto bem deixastes de fazer por   negligência. Alguns põem toda a sua devoção nos livros, outros nas   imagens, outros em sinais e exercícios exteriores. Alguns me trazem na   boca, mas mui pouco no coração. Outros há, porém, que, alumiados no   entendimento e purificados no afeto, sempre suspiram pelos bens eternos;   não gostam de ouvir das coisas da terra e com repugnância satisfazem  as  exigências da natureza; estes percebem o que lhe diz o Espírito da   Verdade. Pois lhes ensina a desprezar as coisas terrenas e amar as   celestiais, a esquecer o mundo e almejar o céu dia e noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   V&lt;br /&gt;Dos admiráveis efeitos do amor divino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma:   Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, por vos   terdes dignado lembrar-vos de mim, pobre criatura. Ó Pai de misericórdia   e Deus de toda consolação! (2Cor 1,3), graças vos dou porque, apesar  de  minha indignidade, me recreais às vezes com vossa consolação. Sede  para  sempre bendito e glorificado, com vosso Filho unigênito e o  Espírito  Santo consolador, por todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo  amigo de  minha alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de  alegria o meu  interior. Vós sois a minha glória e o júbilo de meu  coração; vós sois a  minha esperança e meu refúgio no dia da tribulação.&lt;br /&gt;2.  Mas, como  ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, necessito  ser consolado  e confortado por vós; por isso visitai-me mais vezes e  instruí-me com  santas doutrinas. Livrai-me das más paixões e curai meu  coração de todos  os afetos desordenados, para que eu, sanado e  purificado interiormente,  seja apto para amar, forte para sofrer e  constante para perseverar.&lt;br /&gt;3.  Jesus: Grande coisa é o amor! E um bem  verdadeiramente inestimável que  por si só torna suave o que é difícil e  suporta sereno toda a  adversidade. Porque leva a carga sem lhe sentir o  peso e torna o amargo  doce e saboroso. O amor de Jesus é generoso,  inspira grandes ações e nos  excita sempre à mais alta perfeição. O amor  tende sempre para as  alturas e não se deixa prender pelas coisas  inferiores. O amor deseja  ser livre e isento de todo apego mundano,  para não ser impedido no seu  afeto íntimo nem se embaraçar com algum  incômodo. Nada mais doce do que o  amor, nada mais forte, nada mais  delicioso, nada mais perfeito ou  melhor no céu e na terra; porque o  amor procede de Deus, e em Deus só  pode descansar, acima de todas as  criaturas.&lt;br /&gt;4. Quem ama, voa, corre,  vive alegre, é livre e sem  embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em  todas as coisas, porque  sobre todas as coisas descansa no Sumo Bem, do  qual dimanam e procedem  todos os bens. Não olha para as dádivas, mas  eleva-se acima de todos os  bens até Àquele que os concede. O amor muitas  vezes não conhece  limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor  não sente peso, não  faz caso das fadigas e quer empreender mais do que  pode; não se escusa  com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e  possível. Por  isso de tudo é capaz e realiza obras, enquanto o que não  ama desfalece e  cai.&lt;br /&gt;5. O amor vigia sempre, e até no sono não dorme.  Nenhuma  fadiga o cansam nenhuma angústia o aflige, nenhum temor&lt;br /&gt;o  assusta,  mas qual viva chama a ardente labareda irrompe para o alto e  passa  avante. Só quem ama compreende o que é amar. Bem alto soa aos  ouvidos  de Deus o afeto da alma que diz: Meu Deus, meu amor! Vós sois  todo meu,  e eu todo vosso!&lt;br /&gt;1. A alma: Dilatai-me o amor, para que  possa, no  âmago do coração, saborear quão doce é amar, no amor  desmancharme e  nadar. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num  transporte de  fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor, siga-vos ao  alto, ó meu  Amado, desfaleça minha alma no nosso louvor, no júbilo do  amor.  Amar-vos quero mais que a mim, e a mim só por amor de vós, e em  vós a  todos que deveras vos amam, conforme ordena a lei do amor que de  vós  dimana.&lt;br /&gt;2. O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e amável;   forte, sofredor, fiel, prudente, longânime, viril e nunca busca a si   mesmo. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o amor. O amor é   circunspecto, humilde e reto; não é frouxo, não é leviano, nem cuida de   coisas vãs; é sóbrio, casto, constante, quieto, recatado em todos os   seus sentidos. O amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos   próprios olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com Deus,   confia e espera sempre nele, ainda quando está desconsolado, porque no   amor não se vive sem dor.&lt;br /&gt;3. Quem não está disposto a sofrer tudo e   fazer a vontade do Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que   ama cumpre abraçar por seu Amado, de boa vontade, tudo o que for duro e   amargo e dele não se apartar por nenhuma contrariedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   VI&lt;br /&gt;Da prova do verdadeiro amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, não és ainda   forte nem prudente no amor. - A alma: Por que, Senhor? - Jesus: Porque   por qualquer contrariedade deixas o começado e com ânsia excessiva   procuras a consolação. O homem forte no amor permanece firme nas   tentações e não dá crédito às astuciosas sugestões do inimigo. Assim   como lhe agrado na prosperidade, não lhe desagrado nas tribulações.&lt;br /&gt;1.   Quem ama discretamente não considera tanto a dádiva de quem ama, como o   amor de quem dá. Atende mais à&lt;br /&gt;2. intenção que ao valor do dom, e a   todas as dádivas estima menos que o Amado. Quem ama nobremente não   repousa no dom, mas em mim acima de todos os dons. Nem tudo está   perdido, se sentires, às vezes, menos devoção, a mim ou meus santos, do   que desejaras. Aquele sentimento terno e doce que experimentas, às   vezes, é efeito da graça presente, um como que antegosto da pátria   celestial; nele não te deves firmar muito, porquanto vai e vem. Mas   pelejar contra os maus movimentos do coração e desprezar as sugestões do   demônio é sinal de virtude e grande merecimento.&lt;br /&gt;2. Não te   perturbem, pois, estranhas imaginações, oriundas de matéria qualquer.   Guarda firme teu propósito, e tua reta intenção fixa em Deus. Não é   ilusão o seres, alguma vez, subitamente arrebatado em êxtase, e logo   depois caíres de novo nos costumados desvarios do coração. Porque mais   os padeces contra a vontade do que és causa deles, e enquanto te   desagradarem e os repelires, serão para ti ocasião de merecimento e não   de perdição.&lt;br /&gt;3. Fica sabendo que o antigo inimigo de todos os modos   se esforça por impedir-te os bons desejos e apartar-te de todos os   exercícios devotos, nomeadamente da veneração dos santos, da devota   memória de minha paixão, da salutar lembrança dos pecados, da vigilância   sobre o próprio coração e do firme propósito de aproveitar na virtude.   Sugere-te muitos maus pensamentos para te causar tédio e horror e   arredar-te da oração e leitura espiritual. Desagrada-lhe muito a   confissão humilde e, se pudesse, far-te-ia abandonar a comunhão. Não   lhes dês crédito, nem faças caso dele, posto que muitas vezes de arme   laços e enganos. Leva à sua conta os pensamentos maus e desonestos que   te sugere. Dize-lhe: Retira-te, espírito imundo, desgraçado,   sem-vergonha; muito perverso deves ser para me insinuares tais coisas!   Vai-te daqui, malvado sedutor, não terás em mim parte alguma, que Jesus   estará comigo, qual guerreiro invencível, e tu ficarás confundido.  Antes  quero morrer e sofrer todos os tormentos, que te fazer a vontade;   cala-te e emudece; não te escutarei, por mais que me molestes. O  Senhor é  minha luz e minha salvação, a quem temerei. Levante-se embora  contra  mim um exército, não temerá meu coração. O Senhor é meu socorro e  meu  Salvador (Sl 26, 1.6; 18,17).&lt;br /&gt;4. Peleja como bom soldado e, se  alguma  vez caíres por fraqueza, torna a cobrar maiores forças que as   anteriores, tendo certeza que receberás mais copiosa graça; acautela-te,   porém, muito contra a vã complacência e a soberba. Por falta desta   vigilância andam muitos enganados e caem, às vezes, em cegueira   incurável. A ruína destes soberbos, que loucamente presumem de si   próprios, sirva-te de cautela e te conserve na virtude da humildade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   VII&lt;br /&gt;Como se há de ocultar a graça sob a guarda da humildade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, muito útil e seguro te é encobrir a graça da devoção,  sem  te desvanceceres ou te preocupares muito com ela; convindo antes   desprezar-te a ti mesmo e temer que não sejas digno da graça recebida.   Importa não estares muito apegado a tais sentimentos, que bem depressa   podem mudar-se nos contrários. Com a graça presente, pondera quão   miserável e pobre és sem ela. O progresso na vida espiritual não   consiste tanto em teres a graça da consolação, mas em suporta-lhe com   humildade, abnegação e paciência a privação, de sorte que então não   afrouxes no exercício da oração, nem deixes de todo as demais boas obras   que costumas praticar. Antes faze tudo de boa vontade, como melhor   puderes e entenderes, nem te descuides totalmente de ti por causa das   securas e ansiedades espirituais.&lt;br /&gt;2. Muitos há que se deixam levar   pela impaciência e pelo desalento, logo que as coisas não correm como   desejam. Pois nem sempre está nas mãos do homem o seu caminho (Jer   10,23), mas a Deus pertence consolar e dar a graça quando quiser, e   quanto quiser, a quem quiser, tudo como lhe apraz, nem mais nem menos.   Perderam-se alguns imprudentes por causa da graça da devoção, porque   quiseram fazer mais do que podiam, não ponderando a fraqueza das suas   forças e seguindo mais o impulso do coração que os ditames da razão. E   porque presumiram de si coisas bem depressa perderam a graça. Caíram   maiores do que Deus havia determinado, na pobreza e no abatimento os que   pretendiam pôr seu ninho no céu, para assim, humilhados e  empobrecidos,  aprenderem a não voar com suas próprias asas, mas a  esperar à sombra  das minhas. Os novos e principiantes no caminho do  Senhor facilmente se  podem enganar e perder, se não se aconselharem com  homens experientes.&lt;br /&gt;3.  Estes, se quiserem antes seguir seu próprio  parecer, que confiar no  conselho de pessoas experimentadas, põem em  grande risco sua salvação,  se continuarem aferrados à sua opinião. Os  que se têm por sábios raro se  deixam dirigir pelosoutros. É melhor  saber e entender pouco,  humildemente, que possuir tesouros de ciência e  presumir de si. Melhor  te é ter menos do que muito, se com o muito te  vem o orgulho. Não é  bastante prudente quem se entrega todo à alegria,  esquecido da antiga  pobreza e do casto temor de Deus que sempre receia  perder a graça  concedida. Nem tampouco muita virtude denota entregar-se  a nímio  desânimo em tempo de adversidade e por qualquer contratempo,  sem pôr em  mim a confiança devida.&lt;br /&gt;4. Quem se dá por muito seguro no  tempo de  paz, muitas vezes se revela tímido e covarde em tempo de  guerra. Se te  souberes conservar sempre humilde e pequeno no teu  conceito, e governar  com moderação teu espírito, não cairás tão  depressa na tentação e no  pecado. É de aconselhar, quando sentes fervor  de espírito, meditar no  que será de ti, retirando-se esta graça. E  quando isto de fato  acontecer, pensa que a luz pode voltar, que ta  tirei por algum tempo,  para tua cautela e minha glória.&lt;br /&gt;5. Tal  provação, muitas vezes, te é  mais proveitosa do que se tudo te saísse à  medida de teu desejo. Pois  não se devem avaliar os merecimentos do  homem pelas muitas visões e  consolações, nem pela perícia nas  Escrituras, nem pela elevação do  cargo. Mas, para conhecer o valor de  cada um, considera: se está  fundamentado na verdadeira humildade e vive  cheio de amor de Deus; se  sempre busca a honra de Deus com pura e reta  intenção; se se despreza a  si mesmo, nem faz caso algum de si, e se  gosta mais de ser desprezado e  humilhado do que estimado pelos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  VIII&lt;br /&gt;Da vil  estima de si próprio ante os olhos de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A  alma: Ao meu  Senhor falarei, ainda que seja pó e cinza (Gn 18,27). Se  eu me tiver em  maior conta, eis que vos ergueis contra mim, e ao  testemunho verdadeiro  que dão meus pecados, não posso contradizer. Mas  se me tiver por vil e  me aniquilar, deixando toda a vã estima de mim  mesmo, e me reduzir a pó,  que sou na verdade, ser-me-à propícia a vossa  graça, e a vossa luz há  de vir em meu coração, e todo sentimento de  amor-próprio, por mínimo que  seja, perder-se-á no abismo do meu nada e  perecerá para sempre. Ali me  dais a conhecer o que sou, o que fui, a  que ponto cheguei; porque sou  nada - e não o sabia. Abandonado a mim  mesmo, sou um puro nada e a mesma  fraqueza; tanto, porém, que lançais  um olhar sobre mim, logo me sinto  forte e cheio de nova alegria. E é  grande maravilha que tão sabiamente  me levantais e tão benigno me  abraçais, a mim, que pelo próprio peso  pendo sempre para a terra.&lt;br /&gt;2.  Isto é obra do vosso amor, que me  previne gratuitamente, socorrendo-me  em mil necessidades, guardando-me  de males, para bem dizer, infindos.  Perdi-me, amando-me  desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente, e  amando com puro  amor, a mim me achei e a vós também, e este amor me  fez ainda mais  aprofundar-me em meu nada. Porque vós, ó dulcíssimo  Senhor, me tratais  além do meu merecimento, e mais do que ouso esperar  ou pedir.&lt;br /&gt;3.  Bendito sejais, meu Deus, pois conquanto eu seja  indigno de todo bem,  ainda assim não cessa vossa liberalidade e bondade  infinita de fazer bem  até aos ingratos e aos que de vós andam  apartados. Convertei-nos a vós,  para que sejamos gratos, humildes e  devotos, pois vós sois nossa  salvação, nossa virtude e fortaleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  IX&lt;br /&gt;Tudo se deve  referir a Deus como ao fim último&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, eu devo ser o  teu supremo e último fim, se desejas ser  verdadeiramente feliz. Esta  intenção purificará teu coração, tantas  vezes apegado desregradamente a  si mesmo e às criaturas. Porque se em  alguma coisa te buscas a ti mesmo,  logo desfaleces e afrouxas. Refere,  pois, tudo a mim, principalmente  porque eu sou quem te deu tudo.  Considera todos os bens como dimanados  do Sumo Bem, e por isso refere  tudo a mim como sua origem.&lt;br /&gt;2. De mim,  como de fonte de vida, tiram  água viva o pequeno e o grande, o rico e o  pobre, e os que me servem  voluntária e livremente receberão graça sobre  graça. Mas quem, fora de  mim, quiser gloriar-se, ou deleitar-se em  algum bem particular, jamais  poderá firmar-se na verdadeira alegria, nem  se lhe dilatará o coração,  mas sempre andará perturbado e angustiado de  mil maneiras. Não te  atribuas, pois, bem algum, nem a pessoa alguma  atribuas virtude, mas  refere tudo a Deus, sem o qual nada tem o homem.  Eu dei tudo, eu quero  tudo reaver, e com estrito rigor exijo as devidas  ações de graças.&lt;br /&gt;3.  É esta a verdade que afugenta toda a vanglória. E  se entrar em teu  coração a graça celestial e a verdadeira caridade, não  sentirás mais  inveja alguma, nem aperto de coração, nem haverá mais  lugar para o  amor-próprio. Porque tudo vence a divina caridade, e  multiplica as  forças da alma. Se és verdadeiramente sábio, só em mim te  alegrarás e  porás a tua confiança; porque ninguém é bom senão Deus (Mt  19,17), só  Ele cumpre seja louvado e bendito em tudo, acima de todas as  coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  X&lt;br /&gt;Como, desprezando o mundo, é doce servir a  Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma:  De novo, Senhor, vos falarei, e não me calarei;  direi aos ouvidos de  meu Deus, meu Senhor e meu Rei, que está nas  alturas: Quão grande,  Senhor, é a abundância da doçura que reservastes  aos que vos temem! (Sl  30,20). Mas que será para os que vos amam e de  todo o coração vos  servem? É verdadeiramente inefável a doçura da  contemplação que  concedeis aos que vos amam. Nisto particularmente me  manifestastes a  doçura de vosso amor: quando não era, vós me criastes e  quando andava  longe de vós, perdido no erro, me reconduzistes a vos  servir e me  destes o preceito de vos amar.&lt;br /&gt;2. Ó fonte perene de amor,  que direi  de vós? Como poderia eu esquecer-me que vos dignastes  lembrar-vos de  mim, ainda depois de depravado e perdido? Além de toda  esperança,  usastes de misericórdia para com vosso servo, e acima de todo  mérito me  prodigalizastes vossa graça e amizade. Com que poderei  agradecer-vos  tal mercê? Porque nem a todos é dado deixar tudo,  renunciar ao mundo e  abraçar a vida religiosa. Será porventura mérito  que eu vos sirva,  quando toda criatura tem obrigação de vos servir? Não  me deve parecer  grande coisa que eu vos sirva; antes devo considerar  grande e digno de  admiração que vos digneis receber-me, pobre e indigno  como sou, em  vosso serviço e associar-me aos vossos servos prediletos.&lt;br /&gt;3.  Vede, é  vosso, Senhor, tudo que possuo e com que vos sirvo; entretanto,  mais  me servis vós a mim, do que eu a vós. Aí estão o céu e a terra,  que  criastes para uso do homem, e estão atentos a vosso aceno, a fazer  cada  dia o que lhes mandais. Mais ainda: os próprios anjos destinastes  ao  serviço do homem. Mas, acima de tudo isso, vós mesmos vos dignais   servir ao homem, e prometestes ser a sua recompensa.&lt;br /&gt;4. Que vos darei   eu por esses benefícios sem conta, Oh! se pudera servir-vos todos os   dias da minha vida! Se pudera, ainda que um só dia, prestar-vos condigno   serviço! Na verdade, sois digno de todo serviço, de toda honra e  glória  eterna. Vós sois verdadeiramente meu Senhor, eu vosso pobre  servidor,  obrigado a servir-vos com todas as minhas forças, sem me  cansar jamais  de vos dar louvores. Assim o quero, assim o desejo:  dignai-vos, Senhor,  suprir o que me falta.&lt;br /&gt;5. Grande honra e glória é  servir-vos e  desprezar tudo por vosso amor. Porque copiosa graça  alcançarão os que  livremente se sujeitam ao vosso santíssimo serviço.  Encontrarão  suavíssima consolação do Espírito Santo os que por vós  desprezam todos  os deleites carnais. Conseguirão grande liberdade da  alma os que por  vosso nome entram na vereda estreita e se apartam de  todos os cuidados  mundanos.&lt;br /&gt;6. Ó doce e amável servidão de Deus, que  torna o homem  verdadeiramente livre e santo! Ó sagrada servidão do  estado religioso,  que faz o homem igual aos anjos, agradável a Deus,  terrível aos demônios  e recomendável a todos os fiéis! Ó ditoso e nunca  assaz desejado  serviço, que nos mereceu o Bem soberano e adquire o  gozo que há de durar  para sempre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XI&lt;br /&gt;Como devemos  examinar e moderar os  desejos do coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, muitas  coisas deves ainda  aprender, que não sabes bem.&lt;br /&gt;2. A alma: Que  coisas são estas, Senhor?&lt;br /&gt;3.  Jesus: Que conformes completamente teu  desejo a meu beneplácito e não  sejas amante de ti mesmo, mas zeloso  cumpridor de minha vontade. Muitas  vezes se inflamam teus desejos, e  com veemência te impelem; examina,  porém, o que mais te move, se minha  honra ou teu próprio interesse. Se  for eu o motivo, ficarás bem  contente, qualquer que seja&lt;br /&gt;o sucesso do  empreendimento; mas, se lá  se ocultar algum interesse próprio, eis que  isto logo te embaraça e  aflige.&lt;br /&gt;1. Guarda-te, pois, de confiar  demasiadamente em  preconcebidos desejos que tens sem me consultar, para  que não suceda  que te arrependas e te desagrade o que primeiro te  agradou e procuraste  com zelo, por te haver parecido melhor. Porém nem  todo desejo que  pareça bom logo devemos seguir, nem tampouco a todo  sentimento  contrário logo havemos de fugir. Convém, às vezes, refrear  mesmo os  bons empenhos e desejos, para que as preocupações não te  distraiam o  espírito; para que não dês escândalo por falta de discrição;  para que,  enfim, não te perturbe a resistência dos outros e desfaleças.&lt;br /&gt;2.   Outras vezes, ao contrário, é preciso usar de violência e rebater   varonilmente os apetites dos sentidos sem atender ao&lt;br /&gt;que a carne quer   ou não quer, mas trabalhando por sujeitá-la ao espírito, ainda que se   revolte. Cumpre castigá-la e curvá-la à sujeição, a tal ponto, que   esteja disposta para tudo, sabendo contentar-se com pouco e deleitar-se   com a simplicidade, sem resmungar por qualquer incômodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XII&lt;br /&gt;Da escola da paciência e luta contra as concupiscências&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   A alma: Deus e Senhor meu, pelo que vejo, a paciência me é muito   necessária; pois são muitas as contrariedades desta vida. Por mais que   se procure a paz, não há viver sem combate e sofrimento.&lt;br /&gt;2. Jesus:   Assim é, filho, e não quero que busques uma paz isenta de tentações e   contrariedades, mas que julgues ter achado a paz, ainda quando fores   molestado de muitas atribulações e provado em muitas contrariedades. Se   dizes que não podes sofrer tanta coisa, como suportarás, então, o   purgatório? De dois males sempre se deve escolher o menor. Para escapar   dos suplícios futuros, trata de sofrer com paciência os males  presentes,  por amor de Deus. Julgas, acaso, que nada ou pouco sofrem os  homens do  mundo? Tal não encontrarás, nem entre os mais regalados.&lt;br /&gt;3.  Dirás,  talvez, que eles têm muitos deleites e seguem a sua própria  vontade, e  por isso pouco lhes pesa a tribulação.&lt;br /&gt;4. Seja embora  assim, e tenham  eles quanto desejam, mas quanto tempo achas que há de  durar isso: Eis  qual fumo se desvanecerão os abastados do século, nem  lembrança restará  de seus prazeres passados. E mesmo, enquanto vivem,  não os fruem sem  amargura, tédio e temor. Porquanto do próprio objeto  de seus deleites  muitas vezes lhes vem a dor que os castiga. E é justo  que assim lhes  suceda que encontrem amargura e confusão nos gozos que  buscam e  perseguem desordenadamente.&lt;br /&gt;5. E quão breves, quão falsos,  quão  desordenados e torpes são todos os deleites do mundo! Mas os  homens, na  embriaguez e cegueira do espírito, não o compreendem; antes,  como  irracionais, por um diminuto prazer, nesta vida corruptível, dão a  morte  à sua alma. Tu, pois, filho, não sigas teus apetites, renuncia à   própria vontade (Eclo 18,30); deleita-te no Senhor, e ele te dará o  que  teu coração anela (Sl 36,4).&lt;br /&gt;6. Pois, se queres verdadeiras  delícias e  receber de mim consolação abundante, despreza todas as  coisas mundanas e  renuncia a todos os prazeres inferiores, e por  recompensa terás copiosa  consolação. Quanto mais te apartares do prazer  que encontras nas  criaturas, tanto mais suaves e eficazes consolações  em mim acharás. Não o  conseguirás, a princípio, sem alguma tristeza e  trabalho na peleja,  opor-se-á o costume inveterado, mas será vencido  por outro melhor.  Revoltar-se-á a carne, mas o fervor de espírito lhe  porá freio.  Perseguir-te-á a serpente antiga e te molestará, mas tu a  afugentarás  com a oração e, com o trabalho proveitoso, lhe trancarás a  principal  entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XIII&lt;br /&gt;Da obediência e humilde  sujeição, a  exemplo de Jesus Cristo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Filho, quem procura  subtrair-te à  obediência aparta-se também da graça; e quem procura  favores  particulares perde os comuns. Aquele que não se sujeita pronta e  de boa  mente a seu superior, mostra que sua carne não lhe obedece  ainda  prontamente, mas muitas vezes se revolta e resmunga. Aprende,  pois, a  sujeitar-te prontamente a teu superior, se queres subjugar a  própria  carne, porque facilmente se vence o inimigo exterior quando o  homem  interior não está assolado. Pior inimigo e mais perigoso não tem a  alma,  que tu mesmo, quando não obedeces ao espírito. Se queres vencer a  carne  e o sangue, deves compenetrar-te do sincero e absoluto desprezo  de ti  mesmo. Mas porque ainda te amas desordenadamente, por isso te  repugna  sujeitar-te de todo à vontade dos outros.&lt;br /&gt;2. Ora, que muito é  que tu,  que és pó e nada, te sujeites a um homem, por amor de Deus,  quando eu, o  Todo-poderoso e Altíssimo, que criei do nada todas as  coisas, me  sujeitei humilde ao homem, por amor de ti? Fiz-me o mais  humilde e o  último de todos para que venças, com a minha humildade, a  tua soberba.  Aprende, pó, a obedecer; aprende, terra e limo, a  humilhar-te e  curvar-te aos pés de todos. Aprende a quebrantar tua  vontade e a  submeter-te a todos em tudo.&lt;br /&gt;3. Indigna-te contra ti  mesmo; não  toleres em ti desvanecimento algum; mas torna-te tão humilde  e submisso,  que todos te possam pisar e calcar aos pés, qual lama da  rua. Em que  podes, vil pecador, contradizer os que te repreendem, tu,  que ofendeste a  Deus tantas vezes e tantas vezes mereceste o inferno?  Pouparam-te,  porém, meus olhos, porque tual alma é preciosa diante de  mim, para que  conheças meu amor e te conserves grato aos meus  benefícios; para que te  dês&lt;br /&gt;continuamente à verdadeira sujeição e  humildade, sofrendo com  paciência o desprezo dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XIV&lt;br /&gt;Que se devem  considerar os altos juízos de Deus, para não nos  desvanecermos na  prosperidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Trovejam sobre mim, Senhor,  vossos juízos, temem e  tremem meus ossos abalados e minha alma fica de  todo espavorida. Estou  assombrado ao considerar que nem os céus são  puros à vossa vista. Se nos  anjos achastes maldade e não lhes  perdoastes, que será de mim? Caíram  as estrelas do céu, e eu, pó, de  que hei de presumir? Aqueles cujas  obras pereciam louváveis  precipitaram-se no abismo, e vi os que comiam o  pão dos anjos  deleitarem-se com o alimento dos animais imundos.&lt;br /&gt;2.  Não há, pois,  santidade, Senhor, se retirais vossa mão. Não há sabedoria  que  aproveite, se deixais de a governar. Não há fortaleza que valha, se   deixais de a conservar. Não há castidade segura, se deixais de a   defender. Não é proveitosa a própria vigilância, se falta vossa santa   guarda. Desamparados, afundamos logo e perecemos, mas visitados por vós   nos reerguemos e vivemos. Somos, com efeito, inconstantes mas por vós   somos confirmados; somos tíbios, mas vós nos afervorais.&lt;br /&gt;3. Oh! Quão   humilde e baixo conceito devo formar de mim próprio! Em quão pouca  conta  devo ter o bem que possa haver em mim! Quão profunda deve ser a  minha  submissão a vossos insondáveis juízos, Senhor, se outra coisa não  sou  que nada e puro nada! Ó peso imenso! Ó pélago insondável, onde não  acho  outra coisa em mim senão um puro nada! Onde se refugiará, pois, a  minha  soberba? Onde a presunção de alguma virtude? Sumiu-se toda  vanglória na  profundeza dos vossos juízos.&lt;br /&gt;4. Que é toda carne em  vossa presença?  Porventura gloriar-se-á o barro contra quem o formou?  Como se pode  desvanecer com vãos louvores aquele cujo coração está  deveras sujeito a  Deus? Nem o mundo todo é capaz de ensoberbecer aquele  a que a Verdade  subjugou. Nem os louvores de todos os lisonjeiros  poderão mover aquele  em que Deus põe toda a sua esperança. Porque todos  que falam não são  nada, e se esvaecem como som das palavras; ao passo  que a verdade do  Senhor permanece para sempre (Sl 116,2).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XV&lt;br /&gt;Como se  deve haver e falar cada um em seus desejos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho, dize  assim em todas as coisas: Senhor, se for do vosso  agrado, faça-se isto  assim. Senhor, se for para vossa honra, suceda  isto em vosso nome.  Senhor, se vos parecer que me é proveitosa e útil  tal coisa, concedei-ma  para que dela use para vossa glória; mas, se  conheceis que me seria  nociva e sem proveito para minha salvação,  tirai-me tal desejo; porque  nem todo desejo procede do Espírito Santo,  ainda que nos pareça bom e  justo. É dificultoso discernir se te move  espírito bom ou mau, a desejar  isto ou aquilo, ou se te move tua  própria vontade. Muitos se acharam no  fim enganados, que a princípio  pareciam animados de bom espírito.&lt;br /&gt;1.  Qualquer coisa, pois, que se  te afigura desejável, deves sempre  desejá-la e pedir com temor de Deus e  humildade de coração,  particularmente encomendar-me tudo com sincera  resignação, dizendo: Vós  sabeis, Senhor, o que é melhor; faça-se isto  ou aquilo, conforme vossa  vontade. Dai-me o que quiserdes, quanto e  quando quiserdes. Disponde de  mim como entendeis, como mais vos agradar  e para maior glória vossa.  Ponde-me onde quiserdes e disponde de mim  livremente em tudo; estou em  vossas mãos, virai-me e revirai-me segundo  vos parecer. Eis aqui vosso  servo, pronto para tudo; pois não desejo  viver para mim, mas para vós,  oxalá com dignidade e perfeição.&lt;br /&gt;2.  Oração para cumprir a vontade de  Deus:&lt;br /&gt;2. Concedei-me, benigníssimo  Jesus, que a vossa graça esteja  comigo, comigo trabalhe e persevere  comigo até ao fim. Dai-me que deseje  e queira sempre o que mais vos for  aceito e agradável. Vossa vontade  seja a minha, e a minha acompanhe  sempre a vossa e se conforme em tudo  com ela. Tenha eu convosco o mesmo  querer e não querer, de modo que não  possa querer ou não querer, senão  o que vós quereis ou não quereis.&lt;br /&gt;3.  Fazei que eu morra a tudo que é  do mundo, e que deseje ser desprezado e  esquecido neste século, por  vosso amor.&lt;br /&gt;Daí-me que descanse em vós  acima de todos os bens  desejáveis, e repouse em vós o meu coração. Vós  sois a verdadeira paz  do coração e seu único descanso; fora de vós tudo é  inquietação e  desassossego. Nesta paz verdadeira, que sois vós, sumo e  eterno bem,  quero dormir e descansar. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XVI&lt;br /&gt;Que  só em Deus  se há de buscar a verdadeira consolação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Tudo que  posso  desejar ou procurar para meu consolo não o espero nesta vida, mas  na  futura, porque ainda que eu tivesse todas as consolações do mundo e   pudesse fruir todas as suas delícias, certo é que não poderiam durar   muito tempo. Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás achar   consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que consola os pobres e   agasalha os humildes. Espera um pouco, ó minha alma, espera a divina   promessa, e no céu terás todos os bens em abundâncias. Se   desordenadamente desejares os bens presentes, perderás os eternos e   celestes. Usa das coisas temporais, mas deseja as eternas. Não te podes   satisfazer bem algum temporal, porque não foste criada para gozá-los.&lt;br /&gt;2.   Ainda que possuísses todos os bens criados, não poderias ser feliz e   estar contente, porque só em Deus, criador de tudo, consiste tua   bem-aventurança e felicidade; não qual a entendem e louvam os amadores   do mundo, mas como a esperam os bons servos de Cristo, e às vezes   antegozam as pessoas espirituais e limpas de coração, cuja conversação   está nos céus (Flp 3,20). Curto e vão é todo consolo humano; bendita e   verdadeira a consolação que a verdade nos comunica interiormente. O   homem devoto em toda parte traz consigo seu consolador, Jesus, e lhe   diz: Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. Seja, pois, esta a   minha consolação: o carecer voluntariamente de toda consolação humana.  E  se me faltar também vosso consolo, seja para mim vossa vontade, que   justamente me experimenta, a suprema consolação. Porque não dura sempre  a  vossa ira, nem nos ameaçareis eternamente (Sl 102,9).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XVII&lt;br /&gt;Que todo o nosso cuidado devemos entregar a Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, deixa-me fazer contigo o que quero; eu sei o que te   convém. Tu pensas como homem, e julgas em muitas coisas consoante te   persuade o afeto humano.&lt;br /&gt;2. A alma: Senhor, verdade é o que dizeis.   Maior é vossa solicitude por mim, que todo o cuidado que eu comigo possa   ter. Está em grande perigo de cair quem não entrega a vós todos os  seus  cuidados. Fazei de mim, Senhor, tudo o que quiserdes, contanto que   permaneça em vós, reta e firme, a minha vontade. Pois não pode deixar  de  ser bom tudo o que fizerdes de mim. Se quereis que esteja nas  trevas,  bendito sejais; e se quereis que esteja na luz, sede também  bendito. Se  quereis que esteja consolado, sede bendito, e se quereis  que esteja  tribulado, sede igualmente para sempre bendito.&lt;br /&gt;3. Jesus:  Filho,  assim deves pensar, se desejas andar comigo. Tão pronto deves  estar para  sofrer como para gozar; para a pobreza e indigência, como  para a  riqueza e abundância.&lt;br /&gt;4. A alma: Por ti Senhor, sofrerei de  bom grado  tudo que quiserdes que me sobrevenha. De vossa mão quero  aceitar,  indiferentemente, o bem e o mal, as doçuras e as amarguras, as  alegrias e  as tristezas, e quero dar-vos graças por tudo que me  suceder. Livrai-me  de todo pecado, e não temerei nem morte nem inferno.  Contanto que não  me rejeiteis eternamente, não me fará mal qualquer  tribulação que me  sobrevenha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XVIII&lt;br /&gt;Como, a exemplo  de Cristo, se hão  de sofrer com igualdade de ânimo as misérias  temporais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, desci do céu para tua salvação; tomei  tuas misérias, não levado  pela necessidade, mas pelo amor, para  ensinar-te a paciência e a  suportar com resignação as misérias  temporais. Porque, desde a hora do  meu nascimento até à morte na cruz,  nunca estive um instante sem sofrer.  Padeci grande penúria dos bens  terrestres: ouvi muitas vezes grandes  queixas de mim; sofri com  brandura injúrias e opróbrios; recebi, pelos  benefícios, ingratidões,  pelos milagres, blasfêmias, pela doutrina,  repreensões.&lt;br /&gt;2. A alma:  Senhor, já que fostes tão paciente em vossa  vida, cumprindo nisso  principalmente a vontade de vosso Pai, justo é que  eu, mísero pecador,  me sofra a mim com paciência, conforme quereis, e  suporte por minha  salvação o fardo desta vida corruptível. Porque, se  bem que a vida  presente seja pesada, torna-se, contudo, com a vossa  graça, muito  meritória e, com vosso exemplo e o de vossos santos, mais  tolerável e  leve para os fracos. É também muito mais consolada do que  outrora, na  lei antiga, quando a porta do céu estava fechada, e bem  poucos tratavam  de buscar o reino dos céus. Nem os justos sequer e  predestinados  podiam entrar no reino celeste antes da vossa paixão e  resgate da vossa  sagrada morte.&lt;br /&gt;3. Oh! Quantas graças vos devo  render, por vos  terdes dignado mostrar a mim e a todos os fiéis o  caminho direito e  seguro para vosso reino eterno! Porque vossa vida é o  nosso caminho e  pela santa paciência caminhamos para vós, que sois nossa  coroa. Sem  vosso exemplo e ensino, quem cuidaria de vos seguir? Ah!  Quantos  ficariam atrás, bem longe, se não vissem vossos luminosos  exemplos! E  se ainda andamos tíbios, com tantos prodígios e  ensinamentos, que seria  se não tivéssemos tantas luzes para vos seguir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  IXX&lt;br /&gt;Do  sofrimento das injúrias e quem é provado verdadeiro paciente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, que é o que estás dizendo? Deixa de te queixar, em vista   da minha paixão e dos sofrimentos dos santos. Ainda não tens resistido   até derramar sangue. Pouco é o que sofres em comparação do muito que   padeceram eles em tão fortes tentações, tão graves tribulações, tão   várias provações e angústias. Convém, pois que te lembres dos graves   trabalhos dos outros, para que mais facilmente sofras os teus, que são   mais leves. E se te não parecem tão leves, olha, não venha isso de tua   impaciência. Contudo, sejam graves ou leves, procura levá-los todos com   paciência.&lt;br /&gt;2. Quanto melhor te dispões para padecer, tanto mais   paciente serás em tuas ações e maiores merecimentos ganharás; com a   resignação e a prática torna-se também mais suave o sofrimento. Não   digas: não posso sofrer isto daquele homem, nem estou para aturar tais   coisas, pois me fez grave injúria e me acusa de coisas que jamais   imaginei; de outros sofreria facilmente, quanto julgasse que devia   sofrer. Insensato é semelhante pensar, pois não considera a virtude da   paciência nem olha àquele que há de coroá-la, mas só atende às pessoas e   às ofensas recebidas.&lt;br /&gt;3. Não é verdadeiro sofredor quem só quer   sofrer quanto lhe parece e de quem lhe apraz. O verdadeiro paciente   também não repara em quem exercita a paciência; se for seu superior, ou   igual, ou inferior, se for homem bom e santo, ou mau e perverso. Mas,   sem diferença de pessoa, sempre que lhe sucede qualquer adversidade,   aceita-a gratamente da mão de Deus e a considera um grande lucro para   sua alma. Porque aos olhos de Deus qualquer coisa, por insignificante   que seja, que soframos por amor dele terá seu merecimento.&lt;br /&gt;4.   Aparelha-te, pois, para o combate, se queres a vitória. Sem peleja não   podes chegar à coroa da vitória. Se não queres sofrer, renuncia à coroa;   mas, se desejas ser coroado, luta varonilmente e sofre com paciência.   Sem trabalho não se consegue o descanso e sem combate não se alcança a   vitória.&lt;br /&gt;5. A alma: Tornai-me, Senhor, possível, pela graça, o que  me  parece impossível pela natureza. Vós bem sabeis quão pouco sei  sofrer, e  que logo fico desanimado com a menor contrariedade. Tornai-me  amável e  desejável qualquer prova e aflição, por vosso amor, porque o  padecer e  penar por vós é muito proveitoso à minha alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XX&lt;br /&gt;Da  confissão da própria fraqueza, e das misérias desta vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  A  alma: Confesso contra mim mesmo minha maldade (Sl 31,5), confesso,   Senhor, minha fraqueza. Muitas vezes a menor coisa basta para me abater e   entristecer. Proponho agir valorosamente, mas assim que me sobrevém  uma  pequena tentação, vejo-me em grandes apuros. Às vezes é de uma  coisa  mesquinha que me vem grave aflição. E quando me julgo algum tanto   seguro, vejo-me, não raro, vencido por um sopro, quando menos o penso.&lt;br /&gt;2.   Olhai, pois, Senhor, para esta minha baixeza e fragilidade, que   conheceis perfeitamente. Compadecei-vos de mim e tirai-me da lama, para   que não fique atolado (Sl 68,18) e arruinado para sempre. É isto que a   miúdo me atormenta e confunde em vossa presença: o ser eu tão inclinado  a  cair, e tão fraco a resistir às paixões. E embora não me levem ao  pleno  consentimento, muito me molestam e afligem seus assaltos, e muito  me  enfastia o viver sempre nesta peleja. Nisto conheço minha fraqueza,  que  mais depressa me vem do que se vão essas abomináveis fantasias da   imaginação.&lt;br /&gt;3. Ó poderosíssimo Deus de Israel, zelador das almas   fiéis, olhai para os trabalhos e dores de vosso servo, e assisti-lhe em   todos os seus empreendimentos! Confortai-me com a força celestial, para   que não me vença e domine o homem velho, a mísera carne, ainda não   inteiramente sujeita ao espírito, contra a qual será necessário pelejar   enquanto estiver nesta miserável vida. Ai! que vida é esta, em que  nunca  faltam as tribulações e misérias, em que tudo está cheio de  inimigos e  ciladas! Porque mal acaba um tribulação ou tentação, outra  já se  aproxima, e até antes de acabar um combate, muitos outros já  sobrevêm, e  inesperados.&lt;br /&gt;4. E como se pode amar uma vida cheia de  tantas  amarguras, sujeita a tantas calamidades e misérias? Como se pode  chamar  vida o que gera tantas mortes e desgraças? E, não obstante,  muitos amam e  procuram nela deleitar-se. Muitos acoimam o mundo de  enganador e vão, e  ainda assim lhes custa deixá-lo, porque se deixam  dominar pelos  apetites da carne. Muitas coisas nos inclinam a amar o  mundo, outras a  desprezá-lo. Fazem amar o mundo a concupiscência da  carne, a  concupiscência dos olhos e a soberba da vida; mas as penas e  as misérias  que estas coisas se seguem geram o ódio e aborrecimento do  mundo.&lt;br /&gt;5.  Infelizmente, o vil deleite vence a alma mundana, que  julga delícia o  estar em meio dos espinhos (Jó 30,7), porque nunca viu  nem provou a  doçura de Deus, nem a intrínseca suavidade da virtude. Mas  aqueles que  perfeitamente desprezam o mundo e procuram viver para  Deus, em santa  disciplina, experimentam a doçura divina, e mais  claramente conhecem os  erros grosseiros do mundo e seus vários enganos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXI&lt;br /&gt;Como  se deve descansar em Deus sobre todos os bens e dons&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  A alma: Ó  minha alma, em tudo e acima de tudo descansa sempre no  Senhor, porque  ele é o eterno repouso dos santos. Daí-me, ó dulcíssimo e  amantíssimo  Jesus, que eu descanse em vós mais que em toda criatura;  mais que na  saúde e formosura; mais que na glória e honra, no poder e  dignidade;  mais que em toda ciência e sutileza; mais que em todas as  riquezas e  artes; mais que na alegria e no divertimento; mais que na  fama e no  louvor; mais que nas doçuras e consolações, esperanças e  promessas,  desejos e méritos; mais que em todos os dons e dádivas que  me podeis dar  e infundir; mais que em todo gozo e alegria que minha  alma possa  experimentar e sentir; finalmente, mais que nos anjos e  arcanjos e todo o  exército celeste; acima de todo o visível e  invisível, acima, enfim, de  tudo aquilo que vós, meu Deus, não sois.&lt;br /&gt;2.  Porquanto vós, meu Deus,  sois bom acima de todas as coisas. Só vós  sois altíssimo, só vós  poderosíssimo, só vós suficientíssimo e  pleníssimo, só vós suavíssimo e  verdadeiro consolador, só vós  formosíssimo e amantíssimo, só vós  nobilíssimo e gloriosíssimo sobre  todas as coisas, em quem se olham, a  um tempo e plenamente, todos os  bens passados, presentes e futuros. Por  isso é mesquinho e insuficiente  tudo quanto fora de vós mesmo me dais,  revelais ou prometeis, enquanto  vos não vejo e possuo inteiramente;  porque meu coração não pode  descansar verdadeiramente, nem estar  totalmente satisfeito a não ser em  vós, acima de todos os dons e de  todas as criaturas.&lt;br /&gt;3. Ó meu  Jesus, esposo diletíssimo, amante  puríssimo, senhor absoluto de toda a  criação, quem me dera às asas da  verdadeira liberdade para voar e  repousar em vós! Oh! Quando me será  concedido ocupar-me totalmente de  vós e experimentar vossa doçura,  Senhor meu Deus! Quando estarei tão  perfeitamente recolhido em vós, que  não me sinta a mim mesmo por vosso  amor, mas só a vós, acima de toda  sensação e medida, que nem todos  conhecem! Agora, porém, não cesso de  gemer, e levo, cheio de dor, o  peso de minha infelicidade; pois neste  vale de lágrimas sucedem tantos  males, que muitas vezes me perturbam,  entristecem e anuviam a alma;  outras vezes me embaraçam, distraem,  atraem e emaranham, para me  impossibilitar vosso acesso e me privar das  doces carícias, que gozam  sempre os espíritos bemaventurados! Deixai-vos  enternecer por meus  suspiros e tantas amarguras que padeço nesta terra.&lt;br /&gt;4.  Ó Jesus,  esplendor da eterna glória, consolo da alma desterrada, diante  de vós  emudece minha boca e meu silêncio vos fala: Até quando tardará a  vir o  meu Senhor? Venha a este seu servo pobrezinho, trazer-lhe  alegria;  estenda-lhe a mão e livre este miserável de toda angústia.  Vinde,  vinde, porque sem vós não posso ter nem um dia, nem uma hora  feliz,  pois vós sois minha alegria, e sem vós está vazio meu coração.   