Compare Produtos, Lojas e Preços

segunda-feira, 22 de junho de 2009

São Patrício (386-461).


São Patricio

São Patrício (386 — 17 de Março de 461) foi um missionário cristão e santo padroeiro da Irlanda, juntamente com Santa Brígida de Kildare e São Columba.

Nascido na costa oeste da Grã-Bretanha, a pequena localidade galesa de Banwen é frequentemente referida como seu lugar de nascimento, embora haja muitas hipóteses sobre este facto. Quando tinha dezesseis anos foi capturado e vendido como escravo para a Irlanda, de onde escapou e retornou à casa de sua família seis anos mais tarde. Iniciou então sua vida religiosa e retornou para a ilha de onde tinha fugido para pregar o Evangelho. Converteu centenas de pessoas, muitas delas se tornaram monges. Para explicar como a Santíssima Trindade era três e um ao mesmo tempo utilizava o trevo de três folhas e por isso o mesmo tem papel importante na cultura Irlandesa. Foi incentivador do sacramento da confissão particular, tal como conhecemos hoje, visto que antes o mesmo era realizado de forma comunitária. Um século mais tarde essa prática se propagou para o restante da Europa.

Muito reverenciado nos Estados Unidos devido ao grande número de imigrantes irlandeses. Em Manhattan, Nova Iorque, há uma catedral com o seu nome, sede da arquidiocese da metrópole. No dia 17 de março há diversas comemorações na Irlanda e nos Estados Unidos, conhecidas como paradas de São Patrício, onde ocorrem festejos e desfiles em memória do santo, sendo essa a principal forma de afirmação do orgulho dos imigrantes e descendentes de irlandeses na América.