Miserável sou, como que preso e carregado de grilhões, enquanto me não   recreeis com a luz de vossa presença e me deis a liberdade, mostrando-me   benigno semblante.&lt;br /&gt;5. Busquem outros o que quiserem em lugar de  vós,  a mim nenhuma coisa me há de agradar jamais, senão, vós, meu Deus,   minha esperança e salvação eterna. Não calarei, nem cessarei de orar,   até que volte vossa graça, e vós me faleis no interior.&lt;br /&gt;6. Jesus:   Aqui me tens, venho a ti, porque me chamaste. Moveram-me tuas lágrimas e   os desejos de tua alma; a humildade e a contrição do teu coração me   trouxeram a ti.&lt;br /&gt;7. A Alma: Eu disse: Chamei-vos, Senhor, e desejei   gozar-vos, disposto a desprezar tudo por vosso amor, que vós primeiro me   inspirastes buscar-vos. Sede, pois, bendito, Senhor, pela bondade que   usais para com vosso servo, segundo vossa infinita misericórdia. Que   mais pode fazer vosso servo em vossa presença, senão humilhar-se   profundamente diante de vós, e lembrar-se sempre de sua maldade e   vileza? Pois nada há semelhante a vós, entre todas as maravilhas do céu e   da terra. Vossas obras são perfeitíssimas, vossos juízos verdadeiros, e   vossa providência governa todas as coisas. Louvor e glória, pois, a   vós, ó Sabedoria do Pai, minha boca vos louva e minha alma vos   engrandece, juntamente com todas as criaturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXII&lt;br /&gt;Da   recordação dos inumeráveis benefícios de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma: Abri,   Senhor, meu coração à vossa lei, e ensinai-me o caminho de vossos   preceitos. Fazei-me compreender a vossa vontade, e com grande reverência   e diligente consideração rememorar os vossos benefícios, gerais ou   particulares, para assim render-vos por eles as devidas graças. Bem sei e   confesso que nem pelo menor benefício vos posso render condignos   louvores e agradecimentos. Eu me reconheço inferior a todos os bens que   me destes, e quando considero vossa majestade, abate-se meu espírito  com  o peso de vossa grandeza.&lt;br /&gt;2. Tudo o que temos, na alma e no  corpo,  todos os bens que possuímos, internos e externos, naturais e   sobrenaturais, todos são benefícios vossos, e outras tantas provas de   vossa bondade, liberalidade e muníficência, que de vós todos os bens   recebemos. E ainda que este receba mais e outros menos, tudo é vosso, e   sem vós ninguém pode alcançar a menor coisa. E aquele que recebeu mais   não pode gloriar-se de seu merecimento, nem elevar-se acima dos outros,   nem desprezar o menor; porque só é maior e melhor aquele que menos   atribui a si, e é mais humilde e fervoroso em vos agradecer. E quem se   considera mais vil e se julga o mais indigno de todos é o mais apto para   receber maiores dons.&lt;br /&gt;3. O que, porém, recebeu menos não deve   afligir-se, nem queixar-se, nem ter inveja do mais rico; olhará, ao   contrário, para vós, e louvará vossa bondade, que tão copiosa e   liberalmente prodigalizais vossas dádivas, sem acepção de pessoas. De   vós nos vêm todas as coisas; por todas, pois, deveis ser louvado. Vós   sabeis o que é conveniente dar a cada um, e não nos pertence indagar por   que este tem menos, aquele mais; só vós podeis avaliar os merecimentos   de cada um.&lt;br /&gt;4. Por isso, Senhor meu Deus, considero como grande   benefício o não ter eu muitas coisas que trazem a glória exterior e os   humanos louvores. Portanto, ninguém, à vista de sua pobreza e da vileza   de sua pessoa, deve conceber, por isso, desgosto, tristeza ou  desalento,  senão grande alegria e consolo, porque vós, Deus meu,  escolheste por  vossos particulares e íntimos amigos os pobres, os  humildes e os  desprezados deste mundo. Testemunho disto são vossos  apóstolos, a quem  constituístes príncipes sobre a terra. Todavia,  viveram neste mundo tão  sem queixa, tão humildes e com tanta singeleza  da alma, tão sem malícia  ou dolo, que se alegravam de sofrer  contumélias por vosso nome, e com  grande afeto abraçavam o que o mundo  aborrece.&lt;br /&gt;5. Nada, pois, deve  alegrar tanto aquele que vos ama e  reconhece vossos benefícios, como ver  executar-se a seu respeito vossa  vontade e o beneplácito de vossas  eternas disposições. Tanto deve com  isto estar contente e satisfeito,  que queira de tão boa vontade ser o  menor, como outro desejaria ser o  maior; e tão sossegado e contente  deve estar no último como no primeiro  lugar, tão satisfeito em ser  desprezado e abatido, sem nome nem  reputação, como se fosse o mais  honrado e estimado no mundo. Porque a  vossa vontade e o amor de vossa  honra deve ser anteposto a tudo, e deve  consolar e agradar mais ao  vosso servo, que todos os dons presentes ou  futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXIII&lt;br /&gt;Das quatro coisas que produzem grande  paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, vou agora te ensinar o caminho da paz e da  verdadeira liberdade.&lt;br /&gt;2.  A alma: Fazei, Senhor, o que dizeis, que  muito grato me é ouvi-lo.&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho, trata de fazer antes a  vontade alheia que a tua. Prefere  sempre ter menos que mais. Busca  sempre o&lt;br /&gt;2. último lugar e  sujeita-te a todos. Deseja sempre e roga  que se cumpra plenamente em ti  a vontade de Deus. O homem que assim  procede penetra na região da paz e  do descanso.&lt;br /&gt;3. A alma: Senhor,  este vosso discurso é breve, mas  encerra muita perfeição. Poucas são as  palavras, cheias, porém, de  sabedoria e de copioso fruto. Se eu as  praticasse fielmente, não me  deixaria perturbar com tanta facilidade.  Pois, todas as vezes que me  sinto inquieto e aflito, verifico que me  desviei desta doutrina. Vós,  porém, que tudo podeis e desejais sempre o  progresso da alma, aumentai  em mim a graça, para que possa guardar  vossos ensinamentos e levar a  efeito minha salvação.&lt;br /&gt;4. Oração contra  os maus pensamentos:&lt;br /&gt;3.  Senhor, meu Deus, não vos aparteis de mim,  meu Deus dignai-vos  socorrer-me (Sl 70,13). Pois me invadem vários  pensamentos, e grandes  temores afligem minha alma. Como escaparei ileso,  como poderei  vencê-los?&lt;br /&gt;4. Diante de ti, são palavras vossas, irei  eu e  humilharei os soberbos da terra (Is 14,1); abrir-te-ei as portas do   cárcere e te revelarei mistérios recônditos.&lt;br /&gt;1. Fazei Senhor,   conforme dizeis e dissipe vossa presença todos os maus pensamentos. Esta   é a minha única esperança e consolação: a vós recorrer em toda   tribulação, em vós confiar, invocar-vos de todo o coração e com   paciência aguardar a vossa consolação. Amém.&lt;br /&gt;2. Oração para pedir o   esclarecimento do espírito:&lt;br /&gt;5. Iluminai-me, ó bom Jesus, com a   claridade da luz interior e dissipai todas as trevas que reinam em meu   coração. Refreai as dissipações nocivas e rebatei as tentações, que me   fazem violência. Pelejai valorosamente por mim, e afugentai as más   feras, essas traiçoeiras concupiscências, para que se faça a paz por   vossa virtude, e ressoe perene louvor no templo santo, que é a   consciência pura. Mandai aos ventos e às tempestades; dizei ao mar:   aplaca-te, e ao tufão: não sopres; e haverá grande bonança.&lt;br /&gt;6. Enviai   vossa luz e vossa verdade (Sl 42,3), para que resplandeçam sobre a   terra; porque sou terra vazia e estéril, enquanto não me iluminais.   Derramai sobre mim vossa graça e banhai o meu coração com o orvalho   celestial; abri as fontes de devoção, que reguem a face da terra, para   que produza frutos bons e perfeitos. Erguei meu espírito abatido pelo   peso dos pecados e dirigi meus desejos paras as coisas do céu, para que,   antegozando a doçura da suprema felicidade, me aborreça em pensar nas   coisas da terra.&lt;br /&gt;7. Desprendei-me e arrancai-me de toda transitória   consolação das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode consolar-me   plenamente ou satisfazer meus desejos. Uni-me convosco pelo vínculo   indissolúvel do amor, porque só vós bastais a quem vos ama, e sem vós   tudo o mais é vaidade. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXIV&lt;br /&gt;Como se deve evitar   a curiosa inquirição da vida alheia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, não sejais   curioso, nem te preocupes com cuidados inúteis. Que tens tu com isto  ou  aquilo? Segue-me. Pois que te importa saber se fulano é assim ou  assim  ou se sicrano procede e fala deste ou daquele modo? Tu não és   responsável pelos outros, mas de ti mesmo deves dar conta; por que,   pois, te intrometes naquilo? Eu conheço a todos e vejo tudo que se faz   debaixo do sol; sei como cada um procede, o que pensa e quer, e a que   fim tende sua intenção. Deixa, pois, tudo ao meu cuidado, conserva-te em   santa paz e deixa o inquieto agitar-se quando quiser. Sobre ele  recairá  tudo o que fizer ou disser, porque não me pode enganar.&lt;br /&gt;2.  Não te  preocupes da sombra dum grande nome, nem da familiaridade de  muitos, nem  de amizade particular dos homens. Pois tudo isso gera  distrações e  grande perplexidade ao coração. Eu não duvidaria falar-te e  descobrir-te  os meus segredos, se atento esperasses minha chegada e me  abrisses a  porta de teu coração. Sê cauteloso, vigia na oração, e  humilha-te em  todas as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXV&lt;br /&gt;Em que consiste a  firme paz do  coração e o verdadeiro aproveitamento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, eu disse a  meus discípulos: Eu vos deixo a paz; dou-vos a minha  paz; não vo-la dou  como a dá o mundo (Jo 14,27). Todos desejam a paz,  mas nem todos buscam  as coisas que produzem a verdadeira paz. A minha  paz está com os  humildes e mansos de coração. Na muita paciência  encontrarás a tua paz.  Se me ouvires e seguires a minha voz, poderás  gozar grande paz.&lt;br /&gt;2. A  alma: Que hei de fazer, pois, Senhor?&lt;br /&gt;3.  Jesus: Em tudo olha bem o  que fazes e dizes, e dirige toda a tua  intenção só para meu agrado, sem  desejar ou buscar coisa alguma fora de  mim. Não julgues temerariamente  das palavras e obras dos outros, nem  te intrometas em coisas que não te  dizem respeito; deste modo poderá  ser que pouco ou raras vezes te  perturbes.&lt;br /&gt;4. Nunca sentir, porém,  inquietação, nem sofrer moléstia  alguma do corpo ou do espírito, não é  próprio da vida presente, senão do  estado do eterno descanso. Não  julgues, pois, ter achado a verdadeira  paz, se não sentires nenhuma  aflição; nem que tudo está bem, se não  tiveres nenhum adversário, ou  tudo perfeito, se tudo correr a teu gosto.  Nem penses que és grande  coisa ou singularmente amado por Deus, se  sentes muita devoção e  doçura, porque não são estes os sinais pelos  quais se conhece o  verdadeiro amante da virtude, nem consiste nisso o  aproveitamento e a  perfeição do homem.&lt;br /&gt;5. A alma: Em que consiste,  pois, Senhor?&lt;br /&gt;6.  Jesus: Em te ofereceres de todo o teu coração à  divina vontade, sem  buscares o teu próprio interesse em coisa alguma,  nem eterna; de sorte  que com igualdade de ânimo dês graças a Deus na  ventura e na desgraça,  pesando tudo na mesma balança. Se fores tão forte  e constante na  esperança que, privado de toda consolação interior,  disponhas teu  coração para maiores provações, sem te justificares, como  se não  deveras sofrer tanto, e antes louvares a santidade e a justiça em  todas  as minhas disposições, então andarás no verdadeiro e reto caminho  da  paz e poderás ter certíssima esperança de contemplar novamente minha   face com júbilo. E, se chegares ao perfeito desprezo de ti mesmo, fica   sabendo que então gozarás da abundância da paz, no grau possível nesta   peregrinação terrestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXVI&lt;br /&gt;Excelência da liberdade   espiritual, à qual se chega antes pela oração humilde que pela leitura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   A alma: Senhor, é próprio do varão perfeito: nunca perder de vista as   coisas celestiais, e passar pelos mil cuidados, como que sem cuidado,   não por indolência, mas por um privilégio duma alma livre, que não se   apega, com desordenado afeto, a criatura alguma.&lt;br /&gt;2. Peço-vos, ó meu   benigníssimo Deus! Preservai-me dos cuidados desta vida, para que não me   embarace demasiadamente neles; das muitas necessidades do corpo, para   que não me escravize a sensualidade; e de todas as perturbações da  alma,  para que não me desalente sob o peso das angústias. Não falo das  coisas  que a vaidade humana busca tão empenhadamente, mas das misérias  que,  pela maldição comum de todos os mortais, penosamente oprimem a  alma de  vosso servo, e a impedem de elevar-se à liberdade perfeita de  espírito,  sempre que o quiser.&lt;br /&gt;3. Ó meu Deus, doçura inefável!  Convertei-me em  amargura toda consolação carnal, que me aparta do amor  das coisas  eternas e me fascina pelo encanto de um prazer momentâneo.  Não me vença,  Deus meu, não me vença a carne e o sangue; não me seduza o  mundo, com  sua glória passageira; não me faça cair o demônio, com sua  astúcia.  Daí-me força para resistir, paciência para sofrer, constância  para  perseverar. Daí-me, em lugar de todas as consolações do mundo, a   suavíssima unção do vosso espírito e, em lugar do amor terrestre,   infundi-me o amor de vosso nome!&lt;br /&gt;4. O comer, o beber, o vestir e   outras coisas necessárias ao corpo são um peso para a alma fervorosa.   Concedei-me usar com moderação de tais lenitivos, sem me prender a eles   com demasiado afeto. Não é lícito rejeitar tudo, pois devemos sustentar  a  natureza; mas buscar as coisas supérfluas e o que mais delicia,   proíbe-o vossa santa lei, porque de outro modo a carne se rebelará   contra o espírito. Entre estes dois extremos, Senhor, peço-vos que me   dirijas e governes na vossa mão, para que não pratique algum excesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XXVII&lt;br /&gt;Como o amor-próprio afasta no máximo grau do sumo bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, cumpre que dês tudo por tudo, sem reservar-te a ti  mesmo.  Fica sabendo que teu amor-próprio te prejudica mais que qualquer  coisa  do mundo. Cada objeto mais ou menos te prende, segundo o amor e  afeto  que lhe tens. Se teu amor for puro, simples e bem ordenado, de  nenhuma  coisa serás escravo. Não cobices o que não te é lícito possuir,  nem  possuas coisa alguma que te possa impedir a liberdade interior ou  dela  privar-te. É de estranhar que te não entregues a mim, do íntimo do  teu  coração, com tudo que possas ter ou desejar.&lt;br /&gt;2. Por que te  consomes  em vã tristeza? Por que te afanas em cuidados supérfluos?  Conforma-te  com a minha vontade e nenhum dano sofrerás. Se buscares  isto ou aquilo,  se desejares estar aqui ou ali, por tua comodidade ou  teu capricho,  nunca estarás quieto, nem livre de cuidados, porque em  todas as coisas  há algum defeito, e em todo lugar quem te contrarie.&lt;br /&gt;1.  De nada te  serve, pois, adquirir ou acumular bens exteriores, mas  muito te  aproveita desprezá-los e desarraigá-los do coração. Isso não  se entende  somente do dinheiro e das riquezas, senão também da ambição  das honras, e  do desejo de vãos louvores porque tudo isso passa com o  mundo. Pouco  resguarda o lugar, se falta o espírito de fervor; nem  durará muito tempo  aquela paz procurada fora, se faltar ao teu coração o  verdadeiro  fundamento. Isto é, se não se firmar em mim. Mudar tu  podes, mas não  melhorar, porque, chegada a ocasião, e aceitando-a,  encontrarás de novo  aquilo de que fugiste e pior ainda.&lt;br /&gt;2. Oração  para implorar a limpeza  do coração e sabedoria celestial:&lt;br /&gt;3.  Confirmai-me Senhor, pela graça  do Espírito Santo. Confortai em mim o  homem interior e livrai meu  coração de todo cuidado inútil e de toda  ansiedade, para que não me  deixe seduzir pelos vários desejos das  coisas terrenas, sejam vis ou  preciosas, mas para que as considere  todas como transitórias, e me  lembre que eu mesmo sou passageiro, como  elas: Pois nada há estável  debaixo do sol, onde tudo é vaidade e  aflição de espírito (Ecle 1,14).  Como é sábio quem assim pensa!&lt;br /&gt;4.  Dai-me, Senhor, sabedoria  celestial, para que aprenda a buscar-vos, e  achar-vos, antes que tudo, a  gostar-vos e amarvos acima de tudo, e a  compreender todas as coisas  como são, segundo a ordem de vossa  sabedoria. Dai-me prudência, para  afastar-me do lisonjeiro, e paciência  para suportar a quem me contraria.  Porque é grande sabedoria não se  deixar mover por todo sopro de  palavras, nem prestar ouvidos aos  traiçoeiros encantos da sereia; pois  só deste modo prossegue a alma com  segurança no caminho começado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXVIII&lt;br /&gt;Contra as  línguas maldizentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Filho, não te aflijas  se alguém fizer de  ti mau conceito ou disser coisas que não gostas de  ouvir. Pior ainda  deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais  imperfeito de todos. Se  praticares a vida interior, pouco te importarás  de palavras que voam. É  grande prudência calar-se nas horas da  tribulação, volver-se  interiormente a mim, e não se perturbar com os  juízos humanos.&lt;br /&gt;2.  Não faças depender tua paz da boca dos homens;  porque, quer julguem  bem, quer mal de ti, não serás por isso homem  diferente. Onde está a  verdadeira paz e a glória verdadeira? Porventura  não está em mim? Quem  não procura agradar aos homens, nem teme  desagradar-lhes, esse gozará  grande paz. É do amor desordenado e do vão  temor que nascem o  desassossego do coração e a distração dos sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   IXXX&lt;br /&gt;Como, durante a tribulação, devemos invocar a Deus e bendizê-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   A alma: Senhor, bendito seja para sempre o vosso nome! Pois quisestes   que me sobreviesse esta tentação e este trabalho. Não lhes posso fugir,   mas tenho necessidade de recorrer a vós, para que me ajudeis e tudo   convertais em meu proveito. Eis-me, Senhor, na tribulação, com o coração   aflito; e quanto me atormenta o presente sofrimento. Pois que direi eu   agora, Pai amantíssimo? Apertado estou entre angústias: "Salvai-me  nesta  hora. Veio sobre mim este transe, só para que vós fôsseis  glorificado  (Jo 12,17), quando eu estivesse muito abatido e fosse por  vós livrado".  "Dignai-vos, Senhor, livrar-me" (Sl 39,14); pois, pobre  de mim, que  farei e aonde irei, sem nós? Daí-me, Senhor, paciência  ainda por&lt;br /&gt;2.  esta vez. Socorrei-me, Deus meu, e não temerei, por  mais que seja  atribulado.&lt;br /&gt;2. E que direi em tamanha necessidade?  Senhor, seja feita  a vossa vontade. Bem mereço ser atribulado e  angustiado. Convém-me  sofrer, e oxalá seja com paciência, até que passe  a tempestade e volte a  bonança. Bastante poderosa é, entretanto, vossa  mão onipotente para  tirar-me esta tentação, e moderar-lhe a violência,  a fim de que não  sucumba de todo; assim como já tantas vezes tendes  feito comigo, ó meu  Deus e minha misericórdia. E quanto mais difícil  para mim, tanto mais  fácil para vós é esta mudança da destra do  Altíssimo (Sl 76,11).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXX&lt;br /&gt;Como se há de pedir o  auxílio divino e confiar para recuperar a  graça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho,  eu sou o Senhor, que te conforta no dia da  tribulação (Na 1,7). Vem a  mim quando te achares aflito. O que mais te  impede de receber a  consolação é que tarde recorres à oração. Antes que  ores com atenção,  procuras consolar-te, recreando-te com vários  divertimentos exteriores.  Daqui vem que pouco proveito tiras de tudo,  até que conheças que sou  eu quem salva do perigo os que em mim esperam, e  que fora de mim não há  auxílio valioso, nem conselho útil, nem remédio  durável. Uma vez,  porém, que recobraste alento depois da tempestade,  procura readquirir  forças à luz das minhas misericórdias; pois estou  perto, diz o Senhor,  para tudo restaurar, não só com integridade, mas  também com abundância e  profusão.&lt;br /&gt;2. Porventura há para mim alguma  coisa dificultosa (Jer  32,37), ou sou semelhante àquelas que dizem e não  fazem? Onde está a  tua fé? Tem firmeza e segurança! Mostra-te corajoso e  magnânimo, e a  seu tempo te virá a consolação. Espera por mim, espera!  Virei e te  curarei. É tentação o que te atormenta, é temor vão o que te  assusta.  Que ganhas com a solicitude de um futuro contingente, senão que  tenhas  tristeza sobre tristeza? A cada dia basta seu fardo (Mt 6,34).  Coisa vã  e inútil é entristecer-se ou regozijar-se com as coisas  futuras, que  talvez nunca venham a realizar-se.&lt;br /&gt;3. É próprio do homem  deixar-se  iludir por tais imaginações, mas é sinal de pouco ânimo ceder  tão  facilmente às sugestões do inimigo. A ele pouco importa se é por  meios  verdadeiros ou falsos que te seduz e engana, se é com amor dos  bens  presentes, ou com o temor dos males futuros que te deita a perder.  "Não  se perturbe, pois, teu coração, nem se amedronte" (Jo 14,27). Crê  em  mim, e tem confiança em minha misericórdia. Quando te julgas muito   longe de mim, mais perto estou, às vezes, de ti. Quando pensas que está   tudo quase perdido, muitas vezes está próxima a ocasião de granjeares   maior merecimento. Nem tudo está perdido, por te acontecer alguma   contrariedade. Não julgues pela impressão do momento, nem te aflijas com   qualquer tribulação, venha donde vier, como se não houvesse esperança   de remédio.&lt;br /&gt;4. Não te julgues inteiramente desamparado, ainda  quando,  de tempos a tempos, te mando alguma tribulação ou te privo de  alguma  consolação desejada; porque é este o caminho por onde se vai ao  reino  dos céus. E isto, sem dúvida, convém mais a ti e a todos os meus  servos,  serdes exercitados nas adversidades, do que se tudo vos  sucedesse à  vossa vontade. Eu conheço os pensamentos escondidos, e sei  que muito  importa à tua salvação seres, às vezes, privado de toda  consolação  espiritual, para que não te exalte o bom progresso e te  desvaneças do  que não és. O que dei posso tirar, e dar de novo, quando  me aprouver.&lt;br /&gt;5.  É sempre meu o que dou, e quando o tiro; não tomo  coisa tua, pois "de  mim procede qualquer dádiva boa de todo dom  perfeito" (Tg 1,17). Se eu  te enviar qualquer pena ou contrariedade,  não te revoltes nem desfaleça  teu coração; eu posso num momento  aliviar-te e transformar tua mágoa em  alegria. Todavia, procedendo eu  assim para contigo, sou justo e digno de  louvor.&lt;br /&gt;6. Se refletires  bem e julgares as coisas segundo a verdade,  não deves afligir-te tanto  com a adversidade, nem desanimar, mas, ao  contrário, alegrar-te e  dar-me graças. Até deve ser tua única alegria  que eu te aflija com  dores, sem poupar-te. Assim como meu Pai me amou,  também eu vos amo a  vós (Jo 15,19), disse eu a meus diletos discípulos,  e, entretanto, não  os enviei às delícias temporais, mas às grandes  pelejas, não às honras,  mas aos desprezos, não aos passatempos, mas sim a  produzir fruto  copioso na paciência. Meu filho, lembra-te bem destas  palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXXI&lt;br /&gt;Do desprezo de toda criatura, para que  se possa achar o  Criador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma: Senhor, muita graça ainda me  é necessária  para chegar a tal ponto, que nenhum homem nem criatura  alguma me possa  estorvar. Pois, enquanto me detém alguma coisa, não  posso voar à vós  livremente. Aspirava a esta liberdade o profeta, quando  dizia: Quem me  dera asas como a pomba, para poder voar e descansar! (Sl  54,7). Que há  de mais sereno que o olhar singelo, e quem é mais livre  que o homem sem  desejo terrestre? Por isso importa elevares-te acima de  todas as  criaturas, e renunciares totalmente a ti mesmo, e naquele  arroubo da  alma perseverares e compreenderes que&lt;br /&gt;o Autor de todas as  coisas não  tem semelhança com as criaturas. E quem não estiver  desprendido das  criaturas, não poderá livremente atender às coisas  divinas. Por isso se  encontram tão poucos contemplativos, porque raros  são os que sabem  desapegar-se de todo das coisas perecedoras.&lt;br /&gt;1. Para  isso é mister  graça poderosa, que levante a alma e a arrebate acima de  si mesma.  Enquanto o homem não for elevado em espírito, livre de todas  as  criaturas e todo unido a Deus, pouco vale quanto sabe e quanto  possui.  Imperfeito permanecerá por muito tempo e preso à terra quem algo   estimar que não seja o único, imenso e terno Bem. Porque tudo que não é   Deus é nulo, e deve ser tido em conta de nada. Há grande diferença   entre a sabedoria de um homem iluminado e devoto e a ciência de um   letrado e estudioso. Muito mais nobre é a doutrina que vem do céu, por   inspiração divina, do que aquilo que o engenho humano adquire à custa de   muito esforço.&lt;br /&gt;2. Muitos há que desejam a vida contemplativa, mas   não tratam de exercitar-se nas coisas que ela exige. O grande obstáculo é   que se detêm nos sinais e coisas sensíveis, cuidando pouco da perfeita   mortificação. Não sei o que é, nem que espírito nos move, nem que   pretendemos nós que passamos por homens espirituais quando empregamos   tanto trabalho e cuidado nas coisas vis e transitórias, ao passo que   raras vezes nos recolhemos plenamente a considerar nosso interior.&lt;br /&gt;3.   Ai! Que, depois de curto recolhimento, logo nos dissipamos, sem   ponderar nossas ações em rigoroso exame. Não reparamos para onde se   inclinam nossos afetos, nem deploramos quão defeituoso é tudo em nós.   Por ter corrompido toda a carne o seu caminho (Gên 6,12), veio o grande   dilúvio. Estando, pois, corrompido o nosso afeto interior, forçosamente   se há de corromper a ação que dele se segue, patenteando bem a  fraqueza  interior. Só do coração puro procede o fruto da boa vida.&lt;br /&gt;4.  Muitos  indagam quanto fez uma pessoa, mas de quanta virtude foi  animada nem  tanto se cura. Com diligência investigam se alguém é forte,  rico,  formoso, hábil, bom escritor, bom cantor, bom artista; mas quão  pobre  seja de espírito, quão paciente e manso, quão piedoso e  espiritual,  disso não se faz caso. A natureza só considera o exterior  do homem, mas a  graça olha o interior. Aquela muitas vezes se engana,  esta espera em  Deus, para não ser iludida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXXII&lt;br /&gt;Da  abnegação de si  mesmo e abdicação de toda cobiça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, não podes gozar  perfeita liberdade, enquanto não renunciares  inteiramente a ti mesmo.  Em escravidão vivem todos os ricos e egoístas,  os cobiçosos, curiosos,  que gostam de vaguear, buscando sempre as  delícias dos sentidos e não as  de Jesus Cristo, mas só imaginam o que  não pode permanecer e só disso  cogitam. Pois tudo que não vem de Deus  perecerá. Conserva em teu coração  esta breve e profunda sentença: Deixa  tudo, e terás sossego. Pondera  isto, e, quando o praticares, tudo  entenderás.&lt;br /&gt;2. A alma: Senhor,  isto não é obra de um dia, nem  brincadeira de criança, antes nesta breve  palavra se compendia toda a  perfeição religiosa.&lt;br /&gt;3. Jesus: Filho,  não deves recear, nem logo  desanimar, ouvindo falar do caminho dos  perfeitos, mas antes esforça-te  por um estado mais perfeito, ou pelo  menos almeja-o ardentemente.  Oxalá fosses assim e tivesses chegado a  tanto, que não te amasses a ti  mesmo, mas estivesses inteiramente  resignado à minha vontade e à  daquele que te dei por diretor. Muito me  agradarias, então, e toda a  tua vida passaria em paz e alegria. Ainda  tens que desprender-te de  muitas coisas, e se não mas entregares  inteiramente, não alcançarás o  que me pedes. "Aconselho-te que me  compres o ouro acrisolado, para te  tornares rico" (Apc 3,18), isto é, a  sabedoria celestial, que pisa aos  pés todas as coisas terrenas. Despreza  a sabedoria terrena, todo o  humano contentamento e própria  complascência.&lt;br /&gt;4. Eu disse que deves  buscar, em lugar das coisas  nobres e preciosas, aquilo que, aos olhos  do mundo, é vil e desprezível.  Porque mui vil e desprezível, até quase  esquecida, parece a verdadeira e  celestial sabedoria, que não se tem em  grande conta, nem trata de se  engrandecer na terra. Muitos a louvam  com a boca, mas afastam-se dela na  vida; contudo é esta a pérola  preciosa, conhecida de poucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXXIII&lt;br /&gt;Da  instabilidade do coração e que a intenção final se há de  dirigir a Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho, não te fies nos teus afetos  atuais, que depressa em  outros se mudarão. Enquanto viveres, estarás  sujeito ao variável, ainda  que não queiras; ora te acharás alegre, ora  triste, ora sossegado ora  perturbado, umas vezes fervoroso, outras  tíbio, já diligente, já  preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio,  porém, e instruído na  vida espiritual, está acima desda inconstância,  não cuidando dos seus  sentimentos, nem de que parte sopra o vento da  instabilidade, mas  concentrando todo o esforço de sua alma no devido e  almejado fim.  Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e  inabalável, dirigindo a  mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre  todas as vicissitudes  que lhe sobrevierem.&lt;br /&gt;2. Quanto mais pura for  tua intenção, porém,  tanto mais constante serás durante as diversas  tempestades. Mas em  muitos se escurece o olhar da pura intenção, porque  depressa o volvem  para qualquer objeto deleitável que se lhes depare.  Poucos há  inteiramente livres da pecha do egoísmo. Assim, os judeus  foram um dia a  Betânia, em casa de Maria e Marta, não só por amor de  Jesus, mas  também para verem a Lázaro (Jo 12,9). Cumpre, pois, purificar  a  intenção, para que seja simples e reta e se dirija a mim acima de  tudo  que há de permeio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXXIV&lt;br /&gt;Como Deus é delicioso  em  tudo e sobretudo a quem o ama&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma: Vós sois meu Deus e  meu  tudo! Que mais quero eu e que dita maior posso desejar? Ó palavra   suave e deliciosa! Mas só para quem ama a Deus, e não o mundo nem as   suas coisas. Meu Deus e meu tudo! Para quem a entende basta esta   palavra, e quem ama acha delicia em repeti-la a miúdo. Porque, quando   estais presente tudo é aprazível, mas, se vos ausentais, tudo enfastia.   Vós dais ao coração sossego, grande paz e jubilosa alegria. Vós fazeis   que julguemos bem de todos e em tudo vos bendigamos; nem pode, sem vós,   coisa alguma agradar-nos por muito tempo, mas, para ser agradável e   saborosa, é necessário que lhe assista a vossa graça e a tempere o   condimento da vossa sabedoria.&lt;br /&gt;2. A quem saboreia vossa doçura, que   coisa não lhe saberá bem? Mas a quem em vós não se deleita, que coisa   lhe poderá ser gostosa? Diante da vossa sabedoria desaparecem os sábios   do mundo e os amadores da carne, porque nos primeiros se acha muita   vaidade, nos últimos, a morte; os que, porém, vos seguem pelo desprezo   do mundo e pela mortificação da carne, esses são verdadeiramente sábios,   porque trocam a vaidade pela verdade, e a carne pelo espírito. Esses   acham gosto nas coisas de Deus, e tudo quanto se acha de bom nas   criaturas, referem-no à glória do seu Criador. Diferente, porém, e mui   diferente, é o gosto que se encontra em Deus e na criatura, na   eternidade e no tempo, na luz incriada e na luz criada.&lt;br /&gt;3. Ó luz   eterna, superior a toda luz criada, lançai do alto um raio que penetre   todo o íntimo do meu coração. Purificai, alegrai, iluminai e vivificai a   minha alma com todas as suas potências, para que a vós se una em   transportes de alegria. Oh! Quando virá aquela ditosa e almejada hora,   em que haveis de saciar-me com a vossa presença, e ser-me tudo em todas   as coisas? Enquanto isso não me for concedido, minha alegria não será   perfeita. Mas ai! Que ainda vive em mim&lt;br /&gt;o homem velho, não de todo   crucificado nem inteiramente morto. Ainda se revolta fortemente contra o   espírito e move guerras interiores; nem consente em que reine   tranqüilidade na alma.&lt;br /&gt;4. Mas vós, que dominais a impetuosidade do   mar e aplacais o furor das ondas, levantai-vos e socorrei-me! Dissipai   os poderes que procuram guerras, esmagai-os com o vosso braço (Sl 88,10;   43,26; 67,31). Manifestai, Senhor, as vossas maravilhas, e seja   glorificada a vossa destra (Eclo 36,7; Jdt 9,11), pois não tenho outro   refúgio senão em vós, meu Senhor e meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXXV&lt;br /&gt;Como   nesta vida não há segurança contra a tentação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho,   nunca estarás seguro nesta vida, mas, enquanto viveres, terás   necessidade de armas espirituais. Andas cercado de inimigos, que à   direita e à esquerda te acometem. Logo, se não te armares por todos os   lados com o escudo da paciência, não estarás por muito tempo sem ferida.   Demais, se não firmares em mim teu coração, com sincera vontade de   sofrer tudo por meu amor, não poderás suportar tão renhido combate, nem   alcançar a palma dos bemaventurados. Cumpre, pois, caminhar com ânimo   varonil por entre todos os obstáculos, e rebater com a mão poderosa&lt;br /&gt;2.   todos os empecilhos. Pois ao vencedor será dado o maná (Apc 2,17), e  ao  covarde aguarda muita miséria.&lt;br /&gt;2. Se buscas descanso nesta vida,   como chegarás ao descanso eterno? Não procures muito descanso, mas  muita  paciência. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra, não  nos  homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus. Deves, por amor  de  Deus, aceitar tudo de boa vontade, isto é, trabalhos e sofrimentos,   tentações, vexames, ansiedades, doenças, injúrias, murmurações,   repreensões, humilhações, afrontas, correções e desprezos. Tudo isto faz   progredir na virtude, prova o novo soldado de Cristo e prepara a coroa   celestial. Eu darei prêmio eterno por breve trabalho, e glória  infinita  por humilhação transitória.&lt;br /&gt;3. Julgas que sempre há de ter   consolações espirituais à medida de teus desejos? Nem sempre as tiveram   os meus santos, passando ao contrário por muitas penas, várias  tentações  e grandes angústias. Mas eles suportaram tudo com paciência,  mais  confiados em Deus que em si, porque sabiam "que não têm proporção  os  sofrimentos desta vida com a futura glória" que os recompensa (Rom   8,18). Quereis obter logo o que tantos apenas conseguiram só depois de   copiosas lágrimas e grandes trabalhos? Espera no Senhor, age   varonilmente, e sê firme (Sl 26,14); não desanimes, não recues, mas   expõe generosamente corpo e alma pela glória de Deus. Eu te   recompensarei plenamente, e estarei contigo em toda tribulação (Sl   90,15) .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXXVI&lt;br /&gt;Contra os juízos dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho põe tua confiança em Deus e não temas os juízos humanos,   enquanto tua consciência te der testemunho da tua piedade e inocência. É   bom e salutar sofrer deste modo, nem isso será penoso ao coração   humilde, que confia mais em Deus que em si mesmo. Muitos falam com   demasia, e por isso não se lhes deve dar muito crédito. Mas também não é   possível satisfazer a todos. Ainda que Paulo se empenhasse por agradar  a  todos no Senhor, fazendo-se tudo para todos (1 Cor 9,22), contudo,  fez  pouco caso de ser julgado no tribunal dos homens (1 Cor 4,3).&lt;br /&gt;2.  Fez  todo o possível para a edificação e salvação dos outros, quanto  dele  dependia; contudo não pôde evitar ser julgado e desprezado por  alguns;  por isso pôs tudo nas mãos de Deus, que tudo conhecia, e  defendeu-se com  paciência e humildade contra as línguas maldizentes dos  que inventavam  maldades e mentiras e as espalhavam a seu bel-prazer.  Todavia, uma vez  ou outra, dava resposta, para que seu silêncio não  fosse causa de se  escandalizarem os fracos.&lt;br /&gt;3. Quem és tu, que temes  um homem mortal?  (Is 51, 12). Hoje existe e amanhã já não aparece.  Teme a Deus, e não  temerás as ameaças dos homens. Que mal te pode fazer  um homem com  palavras e afrontas? Mais se prejudica a si mesmo do que a  ti, e, seja  quem for, não poderá escapar ao juízo de Deus. Põe os  olhos em Deus, e  não contendas com palavras de queixa. Se agora pareces  sucumbir e  padecer injúria não merecida, não fiques contrariado nem  diminuas a tua  coroa com a impaciência, mas antes levanta os olhos ao  céu, para mim,  que poderoso sou, para te livrar de toda confusão e  injúria e dar a cada  um conforme suas obras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XXXVII&lt;br /&gt;Da  pura e completa  renúncia de si mesmo para obter liberdade de coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus:  Filho, deixa-te a ti, e achar-me-ás a mim. Despe tua vontade e  teu  amor-próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te  entregares a  mim sem reservas, se te acrescentará a graça.&lt;br /&gt;A alma:  Senhor, em que  devo renunciar-me, e quantas vezes?&lt;br /&gt;Jesus: Sempre e a  toda hora tanto  no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te  achar despojado de  tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu,  se não estiveres,  exterior e interiormente, desapegado de toda vontade  própria? Quanto  mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te  acharás, e quanto mais  pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais  me agradarás e maior  lucro terás.&lt;br /&gt;1. Alguns há que se entregam a  mim, mas com alguma  reserva, porque não têm plena confiança em Deus, e  por isso tratam de  prover as próprias necessidades. Outros, a  princípio, tudo oferecem, mas  depois, combatidos pela tentação,  volvem-se novamente às próprias  comodidades, e eis por que quase não  progridem nas virtudes. Estes nunca  chegarão à verdadeira liberdade do  coração puro, nem à graça de minha  doce familiaridade, enquanto não  renunciarem de todo a si mesmos,  oferecendo-se em cotidiano sacrifício a  Deus, sem o que não há nem pode  haver união deliciosa comigo.&lt;br /&gt;2.  Muitas vezes te disse e agora te  torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti  mesmo, e gozarás grande paz  interior. Dá tudo por tudo, não busques,  não reclames coisa alguma,  persevera, pura e simplesmente, em mim, e me  possuirás. Terás livre o  coração e as trevas não te poderão oprimir. A  isto te aplica, isto pede,  isto deseja: ser despojado de todo  amorpróprio, para que possas seguir  nu a Jesus desnudado, morrer a ti  mesmo e viver eternamente. Então se  dissiparão todas as vãs  imaginações, penosas pertubações e supérfluos  cuidados. Logo também  desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor  desordenado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XXXVIII&lt;br /&gt;Do bom procedimento exterior, e  do recurso a Deus nos  perigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, nisto deves  empenhar toda a diligência,  que em todo lugar, ação ou ocupação exterior  estejas interiormente  livre e senhor de ti mesmo, dominando todas as  coisas, e a nenhuma  sujeito. Deves ser o senhor e diretor de tuas ações e  não servo ou  escravo; cumpre sejas livre e verdadeiro israelita, que  chega à  condição de liberdade dos filhos de Deus. Esses elevam-se acima  das  coisas presentes e contemplam as eternas; só de relance olham para  as  coisas transitórias, e têm a vista presa nas celestiais. Não se  deixam  atrair e prender pelas coisas temporais, mas servem-se delas  conforme o  fim para que foram ordenadas por Deus e destinadas pelo  supremo  Artífice, que nada deixou sem ordem nas suas criaturas.&lt;br /&gt;2.  Se, além  disso, em qualquer acontecimento, não te demorares na aparência   exterior, nem considerares com os olhos carnais o que vês e ouves, mas   em qualquer negócio entrares logo com Moisés no tabernáculo e consultar o   Senhor; ouvirás às vezes, a sua divina resposta, e sairás instruído a   respeito de muitas coisas presentes e futuras. Sempre recorria Moisés  ao  tabernáculo para resolver suas dúvidas e dificuldades, valia-se da   oração para triunfar dos perigos e das maldades dos homens. Do mesmo   modo deves tu te refugiar no mais recôndito do teu coração, para, com   mais instância, implorar o divino auxílio. Por isso - como está escrito -   Josué e os filhos de Israel foram enganados pelos gabaonitas "porque   não consultaram primeiro ao Senhor", mas, dando crédito demasiado às   suas doces palavras, deixaram-se enganar por fingida piedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XXXIX&lt;br /&gt;Que o homem não seja impaciente nos seus negócios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, confia-me sempre teus negócios, eu disporei tudo bem a seu   tempo. Espera minha determinação, e disso tirarás proveito.&lt;br /&gt;2. A   alma: Senhor, de mui boa vontade vos confio todas as coisas, porque   pouco adianta o meu cuidado. Oxalá não me perturbasse com os   conhecimentos futuros, mas me oferecesse sem demora ao vosso   beneplácito!&lt;br /&gt;2. Jesus: Filho, muitas vezes procura o homem com ânsia   uma coisa que deseja; logo, porém, que a alcança, muda de parecer,   porque as afeições não persistem muito ao mesmo objeto, mas facilmente   passam de um para outro. Pelo que, não é pouco renunciar-se o homem a si   mesmo, ainda nas coisas pequenas.&lt;br /&gt;3. O verdadeiro progresso do  homem  consiste na abnegação de si mesmo, e quem assim se abnegou, goza  grande  liberdade e segurança. Contudo, o antigo inimigo, o adversário  de todo o  bem não desiste da tentação, armando dia e noite perigosas  ciladas,  para ver se pode precipitar algum incauto no laço do seu  engano. Vigiai e  orai, diz o Senhor, para que não entreis em tentação  (Mt 26, 41).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XL&lt;br /&gt;Que o homem por si mesmo nada tem de  bom e de nada se pode  gloriar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma: Senhor, que é o homem,  para que vos lembreis  dele, ou o filho do homem, para que o visiteis?  (Sl 8,5). Por onde  mereceu o homem que lhe deis a vossa graça? Como me  posso queixar, se me  desamparais, ou que posso justamente opor, se não  me concedeis o que  peço? Decerto, com verdade posso pensar e dizer:  Senhor, nada sou, nada  posso, nada de bom tenho de mim mesmo, mas  falta-me tudo, e sempre pendo  para o nada. E se vós não me ajudais e  ensinais, fico de todo tíbio e  relaxado.&lt;br /&gt;1. Vós, porém, Senhor,  sempre sois o mesmo e permaneceis  eternamente bom, justo e santo, e  boas são vossas obras&lt;br /&gt;2. todas, e  justas e santas, e dispondes tudo  com sabedoria. Mas eu, que sou mais  inclinado à negligência que ao  aproveitamento espiritual, não sei  conservar-me no mesmo estado, porque  mudo sete vezes por dia. Mas logo  me vai melhor, quando vos apraz  estender-me a mão para me socorrer;  porque só vós, sem auxílio humano,  me podeis ajudar e dar-me firmeza, de  tal modo que jamais se mude meu  rosto, mas só a vós se converta meu  coração e em vós descanse.&lt;br /&gt;2.  Por isso, se eu soubesse rejeitar toda  humana consolação, fosse por  adquirir a devoção, fosse pela necessidade  que me obriga a buscar-vos,  então poderia com razão esperar a vossa  graça e alegrar-me com o favor  de uma nova consolação.&lt;br /&gt;3. Graças vos  sejam dadas, Senhor, porque de  vós procede todo o bem que me sucede. Mas  eu sou vaidade e nada,  diante de vós, sou homem frágil e inconstante.  De que posso, pois,  gloriar-me, ou por que desejo ser estimado?  Porventura do meu nada?  Isso seria o cúmulo da vaidade. Verdadeiramente a  vanglória é peste  maligna e a pior das vaidades, porque nos aparta da  glória verdadeira e  nos priva da graça celestial. Porquanto, desde que o  homem agrada a  si, desagrada a vós, e quando aspira aos humanos  louvores, perde as  verdadeiras virtudes.&lt;br /&gt;4. Glória verdadeira, porém,  e alegria santa é  gloriar-se cada um em vós e não em si, deleitar-se em  vosso nome e não  na sua própria virtude, não achar deleite em criatura  alguma, senão  por amor de vós. Seja louvado o vosso nome e não&lt;br /&gt;o meu;  sejam  glorificadas vossas obras e não as minhas; exaltado seja o vosso  santo  nome, e a mim nada se atribua dos louvores humanos. Vós sois minha   glória e a alegria do meu coração. Em vós me gloriarei e exaltarei todo   dia, mas, quanto à minha pessoa, de nada me ufano, a não ser das minhas   fraquezas (2Cor 12,5).&lt;br /&gt;6. Busquem os judeus a glória uns dos  outros,  eu busco aquela que vem só de Deus (Jo 5,44). Pois toda glória  humana,  toda glória temporal e toda grandeza mundana, comparada com a  vossa  eterna glória, não passa de vaidade e loucura. Ó verdade e  misericórdia  minha, Deus meu, Trindade bem-aventurada! A vós só seja  dado louvor,  honra, virtude e glória por todos os séculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XLI&lt;br /&gt;Do  desprezo de toda honra temporal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, não  te  entristeças por veres os outros honrados e exaltados, ao passo que  tu és  desprezado e humilhado. Ergue a mim o teu coração até ao céu, e  não te  entristecerá o desprezo humano na terra.&lt;br /&gt;2. A alma: Senhor,  vivemos  na cegueira, e facilmente nos engana a vaidade. Se bem me  examino, nunca  recebi injúria de criatura alguma; não tenho, pois,  motivo de justa  queixa contra vós.&lt;br /&gt;2. Mas, porque cometi tantos  pecados, e tão  graves, contra vós, é justo que contra mim se armem  todas as criaturas. A  mim, pois, com muita razão, cabe confusão e  desprezo, a vós, porém,  louvor, honra e glória. E enquanto não estiver  disposto a querer de bom  grado ser desprezado e abandonado de todas as  criaturas, e ser tido  absolutamente em nada, não haverá em mim paz e  tranqüilidade interior,  nem serei espiritualmente iluminado, nem  perfeitamente unido a vós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XLII&lt;br /&gt;Como não se deve  procurar a paz nos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho se puseres tua paz em  alguma pessoa, por conviver contigo e ser de  teu parecer, achar-te-ás  inconstante e embaraçado. Mas, se recorreres à  verdade sempre viva e  permanente, não te entristecerás pela ausência e  morte de um amigo. Em  mim se há de fundar o amor do amigo, e por mim se  há de amar todo  aquele que nesta vida te parecer bom e amável. Sem mim  não vale nada,  nem durará a amizade; nem é puro e verdadeiro o amor  cujos laços eu não  tenha dado. De tal modo deves estar morto para  semelhantes afeições  dos amigos que, quanto depender de ti, desejes  viver sem relações  humanas. Quanto mais se chegar o homem para Deus,  tanto mais se  afastará de todo alívio terreno. E tanto mais alto sobe  para Deus,  quanto mais baixo desce na sua estimação, e mais vil se  reputa.&lt;br /&gt;2.  Mas quem a si mesmo se atribui algum bem impede que a  graça venha à sua  alma; porque a graça do Espírito Santo sempre busca o  coração humilde.  Se te souberas perfeitamente aniquilar e desprender de  todo amor  criado, então viria a ti com a abundância de minhas graças.  Quando  olhas para as criaturas, perdes a contemplação do Criador.  Aprende a  vencer-te em tudo por teu Criador, e então poderás chegar ao   conhecimento divino. Qualquer coisa, por pequena que seja, se a amas e   aprecias desordenadamente, mancha a alma e te separa do sumo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XLIII&lt;br /&gt;Contra a vã ciência do século&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Não te deixes   cativar pela elegância e sutileza dos dizeres humanos, porque o reino  de  Deus não consiste em palavras, mas na virtude (1 Cor 2,4). Atende às   minhas palavras, que inflamam o coração, iluminam o espírito, levam à   compunção e produzem muitas consolações. Nunca leias minha palavra com o   fim de pareceres mais douto ou sábio. Aplica-te a mortificar teus   vícios, porque isso te traz mais proveito que o conhecimento das mais   difíceis questões.&lt;br /&gt;2. Por muito que estudes e aprendas, terás que   referir tudo sempre ao único princípio. Sou eu que ensino ao homem a   ciência, e dou aos pequeninos mais clara compreensão, do que os homens   são capazes de ensinar. Aquele a quem eu ensinar, depressa será sábio e   muito aproveitará espiritualmente. Ai daqueles que indagam dos homens   muitas coisas curiosas, e tratam pouco dos meios de me servir. Tempo   virá em que aparecerá o Mestre dos mestres, Cristo, Senhor dos anjos,   para tomar lições de todos, isto é, para examinar a consciência de cada   um. E com a lâmpada na mão perscrutará então Jerusalém, e revelará o   segredo das trevas, fazendo calar as objeções das línguas humanas.&lt;br /&gt;3.   Eu sou o que levanta num instante o espírito humilde, de maneira que   compreenda melhor as razões das verdades eternas, do que se houvera   estudado dez anos nas escolas. Eu ensino sem ruído de palavras, sem   confusão de opiniões, sem espalhafato, sem contenda de argumentos. Eu   sou o que ensina a desprezar as coisas terrenas, a aborrecer as coisas   presentes, a buscar e apreciar as eternas, a fugir às honras, sofrer as   injúrias, pôr em mim toda esperança, a não desejar coisa alguma fora de   mim e amar só a mim, com todo fervor, acima de tudo.&lt;br /&gt;4. Alguns,   amando-me inteiramente, aprenderam com isso coisas divinas e falavam   coisas maravilhosas. Mais aproveitaram em deixar tudo, do que em estudar   questões sutis. A uns, porém, falo coisas comuns, a outros, mais   particulares; a alguns revelo-me docemente em sinais e figuras, a outros   descubro os meus mistérios com muita luz. A mesma voz fala em todos os   livros, mas não ensina a todos da mesma maneira; pois eu sou o que   interiormente ensina a verdade, perscruta o coração, penetra os   pensamentos. Inspira as ações, distribuindo a cada um segundo me apraz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   XLIV&lt;br /&gt;Que se não devem tomar a peito as coisas exteriores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, convém fazeres-te ignorante em muitas coisas, e   reputares-te como que morto sobre a terra, para que todo o mundo te   esteja crucificado. Importa também que te faças surdo a muitas coisas,   cuidando antes do que serve à tua paz. Mais útil é desviares os olhos do   que não te agrada e deixares a cada um seu parecer, do que entrares em   discussões. Se estiveres bem com Deus e considerares seus juízos, não  te  será custoso dares-te por vencido.&lt;br /&gt;2. A alma: Ah! Senhor, a que   chegamos? Eis que choramos uma perda temporal, trabalhamos e corremos   para ganhar mesquinho lucro, mas do dano espiritual nos esquecemos e mal   nos lembramos, ou tarde. Olha-se muito pelo que pouco ou nada vale, e   não se faz caso do que é sumamente necessário, porque o homem   inteiramente se entrega às coisas exteriores, e, se prontamente não se   recolher, nela descansa com prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XLV&lt;br /&gt;Que se não   deve dar crédito a todos, e quão facilmente faltamos nas palavras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Socorrei-nos, Senhor, na tribulação, porque é vão o auxílio humano (Sl   59,3). Oh! Quantas vezes procurei em vão fidelidade, onde cuidava que a   havia! Ah! Quantas vezes a encontrei onde menos a esperava! Vã é,  pois, a  esperança que se põe nos homens; em vós, meu Deus, está a  salvação dos  justos. Bendito sejais, Senhor meu Deus, em tudo que nos  sucede. Nós  somos fracos e inconstantes, facilmente nos enganamos e  mudamos.&lt;br /&gt;2.  Que haverá tão cauteloso e vigilante em todas as coisas,  que alguma vez  não caia em perturbação ou engano? Mas aquele que em  vós, Senhor,  confia, e vos procura de coração sincero, não cai tão  facilmente. E se  vier a cair em alguma tribulação, de qualquer sorte  que esteja  embaraçado nela, prontamente será por vós libertado ou  consolado,  porquanto não desamparais para sempre a quem em vós espera.  Raro é o  amigo fiel que persevera em todas as tribulações de seu amigo.  Vós,  Senhor, sois o único amigo fidelíssimo e não se acha outro igual.&lt;br /&gt;1.   Oh! bem o soube aquela alma santa (Santa Águeda) que disse: "Meu  coração  está firmado e fundado em Cristo!" Se&lt;br /&gt;2. assim fora comigo,  não me  perturbaria tão facilmente o temor humano, nem me abalariam as  flechas  das más palavras. Quem pode prever tudo e precaver-se contra os  males  futuros? Se os males previstos já ferem tanto, quanto mais os   imprevistos causarão feridas dolorosas! Mas por que motivo, sendo eu tão   miserável, não me acautelei melhor? Por que tão facilmente dei  créditos  aos outros? Entretanto - somos homens e nada mais que homens  fracos,  ainda que muitos se julguem e chamem anjos. A quem hei de crer,  Senhor? a  quem senão a vós? Vós sois a verdade que não engana nem pode  ser  enganada. Ao passo que está escrito: "Todo homem é mentiroso (Sl  115,2),  fraco, inconstante, inclinado a pecar, mormente em palavras, de  sorte  que mal se deve logo acreditar o que, à primeira vista, parece   verdadeiro".&lt;br /&gt;3. Quão prudentemente nos aconselhastes que nos   acautelássemos dos homens, e nos dissestes que "os inimigos do homem são   os que com ele moram" (Mt 10,36), que não devemos dar crédito se  alguém  nos disser: Aqui está Cristo! Ou está acolá! À minha custa  aprendi esta  verdade, e queira Deus que me sirva de maior cautela e não  para dar  provas de maior insensatez! Toma cuidado, diz-me alguém, e  guarda para  ti o que te digo. E enquanto me calo e guardo segredo, não  pode guardar  silêncio aquele que me pediu segredo, senão logo descobre a  si e a mim e  lá se vai. De homens tais, palradores e desacautelados,  livrai-me,  Senhor, para que não caia em suas mãos nem cometa  semelhantes faltas.  Ponde em minha boca palavras sérias e sinceras, e  apartai de mim o  embuste da língua. A todo custo devo evitar&lt;br /&gt;o que  não quero aturar  dos outros.&lt;br /&gt;5. Oh! Como é bom, para viver em paz,  calar dos outros,  não crer tudo indiferentemente, nem repeti-lo logo a  outrem; abrir-se a  poucos e buscar sempre a vós, o perscrutador do  coração; não se mover  com qualquer sopro de palavra, mas desejar que  todas as coisas  exteriores e interiores se façam conforme o beneplácito  da vossa  vontade. Que meio seguro para conservar a divina graça, fugir  do que cai  na vista dos homens, e não desejar o que possa granjear-nos  a admiração  dos homens, antes procurar, com toda solicitude, o que  serve para  emenda da vida e fervor da alma! A quantos prejudicou a  virtude  divulgada e prematuramente elogiada! Quanto proveito, porém,  traz  conservar a graça do silêncio, durante esta vida tão frágil, que  não é  mais que contínua tentação e peleja!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XLVI&lt;br /&gt;Da   confiança que havemos de ter em Deus quando se nos dizem palavras   afrontosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho conserva-te firme e espera em mim,   pois palavras são palavras; ferem os ares, mas não quebram a pedra. Se   és culpado, trata logo de emendar-te; se a consciência de nada de acusa,   faze o propósito de sofrer isso de boa vontade, por amor de Deus. Não é   muito sofreres, às vezes, más palavras, já que me não podes ainda   suportar mais pesados golpes. E por que razão te ferem tão leves coisas   senão porque és ainda carnal e fazes ainda mais caso dos homens do que   convém? Temes ser desprezado, e por isso não queres ser repreendido de   tuas faltas e procuras defender-te com desculpas.&lt;br /&gt;2. Mas examina-te   melhor e verá que vive ainda em ti o mundo e o vão desejo de agradar  aos  homens. Pois, já que foges de ser abatido e confundido por causa  dos  teus defeitos, mostras claramente que não és verdadeiramente  humilde,  nem inteiramente morto ao mundo, e que o mundo não está de  todo  crucificado para ti (Gál 6,14). Mas ouve a minha palavra e não  farás  caso de dez mil palavras humanas. Mesmo que dissessem contra ti  quanto  pode inventar a mais negra malícia, que mal te faria, se o  deixasses  passar, não fazendo mais caso daquilo que duma palha?  Porventura poderia  arrancar-te um só cabelo?&lt;br /&gt;3. Mas quem não domina o  coração, nem tem a  Deus, diante dos olhos, facilmente fica aborrecido  com uma palavra de  repreensão. Aquele, porém, que confia em mim, e não  se aferra à sua  própria opinião, viverá sem temor dos homens. Eu sou o  juiz e conheço  todos os segredos, sei como se passou tudo, quem fez a  injúria e quem a  sofre. De mim saiu esta palavra, por minha permissão  te sucedeu isso,  "para que fossem revelados os pensamentos de muitos  corações" (Lc 2,35).  Julgarei o culpado e o inocente: primeiro, porém,  quis provar ambos por  oculto juízo.&lt;br /&gt;4. Engana, muitas vezes, o  testemunho dos homens; meu  juízo é verdadeiro e não será revogado. As  mais das vezes é oculto e  poucos lhe conhecem todas as  particularidades, mas nunca erra, nem pode  errar, posto que pareça  menos reto aos olhos dos néscios. A mim, pois,  deves recorrer em todo  juízo e não te ater ao teu próprio parecer. Pois o  justo não se  perturbará, seja o que for que lhe suceda, por permissão  de Deus. Não  se afligirá com as palavras que contra ele disserem  injustamente. Mas  também não se encherá de vã alegria, quando outros o  justificarem com  razões. Ele pondera que "eu sou o perscrutador dos  corações e dos rins"  (Sl 7,10), e não julgo segundo o exterior e as  aparências humanas.  Porque muitas vezes é culpável a meus olhos o que é  tido por louvável  na opinião dos homens.&lt;br /&gt;5. A alma: Senhor, "Deus,  juiz justo, forte e  paciente" (Sl 7,12), que conheceis a fraqueza e  malícia dos homens,  sede&lt;br /&gt;minha fortaleza e toda a minha confiança,  porque não me basta a  consciência da própria força. Vós sabeis o que eu  não sei, por isso  devia ter recebido qualquer repreensão com humildade e  mansidão.  Perdoai-me, portanto, por todas as vezes que assim o não o  fiz, e  dai-me de novo mais graça para sofrer. Portanto, mais valiosa me é   vossa abundante misericórdia para alcançar o perdão dos pecados do que   minha pretensa justiça em defesa do que está oculto na consciência. E   mesmo que ela de nada me acuse, nem por isso sou justificado; porque sem   a vossa misericórdia "nenhum vivente haverá justo a vossos olhos" (Sl   142,2).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XLVII&lt;br /&gt;Que todas as coisas graves se devem   suportar pela vida eterna&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho não te deixes   quebrantar pelos trabalhos empreendidos por meu amor, nem desanimes nas   tribulações; mas em tudo que te suceder, te consolem e fortifiquem   minhas promessas. Sou assaz poderoso para te recompensar além de todo   limite e medida. Não lidarás aqui muito tempo, nem sempre estarás   acabrunhado de dores. Espera um pouco e verás em breve o fim de teus   males. Hora virá em que cessará todo trabalho e inquietação. É de pouco   valor e duração o que passa com o tempo.&lt;br /&gt;2. Faze o que podes fazer,   trabalha fielmente em minha vinha, e "eu serei tua recompensa" (Gên   15,1). Escreve, lê, canta, geme, cala, ora e sofre varonilmente toda   adversidade; a vida eterna é digna dessas e outras maiores pelejas. Virá   a paz um dia que o Senhor sabe, e não haverá mais nem dia nem noite,   como no presente, mas luz perpétua, claridade infinita, paz firme e   seguro repouso. Não dirás então: Quem me livrará deste corpo de morte?   (Rom 7,24), nem exclamarás: Ai de mim, que se tem prolongado o meu   desterro! (Sl 119,5). Porque a morte será destruída e a salvação será   eterna; livre de toda ansiedade gozarás deliciosa alegria, em meio de   agradável e brilhante companhia.&lt;br /&gt;3. Oh! se visses as coroas   imarcescíveis dos santos no céu, e a glória em que já exultam aqueles   que outrora, aos olhos do mundo, eram desprezados e reputados quase   indignos da vida; com certeza, logo te humilharias até ao pó e   desejarias antes obedecer a todos que a um só a mandar. Nem cobiçarias   os dias felizes desta vida, mas antes te alegrarias de ser atribulado   por amor de Deus, e considerarias grande vantagem o ser tido por nada   entre os homens.&lt;br /&gt;4. Oh! Se achasses gosto nessas coisas e elas   penetrassem profundamente no coração, como poderias ousar proferir uma   só queixa? Porventura haverá pena que não se deva sofrer pela vida   eterna? Certo que não é pouco perder ou ganhar o reino de Deus. Ergue,   pois, os olhos ao céu. Eis-me aqui com todos os meus santos; eles, que   neste mundo sustentaram grandes combates, ora se rejubilam, ora estão   consolados e estão seguros, ora gozam o repouso e permanecerão para   sempre comigo no reino de meu Pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XLVIII&lt;br /&gt;Do dia da   eternidade e das angústias desta vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Ó mansão beatíssima da   celestial cidade! Ó dia claríssimo da eternidade, que a noite não   obscurece, mas a Verdade soberana sempre ilumina; dia sempre festivo,   sempre seguro, que nunca muda no contrário! Oh! se já amanhecera aquele   dia e acabaram todas as coisas temporais! Para os santos, sim, brilha   este dia com o fulgor de sua perpétua claridade; para nós, peregrinos da   terra, só de longe se mostra e como por espelho.&lt;br /&gt;2. Sabem os   cidadãos do céu quão ditoso é aquele dia; sentem os desterrados filhos   de Eva quão triste e amargo é este da vida presente. Os dias deste tempo   são curtos e maus, cheios de dores e angústias. Neles se vê o homem   manchado de muitos pecados, enredado de muitas paixões, angustiado de   muitos temores, inquietado com muitos cuidados, distraído com muitas   curiosidades, emaranhado em muitas vaidades, cercado de muitos erros,   oprimido de muitos trabalhos, acossado por tentações, enervado pelas   delícias, atormentado pela penúria.&lt;br /&gt;3. Oh! Quando virá o fim de todos   estes males? Quando me verei livre da triste escravidão dos vícios?   Quando me lembrarei somente de vós, Senhor? Quando em vós plenamente me   alegrarei? Quando viverei em perfeita liberdade, sem nenhum  impedimento,  sem aflição da alma e do corpo? Quando gozarei a paz  sólida,  imperturbável e segura, paz interna e externa, paz de toda  parte  estável? Ó bom Jesus, quando estarei diante de vós para nos ver?  Quando  contemplarei a glória do vosso reino? Quando me sereis tudo em  todas as  coisas? Oh! Quando estarei convosco no reino que preparastes  desde toda a  eternidade para os que vos amam? Pobre e desterrado estou,  em terra de  inimigos, onde há guerras contínuas e misérias extremas!&lt;br /&gt;4.   Consolai-me no meu desterro, mitigai-me a dor, para vós se dirige todo  o  meu desejo. Tudo quanto o mundo oferece de consolo é para mim  tormento.  Desejo gozar-vos intimamente, mas não o consigo. Desejo  aplicar-me às  coisas do céu, mas as coisas temporais e as paixões  imortificadas me  abatem. Com o espírito desejava elevar-me acima de  todas as coisas, mas a  carne me obriga a sujeitar-me a elas contra a  minha vontade. Assim eu,  homem desgraçado, pelejo comigo e "sou a mim  mesmo pesado" (Jó 7,20),  pois o espírito aspira às alturas, mas a carne  às baixezas.&lt;br /&gt;5. Oh!  Quanto padeço interiormente, quando, ao meditar  nas coisas celestiais,  logo uma multidão de idéias carnais vêm  perturbar-me a oração! Deus meu,  em vossa ira, não vos aparteis de  vosso servo! (Sl 26,9). Lançai os  vossos raios e dissipai estes  pensamentos! (Sl 143,6) . Despedi vossas  flechas, e se desfarão todos  esses fantasmas do inimigo. Concentrai e  recolhei em vós meus sentidos;  fazei-me esquecer todas as coisas do  mundo; concedei-me a graça de  logo rebater e desprezar todas as  imaginações do pecado. Socorrei-me,  Verdade eterna, para que nenhuma  vaidade me possa seduzir. Vinde,  doçura celestial, e diante de vós fuja  toda impureza. Perdoai-me também  e relevai-me, pela vossa misericórdia,  todas as vezes que, na oração,  penso em outra coisa, fora de vós.  Confesso sinceramente que costumo  ser muito distraído. Pois muitas vezes  não estou onde tenho o corpo,  mas onde me levam os pensamentos. Estou  onde está&lt;br /&gt;o meu pensamento, e  meu pensamento está, de ordinário, onde  está o que amo. Ocorre-me com  facilidade o que naturalmente me deleita  ou por costume me agrada.&lt;br /&gt;6.  Por isso vós, Verdade eterna, dissestes  claramente: Onde está teu  tesouro, aí se acha também teu coração (Mt  6,21). Se amo o céu, gosto  de pensar nas coisas celestiais. Se amo o  mundo, alegro-me com seus  deleites e entristeço-me com suas  adversidades. Se amo a carne, com  gosto me ocupo dos pensamentos  carnais. Se amo o espírito, deleita-me o  pensar nas coisas espirituais.  Porque, seja qual for o objeto do meu  amor, dele falo e ouço falar com  gosto e trago comigo a sua imagem. Mas  bem-aventurado o homem que por  amor de vós, Senhor, abre mão de todas  as criaturas, faz violência à  natureza e crucifica a concupiscência da  carne com o fervor do espírito,  para, de consciência serena,  oferecer-vos uma oração pura e,  desprendido interior e exteriormente de  tudo que é terreno, merecer  entrar no coro dos anjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XLIX&lt;br /&gt;Do desejo da vida  eterna e quantos bens estão prometidos aos  que combatem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus:  Filho, quando sentires que o céu te  inspira saudades da bem-aventurança  e o desejo de deixar o tabernáculo  do corpo para contemplar minha  glória sem sombra de mudanças, alarga o  teu coração e recebe esta santa  inspiração com todo afeto. Dá muitas  graças à Bondade soberana, que usa  de tanta liberdade para contigo, com  tanta clemência te visita, tanto te  anima, tão poderosamente te  levanta, para que teu próprio peso não te  arraste para as coisas  terrenas. Pois isto não te vem por teus  pensamentos ou esforços, mas só  pela mercê da graça celeste e do  beneplácito divino para que te  adiantes nas virtudes, sobretudo na  humildade, e te prepares para  futuras pelejas; para que te entregues a  mim com todo o afeto do teu  coração e me sirvas com ardente amor.&lt;br /&gt;2.  Filho, muitas vezes arde o  fogo, mas não sobe a chama sem fumo. Assim  tambem os desejos de alguns  se abrasam pelas coisas celestiais, e,  contudo, não estão livres da  tentação e dos afetos carnais. Por isso não  fazem unicamente pela  glória de Deus o que, aliás, com tanto desejo lhe  pedem. Tal é também  muitas vezes teu desejo, que manifestastes com  tanta ansiedade; pois  não é puro nem perfeito o que está contaminado de  algum interesse  próprio.&lt;br /&gt;3. Pede-me, não o que te é agradável e  cômodo, senão o que a  mim me é aceito e honroso; pois, se julgares  retamente, deves preferir  minha lei a todos os teus desejos e cumpri-la.  Conheço teus desejos e  ouvi teus freqüentes gemidos. Quiseras já agora  estar na gloriosa  liberdade dos filhos de Deus, já te deleita o  pensamento da morada  eterna, na pátria celestial repleta de gozo; - mas  não é ainda chegada  essa hora, outro é o tempo atual, tempo de guerra,  trabalho e provação.  Desejas gozar a plenitude do Sumo Bem, mas por  enquanto ainda não o  podes conseguir. Sou eu esse Bem supremo;  espera-me, diz o Senhor, até  que venha o reino de Deus.&lt;br /&gt;4. Hás de  passar ainda por muitas  provações na terra e ser exercitado em muitas  coisas. Consolações se te  darão de vez em quando, mas plena satisfação  não podes receber.  Esforça-te, pois, e tem coragem, para fazer e sofrer o  que repugna à  natureza. Importa que te revistas do homem novo e te  transformes em  outro homem. Cumpre-te fazer muitas vezes o que não  queres e deixar o  que queres. O que agrada aos outros terá bom sucesso; o  que te agrada  não se fará. O que os outros dizem está atendido; o que  tu dizes será  desprezado. Pedirão os outros e receberão; tu pedirás, e  não  alcançarás.&lt;br /&gt;1. Serão grandes os outros na boca dos homens; mas de  ti  nem se dirá palavra. Os outros serão encarregados de diversas   comissões, e tu não serás julgado capaz de coisa alguma. Com isto se   contristará, às vezes, a natureza; mas&lt;br /&gt;2. muito ganharás, se o   sofreres calado. Nessas e noutras coisas semelhantes costuma ser   aprovado o servo fiel do Senhor, para ver como sabe negar-se e   mortificar em tudo. Dificilmente haverá coisa em que mais te seja   preciso morrer a ti mesmo, do que em ver e sofrer o que é contrário à   tua vontade, mormente quando te mandam fazer coisas que te parecem   inúteis ou desarrazoadas. E porque não ousas resistir à autoridade do   superior, sob cujo governo estás, duro te parece andar à vontade de   outrem e deixar de todo o teu próprio parecer.&lt;br /&gt;5. Mas considera,   filho, o fruto destes trabalhos, o fim breve e o prêmio excessivamente   grande, e não te serão molestos, mas acharás neles consolo para teus   sofrimentos. Pois, por um pequeno desejo que agora sacrificas, tua   vontade será sempre satisfeita no céu onde acharás tudo que quiseres,   tudo o que podes desejar. Ali possuirás todo o bem, sem medo de o   perder. Ali tua vontade, sempre unida com a minha, nada desejará fora de   mim, nada que te seja próprio. Ali ninguém te fará oposição ou de ti  se  queixará, ninguém te causará estorvo ou contrariedades; antes, tudo   quanto desejares já estará presente, para preencher e satisfazer   plenamente todos os teus desejos. Ali te darei a glória pela injúria   padecida, uma túnica de honra pela tristeza, e, pela escolha do ínfimo   lugar, um trono em meu reino para sempre. Ali brilhará o fruto da   obediência, alegrar-se-á a austera penitência e será gloriosamente   coroada a sujeição humilde.&lt;br /&gt;6. Sujeita-te, pois, agora, humildemente à   vontade de todos, sem te importar quem foi que tal disse ou mandou.  Mas  cuida muito em acolher de bom grado qualquer pedido ou aceno, seja  de  teu superior, ou embora de teu igual ou inferior, e trata de o  cumprir  com sincera vontade. Busque um isto, outro aquilo; glorie-se  este numa  coisa, aquele em outra, e receba mil louvores; tu, porém, não  te  deleites numa nem noutra coisa, mas só no desprezo de ti mesmo e na   minha vontade e glória. Este deve ser o teu desejo: que tanto na vida   como na morte Deus seja sempre por ti glorificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo L&lt;br /&gt;Como   o homem angustiado se deve entregar nas mãos de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Senhor   Deus, Pai santo! Bendito sejais agora e sempre; porque como quisestes   assim se fez, e bom é quanto fazeis. Alegre-se em vós o vosso servo, não   em si, nem em algum outro, porque só vós sois a verdadeira alegria,  vós  a minha esperança e coroa; só vós, Senhor, minha delícia e glória.  Que  tem vosso servo, senão o que de vós recebeu, ainda sem&lt;br /&gt;o  merecer?  Vosso é tudo o que destes e fizestes. Pobre sou e vivo em  trabalho desde  a juventude (Sl 87,16), e minha alma se entristece  algumas vezes até às  lágrimas, e outras se perturba pelos sofrimentos  que a ameaçam.&lt;br /&gt;1.  Desejo a alegria da paz, suplico a paz de vossos  filhos, a que  apascentais na luz da consolação. Se vós me derdes a paz,  se vós me  infundirdes santa alegria, será a alma de vosso servo cheia  de júbilo,  entoando devotamente vossos louvores. Mas se vos afastardes,  como muitas  vezes fazeis, não poderá ele trilhar o caminho dos vossos  mandamentos,  mas antes se prostará de joelhos, para bater no peito,  porque não lhe  vai como nos dias passados, "quando resplandecia vossa  luz sobre sua  cabeça" (Gên 31,2), e encontrava refúgio contra as  tentações violentas  debaixo da sombra de vossas asas.&lt;br /&gt;2. Pai justo e  sempre digno de  louvor! Chegada é a hora em que será provado o vosso  servo. Pai amoroso!  Justo é que nesta hora sofra alguma coisa o vosso  servo por vosso amor.  Pai sempre adorável, chegou a hora que de toda a  eternidade prevíeis  havia de vir, que por pouco tempo sucumba vosso  servo exteriormente, mas  vivendo interiormente sempre unido a vós. Por  pouco tempo seja  desprezado e humilhado, abatido diante dos homens e  oprimido de  sofrimentos e enfermidades, para que ressuscite convosco na  aurora de  uma nova luz e seja glorificado no céu. Pai santo! foi esta  vossa ordem e  vontade, fez-se o que ordenastes.&lt;br /&gt;3. Pois é uma graça  que concedeis  ao vosso amigo: o sofrer e penar neste mundo por vosso  amor, quantas  vezes e de quem o permitireis. Sem o vosso desígnio, sem a  vossa  providência, ou sem causa, nada acontece na terra. É bom para  mim,  Senhor, que me tenhais humilhado para que aprenda vossos justos  juízos  (Sl 118,71), e deponha toda a soberba e toda presunção.  Proveitoso é  para mim "ter o rosto coberto de confusão" (Sl 68,8), para  que busque a  consolação em vós e não nos homens. Também aprendi por  este meio a temer  vossos insondáveis juízos; pois afligis o justo com o  ímpio, mas sempre  com eqüidade e justiça.&lt;br /&gt;4. Graças vos dou,  Senhor, que não poupastes  minhas maldades, antes me castigais com duros  açoites, enviando-me  dores e afligindo-me exterior e interiormente de  angústias. De tudo  quanto existe debaixo do sol, nada há capaz de me  consolar, senão vós,  Senhor meu Deus, médico celestial das almas, que  feris e sanais, pondes  em grandes tormentos e deles livrais (1 Rs 2,6;  Tob 13,2). Vosso castigo  está sobre mim, e vossa disciplina me ensinará  (Sl 17,36).&lt;br /&gt;5. Pai  querido, em vossas mãos estou e me inclino  debaixo da vara de vossa  correção. Feri-me as costas e o pescoço, para  que sujeite minha vontade  teimosa à vossa. Fazei-me discípulo devoto e  humilde, como sabeis fazer,  para que obedeça ao vosso menor aceno.  Entrego-me, com tudo que é meu, à  vossa correção; pois é melhor ser  castigado neste mundo que no outro.  Vós sabeis tudo e todas as coisas e  nada se vos esconde da consciência  humana. Vós sabeis o futuro antes  que se realize, e não precisais de  quem vos ensine ou advirta das  coisas que se fazem na terra. Vós sabeis o  que serve para meu progresso  e quanto vale a tribulação, para limpar a  ferrugem dos vícios.  Disponde de mim segundo&lt;br /&gt;o vosso beneplácito e  não olheis para a  minha vida pecaminosa, de ninguém melhor e mais  claramente conhecida do  que de vós.&lt;br /&gt;1. Concedei-me, Senhor, que eu  saiba o que devo saber,  ame o que devo amar; fazei-me louvar o que mais  vos agrada, estimar o  que vós apreciais, desprezar o que a vossos olhos é  abjeto. Não me  deixeis julgar pelas aparências exteriores, nem criticar  pelo que ouço  de homens inexperientes, mas dai-me o discernimento certo  das coisas  visíveis e das espirituais, e sobretudo, o desejo de  conhecer sempre  vossa vontade.&lt;br /&gt;2. Enganam-se, freqüentemente, os  homens em seus  juízos, e não menos se enganam os mundanos, porque só  amam as coisas  visíveis. Porventura ficará melhor o homem porque outro o  louva? O  mentiroso engana ao mentiroso, o vaidoso ao vaidoso, o cego ao  cego, o  doente ao doente, em lhe fazendo elogios; e na verdade, antes o   confunde em lhe tecendo vãos louvores. Porque, quanto cada um é aos   olhos de Deus, tanto é e nada mais, diz o humilde S. Francisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   LI&lt;br /&gt;Que devemos praticar as obras humildes quando somos incapazes   para asmais altas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, não podes conservar-te sempre   no desejo fervoroso de todas as virtudes, nem perseverar no mais alto   grau de contemplação; mas às vezes te é necessário, por causa de tua   natureza viciada, descer a coisas humildes e carregar, em que te pese, o   fardo desta vida corruptível. Enquanto viveres neste corpo mortal,   sentirás tédio e angústias do coração. Convém, pois, que na carne gemas   muitas vezes debaixo do seu peso, porque não podes ocupar-te dos   exercícios espirituais e da contemplação das coisas divinas, sem   interrupção.&lt;br /&gt;2. Então te convém recorrer a humildes ocupações   exteriores e recrear-te nas boas obras; esperar, com firme confiança,   minha vinda e visita celestial; levar com paciência o teu desterro e   secura de espírito, até que de novo venha a visitar-te e te livre de   todas as penas. Porque eu te farei esquecer os trabalhos e gozar do   sossego interior. Abrir-te-ei o jardim delicioso das Sagradas   Escrituras, para que, com o coração dilatado, comeces a correr pelo   caminho dos meus mandamentos. E então dirás: Não têm proporção as penas   desta vida com a futura glória que se nos há de revelar (Rom 8,18).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo   LII&lt;br /&gt;Que o homem se não repute digno de consolação, mas merecedor de   castigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A alma: Senhor, eu não sou digno da vossa  consolação,  nem de visita alguma espiritual, e por isso me tratais com  justiça,  quando me deixais pobre e desconsolado. Porque, mesmo que  pudesse  derramar um mar de lágrimas, ainda assim não seria digno de  vossa  consolação. Outra coisa não mereço, pois, senão ser flagelado e  punido  por tantas ofensas e tão graves delitos que cometi. Assim,  portanto bem  considerado tudo, não sou digno nem da menor consolação.  Vós, porém,  Deus clemente e misericordioso, que não quereis que pereçam  vossas  obras, para manifestar as riquezas de vossa bondade nos vasos  de  misericórdia, vos dignais de consolar vosso servo, sem merecimento   algum, de todo sobre-humano. Porque vossas consolações não são como as   consolações humanas.&lt;br /&gt;2. Que fiz eu, Senhor, para que me désseis   alguma consolação celestial? Não me lembra ter feito bem algum, mas   antes fui sempre inclinado a pecados, e tardio na emenda. É esta a   verdade, não há negá-lo. Se dissesse outra coisa, vós estaríeis contra   mim e não haveria quem me defendesse. Que outra coisa mereci pelos meus   pecados, senão o inferno e&lt;br /&gt;o fogo eterno? Confesso com sinceridade   que sou digno de todo escárnio e desprezo, e que não mereço ser contado   no número de vossos servos. E ainda que ouça isso muito a contragosto,   por amor à verdade, acusarei contra mim os meus pecados, para alcançar   mais facilmente a vossa misericórdia.&lt;br /&gt;1. Que direi eu, coberto de   culpa e confusão? Não posso abrir a boca senão para dizer esta palavra:   Pequei, Senhor, pequei; tende piedade de mim, perdoai-me! Deixai-me um   pouco de tempo para desafogar a minha dor, antes de descer para a terra   tenebrosa, coberta das sombras da morte (Jó 10, 20.21). Que mais  exigis  do culpado e mísero pecador senão&lt;br /&gt;2. que se humilhe e tenha  contrição  dos seus pecados? Pela contrição sincera e humilde do coração  nasce a  esperança do perdão, reconcilia-se a consciência perturbada,  recupera-se  a graça perdida, preserva-se o homem da ira futura, em  ósculo santo  une-se Deus à alma arrependida.&lt;br /&gt;2. A humilde contrição  dos pecados é  para vós, Senhor, sacrifício muito aceito, que rescende  mais suave em  vossa presença do que o perfume do incenso. É este também  o precioso  bálsamo que quisestes ver derramado em vosso pés sagrados,  pois nunca  desprezastes o coração contrito e humilhado (Sl 50, 19). Lá  se encontra o  refúgio contra o furor do inimigo, ali se emendam e lavam  as manchas  algures contraídas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo LIII&lt;br /&gt;Que a graça de  Deus não se  comunica aos que gostam das coisas terrenas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho,  preciosa é a minha graça; não sofre mistura de coisas  estranhas, nem de  consolações terrenas. Cumpre, pois, remover todos os  impedimentos da  graça, se desejas que te seja infundida. Busca lugar  retirado, gosta de  viver só contigo, e não procures conversa com os  outros, mas a Deus  dirige tua oração fervorosa, para que te conserve na  compunção de  espírito e pureza da consciência. Avalia em nada o mundo  todo; antepõe o  serviço de Deus a todas as coisas exteriores. Pois não  podes há um  tempo tratar comigo e deleitar-te nas coisas transitórias.  Cumpre  apartares-te dos conhecidos e amigos, e desprenderes teu coração  de toda  consolação temporal. Assim exorta também instantemente&lt;br /&gt;o  apóstolo  São Pedro que os fiéis cristãos vivam neste mundo como  estrangeiros e  peregrinos (1 Pdr 2,11).&lt;br /&gt;1. Oh! Quanta confiança terá  aquele  moribundo que não tem afeição a coisa alguma do mundo. Mas  desprender  assim o coração de tudo, não o compreende o espírito ainda  enfermo, bem  como o homem carnal não conhece a liberdade do homem  interior.  Entretanto, se quiser ser verdadeiramente espiritual,  cumpre-lhe  renunciar aos estranhos como aos parentes e de ninguém mais  se guardar  do que de si mesmo. Se te venceres perfeitamente a ti mesmo,  tudo o mais  sujeitarás com facilidade. Pois a perfeita vitória é  triunfar de si  mesmo. Porque aquele que se domina a tal ponto, que os  sentidos obedeçam  à razão e a razão lhe obedeça em todas as coisas,  este é realmente  vencedor de si mesmo e senhor do mundo.&lt;br /&gt;2. Se  aspiras a galgar estas  alturas, cumpre-te começar varonilmente e pôr o  machado à raiz, para que  arranque e cortes&lt;br /&gt;o secreto e desordenado  apego que tens a ti mesmo,  e a todo bem particular e sensível. Deste  vício do amor excessivo e  desordenado que o homem tem a si mesmo provém  quase tudo que  radicalmente se há de vencer; vencido este e subjugado,  logo haverá  grande paz e tranqüilidade estável. Mas já que poucos  tratam de morrer a  si mesmos e desapegar-se de si, por isso ficam  presos em si mesmos e  não se podem erguer em espírito acima de si. A  quem, todavia, deseja  livremente seguir-me, cumpre-lhe mortificar todos  os seus maus e  desordenados afetos, e não se prender, com amor  apaixonado, a criatura  alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo LIV&lt;br /&gt;Dos diversos  movimentos da natureza e da  graça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jesus: Filho, observa com  diligência os movimentos da  natureza e da graça: pois são muito opostos  uns aos outros e tão sutis  que só a custo podem ser discernidos, mesmo  por um homem espiritual e  interiormente iluminado. Todos, sim, desejam  o bem e intentam algum bem  nas suas palavras e obras; por isso se  enganam muitos com a aparência do  bem. A natureza é astuta; a muitos  atrai, enreda e engana, e não tem  outra coisa em mira senão a si mesma.  Mas a graça anda com simplicidade,  evita a menor aparência do mal, não  usa de enganos, e tudo faz  puramente por Deus, no qual descansa como  em seu último fim.&lt;br /&gt;2. A  natureza tem horror à mortificação, não quer  ser oprimida, nem vencida,  nem sujeita, nem submeter-se  voluntariamente a outrem. A graça, porém,  aplica-se à mortificação  própria, resiste à sensualidade, quer estar  sujeita, deseja ser vencida  e não quer usar da própria liberdade: gosta  de estar sob a disciplina,  não cobiça dominar sobre outrem, mas quer  viver, ficar e permanecer  sempre debaixo da mão de Deus, sempre pronta,  por amor de Deus, a se  curvar humildemente a toda criatura humana. A  natureza trabalha por seu  próprio interesse e só atenta no lucro que de  outrem lhe pode advir. A  graça, porém, pondera não o que lhe seja útil  ou cômodo, mas o que a  muitos seja proveitoso. A natureza gosta de  receber honras e  homenagens; a graça, porém, refere fielmente a Deus  toda honra e  glória.&lt;br /&gt;1. A natureza teme a confusão e desprezo; mas a  graça  alegra-se de sofrer injúrias pelo nome de Jesus. A natureza  aprecia a  ociosidade e o bem estar do corpo; a graça, porém, não pode  estar  ociosa e abraça com prazer o trabalho. A&lt;br /&gt;2. natureza gosta de   possuir coisas esquisitas e lindas e aborrece as vis e grosseiras; mas a   graça se compraz nas simples e modestas, não despreza as ásperas, nem   recusa vertir-se de hábito velho. A natureza cuida dos bens temporais,   alegrase por um lucro pequeno, entristece-se por um prejuízo e  irrita-se  com uma palavrinha injuriosa. A graça, porém, cuida das  coisas eternas,  não se apega às temporais, não se perturba com a sua  perda, nem se  ofende com palavras ásperas; porquanto pôs o seu tesouro e  sua glória no  céu onde nada perece.&lt;br /&gt;3. A natureza é cobiçosa, antes  quer receber  do que dar; gosta de ter coisas próprias e particulares.  Mas a graça é  generosa e liberal, foge de singularidades, contenta-se  com pouco e  considera "maior felicidade o dar que o receber"( At  20,35). A natureza  inclina-se para as criaturas, para a própria carne,  para as vaidades e  passatempos. Mas a graça nos conduz a Deus e às  virtudes, renuncia às  criaturas, foge do mundo, detesta os apetites  carnais, restringe as  vagueações e peja-se de aparecer em público. A  natureza gosta de ter  qualquer consolação exterior com que deleite os  sentidos. A graça,  porém, só em Deus procura seu consolo e se delicia  no sumo bem, mais que  em todas as coisas visíveis.&lt;br /&gt;4. A natureza  tudo faz para seu próprio  interesse e proveito, nada sabe fazer de  graça, mas espera sempre, pelo  bem que faz, receber outro tanto ou  melhor em elogios ou favores e  deseja que se faça grande caso de seus  efeitos e dons. A graça, porém,  não busca nenhuma coisa temporal, nem  deseja outro prêmio, senão Deus  só, e do temporal não deseja mais do  que quanto lhe possa servir para  conseguir a vida eterna.&lt;br /&gt;5. A  natureza preza-se de muitos amigos e  parentes, ufana-se de sua posição  elevada e linhagem ilustre, procura  agradar aos poderosos, lisonjeia os  ricos, aplaude os seus iguais. A  graça, porém, ama os próprios  inimigos, não se gaba do grande número de  seus amigos, não faz caso de  posição e nobreza, se lhes não vê unida  maior virtude. Favorece mais ao  pobre que ao rico, tem mais compaixão do  inocente do que do poderoso,  alegra-se com o sincero, e não com o  mentiroso. Estimula sempre os bons  e maiores progressos, para que se  assemelhem, pelas virtudes, ao Filho  de Deus. A natureza logo se queixa  da penúria e do trabalho. A graça  sofre com paciência a pobreza.&lt;br /&gt;6. A  natureza atribui tudo a si, em  proveito seu peleja a porfia. A graça,  porém, atribui tudo a Deus, de  quem tudo dimana como de sua origem;  nenhum bem atribui a si com  arrogante presunção, não questiona, nem  prefere a sua opinião à dos  outros, mas em todo juízo e parecer se  sujeita à sabedoria eterna e ao  divino exame. A natureza deseja saber  segredos e ouvir novidades, quer  exibir-se em público e experimentar  muitas coisas pelos sentidos;  deseja ser conhecida e fazer aquilo donde  lhe resultem louvor e  admiração. A graça não cuida de novidades e  curiosidades, porque tudo  isso nasce da corrupção antiga, pois nada há  de novo e estável sobre a  terra. Ensina, pois, a refrear os sentidos, a  evitar a vã complacência e  ostentação, a ocultar humildemente o que  provoque admiração e louvor,  busca em todas as coisas e ciências  proveito espiritual e a honra e  glória de Deus. Não quer que a louvem,  nem às suas obras, mas que Deus  seja bendito em seus dons, que ele  prodigaliza a todos por mera  bondade.&lt;br /&gt;7. A graça é uma luz  sobrenatural e um dom especial de  Deus; é propriamente o sinal dos  escolhidos e o penhor da salvação  eterna, pois eleva o homem das coisas  terrenas ao amor das celestiais, e  de carnal o torna espiritual. Quanto  mais, pois, é oprimida e dominada  a natureza, tanto maior graça é  infundida, e tanto mais cada dia é  renovado o homem interior, conforme a  imagem de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  LV&lt;br /&gt;Da corrupção da natureza e da  eficácia da graça divina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A  alma: Senhor, meu Deus, que me  criastes à vossa imagem e semelhança,  concedei-me a graça que  declarastes ser tão importante e necessária  para a salvação: que eu  vença minha péssima natureza, que me arrasta ao  pecado e à perdição.  Porque sinto em minha carne a lei do pecado, que é  contrária à lei do  espírito e me cativa, querendo me levar a obedecer,  em muitas coisas, à  sensualidade; nem poderei resistir às paixões, se  não me assistir vossa  santíssima graça, e me inflamar o coração.&lt;br /&gt;2. É  necessária vossa  graça, e grande graça, para vencer a natureza,  propensa sempre ao mal  desde a infância. Porque, viciada pelo primeiro  homem, Adão, e  corrompida pelo pecado, transmite a todos os homens a  pena desta mancha,  de sorte que a mesma natureza, por vós criada boa e  reta, agora deve  ser considerada como enferma e enfraquecida pela  corrupção, visto que  seus movimentos, abandonados a si mesmos, a  arrastam ao mal e às coisas  baixas, Porque a módica força que lhe ficou  é como uma centelha oculta  debaixo da cinza. Esta centelha é a razão  natural, que, embora envolta  em densas trevas, discerne ainda o bem do  mal, a verdade do erro, mas  não é capaz de fazer tudo que aprova, já  que não possui a plena luz da  verdade, nem a primitiva pureza de seus  afetos.&lt;br /&gt;3. Daí vem, ó meu  Deus, que "segundo o homem interior me  deleito em vossa lei" (Rom 7,  22), sabendo que vosso mandato é bom,  justo e santo, que reprova todo  mal e ensina que se deve fugir ao  pecado. Segundo a carne, porém, estou  escravizado à lei do pecado, pois  obedeço mais à sensualidade que à  razão. Daí vem que "tenho vontade de  fazer&lt;br /&gt;o bem, mas não sei  realizá-lo" (Rom 7, 18). Por isso faço  muitos bons propósitos, mas  faltando-me vossa graça que auxilie minha  fraqueza, com o menor  obstáculo desfaleço e desisto. Assim sucede que  bem conheço o caminho da  perfeição e vejo claramente o que devo fazer.  Entretanto, oprimido com o  peso da corrupção, não me elevo ao que é  mais perfeito.&lt;br /&gt;1. Oh! Como  me é necessária, Senhor, vossa graça,  para começar, continuar e  completar o bem. Porque sem ela nada posso  fazer, mas tudo posso em vós,  se me confortar vossa graça, Ó graça  verdadeiramente celestial, sem a  qual nada valem os próprios  merecimentos, nem apreço merecem os dons  naturais! Nada valem diante de  vós, Senhor, as artes e a riqueza, a  formosura e a fortaleza, o  engenho e a eloqüência - sem a graça. Porque  os dons da natureza são  comuns aos bons e aos maus; mas a graça ou  caridade é peculiar dos  escolhidos, porque os torna dignos da vida  eterna. Tão excelente é esta  graça, que nem o dom da profecia, nem o  poder de fazer milagres, nem a  mais alta contemplação tem valor algum  sem ela. Nem mesmo a fé, nem a  esperança, nem as outras virtudes vos  agradam, sem a graça e sem a  caridade.&lt;br /&gt;2. Ó graça beatíssima, que  fazes rico de virtudes o pobre  de espírito e tornas humilde de coração o  rico dos bens de fortunas:  vem, desce sobre mim e enche minha alma de  tua consolação, para que não  desfaleça, de cansaço e aridez, meu  espírito. Suplico-vos, Senhor, que  eu ache graça em vossos olhos, porque  me basta a vossa graça, embora  me falte tudo que deseja a natureza.  Ainda que seja tentado e vexado  com muitas tribulações, nada temerei,  enquanto estiver comigo a vossa  graça. Ela é a minha fortaleza, me dá  conselho e amparo. Ela é mais  poderosa que todos os inimigos e mais  sábia que todos os sábios.&lt;br /&gt;3.  Ela é a mestra da verdade e da  disciplina, a luz do coração e o alívio  nas tribulações; ela afugenta a  tristeza, dissipa o temor, nutre a  devoção, gera santas lágrimas. Que  sou eu sem a graça, senão um lenho  seco e um tronco inútil, que se atira  ao fogo? Previna-me, pois,  Senhor, a vossa graça e me acompanhe sempre e  me conserve continuamente  na prática das boas obras, por Jesus Cristo,  vosso Filho. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  LVI&lt;br /&gt;Que devemos renunciar a nós  mesmos e seguir a Cristo pela cruz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Quanto mais saíres  de ti mesmo, tanto mais poderás chegar-te a  mim. Assim como o não  desejar coisa alguma exterior produz paz  interior, assim o  desprendimento interior de si mesmo causa a união com  Deus. Quero que  aprendas a perfeita abnegação de ti mesmo,  submetendo-te, sem  resistência e sem queixa, à minha vontade. Segue-me,  eu sou o caminho, a  verdade e a vida (Jo 14,6). Sem caminho não se  anda, sem verdade não se  conhece, sem vida não se vive. Eu sou o  caminho que deves seguir, a  verdade que deves crer, a vida que deves  esperar. Eu sou o caminho  seguro, a verdade infalível, a vida  interminável. Eu sou o caminho  direito, a verdade suprema, a vida  verdadeira, a vida ditosa, a vida  incriada. Se perseverares no meu  caminho, conhecerás a verdade, e a  verdade te livrará (Jo 8,32), e  alcançarás a vida eterna.&lt;br /&gt;2. Se  queres entrar na vida, guarda os  mandamentos (Mt 19,17). Se queres  conhecer a verdade, crê em mim. Se  queres ser perfeito, vende tudo (Mt  19,21). Se queres ser meu  discípulo, renuncia a ti mesmo. Se queres  possuir a vida bemaventurada,  despreza a presente. Se queres ser  exaltado no céu, humilha-te na  terra. Se queres reinar comigo, carrega  comigo a cruz, porque só os  servos da cruz acham o caminho da  bem-aventurança e da luz verdadeira.&lt;br /&gt;3.  A alma: Senhor, Jesus Cristo!  Porque vossa vida foi tão oprimida e  desprezada no mundo, concedei-me o  imitar-vos com o desprezo do mundo.  Pois o servo não é maior que seu  senhor, nem o discípulo mais do que o  mestre (Mt 10,24). Trabalhe vosso  servo por conformar-me à vossa vida,  porque nela está a minha salvação e  a verdadeira santidade. Tudo quanto  fora dela leio ou ouço não me pode  recrear ou deleitar plenamente.&lt;br /&gt;4.  Jesus: Filho, pois que sabes e lês  todas estas coisas, bem-aventurado  serás se as puseres em prática. Quem  conhece os meus mandamentos e os  guarda, esse é o que me ama; também eu  o amarei e me manifestarei a ele  (Jo 14,21), e o farei assentar comigo  no reino de meu Pai.&lt;br /&gt;1. A  alma: Senhor Jesus! Faça-se em mim segundo  vossa palavra e promessa, e  seja-me dado merecê-lo. Recebi a cruz, da  vossa mão a recebi; hei de  carregá-la, carregar até à morte, como vós ma  impusestes. Na verdade, a  vida do bom&lt;br /&gt;2. religioso é uma cruz, mas o  conduz ao Paraíso. O  começo está feito; não posso voltar atrás sem  desistir.&lt;br /&gt;5. Eia,  irmãos! Marchemos unidos, Jesus está conosco, por  Jesus abraçamos a  cruz, por Jesus queremos nela perseverar. Ele, que é  nosso chefe e  guia, será também nosso auxílio. Eis o nosso Rei, que  marcha à nossa  frente, Ele por nós combaterá. Varonilmente queremos  segui-lo, ninguém  se espante; estejamos prontos para morrer, com denodo,  no combate, e  não manchemos nossa glória, desertando da cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  LVII&lt;br /&gt;Que  o homem não se desanime em demasia, quando cai em algumas  faltas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Jesus: Filho, mais me agradam a paciência e humildade  nos reveses que a  muita consolação e fervor nas prosperidades. Por que  te entristece uma  coisinha que contra ti disseram? Ainda que fosse  maior, não te devias  ter perturbado. Deixa passar isso agora, não é  novidade; não é a  primeira vez, nem será a última, se muito tempo  viveres. Mas valoroso  és, enquanto te não sucede alguma adversidade.  Sabes até dar bons  conselhos e acalentar os outros com tuas palavras;  mas quando bate, de  improviso, à tua porta a tribulação, logo te falta  conselho e  fortaleza. Considera tua grande fraqueza, que tantas vezes  experimentas  nas pequenas coisas; todavia, é para tua salvação que isso e   semelhantes coisas acontecem.&lt;br /&gt;2. Procura esquecer isso como melhor   souberes, e, se te impressionou, não te abale nem te perturbe muito   tempo. Sofre ao menos com paciência o que não podes sofrer com alegria.   Ainda que te custe ouvir esta ou aquela palavra e te sintas indignado,   modera-te, e não deixes escapar da tua boca alguma expressão   despropositada, com que os pequenos se poderiam escandalizar. Logo se   acalmará a tempestade em teu coração, e a dor se converterá em doçura,   com a volta da graça. Eu ainda vivo, diz o Senhor, pronto para te ajudar   e consolar, mais do que nunca, se em mim confiares e me invocares com   fervor.&lt;br /&gt;3. Sê mais corajoso, e prepara-te para suportar coisas   maiores. Nem tudo está perdido por te sentires a miúdo tribulado e   gravemente tentado. Homem és e não Deus; carne és e não anjo. Como   poderás tu perseverar sempre no mesmo estado de virtude, se tal não pôde   o anjo no céu, nem o primeiro homem no paraíso? Eu sou que levanto os   aflitos e os salvo, elevo à minha divindade os que conhecem as suas   fraquezas.&lt;br /&gt;4. A alma: Senhor, bendita seja a vossa palavra, mais doce   na minha boca que um favo de mel ( Sl 18,11; 118, 103). Que seria de   mim em tantas tribulações e angústias, se vós me não confortásseis com   vossas santas palavras? Contanto que chegue afinal ao porto de salvação,   que importa o que e quanto tiver sofrido? Concedei-me bom fim, ditoso   trânsito deste mundo. Lembrai-vos de mim, meu Deus, e conduzi-me pelo   caminho reto ao vosso reino! Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo LVIII&lt;br /&gt;Que não   devemos escrutar as coisas mais altas e os ocultos juízos de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Jesus: Filho, guarda-te de disputar sobre assuntos altos e os ocultos   juízos de Deus; não queiras investigar por que este é deixado em tal   estado, aquele elevado a tanta graça, este tão oprimido, aquele tão   exaltado. Isso excede o alcance humano, e não há raciocínio nem   discussão que possam escrutar os desígnios de Deus. Quando, pois, o   inimigo te sugere tais pensamentos, ou os curiosos questionarem sobre   eles, responde com o profeta: Justo sois, Senhor, e justo é o vosso   juízo (Sl 118,37), ou, também: Os juízos do Senhor são verdadeiros e   justificados em si mesmos (Sl 19, 10). Meus juízos devem se temer, e não   discutir, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.&lt;br /&gt;2.  Não  queiras também inquirir ou disputar sobre os méritos dos santos,  qual  seja o mais santo ou o maior no reino dos céus. Daí nascem muitas   controvérsias e contendas inúteis, que nutrem a soberba e a vanglória,   donde procedem invejas e discórdias, porque este prefere soberbamente  um  santo, aquele quer dar a preeminência a outro. Querer saber e   investigar tais coisas não traz proveito algum, antes desagrada aos   santos, porque "eu não sou Deus de discórdia e sim da paz" (1Cor 14,33),   e esta paz consiste antes na verdadeira humildade que na própria   exaltação.&lt;br /&gt;3. Alguns, por um zelo de predileção, se afeiçoam mais a   este ou àquele santo, mas este afeto é antes humano que divino. Sou eu   que fiz todos os santos; eu lhes dei a graça, eu lhes outorguei a   glória. Eu sei os merecimentos de cada um, eu os preveni com as bênçãos   da minha doçura (Sl 20,4). Eu conheci os meus amados antes dos séculos,   eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei por minha graça  e  os atraí por minha misericórdia: eu os fiz passar por várias  provações.  Eu os inundei de maravilhosas consolações, dei-lhes a  perseverança e  coroei a sua paciência.&lt;br /&gt;4. Eu conheço o primeiro e o  último e abraço a  todos com inestimável amor. Eu devo ser louvado em  todos os meus  santos, bendito sobre todas as coisas e honrado em cada  um deles, que eu  tão gloriosamente exaltei e predestinei, sem prévio  merecimento algum  de sua parte. Quem desprezar, pois, um dos menores  dos meus deixa também  de honrar o maior, porque fui eu que fiz o  pequeno e o grande. E quem  menospreza a todos os mais que estão no  reino dos céus. Porquanto todos  são um belo veículo da caridade; todos  têm o mesmo parecer, o mesmo  querer, e se amam mutuamente com o mesmo  amor.&lt;br /&gt;5. Além disso, - o que  é mais sublime ainda - eles me amam  mais a mim que a si e seus  merecimentos. Porque, arrebatados acima de  si mesmos e desprendidos de  todo amor-próprio, se transformaram  inteiramente no meu amor, no qual  descansam com sumo gozo. Nada há que  os possa desviar ou deprimir,  porque, repletos da eterna verdade, ardem  no fogo inestinguível da  caridade. Calem-se, pois, os homens carnais e  sensuais, e não discutam  sobre o estado dos santos, porque não sabem  amar senão seus próprios  gozos. Eles diminuem ou acrescentam conforme a  sua inclinação, e não  como agrada à eterna Verdade.&lt;br /&gt;6. Em muitos é  isso ignorância,  mormente naqueles que, pouco iluminados, raramente  sabem amar um santo  com amor puramente espiritual. Leva-os ainda muito a  natural afeição e a  amizade humana, que os inclina a este ou àquela,  e, como se portam nas  coisas terrenas, assim se lhes afiguram também as  celestiais. Há, porém,  incomparável distância entre o que pensam os  imperfeitos e o que  alcançam os homens espirituais pela revelação  superior.&lt;br /&gt;7. Guarda-te,  pois, filho, de discorrer curiosamente sobre  coisas que excedem teu  entendimento; cuida antes e trata de seres  ainda o ínfimo no reino de  Deus. E dado que alguém soubesse quem seja  deles o mais santo ou o maior  no reino dos céus, que lhe aproveitaria  esse conhecimento, se dele não  tomasse motivo de humilhar-se diante de  mim e louvar mais fervorosamente  o meu nome? Muito mais agrada a Deus  quem cuida na grandeza dos seus  pecados, na escassez das virtudes e na  grande distância que o separa da  perfeição dos santos, do que aquele  que disputa sobre a maior ou menor  glória deles. Melhor é implorar os  santos com devotas orações e  lágrimas, suplicar-lhes com humildade de  coração sua gloriosa  intercessão, que perscrutar, com vã curiosidade,  seus segredos.&lt;br /&gt;8. Os  santos estão bem contentes e satisfeitos; oxalá  também os homens  soubessem estar contentes e refrear suas vãs  palavras. Não se gloriam  dos próprios merecimentos, pois nenhum bem  atribuem a si mesmos, mas  tudo referem a mim que lhes dei tudo por  infinita caridade. Tão cheios  estão do amor da divindade e de  abundantíssima alegria, que nada falta à  sua glória, nem pode faltar à  sua bem-aventurança. Quanto mais elevados  estão os santos na glória,  tanto mais humildes são em si mesmos e mais  perto de mim e de mim  amados. Por isso lês na Escritura que depunham  suas coroas diante de  Deus e se prostavam diante do Cordeiro e adoravam  aquele que vive nos  séculos dos séculos (Apc 4,10).&lt;br /&gt;9. Muitos  perguntam qual seja o  maior no reino de Deus e não sabem se serão dignos  de ser contados  entre os menores. Grande coisa é ser ainda o menor no  céu, onde todos  são grandes, porque serão chamados filhos de Deus, e, na  verdade,&lt;br /&gt;o  são. O menor valerá por mil, e o pecador de cem anos  morrerá (Is 60,22;  65,20). Pois, quando os discípulos perguntaram quem  era o maior no  reino dos céus, receberam esta resposta: Se vos não  converterdes e vos  tornardes como crianças, não entrareis no reino dos  céus (Mt 18,3.4).&lt;br /&gt;10.  Ai daqueles que recusam humilhar-se  espontaneamente com os pequenos;  porque é baixa a porta do reino celeste  e não lhes dará entrada. Ai  também dos ricos, que têm neste mundo suas  consolações, porque, quando  os pobres entrarem no reino de Deus, eles  ficarão de fora, chorando.  Regozijai-vos, humildes, e "exultai, pobres,  porque vosso é o reino de  Deus" (Lc 6,20) contanto que andeis no caminho  da verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  LIX&lt;br /&gt;Que só em Deus devemos firmar toda  esperança e confiança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  A alma: Senhor, que confiança posso eu  ter nesta vida ou qual é minha  maior consolação de tudo quanto existe  debaixo do sol? Não o sois vós,  Senhor, Deus meu, cuja misericórdia é  infinita? Onde me achei bem sem  vós, ou quando passei mal, estando vós  presente? Antes quero ser pobre  por vós, que rico sem vós. Prefiro  peregrinar convosco na terra, que  sem vós possuir o céu. Onde vós  estais, aí está o céu; e lá existe a  morte e o inferno, onde vós não  estais. Vós sois o alvo de meus  desejos, por isso por vós devo gemer,  clamar e orar. Em ninguém,  finalmente, posso plenamente confiar que me  dê auxílio oportuno em  minhas necessidades, senão em vós só, meu Deus.  Vós sois minha  esperança, vós minha confiança, vós meu consolador  fidelíssimo em todas  as coisas.&lt;br /&gt;1. Todos buscam os seus interesses;  vós, porém, só  tendes em vista minha salvação e aproveitamento, e tudo  converteis&lt;br /&gt;2.  em bem para mim. Ainda quando me sujeitais a várias  tentações e  adversidades, tudo isso ordenais para meu proveito, pois de  mil modos  costumais provar os vossos amigos. E nessas provações não  menos vos  devo amar e louvar, como se me enchêsseis de celestiais  consolações.&lt;br /&gt;2.  Em vós, portanto, Senhor meu Deus, é que ponho toda a  minha esperança e  refúgio; a vós entrego todas as minhas tribulações e  angústias; porque  tudo quanto vejo fora de vós acho fraco e inconstante.  Nada me  aproveitam os muitos amigos, nem me poderão ajudar os homens,  nem os  prudentes conselheiros me darão conselho útil, nem os livros dos  sábios  me poderão consolar, nem qualquer tesouro precioso me poderá  salvar,  nem algum retiro delicioso me proteger, se vós mesmo não me  assistis,  ajudais, confortais, consolais, instruís e defendeis.&lt;br /&gt;3.  Pois tudo  que parece próprio para alcançar a paz e a felicidade nada é  sem vós,  nem pode trazer-nos a verdadeira felicidade. Vós sois, pois, o  remate  de todos os bens, a plenitude da vida, o abismo da ciência;  esperar em  vós acima de tudo é a maior das consolações dos vossos  servos. A ti,  Senhor, levanto os meus olhos, em vós confio, Deus meu,  Pai de  misericórdia! Abençoai e santificai minha alma com a bênção  celestial  para que seja vossa santa morada, o trono de vossa eterna  glória, e  nada se encontre nesse tempo da vossa divindade que possa  ofender os  olhos de vossa majestade. Olhai para mim segundo a grandeza  de vossa  bondade e a multidão de vossas misericórdias e ouvi a oração do  vosso  pobre servo desterrado tão longe, na sombria região da morte.  Protegei e  conservai a alma do vosso mísero servo entre os muitos  perigos desta  vida corruptível, e com a assistência de vossa graça  guiai-o pelo  caminho da paz à pátria da perpétua claridade. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%; font-weight: bold;"&gt;Imitação   de Cristo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Kempense.&lt;br /&gt;Livro IV.&lt;br /&gt;Do sacramento do altar&lt;br /&gt;Devota   exortação à sagrada comunhão&lt;br /&gt;Autor: Tomás Kempis&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Voz de Cristo&lt;br /&gt;Vinde a mim  todos que  penais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei, diz o  Senhor (Mt  11,78).&lt;br /&gt;O pão que eu darei é a minha carne, pela vida do  mundo (Jo  6,52).&lt;br /&gt;Tomai e comei, este é o meu corpo, que será entregue  por vós;  fazei isto em memória de mim (Lc 22,19).&lt;br /&gt;Quem come a minha  carne e  bebe o meu sangue fica em mim e eu nele (Jo 6,57).&lt;br /&gt;As  palavras que  eu vos disse são espírito e vida (Jo 6,64).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  I&lt;br /&gt;Com  quanta reverência cumpre receber a Cristo&lt;br /&gt;Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   São vossas essas palavras, ó Jesus, verdade eterna, ainda que não   fossem proferidas todas ao mesmo tempo, nem escritas no mesmo lugar.   Sendo vossas, pois, essas palavras e verdadeiras, devo recebê-las todas   com gratidão e fé. São vossas, porque vós as dissestes; e são também   minhas, porque as dissestes para minha salvação. Cheio de alegria as   recebo de vossa boca, para que mais profundamente se me gravem no   coração. Animam-se palavras de tanta ternura, atemorizam-me os meus   pecados, e minha consciência impura me afasta da participação de tão   altos mistérios. Atraime a doçura de vossas palavras, mas me oprime a   multidão de meus pecados.&lt;br /&gt;2. Mandais que me chegue a vós com grande   confiança, se quero ter parte convosco; e que receba o manjar da   imortalidade, se desejo alcançar a vida e glória eterna. Vinde, dizeis   vós, vinde a mim todos que penais e estais sobrecarregados, e eu vos   aliviarei. Ó palavra doce e amorosa aos ouvidos do pecador: vós, Senhor   meu Deus, convidais o pobre e indigente à comunhão de vosso santíssimo   corpo, mas quem sou eu, Senhor, para ousar aproximarme de vós? Eis que   os céus dos céus não vos pode abranger, e dizeis: Vinde a mim todos!&lt;br /&gt;1.   Que quer dizer essa condescendência tão meiga e esse tão amoroso   convite? Como me atreverei a chegar-me a vós,&lt;br /&gt;2. quando não conheço   em mim bem algum em que me possa confiar? Como posso acolher-vos em   minha morada, eu, que tantas vezes ofendi a vossa benigníssima face?   Tremem os anjos e os arcanjos, estremecem os santos e os justos, e vós   dizeis: Vinde a mim todos! Se não fosse vossa essa palavra, quem a teria   por verdadeira? Se vós o não ordenásseis, quem ousaria aproximar-se?&lt;br /&gt;3.   Noé, o varão justo, trabalhou cem anos na construção da arca para   salvar-se com poucos: como me poderei eu preparar numa hora para receber   com reverência o Criador do mundo? Moisés, vosso grande servo e   particular amigo, fabricou a arca de madeira incorruptível, e revestiu-a   de ouro puríssimo, para guardar nela as tábuas da lei; e eu, criatura   vil, me atreverei a receber-vos com tanta facilidade, a vós, que sois o   autor da lei e o dispensador da vida? Salomão, o mais sábio dos reis  de  Israel, levou sete anos a edificar o templo magnífico, em louvor de   vosso nome, e celebrou por oito dias a festa de sua dedicação, ofereceu   mil hóstias pacíficas, e ao som das trombetas e com muito júbilo  colocou  a arca da aliança no lugar que lhe havia sido preparado. E eu, o  mais  miserável de todos os homens, como poderei receber-vos em minha  casa,  quando mal sei empregar meia hora com devoção? e oxalá que uma  vez  sequer a houvesse empregado dignamente!&lt;br /&gt;4. Ó meu Deus, quanto se   esforçaram esses vossos servos para agradar-vos! Ai, quão pouco é o  que  eu faço! Quão pouco o tempo que gasto em preparar-me para a  comunhão!  Raras vezes estou de todo recolhido, raríssimo livre de toda  distração.  E, todavia, na presença salutar de vossa divindade não me  devia ocorrer  pensamento algum impróprio, nem eu me devia ocupar de  criatura alguma,  pois vou hospedar, não a um anjo, senão ao Senhor dos  anjos.&lt;br /&gt;5.  Demais, há grandíssima diferença entre a arca da aliança  com suas  relíquias e vosso puríssimo corpo com suas inefáveis virtudes;  entre  aqueles sacrifícios da lei, que eram apenas figuras do futuro, e  o  sacrifício verdadeiro de vosso corpo, que é o cumprimento de todos  os  sacrifícios antigos.&lt;br /&gt;6. Por que, pois, se me não acende melhor o  meu  coração na vossa adorável presença? Por que me não preparo com  maior  cuidado para receber vosso santos mistério, quando aqueles santos   patriarcas e profetas, reis e príncipes, com todo o povo, mostraram   tanta devoção e fervor no culto divino?&lt;br /&gt;7. Com religioso transporte   dançou o piedosíssimo rei Davi diante da arca da aliança, em memória dos   benefícios concedidos outrora a seus pais; mandou fabricar vários   instrumentos musicais, compôs salmos e ordenou que se cantassem com   alegria, e ele mesmo os cantava muitas vezes ao som da harpa; ensinou ao   povo de Israel a louvar a Deus de todo o coração e angrandecê-lo e   bendizê-lo todos os dias, a uma voz. Se tanta era, então, a devoção e o   fervor divino diante da arca do testamento, quanta reverência e devoção   devo eu ter agora, e todo o povo cristão, na presença do Sacramento e  na  recepção do preciosíssimo corpo de Cristo!&lt;br /&gt;8. Correm muitos a   diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, e se admiram   ouvindo narrar os seus feitos; contemplam os vastos edifícios dos   templos e beijam os sagrados ossos, guardados em seda e ouro. E eis que   aqui estais presente diante de mim, no altar, vós, meu Deus, Santo dos   santos. Criador dos homens e Senhor dos anjos. Em tais visitas, muitas   vezes é a curiosidade e a novidade das coisas que move os homens; e   diminuto é o fruto de emenda que recolhem, principalmente quando fazem   essas peregrinações com leviandade, sem verdadeira contrição. Aqui,   porém, no Sacramento do Altar, vós estais todo presente, Deus e homem,   Cristo Jesus; aqui o homem recebe copioso fruto de eterna salvação,   todas as vezes que vos recebe digna e devotamente. Aí não nos leva   nenhuma leviandade, nem curiosidade ou atrativo dos sentidos, mas sim a   fé firme, a esperança devota e a caridade sincera.&lt;br /&gt;9. Ó Deus   invisível, Criador do mundo, quão maravilhosamente nos favoreceis, quão   suaves e ternamente tratais com vossos escolhidos, oferecendo-vos a vós   mesmo como alimento, neste Sacramento! Isto transcende todo   entendimento, isto atrai os corações dos devotos e acende o seu amor.   Porque esses teus verdadeiros fiéis, que empregam toda a sua vida na   própria emenda, recebem muitas vezes deste augusto Sacramento copiosa   graça de devolução e amor à virtude.&lt;br /&gt;10. Ó graça admirável e oculta   deste Sacramento, que só dos fiéis de Cristo é conhecida, mas que os   infiéis e escravos do pecado não podem experimentar! Neste Sacramento se   dá a graça espiritual, recupera a alma a força perdida, refloresce a   formosura deturpada pelo pecado. Tamanha é, às vezes, esta graça, que,   pela abundância da devoção recebida, não só a alma, mas ainda o corpo   fraco sente-se munido de maiores forças.&lt;br /&gt;11. É, porém, muito para   chorar e lastimar a nossa tibieza e negligência, o pouco fervor em   receber a Jesus Cristo, em quem reside toda a esperança e merecimento   dos que se hão de salvar. Porque ele é a nossa santificação e redenção,   ele&lt;br /&gt;o consolo dos peregrinos e o gozo eterno dos santos. E assim é   muito pra chorar o pouco caso que tantos fazem deste salutar mistério,   sendo ele a alegria do céu e a conservação de todo o mundo. Ó cegueira e   dureza do coração humano, que tão pouco estima esse dom inefável,   antes, com o uso cotidiano que dele faz, chega a cair na indiferença!&lt;br /&gt;13.   Pois, se esse augusto Sacramento se celebrasse num só lugar e fosse   consagrado por um só sacerdote no mundo, com quanto desejo imaginas que   acudiriam os homens a visitar aquele lugar e aquele sacerdote a fim de   assistir à celebração dos divinos mistérios? Agora, porém, há muitos   sacerdotes, e em muitos lugares Cristo é oferecido, para que tanto mais   se manifeste a graça e o amor de Deus para com os homens, quanto mais   largamente é difundida pelo mundo a sagrada comunhão. Graças vos sejam   dadas, bom Jesus Pastor eterno, que vos dignais sustentar-nos a nós,   pobres e desterrados, com vosso precioso corpo e sangue, e até   convidar-nos, com palavras de vossa própria boca, à participação desses   mistérios, dizendo: Vinde a mim todos que penais e estais   sobrecarregados, e eu vos aliviarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo II&lt;br /&gt;Como neste   Sacramento se mostra ao homem a grande bondade e caridadede Deus&lt;br /&gt;A   Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Confiado, Senhor, na vossa bondade e grande   misericórdia, a vós me chego, qual enfermo ao médico, faminto e sequioso   à fonte da vida, indigente ao Rei do céu, servo ao Senhor, criatura ao   Criador, desconsolado ao meu piedoso Consolador. Mas donde me vem a   graça de virdes a mim? Quem sou eu, para que vós mesmos vos ofereçais a   mim? Como ousa o pecador aparecer diante de vós? e vós, como vos  dignais  vir ao pecador? Conheceis vosso servo e sabeis que nenhum bem  há nele  para que lhe presteis esse benefício. Confesso, pois, minha  vileza,  reconheço vossa bondade, louvo vossa misericórdia e dou-vos  graças por  vossa excessiva caridade. Por vós mesmos fazeis isso, não  por meus  merecimentos, mas para que vossa bondade me seja mais  manifesta, maior  caridade me seja infundida e a caridade me seja mais  perfeitamente  recomendada. Pois que assim vos apraz e assim ordenastes,  a mim também  me agrada vossa condescendência, e oxalá não ponham  estorvo meus  pecados!&lt;br /&gt;2. Ó dulcíssimo e benigníssimo Jesus! louvor  vos devo pela  participação do vosso sacratíssimo corpo, cuja existência  ninguém pode  explicar! Mas que hei de pensar nesta comunhão,  chegando-me a meu  Senhor, a quem não posso devidamente honrar, e  todavia desejo receber  com devoção? Que coisa melhor e mais salutar  posso pensar, senão  humilhar-me totalmente diante de vós e exaltar  vossa infinita bondade  para comigo? Eu vos louvo, Deus meu, e vos  engrandeço para sempre.  Desprezo-me e a vós me submeto no abismo de  minha vileza.&lt;br /&gt;3. Vós sois  o Santo dos santos, e eu a escória dos  pecadores. Vós baixais para mim,  que não sou digno de levantar os olhos  para vós. Vindes a mim, quereis  estar comigo, convidais-me ao vosso  banquete. Quereis dar-me o alimento  espiritual e o pão dos anjos, que  outro, na verdade, não é senão vós  mesmos, pão vivo, que descestes do  céu e dais a vida ao mundo.&lt;br /&gt;4. Eis  a fonte do amor, donde  resplandece a vossa misericórdia! Que ações de  graças vos são devidas  por este benefício! Oh! quão salutar e proveitoso  foi o vosso desígnio,  em instituir este Sacramento! Quão suave e  delicioso banquete, em que a  vós mesmos vos destes em alimento! Quão  admiráveis, Senhor, são vossas  obras, quão inefável vossa verdade!  Porque dissestes - e tudo se fez, e  fez-se aquilo que ordenastes.&lt;br /&gt;5.  Coisa maravilhosa e digna de fé e  acima de toda compreensão humana é que  vós, Senhor, meu Deus,  verdadeiro Deus e homem, estejais todo inteiro  debaixo das  insignificantes espécies de pão e vinho, e, sem serdes  consumido,  alimentais aquele que vos recebe. Vós, Senhor do universo,  que não  precisas de coisa alguma, quisestes morar em nós por vosso  Sacramento;  conservai meu coração e meu corpo sem mancha, para que com  alegre e  pura consciência possa muitas vezes celebrar e receber vossos   mistérios, para minha eterna salvação, visto que os instituístes e   ordenastes principalmente para vossa honra e perpétua lembrança.&lt;br /&gt;6.   Regozija-te, minha alma, e agradece a Deus tão excelente dádiva e   singular consolação, que ele te deixou neste vale de lágrimas. Porque   todas as vezes que celebrares este mistério e receberes o corpo de   Cristo, renovas a obra de tua redenção e te tornas participante de todos   os merecimentos de Cristo. Pois a caridade de Cristo nunca se diminui,   nem se esgota jamais a grandeza de sua propiciação. Por isso te deves   preparar sempre para este ato pela renovação do espírito, e considerar   com atenção este grande mistério de salvação. Tão grande, novo e   delicioso se te deve afigurar, quando celebras ou ouves Missa, como se   Cristo no mesmo dia descesse pela primeira vez ao seio da Virgem e se   fizesse homem, ou como se, pendente da cruz, padecesse e morresse pela   salvação dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo III&lt;br /&gt;Da utilidade da comunhão   freqüente&lt;br /&gt;Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Eis que venho a vós, Senhor,   para aproveitar-me de vossa munificência, e deliciar-me neste sagrado   banquete, que vós, Deus meu, preparastes, na vossa ternura, para o   pobre. Em vós se acha tudo o que posso e devo desejar; vós sois minha   esperança, fortaleza honra e glória. Alegrai, pois, hoje, a alma de   vosso servo, porque a vós, Senhor Jesus, levantei a minha alma. Desejo   receber-vos agora com devoção e reverência; desejo hospedar-vos em casa,   para que, com Zaqueu, mereça ser abençoado e contado entre os filhos  de  Abraão. Minha alma suspira por vosso corpo; meu coração deseja ser   convosco unido.&lt;br /&gt;2. Dai-vos a mim e estou satisfeito; porque sem vós   nada me pode consolar. Sem vós não posso estar, e sem vossa visita não   posso viver. Por isso muitas vezes devo achegar-me a vós e receber-vos   para remédio de minha salvação, a fim de não desfalecer no caminho   quando estiver privado deste alimento celestial. Assim vós mesmo o   dissestes uma vez, misericordiosíssimo Jesus, quando pregáveis e   curáveis diversas enfermidades: "Não os quero despedir em jejum, para   que não desfaleçam no caminho"(Mt 15, 32). Fazei também do mesmo modo   comigo, pois ficastes neste Sacramento para consolação dos fiéis. Vós   sois a suave refeição da alma, e quem dignamente vos receber se tornará   participante e herdeiro da glória eterna. A mim, que tantas vezes caio e   peco, tão depressa afrouxo e desfaleço, mui necessário me é que, com a   oração, confissão e comunhão freqüente, me renove, purifique e  afervore,  para não abandonar meus santos propósitos, abstendo-me da  comunhão por  mais tempo.&lt;br /&gt;3. Pois "os sentidos do homem estão  inclinados para o mal  desde a sua adolescência (Gên 8,21), e se não o  socorre o remédio  celestial, logo cai o homem de mal em pior. Porque,  se agora, comungando  ou celebrando, sou tão negligente e tíbio, que  seria se não tomasse  este remédio e não buscasse tão poderoso conforto?  E ainda que não  esteja, todos os dias, preparado, nem bem disposto  para celebrar,  contudo me quero esforçar para, nos tempos convenientes,  receber os  sagrados mistérios e tornar-me participante de tanta graça.  Porque,  enquanto a alma fiel, longe de vós, peregrina neste corpo  mortal, a  única e principal consolação para ela é - que muitas vezes se  lembre do  seu Deus e receba devotamente&lt;br /&gt;o seu Amado.&lt;br /&gt;4. Ó  maravilhosa  condescendência de vossa bondade para convosco, que vós,  Senhor Deus,  Criador e vivificador de todos os espíritos, vos dignais  de vir à minha  pobre alma e saciar-lhe a fome com toda a vossa  divindade e humanidade! Ó  ditoso coração, ó alma bem-aventurada, que  merece receber-vos com  devoção a vós, seu Deus e Senhor, e nesta união  encher-se de gozo  espiritual! Oh! que grande Senhor recebe, que amável  hóspede agasalha,  que agradável companheiro acolhe, que fiel amigo  aceita, que formoso e  nobre esposo abraça, mais digno de ser amado que  tudo o que se ama e  deseja! Dulcíssimo Amado meu, emudeçam diante de  vós o céu e a terra com  todos os seus ornatos; porque tudo o que têm de  brilho e beleza é dom  de vossa liberalidade e não chega a igualar a  glória de vosso nome,  "cuja sabedoria não tem medida" (Sl 146,5).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  IV&lt;br /&gt;Dos  admiráveis frutos colhidos pelos que comungam devotamente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Senhor, meu Deus! Preveni vosso servo com as bênçãos de vossa doçura,   para que mereça digna e devotamente chegar-me a vosso augusto   Sacramento. Despertai meu coração para vós e tirai-me deste profundo   entorpecimento. "Visitai-me com vossa graça salutar" (Sl 105,4), para   que goze em espírito vossa doçura, que com abundância está oculta neste   Sacramento, como em sua fonte. Iluminai também meus olhos para   contemplar tão alto mistério, e fortalecei-me para crer nele com fé   inabalável. Porque é obra vossa e não de poder humano, sagrada   instituição vossa, não invenção dos homens. Ninguém, com efeito, se si   mesmo é capaz de conceber e compreender este mistério, que transcende à   própria inteligência dos anjos. Que, pois, poderei eu, pecador indigno,   pó e cinza, investigar e compreender de tão alto e sagrado mistério?&lt;br /&gt;2.   Senhor, na simplicidade do meu coração, com firme e sincera fé, e   obedecendo a vosso mandado, me aproximo de vós com esperança e   reverência e creio verdadeiramente que estais presente aqui no   Sacramento, Deus e homem. Pois quereis que vos receba e me uno convosco   em caridade. Por isso imploro vossa clemência e vos suplico a graça   particular de que todo me desfaleça em vós e me consuma em amor, sem   mais cuidar de nenhuma outra consolação. Porque este altíssimo e   diviníssimo Sacramento é a saúde da alma e do corpo, remédio de toda   enfermidade espiritual; cura os vícios, reprime as paixões, vence ou   enfraquece as tentações, comunica maior graça, corrobora a virtude   nascente, confirma a fé, fortalece a esperança, inflama e dilata a   caridade.&lt;br /&gt;3. Muitos bens condedestes e concedeis ainda a miúdo aos   vossos amigos, neste Sacramento, quando devotamente comungam, ó Deus   meu, amparo da minha alma, reparador da humana fraqueza e dispensador de   toda consolação interior. Porque lhes infundis abundantes consolações   contra várias tribulações e os levantais do abismo do próprio  abatimento  à esperança da vossa proteção e os recreais e iluminais  interiormente  com a nova graça, de sorte que os mesmos que antes da  comunhão se  sentiam inquietos e sem afeto, depois de recreados com o  manjar e a  bebida celestiais se sentem melhorados e fervorosos. Tudo  isso  prodigalizais aos vossos escolhidos, para que verdadeiramente  conheçam e  evidentemente experimentem quanta fraqueza têm em si mesmos e  quanta  bondade e graça alcançam de vós. Pois de si mesmos são frios,  tíbios e  insensíveis; por vós, porém, tornam-se fervorosos, alegres e  devotos.  Quem, porventura, se chegará humilde à fonte da suavidade, que  não  receba dela alguma doçura? Ou quem, junto de um grande fogo,  deixará de  sentir algum calor? E vós sois a fonte sempre cheia e  abundante; o fogo  que sempre arde sem jamais se apagar.&lt;br /&gt;4. Por isso,  se me não é dado  haurir da plenitude desta fonte, nem beber até me  saciar, chegarei,  todavia, meus lábios ao orifício do canal celeste, a  fim de que receba  daí ao menos uma gota, para refrigerar minha sede e  não morrer de  secura. E se não posso ainda ser todo celestial, nem tão  abrasado como  os querubins e serafins, contudo me empenharei por  permanecer na devoção  e dispor meu coração, para que pela recepção  humilde deste vivificante  Sacramento receba ao menos uma tênue faísca  do divino incêndio. O que me  falta, porém, ó bom Jesus, Salvador  santíssimo, supri-o pela vossa  bondade e graça, pois vos dignastes  chamar-nos todos a vós, dizendo:  Vinde a mim todos que penais e estais  sobrecarregados, e eu vos  aliviarei.&lt;br /&gt;5. Na verdade, eu trabalho com o  suor do meu rosto, sou  atormentado com angústias do coração, estou  carregado de pecados,  molestado de tentações, embaraçado e oprimido com  muitas paixões e não  há ninguém que me ajude, livre ou salve, senão  vós, Senhor Deus,  Salvador meu, a quem me entrego, com tudo o que me  pertence, para que me  guardeis e leveis à vida eterna. Recebei-me para  honra e glória de  vosso nome, pois me preparastes para a comida e  bebida o vosso corpo e  sangue. Concedei-me, Senhor Deus, Salvador meu,  que com a frequência de  vosso mistério se me aumente o fervor da  devoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo V&lt;br /&gt;Da  dignidade do Sacramento e do estado  sacerdotal&lt;br /&gt;Voz do Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Ainda que tiveras a pureza dos  anjos e a santidade de São João Batista,  não serias digno de receber ou  administrar este Sacramento. Porque não é  devido a merecimento algum  humano que o homem pode consagrar e  administrar o Sacramento de Cristo e  comer o pãos dos anjos. Sublime  mistério e grande dignidade dos  sacerdotes, aos quais é dado&lt;br /&gt;o que  aos anjos não foi concedido!  Porque só os sacerdotes legitimamente  ordenados na Igreja têm o poder  de celebrar a Missa e consagrar o corpo  de Cristo, porquanto é  tão-somente o ministro de Deus que usa das  palavras de Deus, por ordem e  instituição de Deus; Deus, porém, é o  autor principal e invisível  agente, a cujo aceno tudo obedece.&lt;br /&gt;2.  Neste augustíssimo Sacramento  deves, pois, mais crer em Deus onipotente  que em teus próprios sentidos  ou em qualquer sinal visível. Por isso  deves aproximar-te deste  mistério com temor e reverência. Olha para ti e  considera que  ministério te foi confiado pela imposição das mãos do  bispo. Foste  ordenado sacerdote e consagrado para o serviço do altar;  cuida agora em  oferecer a Deus o sacrifício em tempo oportuno, com fé e  devoção, e de  levar uma vida irrepreensível. Não se te diminui o  encargo, ao  contrário, estás agora mais apertadamente ligado aos  vínculos de  disciplina e obrigado a maior perfeição e santidade. O  sacerdote deve  ser ornado de todas as virtudes de dar aos outros&lt;br /&gt;o  exemplo de vida  santa. Ele não deve trilhar os caminhos vulgares e  comuns dos homens,  mas a sua convivência seja com os anjos do céu ou com  os varões  perfeitos na terra.&lt;br /&gt;3. O sacerdote, revestido das vestes  sagradas,  faz as vezes de Cristo, para rogar devota e humildemente a  Deus por si e  por todo o povo. Traz o sinal da cruz do Senhor no peito e  nas costas,  para que continuamente se recorde da paixão de Cristo.  Diante de si,  na casula, traz a cruz, para que considere, com cuidado,  os passos de  Cristo, e se empenhe de os seguir com fervor. Nas costas  também está  asssinalado com a cruz, para que tolere com paciência, por  amor de  Deus, qualquer injúria que outros lhe fizeram. Diante de si traz  a cruz  para chorar os próprios pecados; atrás de si, para deplorar  também os  alheios, por compaixão, e para que saiba que é constituído  medianeiro  entre Deus e o pecador. Também não cesse de orar e oferecer o  santo  sacrifício, até que mereça alcançar graça e misericórdia. Quando o   sacerdote celebra a Santa Missa, honra a Deus, alegra os anjos, edifica   a Igreja, ajuda os vivos, proporciona descanso aos defuntos e faz-se   participante de todos os bens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VI&lt;br /&gt;Pergunta   concernente ao exercício antes da comunhão&lt;br /&gt;Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Senhor, quando considero vossa dignidade e minha baixeza, tremo de  medo  e me envergonho diante de mim mesmo. Porque, se me não chego a  vós,  fujo da vida, e se me apresento indignamente, incorro em vossa   indignação. Que farei, pois, Deus meu, meu auxílio e conselheiro em meu   apuros?&lt;br /&gt;2. Ensinai-me vós o caminho direto, mostrai-me algum breve   exercício. Porque me é útil saber de que modo devo, com devoção e   respeito, preparar o meu coração para receber com fruto vosso Sacramento   ou celebrar tão grande e divino sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VII&lt;br /&gt;Do   exame da própria consciência e propósito de emenda&lt;br /&gt;A Voz do Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Antes de tudo cumpre ao sacerdote de Deus, para celebrar, administrar e   receber este Sacramento, que se aproxime com grandíssima humildade de   coração e profundo respeito, com viva fé e piedosa intenção de honrar a   Deus. Examina diligentemente a tua consciência, procura limpá-la e   purificá-la, quanto puderes, com sincera contrição e humilde confissão,   de sorte que nada tenhas ou saibas que te pese na consciência, que te   cause remorsos e te estorve o livre acesso. Detesta todos os teus   pecados em geral, e lamenta mais em particular as faltas cotidianas. E,   se o tempo o permite, confessa a Deus, no recôndito de teu coração,  toda  a miséria de tuas paixões.&lt;br /&gt;2. Aflige-te e geme por seres ainda  tão  carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio de   movimentos de concupiscência, tão pouco recatado nos sentidos   exteriores, tão amaranhado em muitas vãs ilusões, tão inclinado às   coisas exteriores, tão descurado das interiores; tão dado ao riso e à   dissipação, tão duro para as lágrimas e a compunção; tão pronto para os   regalos e cômodos da carne; tão indolente para as austeridades e o   fervor; tão curioso por ouvir novidades e ver coisas bonitas; tão   remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de possuir   muito; tão parco em dar; tão tenaz em guardar; tão indiscreto no falar;   tão insofrido no calar; tão indiscreto no falar; tão insofrido no  calar;  tão desregrado nos costumes; tão precipitado nas orações; tão  sôfrego  no comer; tão surdo à palavra de Deus; tão ligeiro para o  descanso; tão  vagaroso para o trabalho; tão atento para conversas  fúteis; tão  sonolento para as sagradas vigílias; tão pressuroso por  chegar ao fim;  tão vago na atenção; tão negligente na recitação do  ofício divino; tão  tíbio na celebração da missa; tão seco na comunhão;  tão depressa  distraído; tão raramente bem recolhido; tão precipitado à  ira; tão fácil  de melindrar os outros; tão propenso a julgar; tão  rigoroso em  repreender; tão alegre nas prosperidades, tão abatido nas  adversidades;  tão fecundo em boas resoluções, tão preguiçoso em  executá-las.&lt;br /&gt;3.  Confessados e chorados estes e outros defeitos, com  pesar e vivo  sentimento de tua própria fraqueza, toma o firme propósito  de emendar  tua vida e melhorá-la continuamente. Depois, com plena  resignação e  inteira vontade, oferece-te a ti mesmo como perpétuo  holocausto em honra  do meu nome, sobre o altar do teu coração,  entregando-me confiadamente  teu corpo e tua alma, para que assim  mereças oferecer dignamente a Deus o  sacrifício e receber com fruto o  Sacramento do meu corpo.&lt;br /&gt;4. Pois  não há oblação mais digna, nem  maior satisfação para expiar os pecados,  que oferecer-se a si mesmo a  Deus, pura e inteiramente, unido à oblação  do corpo de Cristo, na Missa  e na comunhão. Se o homem fizer o que está  em seu poder, e se  arrepender verdadeiramente de seus pecados, quantas  vezes a mim vier  pedir graça e perdão, sempre dirá o Senhor: Por minha  vida juro, não  quero a morte do pecador, mas que se converta e viva; não  mais me  lembrarei dos seus pecados, mas todos lhe serão perdoados (Ez  18,22;  33,11).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VIII&lt;br /&gt;Da oblação de Cristo na cruz e da   própria resignação&lt;br /&gt;Voz do Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Assim como eu a mim mesmo   ofereci espontaneamente ao Pai eterno, com os braços estendidos e o   corpo nu, de modo que nada restasse em mim que não fosse oferecido em   sacrifício de reconciliação divina: assim também deves tu de coração   oferecer-te voluntariamente a mim todos os dias na Santa Missa, em   oblação pura e santa, com todas as tuas potências e afetos. Que outra   coisa exijo de ti senão que te entregues inteiramente a mim? De tudo que   me deres fora de ti, não faço caso; porque não busco teus dons, mas a   ti mesmo.&lt;br /&gt;2. Assim como não te bastariam todas as coisas sem mim,   assim me não pode agradar o que sem ti me ofereces. Oferece-te a mim,   dá-te todo a Deus, e será aceita a tua oblação. Olha como me ofereci   todo ao Pai por ti, e dei-te todo&lt;br /&gt;o meu corpo e sangue em alimento,   para ser todo teu e para que tu te tornasses meu. Se, porém, te apegares   a ti mesmo, e não te ofereceres espontaneamente à minha vontade, não   será completa tua oblação, nem perfeita a união entre nós. Portanto, a   todas as tuas obras deve preceder o voluntário oferecimento de ti mesmo   nas mãos de Deus, se desejas alcançar a liberdade e a graça. O motivo  de  haver tão poucos interiormente esclarecidos e livres é que muitos  não  sabem abnegar-se de todo a si mesmos. É imutável minha sentença:  Quem  não renunciar a tudo não poderá ser meu discípulo (Lc 14,33). Se   desejas, pois, ser meu discípulo oferece-te a mim com todos os teus   afetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IX&lt;br /&gt;Que devemos com tudo quanto é nosso   oferecer-nos a Deus, e orar por todos&lt;br /&gt;Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.   Senhor, vosso é tudo quanto existe no céu e na terra. Desejo oferecer-me   a vós em oblação voluntária e ser vosso para sempre. Senhor, na   simplicidade do meu coração me ofereço hoje a vós por servo perpétuo em   obséquio e eterno sacrifício de louvor. Recebei-me com este santo   sacrifício de vosso precioso corpo, que vos ofereço hoje na presença dos   anjos, que a ele invisivelmente assistem, a fim de que sirva para  minha  salvação e de todo o povo.&lt;br /&gt;2. Senhor, ofereço-vos sobre vosso  altar  de propiciação todos os meus pecados e delitos que tenho cometido  em  vossa presença e de vossos santos anjos, desde o dia em que pela   primeira vez pequei até à hora presente, para que os consumais e   queimeis no fogo de vossa caridade, também apagueis todas as manchas de   meus pecados e purifiqueis minha consciência de toda a culpa e me   restituais a vossa graça, que perdi pelo pecado, perdoando-me tudo   plenamente e admitindo-me na vossa misericórdia ao ósculo da paz.&lt;br /&gt;3.   Que posso eu fazer em expiação dos meus pecados, senão confessá-los   humildemente e chorá-los, implorando incessantemente vossa misericórdia?   Rogo-vos, meu Deus, ouvi-me propício, aqui onde estou em vossa   presença! Detesto sumamente todos os meus pecados, e proponho nunca mais   cometê-los; arrependo-me deles e me hei de arrepender enquanto viver;   pronto estou a fazer penitência e satisfazer conforme as minhas forças.   Perdoai-me, meu Deus, perdoai-me os meus pecados pelo vosso santo  nome;  salvai minha alma que remistes com vosso precioso sangue. Eis que  me  abandono à vossa misericórdia, e me entrego em vossas mãos.  Tratai-me  segundo a vossa bondade, não segundo a minha iniqüidade e  malícia.&lt;br /&gt;4.  Ofereço-vos todas as minhas boas obras, por poucas e  imperfeitas que  sejam, para que vós as emendeis e santifiqueis, e as  façais agradáveis a  vós e as aperfeiçoeis cada vez mais, e para que me  leveis a mim, servo  indolente e inútil, a um fim glorioso e  bem-aventurado.&lt;br /&gt;5.  Ofereço-vos também todos os santos desejos das  almas devotas, as  necessidades de meus pais, amigos, irmãos, parentes e  de todos os que me  são caros, ou me fizeram bem a mim e a outros, por  vosso amor; também  daqueles que me encomendaram e pediram orações e  Missas por si e para  todos os seus, sejam vivos ou defuntos, para que  todos sintam o auxílio  da vossa graça, o socorro da vossa consolação, a  proteção nos perigos, o  alívio das penas e que, livres de todos os  males, vos rendam jubilosos,  muitas graças.&lt;br /&gt;6. Ofereço-vos,  finalmente, todas as orações e a  hóstia de propiciação particularmente  por aqueles que de qualquer modo  me ofenderam, contristaram,  censuraram, prejudicaram ou molestaram.  Enfim, por todos a quem eu  tenha afligido, perturbado, contrariado ou  escandalizado, com palavras  ou obras, por ignorância ou com advertência,  a fim de que a todos nos  perdoeis os nossos pecados e mútuas ofensas.  Apartai, Senhor, dos  nossos corações toda suspeita, indignação, e ira e  contenda e tudo que  possa ofender a caridade e diminuir o amor  fraternal. Compadecei-vos,  Senhor, compadecei-vos de todos os que  imploram vossa misericórdia; daí  graças aos que dela necessitam, e  fazei-nos tais, que sejamos dignos  de gozar a vossa graça e alcançar a  vida eterna. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo X&lt;br /&gt;Que  não se deve deixar por leve  motivo a sagrada comunhão&lt;br /&gt;Voz do Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  A miúdo deves  recorrer à fonte da graça e divina misericórdia, à fonte  de bondade e de  toda pureza, para que possas ser curado de tuas  paixões e vícios, e  merecer ficar mais forte e vigilante contra todas  as tentações e enganos  do demônio. Sabendo o inimigo qual é o fruto e o  eficacíssimo remédio  que se encerra na santa comunhão, procura por  todos os modos e em  qualquer ocasião impedir e afastar dela, quanto  pode, as almas fiéis e  piedosas.&lt;br /&gt;2. Pois a muitos sucede que, quando  tratam de preparar-se  para a santa comunhão, sofrem as piores  sugestões de Satanás. Esse  espírito maligno (como está escrito no livro  de Jó 1,6) mete-se entre os  filhos de Deus, para, com sua costumada  malícia, perturbá-los ou  torná-los demasiadamente tímidos e  escrupulosos, a fim de lhes diminuir a  devoção ou com suas investidas  arrancar-lhes a fé, para que deixem de  todo a comunhão ou só se lhe  aproximem com tibieza. Mas não se há de  fazer caso algum das suas  manhas e sugestões, por mais torpes e  horríveis que sejam; ao  contrário, todas essas fantasias se hão de  rechaçar sobre a sua cabeça.  Desprezo e irrisão merece esse malvado, e  por causa de suas investidas  ou inquietações não se há de deixar a  comunhão.&lt;br /&gt;3. Muitas vezes  também causa embaraço a demasiada  preocupação a respeito da devoção ou  certo receio da necessária  confissão. Procede nisto conforme o conselho  dos entendidos, e deixa a  ânsia e escrúpulos, porque estorvam a graça  de Deus e impedem a devoção  da alma. Não deixes a sagrada comunhão por  qualquer pequena tribulação  ou contrariedade, mas vai logo confessar-te  e perdoa generosamente aos  outros todas as ofensas. Se tu, porém,  ofendeste a alguém, pede  humildemente perdão, e Deus te perdoará de boa  vontade.&lt;br /&gt;4. Que  aproveita demorar por muito tempo a confissão ou  adiar a sagrada  comunhão? Purifica-te quanto antes, expele já o veneno,  apressa-te em  tomar o remédio e achar-te-ás melhor que se por muito  tempo o diferes.  Se deixas hoje a comunhão, por este ou aquele motivo,  talvez que amanhã  te sobrevenha outro maior, e assim te podias afastar  por muito tempo da  comunhão e tornar-te cada vez menos apto. O mais  cedo que possas, sacode  de ti essa inércia e tibieza, porque nada te  aproveita viver muito  tempo nessa ânsia e perturbação e privar-te dos  divinos mistérios por  cotidianos embaraços. Antes prejudica por muito  adiar a comunhão por  largo tempo; porque isto costuma produzir grave  frouxidão. Infelizmente,  alguns tíbios e relaxados folgam com os  pretextos de adiar a confissão e  desejam a demora da comunhão, para não  serem obrigados a maior  vigilância sobre si mesmos.&lt;br /&gt;5. Ai! Que  pouco amor e fraca devoção têm  aqueles que tão facilmente deixam a  sagrada comunhão! Quão feliz,  porém, e quão agradável a Deus é quem  vive tão santamente e guarda a sua  consciência em tal pureza, que todos  os dias estaria preparado e  disposto a comungar, se lhe fosse  permitido e o pudesse fazer sem causar  reparo! Quando alguém, por  humildade ou algum legítimo impedimento, se  abstém de comungar uma vez  ou outra, merece louvor por tanta reverência.  Insinuando-se-lhe, porém,  a tibieza, deve reanimar-se a si mesmo e  fazer o que puder, e Deus  auxiliará&lt;br /&gt;o seu desejo, atendendo à boa  vontade, que especialmente  aprecia.&lt;br /&gt;1. Quando for, porém,  legitimamente impedido, conserve ao  menos a boa vontade e piedosa  intenção de comungar, e deste modo não  ficará privado do fruto do  Sacramento. Porque todo cristão piedoso pode  cada dia e a cada hora, sem  embaraço e com proveito, comungar  espiritualmente. Contudo, em certos  dias e tempo determinado, deve  receber com afetuosa reverência o corpo  de seu Redentor no Sacramento, e  nisto ter em vista mais a honra e  glória de Deus, que sua própria  consolação. Porque espiritualmente  comunga e invisivelmente é recreado,  todas as vezes que medita  devotamente no mistério da encarnação de  Cristo e da sua paixão, e se  acende em seu amor.&lt;br /&gt;2. Quem se prepara  somente quando uma festa se  aproxima ou o costume o obriga, muitas  vezes se achará mal preparado.  Bem-aventurado aquele que se oferece a  Deus em holocausto, todas as  vezes que celebra a Santa Missa ou  comunga! Não sejas, ao celebrar, nem  demasiadamente demorado, nem  apressado, mas guarda o uso comum e regular  daqueles com quem vives.  Não deves causar incômodo ou enfado aos  demais; mas seguir o caminho  traçado pela instituição dos maiores e  atender antes ao proveito alheio  que à tua própria devoção e afeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XI&lt;br /&gt;Que o corpo  de Cristo e a Sagrada Escritura são sumamente  necessários à alma fiel  Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Ó dulcíssimo Senhor  Jesus, quão grande é a  doçura de uma alma devota que toma parte no vosso  banquete, no qual  outro manjar não há que se lhe ofereça, senão vós  mesmo, seu único  amado, suprema aspiração de todos os desejos de seu  coração! Também a  mim seria doce derramar em vossa presença lágrimas do  mais terno amor e  com a piedosa Madalena banhar os vossos pés com meu  pranto; mas onde  está essa devoção, onde essa copiosa efusão de santas  lágrimas? Por  certo, na vossa presença e na dos santos anjos, meu  coração devia  inteiramente ficar abrasado e chorar de alegria, pois vos  tenho  verdadeiramente presente no Sacramento, embora oculto sob  estranhas  espécies.&lt;br /&gt;2. Contemplar-vos na vossa própria e divina  claridade -  não poderiam suportar meus olhos; nem o mundo todo poderia  subsistir  perante o fulgor de vossa majestade. Por isso viestes em  socorro à  minha fraqueza, em vos ocultando debaixo do Sacramento. Possuo   realmente e adoro aquele a quem os anjos do céu adoram; mas eu, por   enquanto, só pela fé, eles, porém, com clara visão e sem véu. Eu me devo   contentar com a luz da verdadeira fé e nela caminhar, até que amanheça  o  dia da claridade eterna e desapareçam as sombras das figuras. "Mas,   quando vier o que é perfeito" (1Cor 13,10), cessará o uso dos   sacramentos; porque os bem-aventurados na glória celeste não necessitam   do remédio sacramental. Gozam sem fim da presença de Deus, contemplando  a  sua glória face a face, e, transformados de claridade em claridade  no  abismo da divindade, fruem a visão do Verbo de Deus encarnado, como  foi  no princípio e permanecerá para sempre.&lt;br /&gt;3. Ao lembrar-se dessas   maravilhas, qualquer consolação me causa tédio; porque, enquanto não   vejo claramente o meu Senhor em sua glória, em nada estimo tudo o que   neste mundo vejo e ouço. Vós, meu Deus, me sois testemunha de que   nenhuma coisa me pode consolar, nem criatura alguma me sossegar, senão   vós, meu Deus, a quem desejo contemplar eternamente. Mas isso não é   possível enquanto vivo nesta vida mortal. Por isso me convém ter grande   paciência e submeter-me a vós em todos os meus desejos. Porque também  os  vossos santos, Senhor, que exultam agora convosco no reino dos céus,   esperavam durante a sua vida terrestre, com muita fé e paciência, a   vinda da vossa glória. O que eles creram, eu o creio também; o que eles   esperaram, eu o espero; aonde eles chegaram, espero que hei de chegar   também, pela vossa graça. Até então, caminharei na fé, confortado com os   exemplos dos santos. Terei ainda os livros santos para consolo e   espelho de minha vida e, sobretudo terei vosso corpo sagrado como   singular remédio e excelente refúgio.&lt;br /&gt;4. Reconheço que neste mundo   duas coisas me são, sobretudo necessárias, sem as quais me seria   suportável esta miserável vida. Confesso que, enquanto estou detido no   cárcere deste corpo, necessito de duas coisas: alimento e luz. Por isso   me destes, Senhor, a mim, fraco, o vosso sagrado corpo, para sustento  da  alma e do corpo, e "pusestes a vossa palavra qual cadeia diante de  meus  pés" (Sl 118, 105). Sem estas duas coisas não poderia bem viver;  porque  a palavra de Deus é a luz da minha alma e vosso Sacramento o pão  da  vida. Podem ser chamadas duas mesas, colocadas de um e outro lado  do  tesouro da Santa Igreja. Uma é a mesa do santo altar, onde está o  pão  sagrado, isto é, o corpo de Cristo. A outra é a mesa da lei divina,  que  contém a doutrina santa, nos ensina a verdadeira fé e nos conduz  com  segurança atrás do véu do santuário, onde está o Santo dos santos.   Graças vos dou, Senhor Jesus, luz da luz eterna, pela mesa da sagrada   doutrina que nos ministrastes por vossos servos, os profetas, apóstolos e   outros santos doutores.&lt;br /&gt;5. Graças vos dou, Criador e Redentor dos   homens que, para dar a todo o mundo uma prova do vosso amor, preparastes   uma grande ceia, onde oferecestes em comida, não já o cordeiro   figurativo, senão vosso santíssimo corpo e sangue, enchendo de alegria   todos os fiéis com este sagrado banquete, e inebriando-os com o cálice   da salvação, onde se encerram todas as delícias do paraíso e juntamente   convosco se banqueteiam os santos e anjos, mas com mais suaves  delícias.&lt;br /&gt;6.  Oh! Quão grande e venerável é o ministério dos  sacerdotes, aos quais é  dado consagrar com palavras santas o Senhor de  majestade, bendizê-lo com  os lábios, tocá-lo com as mãos, recebê-lo em  suas bocas e distribuí-lo  aos outros! Oh! como lhes devem ser limpas as  mãos, pura a boca, santo o  corpo, imaculado o coração, em que tantas  vezes entra o Autor da  pureza! Da boca do sacerdote, que tantas vezes  recebe o Sacramento de  Cristo, palavra não deve sair que não seja  santa, honesta e útil.&lt;br /&gt;7.  Seus olhos, que constumam contemplar o  corpo de Cristo, devem ser  modestos e castos. Puras e erguidas aos céus  sejam também suas mãos, que  tantas vezes tocam o Criador do céu e da  terra. Especialmente aos  sacerdotes se diz, na lei: Sede santos, que  também eu, o Senhor vosso  Deus, sou santo (Lev 19,2; 1Pdr 1,16).&lt;br /&gt;8.  Assista-nos vossa graça, ó  Deus onipotente, para que nós, que assumimos  o ministério sacerdotal,  possamos digna e devotamente servir-vos, com  toda pureza e boa  consciência. E, se não podemos viver com tanta  inocência, como devemos,  concedei-nos ao menos a graça de chorar  devidamente os pecados cometidos  e doravante vos servir com mais&lt;br /&gt;fervor,  no espírito de humildade,  com firme propósito e boa vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XII&lt;br /&gt;Que a alma se  deve preparar com grande diligência para a  sagrada comunhão&lt;br /&gt;Voz do  Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Sou amigo da pureza e  dispensador de toda santidade.  Busco um coração puro, e este é o lugar  do meu repouso. Prepara-me um  cenáculo grande e bem ornado, e nele  celebrarei a Páscoa com meus  discípulos (Lc 22,12; Mt 26,18). Se queres  que eu venha a ti e fique  contigo, lança fora o velho fermento e limpa  a morada do teu coração.  Desterra dele&lt;br /&gt;o mundo todo e o tumulto dos  vícios; assenta-te, qual  passarinho solitário, no telhado, e relembra  teus pecados na amargura de  tua alma (Sl 101,8). Porque todo amante  prepara para o seu amado o  melhor e mais belo aposento, porque nisto se  conhece o amor de quem  acolhe o amado.&lt;br /&gt;1. Sabe, porém, que não  podes chegar a uma digna  preparação com aquilo que fazes, ainda que  empregasses nela um ano  inteiro, sem cuidar em mais nada. Mas só por  minha bondade e graça te é  permitido chegar à minha mesa, como se um  mendigo fora convidado à mesa  de um rico e não tivera outra coisa com  que pagar os benefícios  recebidos, senão humilde agradecimento. Faze o  que podes, e faze-o com  diligência; não por costume ou por necessidade,  mas por temor, respeito e  amor, recebe o corpo do teu amado Senhor e  Deus, que se digna de te  visitar. Sou eu quem te chamou e mandou que  assim se fizesse; eu  suprirei o que te falta; vem receber-me.&lt;br /&gt;2.  Quando te concedo a graça  da devoção, dá graças a teu Deus, não que  sejas digno, mas porque tive  pena de ti. Se não tens devoção, mas te  sentes muito seco, persevera na  oração, suspira, bate à porta e não  cesses até que mereças receber uma  migalha ou uma gota de minha graça  salutar. Tu necessitas de mim, e não  eu de ti. Não vens tu me  santificar, mas sou eu quem te venho santificar  e fazer melhor. Tu vens  para que, santificado por mim e a mim unido,  recebas nova graça e de  novo te afervores para a emenda. "Não desprezes  esta graça" (1Tim  4,14); mas dispõe com toda diligência teu coração e  recebe nele o teu  Amado.&lt;br /&gt;3. Importa, porém, que não só te prepares  para a devoção  antes da comunhão, mas também que a conserves  cuidadosamente depois da  recepção do Sacramento. Não é menor a  vigilância que se exige depois da  comunhão, do que a fervorosa  preparação antes de recebê-la. Pois essa  boa vigilância posterior é  novamente a melhor preparação para alcançar  maior graça; ao contrário,  muito indisposto se torna quem logo depois  se dissipa com recreações  exteriores. Guarda-te de falar muito,  retira-te na solidão e goza do teu  Deus; pois possuis aquele que o  mundo todo te não pode roubar. A mim te  deves entregar inteiramente, de  sorte que já não vivas em ti, mas em  mim, sem mais cuidado algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XIII&lt;br /&gt;Que a alma devota  deve aspirar, de todo o coração, à união com  Cristo no Sacramento&lt;br /&gt;Voz  do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Quem me dera,  Senhor, achar-me só convosco, para  vos abrir todo o meu coração e vos  gozar como deseja a minha alma a  ponto que já ninguém em mim reparasse,  nem criatura alguma se  preocupasse comigo ou olhasse para mim, mas que  só vós me falásseis e eu  a vós, como costuma falar o amante com seu  amado, e conversar o amigo  com seu amigo! Isto peço, isto desejo: ser  unido todo a vós e desprender  o meu coração de todas as coisas criadas,  e pela sagrada comunhão e  freqüente celebração da Santa Missa achar  cada vez mais gosto nas coisas  celestiais e eternas. Ah! Senhor meu  Deus, quando estarei todo unido a  vós, absorto em vós, e completamente  esquecido de mim? Vós em mim e eu  em vós; concedei que fiquemos assim  unidos!&lt;br /&gt;2. Vós sois na verdade  "meu amado, escolhido entre milhares"  (Cânt 5,10), no qual deseja a  minha alma morar todos os dias de sua  vida. Vós sois verdadeiramente meu  rei pacífico; em vós está a suma paz  e o verdadeiro descanso, e fora de  vós só há trabalho, dor e infinita  miséria. "Vós sois verdadeiramente  um Deus escondido" (Is 45,15), e  vosso conselho não é com os ímpios, mas  com os humildes, e simples é  vossa conversação. "Quão suave, Senhor, é  vosso espírito". Para  mostrar-des a vossa doçura aos vossos filhos, vos  dignais saciá-los com  o pão suavíssimo que desceu do céu. "Na verdade,  não há outra nação  tão grande que tenha seus deuses tão perto de si,  como vós, nosso Deus,  estais perto de todos os fiéis" (Dt 4,7), aos  quais vos dais em  alimento delicioso, para consolá-los diariamente e  erguer seus corações  ao céu.&lt;br /&gt;3. Que nação há tão ilustre como o povo  cristão, ou que  criatura debaixo do céu recebe tanto amor como a alma  devota a quem  Deus se une para nutri-la com a sua gloriosa carne? Ó  graça inefável, ó  admirável condescendência, ó amor imenso,  prodigalizado singularmente  ao homem. Mas que darei ao Senhor por esta  graça e tão exímia caridade?  Oferta mais agradável não posso fazer a meu  Deus, que lhe entregar meu  coração todo inteiro, para que o una  intimamente consigo. Então  exultarão de alegria todas as minhas  entranhas, quando minha alma  estiver perfeitamente unida com Deus. Então  me dirá ele: Se tu queres  estar comigo, eu também quero estar contigo. E  eu lhe responderei:  Dignai-vos, Senhor, ficar comigo, pois eu de bom  grado quero estar  convosco. Este é meu desejo supremo, que meu coração  esteja unido  convosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XIV&lt;br /&gt;Do ardente desejo que têm  alguns  devotos de receber o corpo de Cristo&lt;br /&gt;Voz do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.  Oh!  Como é grande, Senhor, a abundância da vossa doçura, que  reservastes  para os que vos temem! (Sl 30,20). Quando me lembro, Senhor,  de alguns  devotos que se aproximam do vosso Sacramento com o maior  fervor e  afeto, fico muitas vezes confuso e envergonhado de mim mesmo,  por  chegar tão tíbio e frio ao vosso altar e à mesa da sagrada comunhão;   por ficar tão seco e sem fervor de coração; por não estar de todo   abrasado diante de vós, meu Deus, nem tão veementemente atraído e   comovido, como estavam muitos devotos, que, pelo grande desejo de   sagrada comunhão e amor sensível do seu coração, não podiam reprimir as   lágrimas, mas com a boca da alma e do corpo ao mesmo tempo suspiravam   ardentemente por vós, a fonte viva, não podendo mitigar nem saciar essa   fome doutro modo, senão recebendo vosso corpo com toda alegria e ânsia   espiritual.&lt;br /&gt;2. Oh! Esta fé verdadeira e ardente é prova manifesta de   vossa sagrada presença! Estes verdadeiramente reconhecem seu Senhor ao   partir do pão, porque seu coração está em companhia deles. Longe está  de  mim tal devoção e ternura, tão vivo amor e fervor. Sede-me propício,  ó  bom, ó doce, ó benigno Jesus, e concedei a este vosso pobre mendigo  que  sinta ao menos alguma vez na sagrada comunhão um pouco do afeto  cordial  do vosso amor, para que se fortaleça minha fé, cresça minha  esperança em  vossa bondade, a minha caridade, uma vez bem acesa e  acostumada ao  celestial maná, jamais desfaleça.&lt;br /&gt;3. Vossa  misericórdia é bastante  poderosa para me dar a graça desejada, e  visitar-me em vossa clemência,  no dia que vos aprouver, com o espírito  de fervor. Pois ainda que não  esteja acendido de tão ardentes desejos,  como vossos privilegiados  devotos, sinto, todavia, com a vossa graça, o  desejo de seus abrasados  desejos, e peço e rogo o favor de participar  do fervor de todos esses  vossos amigos e ser agregado à sua santa  companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XV&lt;br /&gt;Que  a graça da devoção se alcança pela  humildade e abnegação de si mesmo&lt;br /&gt;Voz  do Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Com  perseverança deves buscar a graça da devoção,  pedi-la com instância,  esperá-la com paciência e confiança, recebê-la  com agradecimento,  guardá-la com humildade, com diligência aproveitá-la,  cometendo a Deus o  tempo e o modo da celestial visita, até que se digne  visitar-te. Deves  principalmente humilhar-te quando pouca ou nenhuma  devoção sentes em  teu interior, sem, todavia, ficar abatido ou  entristecer-te  demasiadamente. Muitas vezes dá Deus num momento o que  negou por largo  tempo, e às vezes concede no fim da oração o que no  princípio diferiu.&lt;br /&gt;2.  Se a graça fora sempre prontamente outorgada e  oferecida à vontade,  tanto não podia suportar o homem fraco. Por isso a  deves esperar com  firme confiança e humilde paciência. Mas atribui a  culpa a ti e aos  teus pecados, quando te for negada ou ocultamente  retirada. Às vezes é  bem pouco o que impede ou oculta a graça, se é que  se pode chamar pouco  e não muito, o que priva de tão grande bem. E se  removeres este  pequeno ou grande impedimento, e se te venceres  perfeitamente, terás o  que pediste.&lt;br /&gt;1. Porque logo que de todo o teu  coração te entregares a  Deus e não buscares coisa alguma a teu gosto e  desejo, mas  inteiramente te puseres em suas mãos, achar-te-ás unido a  ele e  sossegado, e nada te será tão delicioso e agradável como o  beneplácito  da divina vontade. Todo aquele, pois, que com coração  singelo dirige a  sua intenção a Deus e se desprende de todo amor ou  aversão desordenada a  qualquer coisa criada, está bem disposto para  receber a graça e digno&lt;br /&gt;2.  de alcançar a devoção, porque o Senhor dá a  sua bênção onde encontra o  coração vazio. E quanto mais perfeitamente  alguém renuncia às coisas  terrenas e morre a si pelo desprezo de si  mesmo, tanto mais depressa  lhe advém a graça, mais copiosamente se lhe  infunde e mais alto lhe  ergue o coração livre.&lt;br /&gt;3. Então verá, terá  alegria abundante e  estará maravilhoso; o coração se lhe dilatará,  porque a mão do Senhor  está com ele (Is 60,5), e em suas mãos ele  inteiramente se entregou  para sempre. Eis como será abençoado o homem  que busca a Deus de todo o  seu coração, e não deixa sua alma se apegar  às vaidades (Sl 23,5).  Esse é que na recepção da sagrada Eucaristia  merece a graça inefável da  união com Deus, porque não olha para a sua  devoção e consolação, mas,  sobretudo busca a honra e glória de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XVI&lt;br /&gt;Como  devemos descobrir nossas necessidades a Cristo e pedir sua  graça&lt;br /&gt;Voz  do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Ó dulcíssimo e amabilíssimo Senhor, a  quem  desejo agora devotamente receber, vós conheceis minha fraqueza e a   necessidade que sofro; sabeis em quantos males e vícios estou   emaranhado, quantas vezes estou oprimido, tentado, perturbado e   manchado! A vós peço consolação e alívio. Convosco falo, meu Deus, que   sabeis todas as coisas e a quem são manifestos todos os segredos do meu   coração; vós sois o único que me pode perfeitamente consolar e  socorrer.  Sabeis os bens de que mais necessito e quão pobre sou em  virtudes.&lt;br /&gt;2.  Eis-me aqui, diante de vós, pobre e nu, a pedir graça e  implorar  misericórdia. Fartai este vosso pobre mendigo, aquecei minha  frieza com o  fogo de vosso amor, iluminai minha cegueira com a  claridade de vossa  presença. Fazei que me seja amargo tudo o que é  terreno, que leve com  paciência as penas e contrariedades, e que  despreze e esqueça todas as  coisas caducas e criadas. Levantai o meu  coração a vós no céu, não me  deixeis vaguear na terra. Só vós, desde  hoje para sempre, me sereis doce  e agradável, porque só vós sois minha  comida e bebida, meu amor e minha  alegria, delícia minha e meu único  bem.&lt;br /&gt;3. Oh! se me inflamásseis  todo com a vossa presença e me  abrasásseis e transformásseis em vós, a  ponto de tornar-me um só  espírito convosco pela graça da união interior e  a força do ardente  amor! Não me deixeis sair de vossa presença seco e  faminto, mas usai  para comigo de vossa misericórdia, como tantas vezes  admiravelmente  fizestes com vossos santos. E que maravilha fora se todo  me abrasasse  em vós e me consumisse, sendo vós o fogo que sempre arde e  nunca se  apaga, o amor que purifica os corações e ilumina o  entendimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo  XVII&lt;br /&gt;Do ardente amor e veemente desejo  de receber a Cristo&lt;br /&gt;Voz  do discípulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Com suma devoção e  abrasado amor, com todo o  afeto e fervor do coração, desejo receber-vos,  Senhor, como muitos  santos e pessoas devotas o desejaram, os quais vos  agradaram  principalmente pela santidade de sua vida e pela ardentíssima  devoção  que os animava. Ó Deus meu, amor eterno, meu único bem,  bem-aventurança  interminável! Desejo receber-vos com o mais ardente  afeto e a mais  digna reverência que jamais sentiu ou pôde sentir santo  algum!&lt;br /&gt;2. E  ainda que seja indigno de todos esses sentimentos de  devoção,  ofereço-vos, todavia, o afeto do meu coração, como se eu só  tivera  todos aqueles gratíssimos e inflamados desejos. Mas tudo quanto  pode  conceber e desejar um coração piedoso, eu vo-lo dou e ofereço com   profunda reverência e íntimo fervor. Nada quero reservar para mim, mas a   mim, e tudo que é meu quero sacrificar-vos espontaneamente, de boa   vontade, Senhor, Deus meu, Criador e Redentor meu! desejo receber-vos   hoje com tal afeto e reverência, com tal louvor e honra, com tal   agradecimento, dignidade e pureza, com tal fé, esperança e amor, como   vos desejou e recebeu vossa Mãe Santíssima, a gloriosa Virgem Maria,   quando, ao anjo que lhe anunciou o mistério da encarnação, humilde e   devotamente respondeu: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a   vossa palavra! (Lc 1,38).&lt;br /&gt;1. E como vosso bem-aventurado precursor   João Batista, o mais excelente dos santos, quando ainda estava nas   entranhas maternas, exultou de alegria na vossa presença por impulso do   Espírito Santo, e vendo-vos, meu Jesus, depois andar entre os homens  com  profunda humildade e devoto afeto dizia: O amigo do Esposo que está   perto dele e o&lt;br /&gt;2. ouve regozija-se ouvindo a voz do Esposo (Jo  3,29);  assim também eu quisera ser inflamado de veementes e santos  desejos e  entregar-me a vós de todo o meu coração. Por isso vos ofereço  o júbilo  de todas as almas devotas, seus abrasados afetos de amor, os  êxtases de  seu espírito, suas iluminações sobrenaturais e visões  celestiais, e  vo-las apresento com todas as virtudes e louvores que vos  tributaram ou  hão de tributar todas as criaturas do céu e na terra,  por mim e por  todos os que se recomendaram às minhas orações, para que  sejais por  todos dignamente louvado e para sempre glorificado.&lt;br /&gt;3.  Aceitai,  Senhor, Deus meu, os votos e desejos de infinitos louvores e  imensas  ações de graças, que vos são justamente devidas, segundo a  vossa  inefável grandeza. Isso vos ofereço, e desejo oferecer cada dia e  a cada  momento, e convido com minhas súplicas e rogos todos os  espíritos  celestes e todos os vossos fiéis a vos agradecerem comigo e  louvarem.&lt;br /&gt;4.  Louvem-vos todos os povos, tribos e línguas; com suma  alegria e ardente  devoção glorifiquem o vosso santo e dulcíssimo nome. E  todos aqueles  que com devoção e reverência consagram vosso augusto  Sacramento e com  viva fé o recebem, mereçam achar graça e misericórdia  diante de vós e  peçam a Deus humildemente por mim, pecador. E quando  tiverem conseguido e  desejada devoção e o gozo da união convosco e  voltarem da mesa sagrada,  consolados e maravilhosamente recreados,  dignem-se lembrar-se também  deste pobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XVIII&lt;br /&gt;Que o  homem não seja curioso  escrutador do Sacramento,&lt;br /&gt;mas  humildeimitador de Cristo, sujeitando  sua razão à santa fé&lt;br /&gt;Voz do  Amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Foge do desejo curioso e  inútil de investigar este  profundíssimo mistério, se não te queres  afogar num abismo de dúvidas.  Quem quer perscrutar a majestade será  oprimido por sua glória (Prov  25,27). Mais pode Deus fazer, que o homem  compreender. Contudo é  permitida uma piedosa e humilde investigação da  verdade, que sempre  está inclinada a ser instruída e segue a sã doutrina  dos Santos Padres.&lt;br /&gt;2.  Bem-aventurada a simplicidade, que deixa os  caminhos dificultosos das  discussões, para andar no caminho plano e  firme dos mandamentos de  Deus! Muitos perderam a devoção, porque  quiseram investigar coisas  muito altas. O que se exige de ti é fé e  inocência, não sublime  inteligência, nem profundo conhecimento dos  mistérios de Deus. Se não  entendes, nem compreendes as coisas que estão  abaixo de ti, como  alcançarás as que estão acima? Sujeita-te a Deus e  submete teu juízo à  fé, e se te dará a luz da ciência, conforme te for  útil e necessário.&lt;br /&gt;3.  Alguns são gravemente tentados acerca da fé  nesse Sacramento; mas isso  não se deve imputar a eles, senão ao inimigo.  Não te importes, nem  disputes com teus próprios pensamentos, nem  respondas às dúvidas que o  demônio te sugere, mas crê nas palavras de  Deus, crê nos seus santos e  profetas, e fugirá de ti o malvado inimigo.  Muitas vezes é de grande  proveito ao servo de Deus passar por tais  provações, porque o demônio  não tenta aos infiéis e pecadores, que já  tem seguros: aos fiéis  devotos, porém, ele tenta e molesta de vários  modos.&lt;br /&gt;4. Persevera,  pois, na fé, firme e simples, e chega-te ao  Sacramento com profunda  reverência. E quanto ao que não podes  compreender, encomenda-o  tranqüilamente a Deus onipotente. Deus não te  engana; mas se engana  quem demasiadamente confia em si mesmo. Deus anda  com os simples,  revela-se aos humildes, dá inteligência aos pequenos,  abre o sentido às  almas puras e esconde sua graça aos curiosos e  soberbos. A razão  humana é fraca e pode enganar-se, mas a fé verdadeira  não se pode  enganar.&lt;br /&gt;5. Toda razão e pesquisa natural deve seguir a  fé, não  precedê-la, nem enfraquecê-la, porque a fé e o amor aqui dominam  e  operam ocultamente nesse santíssimo e diviníssimo Sacramento. "Deus   eterno, imenso e infinitamente poderoso faz coisas grandes e   incompreensíveis no céu e na terra" (Jó 5,9), e ninguém pode penetrar as   maravilhas de suas obras. Se fossem tais as obras de Deus, que   facilmente as compreendesse a razão humana, não deveriam ser chamadas   maravilhosas, nem inefáveis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3326216974110226786-1148633300455959669?l=textosantigos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://textosantigos.blogspot.com/feeds/1148633300455959669/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3326216974110226786&amp;postID=1148633300455959669&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/1148633300455959669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/1148633300455959669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textosantigos.blogspot.com/2010/07/tomas-kempis-1379-1471.html' title='Tomás Kempis (1379 - 1471).'/><author><name>Jorge Luis</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0kDuxyKBI/AAAAAAAAEW4/zXHVbBjCnXM/s72-c/Thomas+a+Kempis.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3326216974110226786.post-3431775315294730711</id><published>2010-07-07T01:05:00.000-07:00</published><updated>2010-12-18T13:21:54.096-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='S. Anselmo de Cantuária'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Século XI'/><title type='text'>Santo Anselmo de Cantuária (1033 - 1109).</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: times new roman; font-size: 100%;"&gt;&lt;span class="link1"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: times new roman; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Proslógio - o argumento ontológico de Santo Anselmo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Proêmio.&lt;br /&gt;Santo Anselmo de Cantuária (1033 - 1109).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: times new roman;"&gt;______________________________________________________________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0l1u3mjRI/AAAAAAAAEXA/8HnSN55Qy-c/s1600/pedras_angulares_santo_anselmo_584px.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0l1u3mjRI/AAAAAAAAEXA/8HnSN55Qy-c/s1600/pedras_angulares_santo_anselmo_584px.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0l1u3mjRI/AAAAAAAAEXA/8HnSN55Qy-c/s1600/pedras_angulares_santo_anselmo_584px.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;Mal acabei de escrever um opúsculo [o Monológio], acendendo aos pedidos de alguns irmãos, o qual servisse como exemplo de meditação sobre os mistérios da fé para um homem que busca, em silêncio, descobrir, através da razão, o que ignora, e dei-me conta de que essa obra era difícil de ser entendida devido ao entrelaçamento das muitas argumentações. Então comecei a pensar comigo mesmo se não seria possível encontrar um único argumento que, válido em si e por si, sem nenhum outro, permitisse demonstrar que Deus existe verdadeiramente e que ele é o bem supremo, não necessitando de coisa alguma, quando, ao contrário, todos os outros seres precisam dele para existirem e serem bons. Um argumento suficiente, em suma, para oferecer provas adequadas sobre aquilo que cremos acerca da substância divina.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ao dirigir com zelo e freqüência o pensamento para esse fim, às vezes parecia-me ter alcançado o objetivo; outras, tinha a impressão que se me embaciava a mente. Por fim, desanimado, procurei deixar de lado a tarefa, julgando impossível conseguir o que buscava. Mas, por mais que me esforçasse por afugentar o propósito, porque me afastava de outras ocupações profícuas, ele voltava a mim com insistência crescente. No entanto, um dia, quando já estava cansado de resistir a essa perseguição inoportuna, justamente no calor do conflito dos meus pensamentos, eis que se me apresenta a idéia que já desesperara de encontrar. Acolhi-a com tanto entusiasmo quanto empenho colocara em rechaçá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Considerando que se ela fosse fixada por escrito poderia constituir um prazer para quem a lesse, assim como deu a mim uma alegria imensa quando a encontrei, redigi este opúsculo como uma pessoa que se esforçasse para elevar a sua mente até a contemplação de Deus, a fim de compreender aquilo em que acredita.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como nem este opúsculo nem outro recordado acima pareceram-me dignos de serem chamados de livros, nem se me apresentavam tão importantes para propor-lhes o nome do autor, e, entretanto, fazia-se necessário atribuir-lhes um título que convidasse a lê-los todos aqueles em cujas mãos caíssem, dei a cada um deles uma denominação: chamei o primeiro de &lt;i&gt;Exemplo de Meditação sobre o Fundamento Racional da Fé&lt;/i&gt;, e o segundo: &lt;i&gt;A Fé Buscando Apoiar-se na Razão&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Já muitos os tinham transcrito com esses títulos, quando varias pessoas, entre elas o reverendíssimo arcebispo de Lyon, Hugo, legado apostólico, que usou de sua autoridade, obrigaram-me a pôr, em cada um deles, o meu nome. E para tornar a coisa mais fácil, intitulei um &lt;i&gt;Monológio&lt;/i&gt;, isto é, Solilóquio, e outro, &lt;i&gt;Proslógio&lt;/i&gt;, ou Meditação.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo I&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Exortação à contemplação de Deus&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eia, vamos homem! Foge por um pouco às tuas ocupações, esconde-te dos teus pensamentos tumultuados, afasta as tuas graves preocupações e deixa de lado as tuas trabalhosas inquietudes. Busca, por ma momento, a Deus, e descansa um pouco nele. Entra no esconderijo da tua mente, aparta-te de tudo, exceto de Deus e daquilo que pode levar-te a ele, e, fechada a porta, procura-o. Abre a ele todo o teu coração e dize-lhe: “Quero teu rosto; busco com ardor teu rosto, ó Senhor.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eis-me, ó Senhor meu Deus, ensina, agora, ao meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, na minha mente; se estás ausente, onde poderei encontrar-te? Se tu estás por toda parte, por que não te vejo aqui? Certamente habitas uma luz inacessível. Mas onde está essa luz inacessível? E como chegar a ela? Quem me levará até lá e me introduzirá nessa morada cheia de luz para que ali possa enxergar-te? Mas por quais traços e por que aspecto conseguirei reconhecer-te? Nunca te vi, ó Senhor meu Deus. Senhor, eu não conheço o teu rosto. Que fará, ó Senhor, que fará este teu servo tão afastado de ti? Que fará este teu servo tão ansioso pelo teu amor e, no entanto, lançado tão longe de ti? Anela ver-te, mas teu rosto está demasiado longe dele. Deseja aproximar-se de ti, mas a tua habitação fica inacessível. Arde pelo desejo de encontrar-te e não sabe onde moras. Suspira só por ti e não conhece o teu rosto. O Senhor, tu és o meu Deus e o meu Senhor; e nunca te vi. Tu me fizeste e resgataste, e tudo o que tenho de bom devo-o a ti. No entanto, não te conheço ainda. Fui criado para ver-te e até agora não consegui aquilo para que fui criado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Oh! Quão miserável é a sorte do homem que perdeu aquilo por que foi feito! Oh! Quão dura e cruel aquela queda, pela qual tantas coisas ele perdeu! E que encontrou? Que teve em troca? Que lhe ficou? Perdeu a felicidade para a qual foi criado e encontrou a miséria para a qual certamente não foi feito. Afastou-se daquele sem o qual não há felicidade e ficou com aquilo que é, por si, mísero e caduco. Antes o homem alimentava-se com o pão dos anjos e agora, faminto, come o pão da dor, que sequer conhecia. Oh! Luto comum dos homens, pranto universal dos filhos de Adão! Este tinha fartura de tudo e nós morremos de fome. Ele era rico e nós somos mendigos. Ele tinha a felicidade e a perdeu miseravelmente, e nós vivemos infelizes, tudo desejando e, indigentes, ficamos e mãos vazias! Por que ele, desde que o podia facilmente, não nos conservou um bem tão grande, cuja perda havia de nos acarretar tantas aflições? Por que nos tirou a luz para que ficássemos nas trevas? Por que nos privou da vida para nos condenar à morte? Miseráveis!, de onde fomos expulsos e para onde fomos impelidos! De onde fomos arremessados e em que abismo fomos sepultados? Passamos da pátria para o desterro, da visão de Deus para a nossa cegueira, da alegria pela imortalidade para o horror da morte! Que mudança funesta! De tão grande bem para tão grande mal! Perda lastimável, dor profunda, terrível fardo de misérias.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas, ai de mim, que sou um dos miseráveis filhos de Eva afastados de Deus! Que procurei empreender? O que consegui efetuar? Para onde procurava ir? Aonde cheguei? A que aspirava? Por que suspiro? Procurava a felicidade e eis me encontro na perturbação! Dirigia-me a Deus e incidi em mim mesmo. Buscava o descanso no segredo da minha mente e encontro, em meu íntimo, apenas tribulação e dor. Queria alegrar-me com toda a alegria da minha alma e vejo-me obrigado a gemer com os gemidos do meu coração. Esperava a felicidade e nada mais achei que a multiplicação dos suspiros!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E tu, Senhor, até quando, até quando, ó Senhor, ficarás esquecido de nós? Até quando conservarás o teu rosto afastado de nós? Quando iluminarás os nossos olhos e nos mostrarás o teu rosto? Quando reverterás a nós? Olha para nós, ó Senhor; escuta-nos, ilumina os nossos olhos, mostra-te a nós. Volta para junto de nós a fim de termos, novamente, a felicidade, pois, sem ti, só há dores para nós. Tem piedade de nosso sofrimento e esforços para chegar a ti, pois, sem ti, nada podemos. Convida-nos, ajuda-nos, Senhor; rogo-te que o meu desespero não destrua este meu suspirar por ti, mas respire dilatando meu coração na esperança. Rogo-te, ó Senhor, consoles o meu coração amargurado pela desolação. Suplico-te, ó Senhor, não me deixes insatisfeito após começar a tua procura com tanta fome de ti. Famélico, dirigi-me a ti; não permitas que volte em jejum. Pobre e miserável que sou, fui em busca do rico e do misericordioso: não permitas que retorne sem nada, e decepcionado. E se suspiro antes de comer, faze com que eu tenha a comida após os suspiros. Ó Senhor, encurvado como sou, nem posso ver senão a terra; ergue-me, pois, para que possa fixar com os olhos o alto. As minhas iniqüidades elevaram-se por cima da minha cabeça, rodeiam-me por toda parte e oprimem-me como um fardo pesado. Livra-me delas, alivia-me desse peso para que não fique encerrado como num poço. Seja-me permitido enxergar a tua luz embora de tão longe e desta profundidade. Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro; pois, sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira, nem encontrar-te se não te mostrares. Que eu possa procurar-te desejando-te, e desejar-te ao procurar-te, e encontrar-te amando-te e amar-te ao encontrar-te.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ó Senhor, reconheço, e rendo-te graças por ter criado em mim esta tua imagem a fim de que, ao recordar-me de ti, eu pense em ti e te ame. Mas, ela está tão apagada em minha mente por causa dos vícios, tão embaciada pela névoa dos pecados, que não consegue alcançar o fim para o qual a fizeste, caso tu não a renoves e a reformes. Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade: de maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo II&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que Deus existe verdadeiramente&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Então, ó Senhor, tu que nos concedeste a razão em defesa da fé, faze com que eu conheça, até quanto me é possível, que tu existes assim como acreditamos, e que és aquilo que acreditamos. Cremos, pois, com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ou será que um ser assim não existe porque “o insipiente disse, em seu coração: Deus não existe”? [Sl 13,1] Porém, o insipiente, quando eu digo: “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, ouve o que digo e o compreende. Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda que possa não compreender que existe realmente. Na verdade, ter a idéia de um objeto qualquer na inteligência, e compreender que existe realmente, são coisas distintas. Um pintor, por exemplo, ao imaginar a obra que vai fazer, sem dúvida, a possui em sua inteligência; porém, nada compreende da existência real da mesma, porque ainda não a executou. Quando, ao contrário, a tiver pintado, não a possuirá apenas na mente, mas também lhe compreenderá a existência, porque já a executou. O insipiente há de convir igualmente que existe na sua inteligência “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, porque ouve e compreende essa frase; e tudo aquilo que se compreende encontra-se na inteligência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas “o ser do qual não é possível pensar nada maior” não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se, portanto, “o ser do qual não é possível pensar nada maior” existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Logo, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo III&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que não é possível pensar que Deus não existe&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;O que acabamos de dizer é tão verdadeiro que nem é possível sequer pensar que Deus não existe.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, pode-se pensar na existência de um ser que não admite ser pensado como não existente. Ora, aquilo que &lt;i&gt;não pode&lt;/i&gt; ser pensado como não existente, sem dúvida, é maior que aquilo que &lt;i&gt;pode&lt;/i&gt; ser pensado como não existente. Por isso, “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, se se admitisse ser pensado como não existente, ele mesmo, que é “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, não seria “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, o que é ilógico.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Existe, portanto, verdadeiramente “o ser do qual não é possível pensar nada maior”; e existe de tal forma, que nem sequer é admitido pensá-lo como não existente. E esse ser, ó Senhor, nosso Deus, és tu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Assim, tu existes, ó Senhor, meu Deus, e de tal forma existes que nem é possível pensar-te não existente. E com razão. Se a mente humana conseguisse conceber algo maior que tu, a criatura elevar-se-ia acima do Criador e formularia um juízo acerca do Criador. Coisa extremamente absurda.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E, enquanto tudo, excluindo a ti, pode ser pensado como não existente, tu és o único, ao contrário, que existes realmente, entre todas as coisas, e em sumo grau. Então, por que o insipiente disse em seu coração: “Não existe Deus”, quando é tão evidente, à razão humana, que tu existes com maior certeza que todas as coisas? Justamente porque ele é insensato e carente de raciocínio.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo IV&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que o insipiente disse em seu coração aquilo que é impossível pensar&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas como o insipiente pôde dizer, em seu coração, aquilo que nem sequer é possível pensar? Ou como pôde pensar aquilo em seu coração, quando “dizer no coração” nada mais é do que pensar? Se, verdadeiramente, ele disse isso em seu coração, na verdade, também, o pensou. Mas, na verdade, ele não disse isso em seu coração, porque, justamente, não podia pensá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, pode-se pensar, ou dizer no coração, uma coisa de duas maneiras: pensando na palavra que expressa a coisa, ou compreendendo a própria coisa. No primeiro sentido, é possível pensar que Deus não existe; no segundo, não. Quem, por exemplo, compreende o que são a água e o fogo, sem dúvida, não pode pensar que os dois elementos sejam realmente a mesma coisa. Entretanto, se pensar apenas nas palavras &lt;i&gt;água&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;fogo&lt;/i&gt;, pode imaginar as duas coisas como idênticas. Assim, quem compreende o que Deus é, certamente, não pode pensar que ele não existe, mas o poderia, se repetisse na mente apenas a palavra &lt;i&gt;Deus&lt;/i&gt;, sem atribuir-lhe nenhum significado, ou significando coisa completamente diferente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Deus, porém, é “o ser do qual não é possível pensar nada maior”, e quem compreende bem isso sem dúvida compreende, também, que Deus é um ser que não pode encontrar-se no pensamento. Quem, portanto, compreende que Deus é assim, não consegue sequer imaginar que ele não exista.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Obrigado, meu Deus. Agradeço-te, meu Deus, por ter-me permitido ver, iluminado por ti, com a luz da razão, aquilo em que, antes, acreditava pelo dom da fé que me deste. Assim, agora, encontro-me na condição em que, ainda que não quisesse crer na tua existência, seria obrigado a admitir racionalmente que tu existes.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo V&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que Deus é tudo aquilo que é melhor que exista do que não exista, e que é o único existente por si mesmo, tendo feito todas as outras coisas do nada&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, o que és tu, ó Senhor, Deus meu, tu de quem não é possível pensar nada maior? Mas, quem poderia ser, senão aquele que – supremo entre todas as coisas, único existente por si mesmo – criou tudo do nada?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, o que não é tudo isso é inferior àquilo que o pensamento pode compreender no seu mais alto grau. Mas isto não pode ser pensado de ti.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que tipo de bem poderia faltar, então, ao bem supremo, donde deriva toda espécie de bem? És, portanto, justo, verdadeiro, feliz e tudo aquilo que é de melhor que exista do que não exista. De fato, é melhor ser justo do que não ser justo, ser feliz do que não ser feliz.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo VI&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como Deus é sensível embora não seja corpo&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Sem dúvida, é melhor ser sensível, onipotente, misericordioso, impassível do que não sê-lo. E tu és tudo isso. Mas, poderás ser sensível sem ser corpo? Onipotente sem poder tudo? Simultaneamente misericordioso e impassível? Com efeito, se apenas os corpos são sensíveis porque os sentidos estendem-se pelo corpo e encontram-se dentro do corpo, como poderá acontecer que sejas sensível tu, que não és corpo e, sim, Espírito supremo, o que é melhor do que ser corpo?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A coisa explica-se porque sentir é conhecer, ou tendência ao conhecer, e aquele que sente conhece segundo a propriedade dos sentidos, como, por exemplo, as cores pela vista, os sabores pelo gosto, etc. Não é, portanto, errado dizer que quem, de alguma maneira, conhece, sente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, ó Senhor, embora não sejas corpo, és, todavia, sumamente sensível, do mesmo modo que conheces profundamente todas as coisas; não, porém, segundo a pura sensação corpórea do ser animal.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo VII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como é onipotente embora muitas coisas lhe sejam impossíveis&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas como poderás ser onipotente se tu não podes tudo? Como poderás ser onipotente desde que não é possível a ti nem morrer, nem mentir, nem fazer com que o verdadeiro se transforme em falso? Salvo se poder fazer coisas desta espécie não é potência, mas verdadeira impotência, pois, quem pode fazer coisas assim, tem a possibilidade de fazer, evidentemente, coisas funestas e contrárias ao dever e, quanto mais tiver poder para fazê-las, tanto mais o mal e a perversidade adquirem força sobre ele e tanto menos ele consegue resistir-lhes. Quem tem, portanto, semelhante faculdade não possui o poder, mas o não-poder. De fato, acontece dizermos que uma pessoa “pode” não porque, na realidade, tenha poder, mas para significar que o seu não-poder permite a outros ter poder sobre ela, usando, assim, impropriamente o verbo poder, como muitas vezes, ao falarmos, empregamos expressões impróprias, e dizemos, por exemplo, “ser” por “não-ser”, e “fazer” em lugar de “não fazer” ou “nada fazer”. Por isso, acontece que, a uma pessoa que nega alguma coisa, respondemos: “Sim, como tu dizes”, quando deveríamos ter dito: “Não; justamente como falas”. Da mesma maneira dizemos: “Esse homem senta-se como faz aquele”, ou: “Esse descansa como faz aquele outro”, e, no entanto, por sentar-se, entendemos não fazer uma coisa e, por descansar, não fazer nada. Desta maneira, quando se diz de alguém que tem o poder de fazer ou sofrer algo, pernicioso para ele ou que não deve fazer, a palavra &lt;i&gt;poder&lt;/i&gt;, na verdade, significa impotência, porque quanto maior ele possui desse tipo de poder, tanto mais poderosas se tornarão sobre ele a adversidade e a perversidade, e ele, mais fraco contra elas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, Senhor meu Deus, tu és onipotente no sentido mais verdadeiro e próprio, pois nada tu podes por impotência e nada há que possa prevalecer contra ti.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo VIII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como é misericordioso e impassível&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas, ainda, como poderás tu, Senhor, ser ao mesmo tempo misericordioso e impassível? Com efeito, se és impassível, não podes compadecer-te; e se não te compadeces, não tens coração misericordioso para com o miserável, coisa em que consiste ser misericordioso. E se não és misericordioso, de onde vem tenta consolação a nós, miseráveis?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas será que tu és misericordioso, ó Senhor, e não misericordioso, ao mesmo tempo? Misericordioso para conosco e impassível para contigo mesmo? Realmente, és misericordioso por compadecer-te dos nossos sofrimentos, não por experimentá-los. De fato, quando tu diriges os teus olhos para nós, os miseráveis, percebemos o efeito da tua misericórdia e tu, entretanto, não experimentas o efeito da compaixão.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Assim, tu és misericordioso porque salvas os miseráveis e perdoas aos pecadores, mas não és misericordioso no sentido em que tu possas ser afetado por alguma espécie de compaixão.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo IX&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como, embora absoluta e soberanamente justo, ele perdoa aos pecadores e tem misericórdia deles com justiça&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas se tu és absoluta e soberanamente justo, ó Senhor, como podes perdoar aos maus? Como podes tu, suma e plenamente justo, cometer uma injustiça? Mas que tipo de justiça é, pois, essa de conceder a vida eterna a quem, ao contrário, merece a morte eterna? Por que, então, ó Deus bom – bom para os bons e para os maus –, por que salvas os maus, se isto não é justo? E tu não podes cometer injustiça! Será que isso fica para nós oculto na luz inacessível que tu habitas, pois a tua bondade é para nós incompreensível?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Realmente no profundíssimo segredo da tua bondade é que se encontra a nascente donde mana o rio da tua misericórdia. Apesar de tu seres absoluta e supremamente justo, também és benigno com os maus, justamente porque és total e supremamente bom. Serias, pois, menos justo, se não fosses benigno com os maus. De fato, é assaz mais justo aquele que é bom para com os bons e com os maus do que aquele que é bom apenas com os bons. E aquele que é bom, punindo e perdoando aos maus, é melhor que quem os pune apenas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;És, portanto, certamente misericordioso porque és total e supremamente bom. E como é evidente, por outra parte, o motivo por que tu distribuis o bem aos bons e o castigo aos maus, no entanto, torna-se para nós estranho e surpreendente que tu, completa e supremamente justo, sem precisar de nada, concedas os teus bens igualmente aos maus e aos ruins.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Oh! a imensidão da tua bondade, Senhor! Vemos donde brota a tua misericórdia, mas nossa visão não consegue ir mais além! Enxergamos donde mana o rio e não conseguimos divisar a nascente. Tu és, pois, misericordioso para com os pecadores devido à plenitude da tua bondade, todavia, permanece, para nós, escondida, na profundez da tua bondade, a razão por que és misericordioso.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quando tu distribuis o prêmio aos bons e o castigo aos maus, parece que tu estás seguindo a lei da justiça; porém, quando dispensas aos maus os teus bens, porque assim o exige a tua suprema bondade, torna-se estranho que um ser, sumamente justo, como és tu, possa ter desejado isso. Oh! misericórdia, com que abundante suavidade e com que suave abundância chegas até nós. Oh! imensa bondade de Deus, com que grande amor os pecadores devem amar-te!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, tu, Deus, salvas os justos com justiça e liberas os pecadores ainda quando a justiça os condena. Uns devem a sua salvação aos seus merecimentos, e outros a conseguem apesar das suas faltas. É porque nos primeiros tu reconheces o bem que lhes doaste e nos segundos perdoas o mal que odeias. Ó bondade imensa, que tanto excedes toda inteligência, faze com que recaia sobre mim a tua misericórdia, que procede de tão imensa riqueza! Que penetre em mim o que emana de ti: que a tua clemência me perdoe; e não te vingues segundo a justiça!&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Embora, portanto, seja difícil compreender como a tua misericórdia possa separar-se da tua justiça, vemo-nos, todavia, obrigados a crer que o que emana da tua bondade nunca conflita com a justiça, que nunca se separa da tua bondade, mas com ela está sempre unida. Então, se tu és misericordioso porque és sumamente bom, e és sumamente bom porque sumamente justo, deve-se admitir que és verdadeiramente misericordioso porque és sumamente justo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ajuda-me, ó Deus, justo e misericordioso. Ajuda-me, pois busco a tua luz. Ajuda-me para que compreenda plenamente aquilo que digo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tu és verdadeiramente misericordioso porque és justo. Então a tua misericórdia nasce da tua justiça? Ou será por causa da tua própria justiça que perdoas aos pecadores? Se for assim, ó Senhor, ensina-me como isso possa acontecer. Ou será, talvez, pelo fato de que é justo que tu sejas tão bom até o ponto de que não possas ser concebido melhor e, também, justo que operes com um poder tão grande para que não possas ser pensado mais poderoso? Haveria algo mais justo que isso? Certamente isso não aconteceria se a tua bondade consistisse apenas em premiar e não, ainda, em perdoar, e se tu tornasse bons somente os bons e não, também, os maus. É, pois, por este motivo que és justo que perdoes aos pecadores e que tornes bons também os maus.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Finalmente: aquilo que é feito sem seguir a justiça não deve ser feito; e o que não deve ser feito [se for feito] é contra a justiça. Se tu, portanto, te compadecesses dos maus, contra a justiça, é claro que não o devias fazer; e se tu não devesses ter misericórdia deles [e se a tivesses], tu serias misericordioso injustamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ora, um raciocínio dessa espécie é falso; porém, é licito crer que tu te compadeças dos maus sem ferir a justiça.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo X&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como castiga com justiça e como, com justiça também, perdoa aos maus&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Entretanto, é justo, também, que tu castigues os maus. Haverá, pois, algo mais justo do que os bons receberem o bem e os maus o castigo? Como, então, pode ser justo ao mesmo tempo que tu castigues os maus e lhes perdoes? Ou será que, sob certo aspecto, tu castigas os maus com justiça e, sob outro, lhes perdoas, igualmente, com justiça? Com efeito, é justo que tu castigues os maus, pois o mereceram; mas é, também, justo que lhes perdoes, não em virtude dos méritos, que não têm, e, sim, porque isso condiz com a tua bondade. Ao perdoares aos maus, tu és justo em relação a ti mesmo, não a nós, assim como és misericordioso em relação a nós, e não a ti.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, ao salvar-nos, quando, com toda justiça, poderias nos condenar, és misericordioso, não porque tu experimentas um afeto, coisa esta estranha à tua natureza, mas para que nós percebamos o efeito da tua bondade. Da mesma maneira és justo não porque tu tenhas obrigações para conosco por alguma dívida, mas porque tu operas em virtude daquilo que é condizente com a tua bondade suprema.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Desta forma, portanto, não há contradição em dizer que tu castigas e perdoas sempre com justiça.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XI&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como “todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade”, e como “o Senhor é justo em todos os seus caminhos”&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E não seria justo, inclusive, em relação a ti, ó Senhor, que tu punisses os maus? Entretanto, é justo que tu sejas assim para que ninguém possa pensar num ser mais justo do que tu. Seria, porém, possível isso se tu concedesses a recompensa apenas aos bons e desses o castigo aos maus?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Contudo, é mais justo aquele que retribui aos bons e aos maus, e não somente aos bons, segundo os seus méritos. Portanto, tu és justo conforme a tua natureza, ó Deus justo e benigno, tanto ao castigar como ao perdoar. Realmente, pois, &lt;i&gt;todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade&lt;/i&gt; [Sl 24,10] e, igualmente, &lt;i&gt;o Senhor é justo em todos os seus caminhos&lt;/i&gt; [Sl 144,11]. Não há discordância certamente entre estas duas verdades, porque não é justo que sejam salvos os que tu queres punir, e não é justo que sejam condenados aqueles aos quais queres perdoar. Justo é somente aquilo que tu queres, e injusto, aquilo que tu não queres. É desta maneira, pois, que da tua justiça nasce a tua misericórdia, porque é justo que tu sejas de tal forma bom que, ainda quando perdoas, sejas bom. Por isso, sem dúvida, aquele que é sumamente justo pode querer o bem ainda para os maus.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Entretanto, se é possível compreender que tu possas querer salvar os maus, fica incompreensível que, entre seres igualmente maus, tu, pela tua suprema bondade, salves alguns e não outros, e, pela tua suprema justiça, castigues alguns e não outros.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Assim, portanto, tu és verdadeiramente sensível, onipotente, misericordioso e impassível como, também, és vivente, sábio, bom, feliz e eterno; em suma, tudo o que é melhor que exista do que não exista.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que Deus é a própria vida que vive, e que se pode dizer outro tanto dos seus atributos&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas tudo aquilo que tu és, certamente, és não por outro e, sim, por ti mesmo. Tu és, portanto, a vida mesma pela qual vives, a sabedoria pela qual és sábio, a bondade pela qual és bom para com os bons e os maus. E assim por diante.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XIII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como somente ele é ilimitado e eterno, embora haja outros espíritos que são ilimitados e eternos&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tudo aquilo que de alguma maneira está circunscrito pelo espaço e pelo tempo, sem dúvida, é menor que aquilo que não está submetido a nenhuma lei espacial e temporal. Como, porém, não há nada maior que tu, nenhum lugar ou tempo te circunscreve, porque estás por toda parte e sempre. Somente de ti é possível afirmar, de verdade, que és sem limites e eterno. Por que, então, há outros espíritos que são ditos ilimitados e eternos?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Na realidade, somente tu és eterno, porque, único entre todos, assim como não tiveste começo, também não terás fim. Mas como é possível que tu sejas o único a não ter limites? Talvez isto aconteça porque todo espírito criado, se comparado a ti, é limitado e, ao contrário, se comparado com o corpo é ilimitado? Com efeito, limitado é aquele ser que, em se encontrando completo num lugar, não pode contemporaneamente encontrar-se em outro; o que é próprio dos corpos. Ilimitado, ao invés, é aquele ser que, contemporaneamente, encontra-se, completo, por toda parte; e isto é próprio somente de ti. Limitado a ilimitado, ao mesmo tempo, é aquele ser que, embora se encontre completo num lugar, pode, contemporaneamente, encontrar-se completo em outro, porém, não por toda parte; e isto é próprio dos espíritos criados. Com efeito, se a alma não estivesse inteira em cada uma das partes do corpo, não sentiria, inteira, as impressões que recebe em cada uma delas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Conseqüentemente, tu és, ó Senhor, o único ser ilimitado e eterno, embora haja outros espíritos também eternos e ilimitados.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XIV&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como e por que Deus é visto e não é visto por aqueles que o buscam&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ó minha alma, encontraste o que procuravas? Buscavas a Deus e encontraste que ele é o ser supremo do qual não é possível pensar nada melhor; que ele é a própria vida, é luz, sabedoria, bondade, felicidade eterna e eternidade feliz e que se encontra por toda parte e sempre.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, se não encontraste ao teu Deus, como pode ser Deus este ser que encontraste? E como consegui entender, com tanta certeza e clareza, que aquele Ser é mesmo Deus? E, se verdadeiramente o encontraste. Por que não sentes dentro de ti então que o encontraste? Por que, ó Senhor, a minha alma não sente a tua presença, se te encontrou?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ou será que ela não encontrou realmente a ti, ao descobrir que existe um Ser que é luz e verdade? Mas, como poderia ela compreender isso, a não ser pela tua luz e a tua verdade? Se, porém, viu a luz e a verdade, viu a ti; e, se não viu a ti, não viu nem a luz nem a verdade. Ou será que não eram a luz e a verdade o que viu e, portanto, ainda não viu a ti porque apenas entreviu a ti, de maneira limitada e não como és?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ó Senhor, meu Deus, tu que me fizeste e me remiste, dize à minha alma, que anela por ti, o que tu és, caso não sejas aquilo que ela viu, a fim de que possa enxergar, claramente, aquilo que deseja com tanto ardor. Ela esforça-se para ver ainda mais, entretanto, não consegue vislumbrar nada, além do que já viu, a não ser trevas. Ou melhor: ela não vê trevas, pois em ti não há trevas, mas apercebe-se de que não pode ver mais além, por causa das suas próprias trevas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas por que, ó Senhor, por que o olho da alma está embaciado? Por que está fraco e está obscurecido pelo teu esplendor? Sim, o seu olho está cegado por causa das suas próprias trevas e ofuscado pela tua luz. Cega-o seu curto alcance, e perde-se na tua imensidão; está encerrado em limites estritos, subjugado pela tua grandeza ilimitada. Oh! quão grande é esta luz donde desponta e brilha toda a verdade, que resplandece aos olhos de alma dotada de razão! Quão imensa esta verdade em que se encontra tudo o que é verdadeiro, e, fora dela, não há senão o nada e a mentira! Quão imensa é ela, que, com um só olhar, enxerga todas as coisas existentes, assim como o princípio, o poder e a maneira com que tudo foi feito do nada! Que pureza, que simplicidade, que limpidez, que brilho se encontram nela! Muito mais do que a criatura possa compreender.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XV&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que ele é bastante maior que aquilo que se pode pensar&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, ó Senhor, tu não és apenas aquilo de que não é possível pensar nada maior, mas és, também, tão grande que superas a nossa possibilidade de pensar-te.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, supondo que fosse possível pensar que existe um ser dessa espécie, se tu não fosses esse ser, poder-se-ia pensar uma coisa maior que tu; o que é impossível.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XVI&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que a luz em que habita é inacessível&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É realmente inacessível a luz em que habitas, ó Senhor, e não há ninguém, exceto tu, que possa penetrá-la bastante para contemplar-te com clareza. Eu não vejo, sem dúvida, por causa do seu brilho, demasiado para os meus olhos, e, todavia, o que consigo ver, vejo-o através dela, da mesma maneira que o olho fraco do nosso corpo vê tudo aquilo que vê pela luz do sol, que, no entanto, não pode contemplar diretamente. A minha inteligência não consegue alcançar essa luz, porque difunde um esplendor demasiadamente vivo e que não tolera. O olho da minha alma não pode fitá-la por muito tempo, nem sustentar tão grande luminosidade: é, pois, ofuscado pela sua reverberação, vencido pela sua vastidão, turvado pela sua imensidade, confundido pela sua intensidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ó luz suprema e inacessível; ó verdade profunda e bem-aventurada, como estás distante de mim, embora eu esteja tão perto de ti! Quão afastada te encontras do meu olhar, quando eu estou continuamente presente ao teu! Tu estás presente, inteira, por toda parte e eu não te vejo! Movo-me em ti, estou em ti e não posso chegar até ti. Tu estás em mim, em torno de mim e eu não te sinto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XVII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que em Deus se encontram a harmonia, o perfume, o sabor, a beleza, de maneira inefável e completamente própria&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tu, ó Senhor, te escondes da minha alma, encoberto pela tua luz e a tua felicidade e, por isso, ela está mergulhada nas trevas e na sua miséria.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Olha ao redor de si e não vê a tua beleza; escuta e não ouve a tua harmonia; aspira e não percebe o teu perfume; tem paladar e não consegue experimentar o sabor de ti. Toca e não percebe a suavidade da tua substância.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Sem dúvida, Ó Senhor meu Deus, tu tens todas essas qualidades de uma maneira inefável, e as doaste às tuas criaturas sob forma sensível; porém, os sentidos da minha alma endureceram, entibiaram e obstruíram-se pela languidez inveterada do pecado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XVIII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como nem em Deus nem na sua eternidade, que é ele mesmo, há partes&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eis um novo motivo de perturbação; eis-me, de novo, na tristeza e no luto, eu que procuro a alegria e a felicidade! Já a minha alma pensava estar saciada e, de novo, eis que estou mergulhado na extrema miséria! Já estava prestes a saciar-me e eis que me sinto mais faminto que antes. Procurava elevar-me até a luz de Deus e eis-me caído, de novo, nas minhas trevas. Na verdade não caí nelas agora, porque já estava envolvido por elas. Sem dúvida, caíra nelas ainda antes que minha mãe me concebesse. Certamente fui concebido nelas e nasci enfaixado por elas. Todos nós, sem duvida, caímos com Adão. Nele, todos pecamos; nele perdemos aquilo que ele recebeu com tanta facilidade e, todavia, perdeu com grande desgraça, sua e nossa; justamente aquilo que agora não encontramos mais, apesar das nossas buscas. Com efeito, quando o procuramos, não o encontramos e, se o encontramos, percebemos que não é aquilo que procurávamos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ajuda-me, bom Deus! &lt;i&gt;Ó Senhor, busquei o teu rosto; permite que o encontre, ó Senhor; não afaste de mim o teu rosto&lt;/i&gt; [Sl 26,13 e 14]. Tira-me do abismo em que estou e eleva-me a ti. Purifica, cura, aguça, ilumina o olho da minha alma para que possa, finalmente, contemplar-te. Que a minha alma possa reunir todas as suas forças e que, com o ardor da sua inteligência, se dirija a ti, meu Senhor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quem és, ó Senhor, quem és? Como o meu coração poderá compreender-te? Não resta dúvida que és a vida, a sabedoria, a verdade, a bondade, a felicidade, a eternidade e tudo aquilo que constitui o verdadeiro bem. Mas esses atributos são numerosos e a minha angusta inteligência não pode captá-los todos em um único ato de pensamento para receber deleite deles, de uma só vez.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas como podes, ó Senhor, ser todas essas coisas? Ou elas, quiçá, são partes de ti, ou cada uma já é tudo aquilo que tu és? Mas aquilo que tem partes não é uno, e sim, composto e distinto de si mesmo e pode-se fracionar, ou na realidade ou pelo ato do pensamento. Porém isso não se pode afirmar de ti, que és o ser do qual não se pode pensar nenhuma coisa melhor. Não existem, portanto, partes em ti, ó Senhor. Tu não és múltiplo; és uno e idêntico a ti e de maneira alguma há diferenças em ti. Aliás, tu és a unidade absoluta, aquela que nem o pensamento consegue fracionar. Por isso, a vida, a sabedoria e todas as outras qualidades não são, em ti, partes, mas todas formam uma unidade indivisível, e cada uma delas é o que tu és e, ao mesmo tempo, o que são as outras todas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, tu não tens partes, e a tua eternidade – pois se identifica contigo – não é parte de ti, nem da tua eternidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tu estás inteiro por toda parte e a tua eternidade é inteira e imperecível.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XIX&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que Deus não está em lugar nenhum, nem no tempo: e tudo está em Deus&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas se tu, por tua eternidade, foste, és e serás, e se ter sido não é vir-a-ser, de que maneira a tua eternidade pode existir sempre inteira? Ou, quiçá, nada da tua eternidade tenha passado de modo a não existir mais, nem algo haja que está para formar-se, como se ainda não tivesse existência?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, não existe ontem, nem existe hoje, nem existirás amanhã, porque ontem, hoje e amanhã tu &lt;i&gt;existes&lt;/i&gt;; mas não se deve dizer “ontem, hoje e amanhã” e, sim, simplesmente: &lt;i&gt;existes&lt;/i&gt;; e fora de qualquer tempo. Ontem, hoje, amanhã só existem no tempo e tu, ao contrário, embora nada haja sem ti, tu não estás, entretanto, em lugar e tempo nenhum; e tudo encontra-se em ti, pois nada pode abranger-te e todavia, tu abranges todas as coisas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XX&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que Deus existe antes e depois de todas as coisas, ainda que sejam eternas&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tu, portanto, preenches e abranges todas as coisas existentes, pois tu existes antes e depois delas. Existes antes, porque, antes que elas existissem, tu já eras. Mas, como pode ser que tu existas “depois” de todas as coisas? Como poderás existir “depois” daquelas coisas que não terão fim? Talvez isso aconteça porque elas não podem existir sem ti, e tu não serias minimamente diminuído se todas as coisas voltassem de novo ao nada? Ou será que tu és posterior a elas porque é possível pensar delas que terão um fim, enquanto de ti não é possível sequer imaginar isso?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, nesse sentido, todas as coisas, de alguma maneira, têm fim; mas tu, nem desta maneira. E certamente aquilo que não tem fim existe ainda depois daquele que, de alguma maneira, termina. Ou será porque tu superas todas as realidades, ainda que eternas, pelo fato de que a tua eternidade e a delas são sempre e inteiramente presentes para ti, quando, ao contrário, elas, em sua eternidade, não possuem ainda aquilo que está para vir, nem aquilo que já passou? Certamente tu existirás sempre depois delas porque tu estás sempre presente nelas e porque está sempre presente diante de ti aquilo a que elas ainda não conseguiram chegar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXI&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se essa eternidade é aquilo que expressamos com as palavras “século do século” ou “séculos dos séculos”&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E será que essa eternidade é aquilo que denominamos “século do século” ou “séculos do séculos”?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, assim como o século, na sucessão do tempo, contém todas as coisas temporais, assim a tua eternidade contém todos os séculos da sucessão do tempo. E ela é chamada de “século” devido à sua unidade indivisível, e “séculos” porque a sua imensidade é interminável.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Embora tu, ó Senhor, sejas tão grande que tudo está repleto de ti e tudo está em ti, todavia, tu estás de tal maneira fora do espaço que não há em ti nem meio, nem metade, nem parte alguma.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que somente Deus é o que é; e ele é aquele que é&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Somente tu, ó Senhor, és aquilo que és, e somente tu és aquele que és. Com efeito, o ser que não é o mesmo em sua totalidade e em suas partes, ou que está sujeito nalgum ponto a variações, esse, certamente, não é aquilo que é. Assim, também, todas as coisas que tiveram início, porque antes não existiam, podem ser pensadas como não existentes, e se não forem mantidas na existência por meio de outro, voltam ao nada. E tudo aquilo, cujo passado não existe mais e cujo futuro ainda não é, não existe em sentido próprio e absoluto. Tu, ao contrário, és verdadeiramente aquilo que és porque tudo aquilo que tu és, ainda que apenas uma vez e de alguma maneira, continuas sendo completamente e sempre. Tu existes verdadeira e simplesmente porque não tens passado nem futuro, mas unicamente presente e não se pode supor, sequer por um momento, que tu não existas. Tu és a vida, a luz, a sabedoria, a felicidade, a eternidade e tantos outros bens parecidos; e, entretanto, não és senão um bem único e supremo, completamente suficiente para ti próprio, sem carecer de nada, quando todas as demais coisas, ao contrário, precisam de ti por causa daquela parte de existência e de perfeição de que gozam.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXIII&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Que esse Bem é, ao mesmo tempo, e igualmente, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e que necessariamente, os três são uma unidade que é total e sumamente o bem&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Esse Bem supremo és tu, Deus Pai; e esse Bem supremo é o teu Verbo, isto é, o teu Filho, porque no Verbo, por meio do qual tu expressas a ti mesmo, não pode haver senão aquilo que tu és; nem o Verbo pode ser maior ou menor do que tu, porque o teu Verbo é verdadeiro como tu. Ele é, de fato, a mesma verdade como tu és, a qual outra coisa não é senão tu mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tu és tão simples que de ti não pode nascer outra coisa que não seja aquilo que tu és: o amor, uno em si e comum a ti e a teu Filho, isto é, o Espírito Santo, que procede de um e de outro. Com efeito, esse amor não é inferior nem a ti nem a teu Filho, porque tu amas a este Filho e a ti, tanto como ele a ti e a si mesmo, porquanto tu és ele e ele é tu. Nem de ti nem dele provém algo diferente dele e de ti.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Da simplicidade suprema não pode proceder nada que seja diferente daquilo que é o princípio donde procede. Assim, tudo o que é cada um, o mesmo é, completa e simultaneamente, a Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –, porque cada um deles outra coisa não é senão a unidade sumamente simples e a simplicidade sumamente una, que não pode nem multiplicar-se nem ser uma coisa ou outra. Aliás, &lt;i&gt;há apenas um único ser necessário&lt;/i&gt;, e é aquele necessariamente uno, no qual encontra-se todo o bem, ou melhor: ele é o bem completo, o único, o bem total e exclusivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXIV&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Hipóteses acerca da natureza e grandeza desse Bem supremo&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Vamos, minha alma, aguça e eleva toda a tua inteligência e pensa, com todas as tuas forças, qual e quão grande seja esse Bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se, pois, todos os bens são agradáveis, imagina e considera quão agradável será este que encerra a causa da alegria de todos os outros bens. Não uma alegria qualitativamente igual àquela que nós experimentamos com as coisas criadas, mas tão diferente quanto imensamente diferente é o Criador da criatura. Se a vida criada já é uma alegria, quão agradável não será a vida criadora? Se a conservação da vida já foi feita agradável, quanto mais não o será aquela vida que é o princípio de toda conservação? Se é agradável o conhecimento das coisas que foram criadas, quão agradável não será então a sabedoria que criou todas as coisas do nada? Em suma, se as alegrias dispensadas pelas coisas criadas são muitas e grandes, qual e quão grande não haverá de ser a alegria existente naquele que é a causa de todas as coisas agradáveis?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXV&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quais e quão grandes bens estão reservados aos que fruem de Deus&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Oh! aquele que fruirá desse bem! O que estará ou não reservado para ele? Certamente haverá para ele tudo o que Deus quiser e nada haverá de tudo o que Deus não quiser. Haverá, ali, sem dúvida, os bens do corpo e da alma; os que &lt;i&gt;o olho nunca viu, o ouvido nunca ouviu, nem o coração humano nunca imaginou&lt;/i&gt; [1 Cor 2,9]. Por que, então, ó homem miserável, vagueias aqui e acolá à procura do bem para o teu corpo e a tua alma? Ama aquele único bem em que se encontram todos os bens e estarás satisfeito. Deseja aquele bem sumamente simples, que contém todos os bens, e será o suficiente. O que estás a amar, ó minha carne; o que estás a desejar, ó minha alma? Somente ali, nele, é que se encontra o que vós amais e tudo o que desejais. Se amais a beleza, então, deveis saber que &lt;i&gt;os justos resplandecerão como o sol&lt;/i&gt; [Mt 13,43]; se desejais a rapidez ou a força ou a liberdade do corpo de maneira que nada a ele possa opor-se, sabei que &lt;i&gt;os justos serão semelhantes aos anjos e Deus&lt;/i&gt; [Mt 22,30], porque &lt;i&gt;depois de semeado o corpo animal, surgirá o corpo espiritual&lt;/i&gt; [1 Cor 15,44], certamente pelo poder divino e não pela natureza. Se procurais uma vida longa e cheia de saúde, é nele que se encontra a eternidade sadia e a sanidade eterna, porque &lt;i&gt;os justos viverão eternamente&lt;/i&gt; [Sab 5,15] e, também, porque &lt;i&gt;a saúde vem aos justos do Senhor&lt;/i&gt; [Sl 36,39]. Se quereis ser saciados, eles &lt;i&gt;serão saciados quando aparecer a glória do Senhor&lt;/i&gt; [Sl 16,17]; se procurais a ebriedade, &lt;i&gt;estarão embriagados com a abundância da casa do Senhor&lt;/i&gt; [Sl 35,9]. Se sois atraídos pela música, ali [nos céus] encontram-se os coros dos anjos cantando sem fim a Deus. Se cobiçais o prazer – o prazer puro, não o imundo –, &lt;i&gt;ó Senhor, tu lhes saciarás a sede com torrente dos teus prazeres&lt;/i&gt; [Sl 35,9]; se a sabedoria, será revelada aos justos a própria sabedoria de Deus; se a amizade, os justos amarão a Deus mais que a si mesmos, e cada um deles amará aos outros como a si mesmo, e Deus os amará mais do que eles possam amar a si mesmo, porque eles amarão a Ele e a si e amar-se-ão entre si mesmos mas por meio dEle, quando, ao contrário, Ele amará a si mesmo e a eles por meio de si mesmo. Se é a concórdia que vós buscais, os justos terão todos uma só vontade, porque, ali, não haverá outra vontade a não ser a de Deus; se o poder, eles terão uma vontade onipotente como a de Deus porque, assim como Deus pode o que quer por si mesmo, assim eles poderão tudo o que quiserem, por meio dEle. E, desde que eles hão de querer tudo o que Deus quer, Deus, portanto, quererá aquilo que eles quiserem; e o que Ele quiser não poderá não ser. Se as honras e as riquezas, Deus elevará os seus servos bons e fiéis acima de todas as coisas, de forma a serem chamados, e o serão realmente, &lt;i&gt;filhos de Deus&lt;/i&gt; [Rom 8,16] e deuses e se encontrarão lá, onde estará o seu Filho; e, lá, eles serão &lt;i&gt;os herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo&lt;/i&gt; [Rom 8,17]. Se desejais a verdadeira segurança, eles ficarão plenamente seguros de que nunca lhes faltará, de modo algum, a felicidade, porque terão a certeza de que, espontaneamente, não abandonarão a Deus, e Deus, que os ama, não poderá abandonar a eles, que o amam. E nada existe de mais poderoso do que Deus, que possa afastá-los dEle contra a vontade deles e a de Deus. Oh! como há de ser grande e agradável essa alegria, lá onde se encontra tão grande Bem! Ó coração humano, ó coração pobre, atribulado, inquieto, como hás de sentir-te feliz se possuíres, em abundância, desses bens! Sonda o teu âmago, para ver se cabe nele a alegria de tanta felicidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E, certamente, se algum outro irmão, a quem tiveres amado como a ti mesmo, fruir da mesma felicidade, a tua alegria dobrará, porque não fruirás menos da dele que da tua. E se houver dois ou três ou muitos compartilhando da mesma alegria, e a eles tiveres amado como a ti mesmo, desfrutarás da alegria de cada um como da tua.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, nesse perfeito amor, entre inumeráveis anjos e homens, onde ninguém ama aos outros menos do que a si mesmo, cada um fruirá da alegria de todos os outros não menos que da sua própria.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas, se o coração de um homem mal está capacitado a receber a alegria de apenas uma felicidade tão grande, como poderá ter espaço para abrigar a alegria de tantas e tão grandes felicidades? E desde que, quanto mais se ama a outrem mais sente-se prazer pela sua felicidade; e como nesta felicidade perfeita cada um amará a Deus infinitamente mais que a si mesmo, e aos outros, então cada um desfrutará mais, e sem comparação, da felicidade de Deus do que da sua própria e daquela dos outros.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se os justos amarão a Deus com todo o seu coração, com toda a sua mente e com toda a sua alma, e, no entanto, o coração, a mente e a alma não são suficientes para um amor tão sublime, eles, sem dúvida, serão felizes com todo o seu coração, com toda a sua mente e a sua alma, porém, não com a capacidade apropriada à plenitude de tanta felicidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Capítulo XXVI&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Acaso será essa a “alegria plena” que o Senhor prometeu?&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Deus meu e meu Senhor, esperança minha e gáudio do meu coração, dize à minha alma se esta é a alegria de que nos falas através do teu Filho: &lt;i&gt;Pedi e recebereis de maneira que a vossa alegria seja plena&lt;/i&gt; [Jo 16,24], pois eu encontrei uma alegria plena e mais que plena. Pleno o coração, plena a mente, plena a alma, pleno completamente o homem dessa alegria, e já outra alegria haverá ainda para ele, sem medida. Essa alegria, portanto, não caberá inteira naqueles que a desfrutam, mas estes caberão inteiramente nela.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Dize, ó Senhor, dize ao teu servo, na intimidade do seu coração, se é essa a alegria que receberão aqueles teus servos que entrarão no gáudio do Senhor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas essa alegria, de que fruirão certamente os teus eleitos, &lt;i&gt;nem o olho a viu, nem o ouvido a ouviu, nem jamais penetrou no coração humano&lt;/i&gt; [Is 64,4; 1 Cor 2,9]. Portanto, eu ainda não disse nem pensei suficientemente, ó Senhor, quão imensa será a felicidade desses bem-aventurados. Sem dúvida eles desfrutarão de tanta felicidade igual ao seu amor; e o seu amor será tanto como o seu conhecimento. Mas em que medida, então, te conhecerão, ó Senhor, e te amarão? Certamente &lt;i&gt;nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem penetrou no coração do homem&lt;/i&gt; em que medida te conhecerão e te amarão, naquela vida futura.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ó Deus, rogo-te que permitas que te conheça, te ame, e possa assim fruir da tua felicidade. E se não posso tê-la plenamente durante esta vida, ao menos consiga avançar, cada dia mais, em direção a ela, de modo a alcançá-la plenamente. Que o conhecimento de ti cresça, durante a minha vida, de forma a fazer-se pleno na outra. Que o meu amor para contigo aumente cada vez mais até chegar à plenitude na vida futura e que, aqui, e minha alegria seja tão grande, na esperança, a fim de que possa ser total ali, na realidade. Ó senhor, tu por meio do teu Filho nos ordenas, aliás nos exortas, a pedir, e prometes que seremos atendidos, e que &lt;i&gt;a nossa alegria será plena&lt;/i&gt;. Peço-te aconselhar-me por meio desse nosso admirável conselheiro [Jesus Cristo] para que eu receba o que nos prometes através da tua verdade: que a minha alegria venha a ser completa. Deus da verdade, suplico-te, possa eu fruir dessa alegria completa. Que a minha mente, de agora em diante, só pense nisso; que a minha boca só fale nisso; que o meu coração só ame isso; que a minha alma só anele por isso; que a minha carne só tenha sede disso; que o meu ser inteiro só deseje isso até o momento em que perceba em mim a alegria do meu Senhor, que é Uno e Trino, bendito por todos os séculos. Assim seja.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;LIVRO EM FAVOR DE UM INSIPIENTE&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Objeção de Gaunilo, monge de Marmoutier, contra o Proslógio, de Anselmo&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;1. Para quem, por acaso, duvide ou negue que existe uma “natureza da qual não é possível pensar nada maior”, argumenta-se [por parte de Anselmo] que: primeiro, demonstra-se que essa natureza existe pelo fato de que quem duvida dela ou a nega já a tem na sua inteligência, pois, ao ouvir-lhe pronunciar o nome, consegue compreender o sentido daquilo que lhe é afirmado. Em segundo lugar [o autor sustenta que] pelo fato de que quem nega consegue compreender o que lhe foi dito, necessariamente essa natureza não se encontra apenas na inteligência, mas também na realidade; e demonstra-se isso afirmando que existir na inteligência e na realidade é muito mais do que existir só na inteligência, e se o ser, do qual não se pode pensar nada maior, se encontrasse apenas na inteligência, seria menor que aquele que existe na inteligência e na realidade, e, desta maneira, o ser, pensado como o maior de todas as coisas, seria pelo menos menor do que uma e não seria o maior de todos os seres, o que é contraditório. Assim, [se deduz que] esse ser, maior que todos e que já foi demonstrado existir na inteligência, é necessário que exista não apenas na inteligência mas, também, na realidade; caso contrário, não poderia ser o maior de todos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;2. A isso pode-se responder: se algo está na minha inteligência somente porque compreendo as palavras que o expressam, então não seria possível, também, afirmar o mesmo a respeito das coisas falsas ou absolutamente inexistentes, isto é, que se encontram na minha inteligência, porque, ao ouvir alguém falar nelas, eu as compreenderia?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;O raciocínio [de Anselmo] parece-me válido, se porém, já tenho a certeza de que aquele “ser do qual não se pode pensar nada maior” existe no meu pensamento não da maneira com que é possível existir, também, as coisas falsas ou duvidosas. Neste caso, todavia, não devo dizer que, depois de ouvir aquela frase, eu penso, ou tenho na inteligência esse ser porque compreendo as palavras que o expressam, mas que o compreendo, ou o tenho na inteligência porque isto é, eu não poderia pensá-lo de outro modo a não ser compreendendo, vale dizer, tendo ciência certa de que ele existe realmente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se fosse assim [como diz Anselmo], em primeiro lugar, não haveria na inteligência dois momentos, um quando se compreende a idéia do objeto, e outro, a sua existência, como acontece com uma pintura, que primeiro se encontra na mente do pintor e sucessivamente na obra realizada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Em segundo lugar, é bastante difícil acreditar que, ao se ouvir pronunciar aquela frase, não seja possível pensar que esse ser não existe, quando é possível ainda pensar que Deus não existe. Com efeito, se não fosse possível pensar que Deus não existe, então, para que serve toda essa tua discussão ou argumentação dirigida justamente contra quem nega ou duvida que haja essa natureza superior?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Em terceiro lugar, deve ser demonstrado, com um argumento irrefutável, que esse ser é tal espécie que, logo venha a ser pensado, imediatamente a inteligência percebe-lhe a existência. A afirmação de que ele já se encontra no intelecto, quando ouço as palavras que o expressam, não satisfaz, porque na minha inteligência pode haver todas as coisas incertas, duvidosas e falsas que alguém queira afirmar e eu possa compreender, ao ouvi-las nomear. Há mais: enganado, como muitas vezes acontece, eu poderia chegar a prestar fé nessas coisas; é justamente nisto que eu não acredito.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;3. Disso decorre que o exemplo do pintor, que tem já na mente a pintura que irá fazer, não se ajusta convenientemente a este argumento.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A pintura, com efeito, antes de ser executada, está na própria arte do pintor [N. do T.: a palavra &lt;i&gt;arte&lt;/i&gt; aqui e nas frases sucessivas equivale a &lt;i&gt;intuição (artística)&lt;/i&gt;.] e, como tal, ela é “algo” que faz parte da sua inteligência. Por isso, Santo Agostinho diz: “Quando um artífice está para construir uma arca, ele a tem primeiro na sua arte. E, enquanto a arca já realizada, como obra, não é vida, aquela que se encontra ainda na arte é vida porque vive da vida da alma do artífice, na qual se acham todas as intuições, antes de serem realizadas”. Mas, por qual outro motivo essas coisas haveriam de ser vida na alma vivente do artífice, se não porque são ciência, isto é, inteligência da sua própria alma? Feita exceção daquelas coisas que pertencem à mesma natureza da mente, das demais a inteligência apreende a verdade ou ouvindo-a expressar pelas palavras de alguém ou por meio da sua reflexão. Mas não resta dúvida que, em ambos os casos, uma coisa é a verdade conhecida e outra coisa é a inteligência que a conhece. Por esta razão, ainda que fosse verdade a existência de alguma coisa acima da qual não é possível pensar nada maior, todavia, ela, ouvida e conhecida, não seria, no que diz respeito à inteligência, aquilo que é a pintura, ainda não realizada, para a inteligência do pintor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;4. A isso deve-se acrescentar o que foi dito acima, isto é, que esse ser, o maior entre todos os que se possam pensar – e, por isso, afirma-se, não ser nada mais do que Deus –, eu não consigo pensá-lo ou tê-lo na inteligência, ao ouvir seu nome, nem como algo referível a uma espécie ou a um gênero, nem, ainda, posso saber o que esse Deus é em si e por si. Por isso, não resta dúvida que eu posso também supor que ele não exista. De fato, nem conheço Deus em si nem posso deduzir a sua existência de algo que se pareça com ele, visto tu afirmares que não há nada que possa ser-lhe parecido.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se eu ouvisse, pois, falar num homem que não conheço e cuja existência também ignoro, certamente conseguiria concebê-lo como real por meio da noção especial e geral de homem que me permite saber como é um homem. Todavia, devido à mentira de quem ouço falar, o homem imaginado por mim, na verdade, poderia não existir, embora o tenha pensado, segundo uma imagem verdadeira, ainda que não fosse a daquele homem, individualmente, e, sim, de um homem em geral.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Por conseguinte, quando ouço pronunciar a palavra &lt;i&gt;Deus&lt;/i&gt; ou a frase &lt;i&gt;o ser maior que todos&lt;/i&gt;, poderia conceber na inteligência e no pensamento esse ser da mesma maneira falsa como aconteceu-me a respeito daquele homem. Naquele caso, porém, consegui pensar num homem verdadeiro devido a uma noção real que eu possuía. Aqui, no entanto, posso pensar em Deus somente através de uma palavra. Mas com esta conotação apenas é muito difícil, se não impossível, inferir a verdade. Quando alguém pensa através de uma conotação verbal, não dirige o seu pensamento para a palavra em si, que, sem dúvida, é verdadeira enquanto som de letras e de sílabas, mas para o significado da palavra que ouviu. Neste caso, porém, o significado é compreendido não como seria por alguém que já conhece o que se sói significar com essa palavra, isto é, um ser verdadeiro e existente não só no pensamento; mas como o seria por aquele que não conhece o objeto e pensa segundo a impressão recebida pela sua inteligência ao ouvir a palavra, e se esforça para representar a si mesmo o significado daquilo que ouviu. E seria realmente maravilhoso se o conseguisse.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Portanto, de nenhuma outra maneira, afora essa, pode certamente encontrar-se na minha inteligência esse ser, quando ouço e compreendo alguém que diz: “o ser maior entre todos os seres que se possam pensar”. [N. do T.: note-se que Gaunilo não repete com exatidão o conceito de Anselmo. Este fala no ser do qual &lt;i&gt;não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;, quando Gaunilo não presta atenção à negativa colocada por Anselmo e afirma “o ser maior entre todos &lt;i&gt;os que se possam pensar&lt;/i&gt;”. A rigor, Gaunilo coloca em dúvida até a possibilidade de pensar o ser maior, porque, ao formular a frase, usa o subjuntivo (modo da dúvida, em latim), quando Anselmo usa o indicativo (modo da certeza).]&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Isto era o que tinha a responder à afirmativa de que tal natureza suprema existe realmente na minha inteligência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;5. A respeito da asserção de que esse ser se encontra não apenas na inteligência, mas também, e necessariamente, na realidade, porque se não se encontrasse na realidade qualquer outro que existisse na realidade seria maior do que ele e, assim, não seria aquele ser maior que todos que já foi demonstrado existir na inteligência, respondo: se se quer dizer que ele existe na inteligência da mesma maneira que existe qualquer outra coisa suposta verdadeira, então não nego que se encontre também na minha inteligência. Mas, como de forma nenhuma é possível deduzir disso que ele se encontre também na realidade, eu sequer concedo que ele exista na minha inteligência, a menos que se demonstre isso com um argumento verdadeiramente irrefutável.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quando, ainda, ele [Anselmo] afirma que se não existisse na realidade não seria, por tal motivo, o ser maior de todos, não apresenta um argumento suficiente para o interlocutor. Eu, pois, não apenas não concebo, mas nego, ou coloco em dúvida, que exista efetivamente esse ser supremo na inteligência e na realidade; e não lhe concedo existência maior – supondo poder-se chamar de existência – que aquela que lhe confere o esforço feito pela minha mente ao procurar representar-se uma coisa que conhece apenas através de uma palavra que ouviu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como será possível, portanto, demonstrar-me que esse ser existe de verdade pelo fato de ser a maior de todas as coisas, quando eu nego a sua existência, ou pelo menos duvido muito, e afirmo que não se encontra na minha inteligência nem no meu pensamento, nem sequer como todas as coisas duvidosas e incertas?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É, pois, para mim necessário ter primeiramente a certeza, mediante elementos seguros, de que ele existe nalguma parte da realidade e, assim, ficará claro que subsiste, também em si mesmo, pelo fato de ser o maior de todos os seres.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;6. Alguns afirmam, por exemplo, que há uma ilha num ponto qualquer do oceano e que pela dificuldade, ou melhor, a impossibilidade de achá-la, pois não existe, denominam de &lt;i&gt;Perdida&lt;/i&gt;. Contam-se dela mil maravilhas, mais do que se narra a respeito da &lt;i&gt;Ilhas Afortunadas&lt;/i&gt;: que, devido à sua inestimável fertilidade, ela está repleta de todas as riquezas e delícias e que, apesar de não haver lá nem proprietário nem habitantes, supera, em fartura de produtos, todas as terras habitadas pelos homens.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Venha qualquer pessoa dizer-me que tudo isso existe e eu compreenderei facilmente, pois as suas palavras não apresentam para mim nenhuma dificuldade. Mas se, ainda, essa pessoa quisesse acrescentar, como conseqüência: tu não podes duvidar mais que essa ilha, a melhor de todas que há na terra, exista de verdade nalguma parte, porque conseguiste formar uma idéia clara da mesma na tua inteligência; e, como é melhor que uma coisa exista na inteligência e na realidade do que apenas na inteligência, ela necessariamente existe, porque, se não existisse, qualquer outra terra existente na realidade seria melhor do que ela, e assim ela, que tu pensas a melhor da todas, não seria mais a melhor. Se, digo, essa pessoa presumisse, com semelhante raciocínio, que eu devesse admitir a existência real daquela ilha, acreditaria que estivesse brincando, ou não saberia distinguir qual de nós dois eu deveria julgar mais estulto: se a mim, que prestei fé nas suas palavras, ou se a ela, caso estivesse convencida de ter colocado sobre bases sólidas a existência da ilha sem primeiro constatar se essa superioridade é, verdadeiramente e sem sombra de dúvida, real, de modo que não suscite na minha inteligência um conceito falso e incerto.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;7. O insipiente poderá responder tudo isso, pois, àquele que lhe afirma que o ser maior que todos os seres não pode existir apenas no pensamento, sem outra demonstração de que não poderia ser o maior de todos se existisse somente no pensamento. O insipiente poderia dar essa mesma resposta e acrescentar: -- Quando, por acaso, eu afirmei que esse ser, maior que todos, existe, de modo que, com base nisso, se deva demonstrar-me a realidade da sua existência até o ponto em que sequer é possível pensar que não existe?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Por esse motivo, antes de mais nada, deve-se provar a existência de uma natureza superior, isto é, de uma natureza que é a maior e a melhor de todas as existentes, com um argumento tão sólido, que permita, a partir daí, comprovar e deduzir todas as outras perfeições que é necessário atribuir-lhe, enquanto é o maior e melhor de todos os seres. Ainda: ao invés de dizer que não se pode &lt;i&gt;pensar&lt;/i&gt; que esse ser supremo não existe, é melhor dizer que não se pode compreender que não exista ou, também, que não pode não existir. Com efeito, segundo o verdadeiro significado do verbo &lt;i&gt;compreender&lt;/i&gt;, as coisas falsas não podem ser &lt;i&gt;compreendidas&lt;/i&gt;, mas podem ser pensadas, assim como o insipiente pensou que Deus não existe.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eu tenho a máxima certeza que existo e, todavia, sei que posso não existir. Mas, desse ser supremo que é Deus, eu compreendo, sem dúvida, que existe e que não pode não existir. Entretanto, não sei se posso pensar que eu não existo enquanto possuo a máxima certeza que existo. Mas se posso: por que não poderia pensar que, também, não existem todas as outras coisas, de cuja existência tenho igual certeza como da minha? E se não posso, então não será uma propriedade única de Deus não poder ser pensado como não existente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;8. Os outros argumentos do opúsculo [o Proslógio] estão expostos com tanta verdade e magnífica beleza, com tanta utilidade e uma fragrância de profundo, piedoso e santo afeto que, de maneira nenhuma, devem ser desprezados por causa desse argumento inicial, escrito com intenção louvável, mas demonstrado com pouca força. Eles, ao contrário, devem ser fortalecidos com uma argumentação mais robusta e aceitos todos com grande veneração e louvor.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h2 style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;RESPOSTA DE ANSELMO A GAUNILO&lt;/h2&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como as minhas palavras foram contestadas, não pelo insipiente contra o qual argumentei no meu opúsculo [o Proslógio], e, sim, por um homem que não é um insipiente, mas um católico, que toma a defesa do insipiente, será bastante para mim responder ao católico.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;1. Quem quer que tu sejas, que colocas na boca do insipiente essas argumentações, sustentas que, se há na inteligência um ser do qual não é possível pensar nada maior, ele não existe ali de maneira que obrigue a admitir a sua realidade, e que, quando afirmo que é necessário que uma coisa exista verdadeiramente desde que concebida pelo pensamento como superior a tudo, esta demonstração – dizes – não é legítima, como não seria igualmente legítimo se se concluísse que aquela &lt;i&gt;Ilha Perdida&lt;/i&gt; existe de verdade só porque quem ouve a sua descrição tem a idéia dela na mente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ora, eu respondo: se “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não é compreendido pela inteligência ou concebido pelo pensamento, e não existe nem na inteligência nem no pensamento, então Deus não é o ser do qual não é possível pensar nada maior, ou não pensá-lo e, portanto, não existe nem na inteligência nem no pensamento. Para demonstrar quanto isso seja falso, uso como argumento, que não admite réplicas, a tua fé e a tua consciência. Portanto, verdadeiramente é possível compreender e pensar e ter na inteligência e no pensamento, “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Por isso, ou os argumentos com que tu te esforças em provar o contrário não são verdadeiros, ou as conclusões a que acreditas chegar são falsas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A respeito do que tu opinas, que do fato de que se pode pensar algo acima do qual não é possível pensar nada maior não decorre que esse algo se encontre na inteligência; e que, pelo motivo de encontrar-se na inteligência, não é possível concluir que, necessariamente, exista na realidade, eu insisto em dizer, com toda certeza, que, se é possível pensá-lo, é necessário que ele exista. Com efeito, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não admite ser pensado como existente a não ser sem princípio, quando, ao contrário, tudo aquilo que pensamos como existente porque teve início admite ser pensado como existente ou não. Conseqüentemente, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não pode ser pensado existente e não existente. Assim, se é possível pensá-lo como existente, é necessário que exista.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mais: se é possível pensá-lo, é necessário que exista. Quem, pois, nega ou duvida que exista um ser acima do qual não é possível pensar nada maior, não nega ou duvida, porém, que, se existisse, não poderia não existir tanto na realidade como na inteligência, caso contrário não seria “o ser do qual não é possível pensar nada maior”. Mas aquilo que permite ser pensado como existente e não existe, se existisse, poderia não existir ou na realidade ou na inteligência. É por isso que “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, se é possível concebê-lo pelo pensamento, é impossível que não exista.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas vamos supor que ele efetivamente não exista, apesar de poder ser concebido pelo pensamento. Tudo aquilo, porém, que pode se pensado e não existe realmente, se viesse a existir, sem dúvida não seria “o ser acima do qual não se pode pensar nada maior”. Portanto, se “o ser acima do qual não se pode pensar nada maior” viesse a existir, não seria mais “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, o que é absurdo. Logo, é falso que não exista realmente “o ser acima do qual não se pode pensar nada maior”, se ele pode ser pensado. Aliás, ele existirá com maior certeza ainda, se é possível pensá-lo e tê-lo na inteligência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;E direi mais ainda. Não há dúvida que aquilo que não existe em nenhum lugar ou tempo determinados, se bem que exista em um lugar ou tempo quaisquer, pode ser pensado todavia como não existente em nenhum lugar e em nenhum tempo, da mesma maneira pela qual não se encontra num lugar e tempo determinados. Com efeito, aquilo que não existia ontem e não existe hoje pode compreender-se que não tenha existido nunca, como compreende-se que não existia ontem; e aquilo que não existe aqui e existe alhures pode ser pensado como não existente em nenhuma parte, por não se encontrar aqui. Fato semelhante acontece com uma coisa, cujas diferentes partes não se encontrem todas no mesmo lugar ou não existam no mesmo tempo: as partes e a coisa, em seu conjunto, podem ser pensadas como não existentes em nenhum lugar e nenhum tempo. Com efeito, não obstante se diga que o tempo existe sempre e o universo por toda parte, entretanto, o tempo não existe inteiro sempre, nem o universo existe inteiro por toda parte. E, como várias partes do tempo não existem ainda quando já existem as outras, assim podemos pensar que nunca existem; e, como as diferentes partes do universo não se encontram onde estão as outras, também podemos pensar que não existem em lugar nenhum. Tudo aquilo, em suma, que é composto de partes pode ser decomposto pelo pensamento e concebido como não existente. Por conseguinte, aquilo que não existe inteiro por toda parte e sempre, ainda que exista, admite ser pensado como não existente. Entretanto, “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, se existe, não pode ser pensado como não existente: caso contrário, se existe, não é “o ser do qual não é possível pensar nada maior”. E isto é contraditório. Portanto, ele não existe inteiro num lugar ou tempo determinados, mas existe inteiro por toda parte e sempre.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como, então, tu consegues afirmar que não se pode nem pensar nem compreender, nem ter na inteligência e no pensamento o ser do qual é-nos dado compreender tantas propriedades? Pois bem, se não fosse possível pensá-lo e compreendê-lo, também não conseguiríamos compreender essas propriedades. E se, depois, dizes que não é possível ter na inteligência aquilo que não se pode conceber ou compreender por completo, então podes acrescentar também que a pessoa que não consegue fixar os olhos na luz puríssima do sol não vê a luz do dia, que outra coisa não é senão a luz do sol.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Claro está, portanto, que podemos compreender e ter na inteligência “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, porque compreendemos tantas das suas propriedades.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;2. Na minha argumentação, que tu contestas, eu disse que o insipiente, ao ouvir as palavras “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, compreende aquilo que ouve.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ora, quem não compreende aquilo que é expressado na língua por ele conhecia é um obtuso ou um deficiente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Depois acrescentei que se ele compreende esse ser, este se encontra em sua inteligência. Ou será que não se encontra em nenhuma inteligência aquilo que foi demonstrado existir, necessariamente, na realidade?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas tu dizes que, não obstante se encontre na inteligência, não se encontra nela como conseqüência de ter sido compreendido. Olha, porém, que se é compreendido, encontra-se na inteligência. Com efeito, assim como aquilo que é pensado, é pensado pelo pensamento e, pelo fato de que é pensado, existe no pensamento assim, também, aquilo que é compreendido, é compreendido pela inteligência e, pelo fato de que é compreendido, existe na inteligência. Haverá coisa mais clara do que esta?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Afirmei, ainda, que se se encontra só na inteligência, pode, também, ser pensado como existente na realidade; e que isto é coisa maior do que encontrar-se só na inteligência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Depois, concluí que, se existe apenas na inteligência, é, por isso, um ser acima do qual pode-se pensar algo maior. Haverá conseqüência mais lógica do que esta?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ou será que, por encontrar-se apenas na inteligência, então não é possível pensar que existe, também, na realidade? Se, porém, é possível, quem o pensa assim não pensa, acaso, um ser maior que aquele que se encontra só na inteligência? E, portanto, não decorre logicamente que “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, se existisse apenas na inteligência, seria, justamente por isso, um ser acima do qual é possível pensar uma coisa maior? Mas, com certeza, nenhuma pessoa dotada de inteligência pode afirmar que “o ser do qual não se pode pensar nada maior” é o mesmo ser do qual se pode pensar alguma coisa superior. Ora, não decorre, portanto, disto, que esse ser do qual não se pode pensar nada maior, se existe na inteligência, não se encontra apenas na inteligência?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;De fato, se existisse somente na inteligência, ele mesmo seria o ser do qual poder-se-ia pensar outro maior, o que é absurdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;3. Mas tu dizes que esta minha maneira de argumentar equivale àquela de um homem que, depois de descrever uma ilha do oceano que supera em fertilidade todas as terras e, pela dificuldade, ou melhor, a impossibilidade de encontrá-la, pois não existe, é chamada &lt;i&gt;Ilha Perdida&lt;/i&gt;, afirmasse que não é possível duvidar da sua existência real, porque quem ouve compreende facilmente a sua descrição pelas palavras.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Em toda confiança respondo-te que se alguém consegue encontrar-me um ser – excetuando “aquele do qual não se pode pensar nada maior” – existente na realidade ou apenas no pensamento, ao qual seja possível aplicar congruentemente a minha argumentação, eu encontrarei com certeza a &lt;i&gt;Ilha Perdida&lt;/i&gt; e a entregarei a essa pessoa, de modo que nunca mais há de perdê-la. Contudo, parece estar já claro que não é possível pensar como não existente “o ser do qual não é dado pensar nada maior”, porque a sua existência alicerça-se numa razão segura e verdadeira. Se assim não fosse, não existiria de maneira nenhuma [isto é: nem na inteligência].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Finalmente, se alguém afirmasse que &lt;i&gt;pensa&lt;/i&gt; que esse ser não existe, responder-lhe-ia que, ao pensar assim, ele ou está ou não está pensando no &lt;i&gt;ser do qual não se pode conceber coisa maior&lt;/i&gt;. Se não está, evidentemente, não pensa que não existe aquilo que, de maneira nenhuma, pensa. Mas, se, ao contrário, pensa nele, não resta dúvida que pensa algo, cuja não existência é impossível conceber. Com efeito, se fosse admitido conceber que esse ser pode não existir, seria lícito, então, deduzir que ele tem princípio e fim, o que é absurdo. Quem, portanto, pensa num ser dessa espécie, pensa algo que não é possível conceber como não existente. Aliás, quem pensa esse ser, na verdade, não pensa que ele não existe, porque, caso contrário, pensaria aquilo que não pode ser pensado.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Conseqüentemente, o ser acima do qual não é possível pensar nada maior não pode ser pensado como não existente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;4. A respeito daquilo que objetas que, quando se afirma que esse ser supremo não pode ser pensado como não existente, seria melhor dizer que “não pode ser compreendido como não existente” ou, também, “que não pode não existir”, eu insisto que se deve dizer que “não pode ser pensado”. Se, pois, eu tivesse afirmado que o ser supremo não pode &lt;i&gt;compreender-se&lt;/i&gt; que não exista, tu que, devido ao sentido próprio do verbo, sustentas que as coisas falsas não podem ser compreendidas, terias objetado que nada daquilo que existe pode ser compreendido como não existente, porque é falso que aquilo que existe não exista; e terias concluído que, por este motivo, não seria uma propriedade exclusiva de Deus não poder ser concebido como não existente. Evidentemente se alguma das coisas que existem com certeza fosse possível ser compreendida como não existente, também todas as outras que existem com igual certeza, poderiam ser compreendidas como não existentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas, essa objeção, se refletirmos bem, não é valida a respeito do &lt;i&gt;pensar&lt;/i&gt;. Com efeito, embora nenhuma das coisas existentes se possa pensar como não existente, entretanto, todas, excetuando o ser supremo, admitem ser pensadas como não existentes. Pois, sem dúvida, podem ser pensadas como não existentes todas ou separadamente aquelas coisas que têm princípio e fim ou que constam de partes, e tudo aquilo que, como já disse, não se encontra completo num determinado lugar ou tempo. Mas o ser que não possui nem princípio nem fim, que não é composto de partes e que o pensamento encontra completamente inteiro por toda parte e sempre, não admite ser pensado como não existente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Hás de saber, portanto, que tu podes pensar de ti mesmo que não existes, apesar de saberes certissimamente que existes, e eu estranhar que tu tenhas afirmado não sabê-lo com certeza.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, nós imaginamos que não existem muitas das coisas que sabemos existir e, ao contrário, pensamos como existentes muitas outras que sabemos que não existem, embora não acreditando, mas fingindo acreditar que sejam assim como as pensamos. Podemos, pois, pensar que uma coisa não existe, quando sabemos que existe, porque é possível formular esse pensamento ao mesmo tempo que conhecemos a existência dela; e, no entanto, não podemos pensar, simultaneamente, que uma coisa não existe quando existe, porque não é possível pensar que uma coisa exista e não exista ao mesmo tempo. Quem distinguir desta maneira as duas proposições contidas na minha exposição compreenderá que de nenhuma coisa ele pode pensar que não existe, quando sabe que existe e que, ao mesmo tempo, de todas as coisas, excetuando o ser do qual não se pode pensar nada maior, pode pensar que não existem, ainda quando sabe que existem. É, portanto, próprio de Deus não poder ser pensado como não existente, e, todavia, muitas coisas não podem ser pensadas não existentes quando existem.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A respeito da maneira com que se pode dizer que é dado pensar que Deus não existe, creio tê-lo exposto suficientemente nesse mesmo opúsculo [Proslógio, cap. 3].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;5. No que diz respeito às demais objeções que me apresentas em defesa do insipiente, até para uma pessoa de poucos conhecimentos seria fácil rebatê-las. Por isso, tinha tomado a resolução de não responder. Mas, como estive sabendo que, segundo alguns que as leram, elas apresentam um certo valor contra a minha posição, as comentarei brevemente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Em primeiro lugar, tu repetes freqüentemente que eu afirmo: “aquilo que é maior que todas as coisas” encontra-se na inteligência e que, portanto, se existe na inteligência, existe também na realidade, porque, do contrário, ele não seria “o ser maior que todas as coisas”.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas uma afirmação dessa espécie não se encontra em parte nenhuma dos meus escritos e das minhas palavras. Com efeito, para provar que esse ser existe na realidade, não é a mesma coisa argumentar dizendo “&lt;i&gt;o ser maior que todas as coisas&lt;/i&gt;” e “&lt;i&gt;o ser do qual não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;”. Se, pois, alguém afirmasse que “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não existe e que pode não existir e que pode não existir na realidade, seria fácil refutá-lo. Efetivamente, aquilo que não existe pode não vir a existir; e o que pode não existir pode ser pensado como não existente; porém, aquilo que pode ser pensado como não existente – se existe – não é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, que – se não existe, e viesse a existir – certamente não seria “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Mas não se pode dizer que “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, se existe, não é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, ou que, se viesse a existir, não seria “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Está claro, pois, que ele não apenas existe, mas que não pode não existir e que não pode ser pensado como não existente; o contrário – se existe –, não é aquilo que se diz que é, e – se viesse a existir –, não seria aquilo que se diz que seria [isto é, “o ser do qual não se pode pensar nada maior”].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Não é fácil, entretanto, afirmar o mesmo acerca do “ser maior que todas as coisas”. Com efeito, não é tão evidente que aquilo que é possível ser pensado como não existente não é “o ser maior que todas as coisas”, como, ao contrário, isto evidencia-se no caso do “ser do qual não se pode pensar nada maior”. Nem é tão claro assim que “o ser maior que todas as coisas”, se existe, ou viesse a existir, não seria senão “o ser do qual não se pode pensar &lt;i&gt;algo&lt;/i&gt; maior”, como isto é certo no caso do “ser do qual não se pode pensar &lt;i&gt;nada&lt;/i&gt; maior”.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;De fato, se alguém afirmasse que existe um ser maior que todos os outros e acrescentasse que este admite, todavia, ser pensado como não existente, e que é possível pensar algo – ainda que inexistente – maior do que ele, acaso seria possível argumentar contra essa pessoa que, neste caso, não se trata do “ser maior que todas as coisas existentes” com a mesma evidência e clareza com que se argumentaria para “o ser do qual não se pode pensar nada maior”? Como se vê, não basta argumentar na base do “ser maior que todas as coisas”; é necessário usar outro argumento. Mas para “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, a dedução é clara e suficiente por si. Portanto, se não é possível argumentar partindo do “ser maior que todas as coisas”, e, no entanto, é possível fazê-lo sem recorrer a outros elementos, quando se trata do “ser do qual não se pode pensar nada maior”, tu me redargüiste injustamente por ter dito aquilo que, realmente, não disse, já que as minhas palavras são bastante diferentes daquelas que me atribuíste.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Se, depois, fosse possível também argumentar na base do “ser maior que todas as coisas”, não devias ter-me censurado porque afirmei uma coisa que se pode demonstrar. E digo mais: quem conhece a força da argumentação contida no “ser do qual não se pode pensar nada maior” compreende facilmente que é possível também esta segunda argumentação. De fato, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” só pode ser entendido como o único maior entre todas as coisas. Conseqüentemente, assim como “o ser do qual não se pode pensar nada maior” é compreendido por nós e se encontra em nossa inteligência e, portanto, a sua existência é real, assim “o ser maior que todas as coisas” é, igualmente, compreendido pela nossa inteligência, encontra-se nela e, necessariamente, existe pelo mesmo motivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Observa bem se tens razão de comparar-me àquele insensato que acredita na existência da &lt;i&gt;Ilha Perdida&lt;/i&gt;, só porque ouviu e compreendeu as palavras de quem descreveu.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;6. A respeito ainda daquilo que me objetas, que as coisas falsas e duvidosas podem, também, ser compreendidas e encontrar-se na inteligência do mesmo modo que “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, admira-me que possas ter pensado isso de mim, quando desejava apenas oferecer provas certas sobre uma coisa problemática, e era suficiente, para mim, mostrar primeiro que esse ser, superior a tudo, é compreendido pela inteligência e se encontra nela de alguma maneira; e, depois, examinar se se encontra nela somente como as coisas falsas ou, realmente, como as coisas verdadeiras.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, se as coisas falsas e duvidosas são compreendidas pela inteligência e se encontram nela porque, ao serem enunciadas, aquele que as ouve compreende aquele que as fala, nada impede então que o ser enunciado por mim seja compreendido pela inteligência e se encontre nela. Como, porém, conciliar estas tuas asserções: que as coisas falsas, quaisquer que sejam, quando alguém as enuncia diante de ti, tu as compreendes, e que, no entanto, aquilo que não é pensado e não se encontra na inteligência, tal como as coisas falsas, não é pensado e não se encontra na inteligência porque não se pode pensá-lo nem compreendê-lo senão tendo ciência de que existe na realidade? Como conciliar, repito, que as coisas falsas compreendem-se e que compreender é saber com ciência que um determinado ser existe?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Não sou eu quem deve responder; a ti pertence resolver a dificuldade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ainda. Se as coisas falsas são, de certa maneira, concebidas, e esta definição vale para todas as inteligências, não devias repreender-me porque afirmei que “o ser do qual não se pode pensar nada maior” é compreendido e existe na inteligência antes ainda que se tenha certeza de sua existência na realidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;7. Ainda. Confesso que custo a acreditar que tu possas dizer que é possível pensar como não existente esse ser, ao ouvi-lo enunciar, pelo fato de que também Deus pode ser pensado não existir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A isto poderiam responder, em meu lugar, até pessoas que possuem um conhecimento mínimo da arte de disputar e argumentar.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Acaso é lógico que alguém negue aquilo que compreende, pelo fato de que afirma existir o que, justamente, nega porque não o compreende? Mas se se chega a negar o que é compreendido, de alguma maneira, identificando-o com aquilo que não se compreende de maneira nenhuma, então não é mais fácil demonstrar o que é duvidoso com referência a um objeto que existe em algumas inteligências do que com referência a um objeto que não existe em nenhuma?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É incrível que alguém que compreende, de alguma maneira, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” o negue, quando ouve enunciá-lo, porque nega a Deus, palavra cujo significado e conteúdo não consegue compreender de maneira nenhuma.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Mas se se nega aquilo que não se compreende de maneira nenhuma, então não continua sendo certo que é mais fácil demonstrar o que é compreendido de alguma maneira do que aquilo que não conseguimos compreender de nenhuma?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Querendo demonstrar a existência de Deus a um insensato, não raciocinei, portanto, erradamente ao usar o argumento do “ser do qual não se pode pensar nada maior”, porque ele poderia compreender este ser, de alguma maneira, enquanto não compreenderia de nenhuma maneira Deus.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;8. Na verdade, a objeção com que te esforças tanto para demonstrar-me que “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não é como a pintura antes de ser realizada na inteligência do artista, não resulta em nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Não citei, pois, o exemplo da pintura não realizada para sustentar que assim era o ser do qual estava tratando, mas para exemplificar que pode existir &lt;i&gt;algo&lt;/i&gt; na inteligência, sem que, por isso, se compreenda que existe na realidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Igualmente, quando dizes que – ao ouvi-lo enunciar – não consegues pensar e ter na inteligência “o ser do qual não se pode pensar nada maior” nem como uma coisa da qual conheces a espécie ou gênero, nem por meio de outra semelhança a ele, é evidente que é tudo o contrário. Com efeito, como todo bem, enquanto bem, parece-se com um bem maior, e como dos bens menores remonta-se aos maiores, está claro para qualquer inteligência racional que podemos remontar ao “ser do qual não se pode pensar nada maior”, partindo das coisas acima das quais é possível pensar algo maior. De fato, quem, por exemplo, não conseguiria pensar, ao menos, que – existindo um ser, ou bem, que tem princípio e fim –, embora não acredite em sua existência real, melhor do que ele é o bem que, se tem princípio, não tem fim? E que, melhor que este, é o bem que não possui nem princípio nem fim, apesar de mudar, fluindo sempre do passado para o futuro através do presente, e possa ou não possa existir? E que, melhor ainda que este terceiro, é todavia aquele ser que, de maneira nenhuma, precisa ou é obrigado a mudar ou alterar-se?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ou será que não é possível imaginar um ser como o último? Ou, quiçá, possa-se pensar algo ainda maior do que ele? Ou será que um ser como este não se encontra entre aqueles dos quais é permitido conceber sempre algo maior, até chegar ao “ser do qual não se pode pensar nada maior”? Há, portanto, um elemento do qual é permitido remontar ao “ser do qual não se pode pensar nada maior”.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É fácil confutar, pois, o insipiente que não admite a autoridade das Sagradas Escrituras, caso negue poder-se chegar ao “ser do qual não se pode pensar nada maior”, partindo de dados reais. Mas se, a negar isso, é um católico, lembre-se, então, que “&lt;i&gt;as coisas invisíveis de Deus, a sua virtude eterna e a sua divindade podem ser compreendidas através do conhecimento das coisas criadas do universo&lt;/i&gt;” [Rom. 1,20].&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;9. Mas, ainda que fosse certo que não é possível pensar e compreender “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, certamente não seria, porém, falso que este mesmo ser pode ser pensado e compreendido.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Com efeito, assim como nada impede que se pronuncie a palavra &lt;i&gt;inefável&lt;/i&gt;, apesar de não podermos expressar o que se designa com &lt;i&gt;inefável&lt;/i&gt; e, como é possível pensar uma coisa enunciada como &lt;i&gt;impensável&lt;/i&gt;, embora esta qualificação convenha só a uma coisa que realmente não pode ser pensada; assim, quando se diz: &lt;i&gt;o ser do qual não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;, não resta dúvida que esta expressão pode ser pensada e compreendida, ainda que não possa ser pensado e compreendido o ser do qual é impossível pensar algo maior. Portanto, supondo que haja alguém tão estulto que negue a existência do “ser do qual não se pode pensar nada maior”, ele, porém, não poderá chegar à impudência de sustentar que não pensa e não compreende aquilo que está dizendo. Se houvesse alguém que afirmasse coisa semelhante, deveríamos rechaçar não apenas as suas palavras, mas também a ele pessoalmente.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quem, pois, nega a existência do “ser do qual não se pode pensar nada maior” compreende e pensa, sem dúvida, a negação que enuncia. E não pode compreendê-la ou pensá-la sem os elementos que a compõem, um dos quais é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Assim, quem nega esse ser pensa e compreende o sentido das palavras: &lt;i&gt;não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É evidente, porém, que, de maneira semelhante, é possível pensar e conceber aquilo que não pode não existir. Ora, quem pensa aquilo que &lt;i&gt;não pode&lt;/i&gt; não existir concebe, na verdade, coisa maior do que quem pensa aquilo que &lt;i&gt;pode&lt;/i&gt; não existir. Conseqüentemente, quando se pensa “o ser do qual não se pode pensar nada maior” e, ao mesmo tempo, pensa-se que ele pode não existir, não está sendo pensado &lt;i&gt;o ser do qual não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;, porque é impossível pensar e não pensar ao mesmo tempo, uma mesma coisa. Por isso, quem pensa “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não pensa um ser que &lt;i&gt;pode&lt;/i&gt; não existir, mas o ser que &lt;i&gt;não pode&lt;/i&gt; não existir. É necessário, portanto, que o ser que ele pensa exista, porque tudo aquilo que pode não existir não é aquilo que ele pensa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;10. Concluindo, julgo que no opúsculo citado mostrei, não com provas fracas, mas com uma argumentação sólida e válida, que existe realmente “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. E não há nenhuma objeção que possa debilitar a sua firmeza.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ao contrário. É tão grande a força significativa que essa expressão carrega dentro de si que, logo ao ser pronunciada, compreende-se e pensa-se verdadeiramente “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, e deduz-se necessariamente a sua existência e obriga a crer que se trata de algo referente à natureza divina. De fato, a respeito da substância divina, nós cremos dever-lhe atribuir tudo aquilo que é absolutamente melhor ser do que não ser, como, por exemplo, ser eterno do que não eterno, ser bom do que não ser bom, ser, aliás, a própria bondade do que não sê-lo. Ora, &lt;i&gt;o ser do qual não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt; não pode não ser todas estas coisas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É necessário, portando, concluir que, com a propriedade &lt;i&gt;o ser do qual não se pode pensar nada maior&lt;/i&gt;, alcançamos a essência divina.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="n" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Agradeço-te, por fim, pela tua benignidade, tanto ao repreender como ao elogiar o meu opúsculo. E, como acolheste com tão grandes louvores as partes que te pareceram dignas de consideração, é evidente que, ao criticar as que julgaste fracas, o fizeste com espírito benevolente e não com malevolência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="textoinfo" style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;____________________________________________________________________&lt;br /&gt;Fonte: &lt;u&gt;Coleção Os Pensadores&lt;/u&gt;. Trad. de Angelo Ricci. São Paulo: Abril SA, 1973.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3326216974110226786-3431775315294730711?l=textosantigos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://textosantigos.blogspot.com/feeds/3431775315294730711/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3326216974110226786&amp;postID=3431775315294730711&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/3431775315294730711'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/3431775315294730711'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textosantigos.blogspot.com/2007/07/santo-anselmo-de-canturia-1033-1109.html' title='Santo Anselmo de Cantuária (1033 - 1109).'/><author><name>Jorge Luis</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0l1u3mjRI/AAAAAAAAEXA/8HnSN55Qy-c/s72-c/pedras_angulares_santo_anselmo_584px.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3326216974110226786.post-2812022576550329210</id><published>2010-06-13T19:50:00.000-07:00</published><updated>2010-12-18T13:23:44.465-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Século II'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Anônimo'/><title type='text'>Doutrina dos Apóstolos - forma breve (séc. II).</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0mSDX5c6I/AAAAAAAAEXE/c5XHfCrM0ls/s1600/apostolos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;h3 style="font-family: arial; font-weight: bold; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;Da Doutrina dos Apóstolos  (forma breve)&lt;/span&gt;&lt;/h3&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;h4 style="font-family: arial; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;(Autoria Desconhecida)&lt;/span&gt;&lt;/h4&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;   &lt;b&gt;Capítulo I&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0mSDX5c6I/AAAAAAAAEXE/c5XHfCrM0ls/s1600/apostolos.jpg" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="196" src="http://2.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0mSDX5c6I/AAAAAAAAEXE/c5XHfCrM0ls/s320/apostolos.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;1.  Existem dois caminhos no mundo: o da vida e o da morte; o da luz e o  das trevas. Neles foram estabelecidos dois anjos: o da justiça e o da  iniqüidade. Porém, grande é a diferença entre esses dois caminhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  Este é o caminho da vida: em primeiro lugar, deves amar ao Deus eterno  que te criou; em segundo lugar, [deves amar] o teu próximo como a ti  mesmo; assim, tudo o que não quiserdes que seja feito contigo, não o  farás a outro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  A explicação destas palavras é a que segue.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo  II&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0mSDX5c6I/AAAAAAAAEXE/c5XHfCrM0ls/s1600/apostolos.jpg" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;1.  &lt;i&gt;...lacuna...&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  Não cometerás adultério; não matarás; não prestarás falso testemunho;  não violarás a criança; não fornicarás; não praticarás a magia; não  fabricarás poções; não matarás a criança mediante aborto, nem matarás o  recém-nascido; não cobiçarás nada do teu próximo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  Não proferirás perjúrios; não falarás mal, nem recordarás das  más-ações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;4.  Não darás mal conselho, nem teu linguajar terá duplo sentido, pois a  língua é uma armadilha para a morte.&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;5.  Tua palavra não será vã, nem enganosa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;6.  Não serás ambicioso, nem avarento, nem voraz, nem adulador, nem  parcial, nem de maus costumes; não admitirás que se crie uma armadilha  para o teu próximo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;7.  Não odiarás a qualquer homem, mas o amareis mais que a tua própria  vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo  III&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;1.  Filho: afasta-te do homem mal e do homem falso. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  Não sejas irado porque a ira conduz ao homicídio, nem desejes a maldade  e a paixão pois disto tudo nasce a ira. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  &lt;i&gt;...lacuna...&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;4.  Não sejas astrólogo, nem purificador, pois estas coisas conduzem à vã  superstição; nem sequer desejes ver ou ouvir estas coisas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;5.  Não sejas mentiroso porque a mentira conduz ao roubo; nem amante do  dinheiro, nem da vadiagem, pois de tudo isto nascem os roubos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;6.  Não sejas murmurador porque isto conduz à difamação; não sejas  temerário, nem penses mal, pois de tudo isto nascem as difamações. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;7.  Ao contrário, sê manso, porque os mansos possuirão a terra santa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;8.  Sê também paciente em teu trabalho; sê bom e temeroso de todas as  palavras que escutas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;9.  Não te enaltecerás nem te gloriarás perante os homens, nem infundirás a  soberba na tua alma; não te unirás em espírito com os orgulhosos, mas  te juntarás aos justos e humildes. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;10  Receberás como bem as coisas adversas que te ocorrerem, sabendo que  nada ocorre sem Deus.  &lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo IV&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;1.  Daquele que te ensina a palavra do Senhor Deus, te recordarás dia e  noite. O respeitarás como ao Senhor, pois onde se apresentam as coisas  relativas ao Senhor, ali está o Senhor. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  Assim pois, busca o rosto dos santos, para que te entretenhas nas suas  palavras. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  Não causes divisões, mas põe paz entre os que se desentendem; julga  retamente sabendo que também tu serás julgado; não derrubarás ninguém em  desgraça. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;4.  Não terás dúvidas se será ou não verdadeiro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;5.  Não sejas como aqueles que estendem a mão para receber e encolhem para  dar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;6.  Sim, graças às tuas mãos, tens a redenção dos pecados; não terás  dúvidas ao dar, sabendo quem será o remunerador dessa recompensa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;7.  Não te desviarás do necessitado, mas compartilharás todas as coisas com  teus irmãos e não dirás que sãos tuas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;8.  Se somos co-partícipes no imortal, quanto mais devemos iniciá-lo já, a  partir daqui? Eis que o Senhor quer dar a todos os Seus dons. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;9.  Não afastarás as tuas mãos dos teus filhos, mas desde a juventude lhes  ensinarás o temor a Deus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;10  A teu servo ou a tua serva, que esperam no mesmo Senhor, não os  obrigarás, com ira, que venham a temer ao Senhor e a ti, pois Ele não  veio para discriminar pessoas, mas para aqueles em quem encontrou um  espírito humilde. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;11.  Vós, servos, permanei submissos aos vossos senhores como a Deus, com  pudor e temor. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;12.  Odiarás toda hipocrisia e não farás o que não agrada a Deus. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;13.  Assim, pois, guarda, filho, o que tens ouvido e não lhe acrscentes  coisas contrárias, nem as reduza. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;14.  Não te cerques da oração cm maus propósitos. Este é o caminho da vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo  V&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;1.  Por outro lado, o caminho da morte é contrário àquele. Para começar, é  mau e cheio de maldições: adultérios, homicídios, falsos testemunhos,  fornicações, maus desejos, atos mágicos, poções malditas, roubos, vãs  superstições, furtos, hipocrisias, repugnâncias, malícia, petulância,  cobiça, linguajar imoral, inveja, ousadia, soberba, orgulho, vaidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  Os que não temem a Deus, os que perseguem os justos, os que odeiam a  verdade, os que amam a mentira, os que não conhecem a recompensa da  verdade, os que não se aplicam ao bem, os que não têm um reto juízo, os  que não cuidam pelo bem mas pelo mal &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  dos quais se esgota a paciência e cerca a soberba - os que perseguem  aos remuneradores, os que não se compadecem do pobre, os que não se  afligem com o aflito, os que não conhecem a seu Criador, os que  assassinam os seus filhos, os que cometem o aborto, os que se afastam  das boas obras, os que oprimem o trabalhador, os que se esquivam do  conselho dos justos: Filho, afasta-te de todos estes!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo  VI&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;  1. E vigia para que ninguém te afaste desta doutrina; do contrário,  serás considerado sem disciplina. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;2.  &lt;i&gt;...lacuna...&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;3.  &lt;i&gt;...lacuna...&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;4.  Se a cada, com cuidado, fizeres estas coisas, estarás próximo do Deus  vivo; se não o fizeres, estarás longe da verdade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;5.  Põe todas estas coisas em teu espírito e não perderás a tua esperança;  ao invés, por estes santos combates, chegarás à coroa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt;6.  Por Jesus Cristo, o Senhor que reina e é Senhor com Deus Pai e o  Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 100%;"&gt; * * *&lt;br /&gt;Fonte: Veritatis Splendor (http://www.veritatis.com.br)&lt;br /&gt;Tradução: Carlos Martins Nabeto&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3326216974110226786-2812022576550329210?l=textosantigos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://textosantigos.blogspot.com/feeds/2812022576550329210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3326216974110226786&amp;postID=2812022576550329210&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/2812022576550329210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/2812022576550329210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textosantigos.blogspot.com/2010/06/doutrina-dos-apostolos-forma-breve-sec.html' title='Doutrina dos Apóstolos - forma breve (séc. II).'/><author><name>Jorge Luis</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TQ0mSDX5c6I/AAAAAAAAEXE/c5XHfCrM0ls/s72-c/apostolos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3326216974110226786.post-3750312170632159238</id><published>2010-06-05T18:19:00.000-07:00</published><updated>2010-07-07T04:47:45.725-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cânon'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Concílios'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Hipona'/><title type='text'>Concílios - Hipona: Cânon 36</title><content type='html'>&lt;a style="font-family: arial;" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TAr419S3WyI/AAAAAAAADsA/o2iTEXakZNQ/s1600/papirocanon36.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 200px; height: 283px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TAr419S3WyI/AAAAAAAADsA/o2iTEXakZNQ/s400/papirocanon36.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479465502520072994" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em style="font-family: arial;"&gt;Tradução: Carlos Martins Nabeto&lt;/em&gt; &lt;p style="text-align: justify; font-family: arial;"&gt;&lt;strong&gt;Cânon 36 &lt;/strong&gt;- Parece-nos   bom que,  fora das   Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja  sob o nome 'Divinas  Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as  seguintes: Gênese, Êxodo,  Levítico, Números, Deuteronômio, Josué,  Juízes, Rute, quatro livros dos  Reinos1, dois livros dos  Paralipômenos 2, Jó, Saltério de Davi, cinco  livros de Salomão 3, doze  livros dos Profetas 4, Isaías, Jeremias 5,  Daniel, Ezequiel, Tobias,  Judite, Ester, dois livros de Esdras 6 e dois  [livros] dos Macabeus.    E do Novo Testamento: quatro livros dos  Evangelhos 7, um [livro de] Atos  dos Apóstolos, treze epístolas de  Paulo 8, uma do mesmo aos Hebreus 9,  duas de Pedro, três de João, uma de  Tiago, uma de Judas e o Apocalipse  de João.10 Sobre a confirmação deste  cânon se consultará a Igreja do  outro lado do mar 11. É também permitida a  leitura das Paixões dos  mártires na celebração de seus respectivos  aniversários 12.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3326216974110226786-3750312170632159238?l=textosantigos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://textosantigos.blogspot.com/feeds/3750312170632159238/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3326216974110226786&amp;postID=3750312170632159238&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/3750312170632159238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3326216974110226786/posts/default/3750312170632159238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textosantigos.blogspot.com/2010/06/concilios-hipona-canon-36.html' title='Concílios - Hipona: Cânon 36'/><author><name>Jorge Luis</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/TAr419S3WyI/AAAAAAAADsA/o2iTEXakZNQ/s72-c/papirocanon36.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3326216974110226786.post-5084758134684033662</id><published>2009-12-17T13:38:00.000-08:00</published><updated>2010-12-18T08:11:48.429-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='São Sofrônio do Egito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Monge'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Bispo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Século VI'/><title type='text'>São Sofrônio de Jerusalém (séc. VI).</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: arial; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Vida de Santa Maria do Egito&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;São Sofrônio de Jerusalém&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;  &lt;b&gt;Prólogo&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;É algo louvável esconder o segredo dos Reis; mas há &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/Syqkjks537I/AAAAAAAADho/E_tzm__mWqM/s1600-h/S%C3%A3o+Sofr%C3%B4nio+de+Jerusal%C3%A9m.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5416322432920838066" src="http://4.bp.blogspot.com/_shIM7xl2Byo/Syqkjks537I/AAAAAAAADho/E_tzm__mWqM/s400/S%C3%A3o+Sofr%C3%B4nio+de+Jerusal%C3%A9m.jpg" style="cursor: pointer; float: right; height: 400px; margin: 0pt 0pt 10px 10px; width: 284px;" /&gt;&lt;/a&gt;glória em publicar as obras de Deus, como diz o Anjo a Tobias, quando este recobra de maneira miraculosa a visão – tendo passado por tantos perigos goza então, dos efeitos do amor e da ajuda de Deus. É bastante perigoso descobrir os segredos dos príncipes e, contrariamente, causa muito prejuízo à alma calar-se sobre as ações ilustres, que Deus faz em favor dos homens pelo excesso de Sua bondade e de Sua misericórdia. É portanto temerário encobrir com o silêncio as maravilhas divinas, por um justo julgamento. Seria cair na mesma condenação daquele servo inútil que ao invés de aproveitar do talento recebido escondeu-o na terra. Eu não sepultaria nas trevas uma história tão santa quanto esta que chegou ao meu conhecimento. E não é preciso sequer acrescentar fé ao que vou escrever, considerando-se o espanto, que ações tão extraordinárias causarão. Deus me proteja de ser mentiroso em assuntos santos, e de violar a verdade daquilo que concerne a Sua glória; não tomarei parte no perigo que correm aqueles, que não compreendem senão as coisas baixas, e julgando indignamente a grandeza de um Deus que Se fez homem, não acrescentarão nada de fé a este discurso. E há pessoas que depois de o terem lido, recusam-se a lhe dar o crédito e a admiração que merece uma história tão miraculosa. Suplico a Deus que tenha piedade delas e abra-lhes o espírito, a fim que elas escutem Sua Santa palavra, e que não se tornem culpadas pelo desprezo, de tantos milagres que Ele decidiu fazer em toda a eternidade a favor de Seus Eleitos; assim elas agem considerando a fraqueza da natureza humana, julgando impossível tudo o que lhes é contado sobre as ações extraordinárias dos Santos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eu vou então começar esta narrativa, onde escreverei palavra por palavra segundo aquilo que se sabe ter acontecido e que me foi reportado por um homem santo, alimentado pela ciência e pela prática das coisas divinas. E, que ninguém se deixe tomar pela incredulidade, como se fosse impossível que tão grande milagre acontecesse hoje em dia, visto que a graça de Deus – que século a seculo circula na alma dos santos – torna-os Seus amigos e faz Profetas; assim como Salomão nos ensina através do conhecimento que Ele lhe deu. Mas não se deve separar o relato deste grande e generoso combate de Maria do Egito, do modo com que ela terminou seus dias na terra.&lt;/div&gt;&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo 1&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Havia num mosteiro da Palestina um homem chamado Zózimo que, tendo sido desde a sua infância instruído com grande zelo nos exercícios da vida solitária e educado santamente, fazia brilhar em suas palavras e em suas ações uma verdadeira piedade. Entretanto, não imaginem que eu queira aqui falar daquele Zózimo acusado de ensinar erros no que concerne a crença; os nomes são os mesmos. Este de quem falo, ficou primeiramente em um mosteiro da Palestina e passando por todos os exercícios da vida solitária, tornou-se muito recomendado pela pureza de seus hábitos e o seu fervor na penitência; pois observava inviolavelmente todas as instruções que lhe davam aqueles que desde a juventude haviam sido alimentados deste santo modo, de forma a mantê-lo capaz de suportar os combates que se lhes apresentavam na prática exata das regras e, não bastando, acrescentou ainda muito de si, pelo desejo que trazia de sujeitar a carne ao espírito. Assim, jamais percebeu-se uma pequena falta na menor das coisas e ele realizava tão perfeitamente tudo o que se esperava de um solitário, que se via com freqüência muitos outros, tanto das redondezas quanto das províncias distantes, virem até ele e, por suas instruções e seus exemplos, portarem-se com mais ardor do que antes, nos outros santos exercícios da penitência.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Tendo tantas qualidades excelentes, meditava sem cessar sobre as Santas Escrituras, pois, quer estivesse deitado para um pequeno repouso, quer estivesse levantado, quer trabalhasse com as mãos ou comesse, seu espírito ocupava-se sempre deste objetivo que se lhe tornara tão familiar e nunca interrompida a obra de recitar os Salmos e de meditar sobre as Sagradas Escrituras. Assim, tornado-se digno de ter seu espírito esclarecido por Deus, aqueles que viviam com ele asseguravam que freqüentemente era favorecido com visões; o que não é nem estranho nem incrível, pois nosso Senhor Jesus Cristo diz: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus;” com mais razão ainda àqueles que purificaram a sua carne, que sempre permaneceram em abstinência e cujo espírito jamais adormece no caminho da piedade; esses podem ter os olhos iluminados pelas luzes divinas, como marca da felicidade que os espera na outra vida, onde O verão em toda a Sua majestade e glória.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Zózimo dizia que estava naquele mosteiro praticamente desde ter deixado o seio materno, onde viveu até os 53 anos na observância das regras da vida solitária, e um dia, vendo-se tentado por alguns pensamentos que lhe faziam crer ser perfeito, em todas as instruções de quem quer que fosse, dizia consigo: “Há algum Solitário no mundo que possa ensinar-me algo de novo, ou mostrar-me algo que eu ainda não tenha realizado por minhas próprias ações, nesta santa maneira de viver? Haverá alguém que me ultrapasse”?&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como ele se entretinha com estes pensamentos e alguns outros parecidos, apresentou-se um homem diante dele que lhe disse: “Zózimo, é verdade que combateste generosamente e tanto quanto um homem poderia fazer. É verdade que correste bastante na carreira da vida solitária. Mas não há nenhum homem que possa se vangloriar de ser perfeito, sobretudo porque tu não sabes ainda que o presente combate é mais difícil de suportar do que os passados, e a fim de que conheças que há muitas outras vias para chegar à Salvação, sai de teu país, sai do meio dos teus próximos, sai da casa de teu pai como o grande patriarca Abraão, e vai-te ao mosteiro que fica ao longo do Jordão .”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Seguindo aquilo que lhe havia sido recomendado, Zózimo saiu do mosteiro onde havia sido alimentado desde a sua infância, e tendo chegado à beira do Jordão – o mais santo de todos os rios – foi conduzido pelo mesmo homem ao mosteiro, onde Deus lhe ordenara ir. Tendo batido à porta e falado com o porteiro, este irmão foi dizer ao abade o qual veio recebê-lo, reconhecendo por seu hábito e por sua continência tratar-se de um Solitário. Depois que Zózimo pôs-se de joelhos conforme o costume dos Solitários e que pediu a sua bênção, o abade lhe disse: “De onde vens, meu irmão? E que assunto te traz até os pobres Solitários?” Zózimo respondeu: “Meu pai, não estimo ser necessário dizer-vos de onde venho, e penso que é suficiente que saibais, que o que me traz é o desejo de encontrar aqui temas de edificação, pois soube coisas tão vantajosas deste mosteiro e tão dignas de elogio, que são capazes de levar os homens a unirem-se a Deus.” O abade retorquiu: “Meu irmão, que Deus, o único que pode curar as enfermidades da alma, queira por Sua graça instruir-te e a nós também com Seus mandamentos e conduzir nossos passos para caminharmos nos santos caminhos; pois não há homem algum que seja capaz de fazer outros, avançarem na virtude. É preciso que cada um vele cuidadosamente sobre si mesmo e, sem elevar alto demais seus pensamentos, faça o que lhe for mais vantajoso para chegar à perfeição; Deus cooperando com ele. Todavia, já que dizes que a caridade de Jesus Cristo te traz aqui para ver os pobres solitários, podes permanecer conosco se é este o teu desejo; e o Bom Pastor, que deu a vida para nossa salvação e que chama as suas ovelhas cada uma por seu nome, nos alimentará pela graça de Seu Espírito Santo.” Tendo o abade concluído suas palavras, Zózimo ajoelhou-se ainda e após ter recebido a benção, respondeu: “Assim seja” e ficou no mosteiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo 2&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Ele viu lá, anciãos de rostos veneráveis, admiráveis em suas ações, fervorosos em espírito, e que serviam a Deus sem qualquer interrupção. Não havia hora durante a noite em que não se cantasse os salmos, e durante o dia eles estavam sempre em suas bocas, enquanto trabalhavam incessantemente com as mãos. Não se sabia o que eram cuidados inúteis. Não tinham o menor pensamento sobre o bem nem sobre outras coisas temporais, e apenas conheciam-lhes os nomes; mas empregavam todo o ano considerando o NADA desta vida, que não é senão, uma passagem cheia de dores e misérias e meditando sobre coisas semelhantes. Uma coisa somente parecia-lhes importante e trabalhavam com todo o ardor para adquiri-la: estarem mortos para o século, ao qual haviam renunciado quando deixaram o mundo e todas as coisas que dependiam dele. Vivendo assim, como se não vivessem mais, alimentavam o espírito com uma carne que não lhes faltava nunca, a Palavra de Deus, e o seu corpo com pão e água somente, a fim de terem mais motivo para esperar a misericórdia de seu Mestre. Como contou depois, Zózimo foi bastante edificado por esta maneira de viver, e excitava-se com os exemplos para avançar na perfeição, encontrando pessoas que trabalhavam tão poderosamente com ele para adquirí-la, e mostravam com tanta alegria um novo Paraíso na terra.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Poucos dias depois, chegou o tempo recomendado aos cristãos pela tradição da igreja, para celebrarem o santo jejum da Quaresma e para purificarem as almas a fim de se tornarem dignos de verem os dias da morte e da ressurreição de nosso Salvador. Ora, estes Solitários faziam todas as suas funções sem serem jamais perturbados, pois não se abria nunca a porta principal da casa, devido ser este um lugar de solidão que não somente não era freqüentado, como também não era conhecido pela maior parte dos vizinhos; e esta regra era observada desde o estabelecimento do mosteiro, o que me faz crer que foi por esta razão que Deus enviou Zózimo para lá.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quero reportar aqui a ordem que observavam estes Solitários. No primeiro domingo de quaresma celebravam-se os divinos mistérios segundo o costume, e cada um recebia o corpo e sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dá a vida aos homens. Em seguida, depois de terem comido um pouco como de hábito, eles se reuniam no Oratório, onde, tendo feito a oração de joelhos, davam-se uns aos outros o santo beijo, e ajoelhando-se, beijavam seu abade e pediam-lhe a bênção, a fim de serem assistidos por suas orações no combate que iriam empreender. Abriam-se em seguida todas as portas do mosteiro, e, cantando todos a uma só voz o Salmo: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é a minha proteção, quem será capaz de me assustar?” eles saíam deixando um ou dois irmãos no mosteiro; não para guardarem o que lá ficava, pois não tinham nada que fosse bom para os ladrões, mas para não deixarem que o Oratório ficasse sem alguém que cantasse os louvores a Deus. Cada um levava consigo o que precisava para viver conforme suas necessidades; uns levavam figos, outros damascos, outros legumes molhados com água, e haviam os que não levavam nada, senão seus corpos e seus hábitos, comendo apenas ervas que crescem no deserto, quando pressionados pela fome. Cada um, era regra para si próprio e era uma lei inviolavelmente observada entre eles, não revelarem em que abstinência haviam vivido durante aquele tempo. Para isso passavam o Jordão e afastavam-se bastante uns dos outros; tinham a solidão por companhia. E, se viam ao longe vir em sua direção um irmão, desviavam-se de seu caminho e iam para outro lado, vivendo somente para Deus e sozinhos, cantando frequentemente os Salmos, e não comendo, senão em determinados momentos. Após haverem jejuado, voltavam ao mosteiro antes do dia da Gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo nosso Salvador, que é a vida de nossas almas, e, no domingo em que a Santa Igreja celebra com ramos, eles estavam todos de volta. Cada um trazia de volta consigo o testemunho de sua própria consciência, sobre como havia trabalhado durante o retiro, e as sementes que havia lançado em sua alma, de maneira a torná-la forte e generosa para empreender novos trabalhos para o serviço de Deus; e não se perguntavam jamais uns aos outros, como já vos disse, como tinham vivido durante esse tempo de separação e de solidão.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eis a regra daquela casa, observada perfeitamente, e a maneira pela qual cada um daqueles Solitários unia-se a Deus no deserto e combatia contra si mesmo, de maneira a tornar-se agradável a Deus somente, e não aos homens, sabendo que todas as coisas feitas por amor aos homens e com o desejo de agradá-los, mais prejudicam do que servem, àqueles que as executam.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo 3&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Segundo o costume deste mosteiro, Zózimo passa o Jordão, levando somente seu hábito e alguma coisa para viver. Assim, ele observava a regra e atravessando aquela solidão, não comia senão quando a necessidade a isso o obrigava. Deitava-se na terra, onde o surpreendesse a noite, para repousar e dormir um pouco; e tão logo as primeiras luzes do dia apareciam, apressava-se a caminhar tendo continuamente no espírito; como contou mais tarde; o desejo de entrar mais adiante neste Deserto, com a esperança de aí encontrar algum bom pai, de quem pudesse aprender alguma coisa; e, sem cessar avançava ao acaso, como se estivesse em direção à alguém que lhe fosse conhecido. Depois de ter caminhado durante vinte dias, tendo chegada a hora das Sextas, parou um pouco, e voltando-se para o Oriente fez sua prece normal, pois havia se acostumado a parar em certas horas do dia e a cantar os Salmos de pé e a fazer ajoelhado as orações.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quando então cantava os Salmos, e com olhar fixo mantinha os olhos elevados para o Céu, viu em sua mão direita algo como a sombra de um corpo humano, o que o encheu primeiramente de espanto e medo, por crer tratar-se de uma ilusão do diabo; mas tendo-se armado com o Sinal da Cruz e tendo perdido toda a apreensão e chegado ao fim das orações, viu, ao voltar os olhos, alguém que de fato andava na direção do Ocidente. Ora, aquilo que via era uma mulher, cujo corpo o ardor do sol havia tornado extremamente negro e cujos cabelos eram brancos como a lã, mas tão curtos que iam somente até o pescoço.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Vendo isto, que acabo de relatar, e regozijando-se na esperança de receber o consolo que esperava, Zózimo correu com todas as suas forças ao lugar, onde aquilo que lhe aparecia apressava-se em ir, pois sua alegria era muito grande; porque durante todo o tempo que havia caminhado no deserto, não havia visto nenhuma forma nem de homem, nem de bestas selvagens, nem de pássaros, nem de quaisquer animais, o que aumentava seu desejo de saber o que é que lhe aparecia; esperando tirar grande lucro disso. Ela porém, vendo Zózimo seguí-la, fugiu em direção ao fundo do deserto. Esquecendo a fraqueza de sua idade e não considerando o trabalho que lhe daria o caminho, ele correu em grande velocidade, pelo desejo que tinha de ver mais perto, aquilo que fugia dele; e assim correndo mais veloz que ela, aproximava-se cada vez mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Quando ele estava a uma distância que ela poderia ouvir a sua voz, ele gritou-lhe chorando: “Serva de Deus, porque fugis deste pecador e pobre velho? Quem quer que sejais, conjuro-vos pelo Deus, pelo amor de quem passais vossa vida nesta horrível solidão, a suportar-me; conjuro-vos pela esperança que tendes de ser um dia recompensada de tantos trabalhos. Parai e não recuseis a nossa bênção e nossas orações, àquele que vô-las pede em nome de Deus, que jamais rejeitou ninguém .” Zózimo misturando assim suas conjurações às suas lágrimas, chegaram ambos correndo a certo lugar, onde as águas de uma torrente haviam cruzado, e então aquilo que fugia, desceu e subiu em seguida de outro lado. Zózimo continuava gritando e não podendo passar além, permaneceu aquém da torrente que estava seca, e redobrou de tal maneira seus lamentos e suspiros que se podia escutá-los ainda muito longe.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo 4&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Então aquela pessoa que fugia disse-lhe: “Abade Zózimo, peço-vos em nome de Deus perdoar-me, por não me voltar para falar convosco, pois sou uma mulher e como podeis ver estou nua; mas, se desejais assistir com vossas orações uma pobre pecadora, lançai-me vossa capa para que eu me cubra e possa assim voltar-me para vós e receber a vossa bênção.” Zózimo ficou tomado de um maravilhoso espanto misturado com temor e sentindo-se transportado para fora de si mesmo ao ouvir estas palavras, pois, sendo um homem excelente e que a graça de Deus havia dotado de muita prudência, julgou que aquela mulher não o tendo jamais visto ou ouvido falar dele, não o tivesse chamado por seu nome, sem uma graça particular de Deus. Executou prontamente o que ela havia ordenado, e após haver desabotoado sua capa lançou-a, virando-se de costas. Tendo-a recebido, ela cobriu-se a maior parte do corpo, e assim envolvida voltou-se para Zózimo e lhe disse: “Meu pai, que desígnio trouxe-vos a ver uma pecadora, e o que desejais saber e aprender de mim, para não temer tanto trabalho, quanto tivestes que sofrer para vir até aqui?”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Prostando-se por terra Zózimo pediu-lhe a bênção, como é costume fazer, e ela, prostrando-se por sua vez, pediu-lhe a sua também.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Permaneceram muito tempo assim e por fim ela lhe disse: “Meu pai, cabe a vós dar-me a benção e fazer a oração, visto que sois honrado pelo Presbiterado, e que há tantos anos servindo ao Santo Altar, penetrais pela graça e pela luz que Deus vos dá, nos segredos e mistérios de Jesus Cristo.” Estas palavras aumentaram o temor e a emoção de Zózimo e via-se tremer esse santo ancião e correr o suor em grandes gotas pelo seu rosto. Assim, não tendo mais forças e como se estivesse prestes a dar o último suspiro, ele lhe disse: “Ó mãe espiritual, te conheço o bastante pelo pouco que vi, pois estais toda com Deus e que quase não vives mais na terra; e posso crer que Ele vos concedeu dons muito extraordinários; pois, sem terdes jamais me visto, chamastes-me pelo meu nome; mas visto que na dignidade das funções onde se é chamado, não acontece que tenhamos uma graça igual ao cargo que temos de exercer, e que esta graça se conhece principalmente pelos efeitos maravilhosos que produz nas almas, abençoai-me pelo amor de Deus, e assisti-me com vossas orações, a fim de tornar-me um digno de imitar a vossa virtude.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Então, compadecendo-se da teimosia do santo ancião, ela diz: “Bendito seja o Senhor que opera a salvação das almas.” Ao que Zózimo respondeu: “Assim seja” e levantaram-se os dois e ela disse-lhe: “Quem, então, vos trouxe até uma pecadora como eu? De todo o modo, já que o Espírito Santo vos conduziu até aqui por Sua graça, a fim de prestar-me alguma assistência à minha fraqueza, dizei-me, suplico-vos, de que maneira se conduzem os cristãos hoje; de que maneira agem os imperadores; e de que maneira o rebanho de Jesus Cristo é agora governado na Santa Igreja?” Zózimo respondeu: “Minha mãe, Deus concedeu às vossas santas orações uma paz, concedida aos fiéis. E não recuseis, suplico-vos em Seu nome, a um bastante indigno Solitário; o consolo que vos peço pelo amor dc Jesus Cristo por todo mundo, e particularmente para este pobre pecador, a fim de que, não tenha feito inutilmente um tão longo e laborioso caminho através desta vasta solidão.” Ela repondeu-lhe: “Meu pai, já vos disse que cabe a vós honrado com o Sacerdócio, orar a todo mundo e por mim também, visto ser uma das funções, às quais a vossa vocação vos obriga; visto que a obediência é uma das coisas que nos são mais recomendadas, farei de bom grado aquilo que me ordenares.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Concluindo estas palavras, ela se voltou para o oriente e elevando os olhos ao céu e estendendo as mãos, começou a rezar, mexendo somente os lábios e sem que se pudesse ouvir sequer uma de suas palavras. Como mais tarde relatou, Zózimo ficou bastante espantado e, sem dizer nada, baixou o olhar contra a terra, depois vendo que ela continuava longamente em oração, levantou os olhos e viu que ela elevava-se um côvado da terra e que orava assim suspensa no ar; aquilo que tinha Deus por testemunho era muito verdadeiro. Então sentiu-se repleto de uma tão extrema apreensão, empapado de suor jogou-se no chão, sem ousar partir e dizia somente consigo: “Senhor, tem piedade de mim.”&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;b&gt;Capítulo 5&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Como ele estava neste estado, veio-lhe uma tentação, de que talvez fosse algum espírito maligno fingindo rezar. Então, a mulher voltando-se para ele e reanimando-o, disse-lhe: “Porque, meu pai, vossos pensamentos vos levam a escandalizar-vos a propósito de mim, fazendo-vos crer que não sou senão um espírito e