Wikipédia
_________________________________________________


Os Livros das Cartas do Bispo São Patrício


Dominique Vieira Coelho dos Santos

Mestrando em História, UFG
SroDomeniko@yahoo.com.br


INTRODUÇÃO

O que vos apresento aqui é a tradução para o nosso idioma das cartas de São Patrício.
Trata-se da confissão e da carta aos soldados de Coroticus, os únicos documentos escritos que
possuimos do século V irlandês. A primeira é uma autobiografia que Patrício escreveu já na
parte final de sua vida, por volta do ano 450 de nossa era, na qual narra-nos sua origem e
como foi seqüestrado por piratas, para depois voltar como missionário para a Irlanda. Ele
ainda fala dos problemas que enfrentou em suas diversas viagens, seus desafios, e revela um
pouco de sua personalidade. Quanto à segunda, Patrício escreveu com intenção de que
alcançasse Coroticus, um chefe de soldados que teria detido alguns de seus discípulos e que
perseguia os Cristãos irlandeses matando, aprisionando e entregando-os aos pictos, povo não-
cristão que habitava a região onde hoje é a Escócia.
Patrício nasceu na Bretanha, no fim do quarto século, mais ou menos por volta de 390.
Era de família nobre, seu avô era um presbítero e seu pai diácono. Ele chegou à Irlanda, pela
primeira vez, com apenas dezesseis anos, quando foi preso por piratas e vendido como
escravo a Milliuc. Viveu na Irlanda durante seis anos, sendo um escravo pastor de ovelhas.
Ele fugiu, mas voltou a ser preso novamente, ficando nas mãos de seus captores por dois
meses. Foi porqueiro de um rei durante esse período e daí advém seu sobrenome, Succet, que
significa “porqueiro” (Mac Neill 1964: 49 apud Le Roux & Guyonvarc`h 1995: 174). Só
depois, então, estaria novamente na Bretanha com sua gente. Após isso, por livre e espontânea
vontade, voltou para Irlanda em 432 com propósitos evangelizadores.
Patrício era extremamente humilde, pelo que podemos perceber em suas cartas, talvez
devido ao trauma da escravidão. Patrício Atribui toda a sua conquista a Deus (Hanson apud
O’Mathúna 1992:10). Estudos apresentam que Patrício não aprendeu latim no continente e
sim na própria ilha, pois o seu latim apresentava várias falhas que fazia diferir do latim
estudado no continente (Hanson apud O’Mathúna 1992: 6). Também sabemos que o livro que
seguia era a Bíblia e durante toda a sua argumentação nos seus escritos faz inúmeras citações
dela. Quando teve sua autoridade questionada, ele recorreu às escrituras e jamais mencionou
qualquer ligação sua com a igreja em Roma ou em outras partes, com a tradição eclesiástica
ou concílio. Há muitas referências a Patrício nos anais irlandeses, dizendo que morreu em
493, mas a data parece ter sido criada pelos hagiógrafos medievais. Assim ele morreria com
120 anos, a mesma idade de Moisés (O’Mathúna 1992: 4). Patrício morreu por volta do ano
493. No século VIII a Igreja Católica fez do pregador Patrício um santo. O seu corpo só foi
encontrado no século XII, especificamente no dia 24 de março de 1185 (Franco Júnior 2003:
24).
Patrício é invocado ainda hoje por vários grupos que pretendem legitimar suas
identidades fazendo uso de seu nome. Existem vários livros que tratam de Patrício, desde
livros acadêmicos, artigos, teses de doutorado, até revistinhas de catequese. O estudo da vida
e da obra de São Patrício tornou-se uma disciplina chamada Patriciologia. Na Irlanda, ele é
estudado nas igrejas, na escola, na faculdade, etc. Ele é representado no teatro, na televisão,
no folclore, nos contos, nos mitos. Há uma parada anual em homenagem a ele: Saint Patrick’s
Day, e existem várias imagens retratando-o em diferentes situações, bem como músicas e
filmes sobre sua vida.
Os historiadores do cristianismo costumam reservar pelo menos um capítulo de seus
livros para falar das ilhas britânicas e à Irlanda. Geralmente esses capítulos são nomeados
como: “O cristianismo do norte”; “A Irlanda celta”; “A evangelização dos povos do Norte”;
“A cristianização dos bárbaros”, etc. Alguns exemplos desses livros são: (Brown 1999; Cahil
1995; Le Goff 1995; Hillgarth 2004.). Ao fazer referência ao cristianismo na Irlanda,
mencionam Patrício. Uns o tratam como o introdutor da nova religião irlandesa; outros o
mencionam apenas como um dos evangelizadores que já foram para Irlanda, mas todos
concordam com a imensa importância que teve. As cartas de Patrício são os únicos textos em
latim que nos restaram da época do Império Romano que foram escritas fora da fronteira do
império em um lugar considerado como uma terra de bárbaros.
Patrício não era irlandês. Ele era bretão. A diferença entre um bretão e um irlandês nos
tempos de Patrício não pode ser deixada de lado, um bretão era um romano e um irlandês não
era. Aos olhos de um Bretão romanizado, um irlandês era um bárbaro. Mas Patrício, após ter
vivido na Irlanda não via mais a dinstinção entre Bretão e Irlandês, mas entre cristão e não-
cristão. O fato de Patrício apresentar estes pensamentos e continuar a viver na Irlanda era
inadmissível pelos seus críticos e então Patrício escreveu sua confissão para se defender deles
e da acusação de que ele teria ido para Irlanda ganhar dinheiro. A palavra confissão não era
usada como no sentido moderno. Ela significava uma defesa, uma justificação da vida. Ou
seja, ele não pensava nas gerações futuras quando escreveu suas cartas, pensava em resolver
os problemas com os quais tinha que dialogar.
Depois que todas as pessoas que conheceram Patrício pessoalmente tinham morrido,
nada se falava dele. Enquanto estava vivo ele nunca viu sua importância reconhecida e mesmo
depois de morto, após longos anos, ninguém se importava com seu nome. Não existe uma
biografia de São Patrício por um espaço de cem anos após sua morte. Ninguém o descreveu
como um organizador do cristianismo irlandês, pregador ou alguém que faz milagres. Pode
ser que seus escritos tenham sido preservados por acidente e foi somente quando estes vieram
à tona que os homens começaram a falar de Patrício (Thompson 1985: 158-159).
Em direção ao fim de sua vida, Patrício descreveu um país quase totalmente pagão,
pois não há evidências de que tenha havido não mais que uma esporádica penetração do
cristianismo na Irlanda antes dele. Não existia no início do quinto século a idéia de um bispo
missionário católico. Nenhuma outra pessoa antes de Patrício tinha planejado atravessar os
limites do Império Romano e ir até terras consideradas bárbaras com o objetivo de levar o
cristianismo até os povos que nelas viviam. Se o nome de Patrício é lembrado até hoje é
graças as suas obras. Ele seria inexistente e seu nome não seria conhecido sem elas. A maior
contribuição de Patrício então não foi converter milhares de irlandeses, mas a composição da
epístola e da confissão (Thompson 1985: 156).
A obra de Patrício também pode ter importância aos que estudam a escravidão entre os
Celtas (caso se concorde com a hipótese de que os habitantes da Irlanda pré-cristã eram
Celtas). Não é freqüente encontrarmos no mundo antigo, um ex-escravo falando de sua
escravidão. Ainda mais em terras célticas. Patrício foi um dos poucos escritores do mundo
antigo que nos restaram que teve um conhecimento direto da escravidão, tanto sendo dono de
escravos, quanto ele mesmo sendo um. Em sua obra, Patrício faz menção à escravidão,
apresenta algumas informações importantes e em momento algum lhe ocorre a idéia de que
esta estrutura social poderia mudar ou que a escravidão devesse ser abolida, ao contrário, ele a
aceita. Os que quiserem poderão observar isso lendo suas duas cartas.
Uma tarefa difícil é falar do contexto social em que Patrício viveu. Seu contexto tanto
na Bretanha como na Irlanda está irremediavelmente perdido. Não há como vê-lo em seu
contexto irlandês porque pouco se sabe sobre a Irlanda do século V. Não sabemos como sua
vida e suas atividades afetaram outros grupos. Segundo Thompson, Patrício existe em um
Vacuum quando a questão é a Irlanda. Ele está dificilmente menos isolado quando tentamos
vê-lo em seu contexto bretão. Nós não temos outros bretões para nos dar uma luz sobre o
assunto em questão. No que diz respeito aos seus próprios escritos, ele também nada diz sobre
Diocleciano, sobre o caos britânico do século V e as invasões saxônicas, nada sobre o saque
dos visigodos a Roma em 410, nada sobre Pelágio e outros fatos históricos que consideramos
importantes e que datam de sua época.
No mais, ainda gostaria de dizer que a necessidade deste trabalho se justifica pela
dificuldade que existe de se encontrar fontes relacionadas aos estudos da Irlanda antiga e
medieval e aos estudos dos povos Celtas em nosso idioma, o português. Essa tradução que
vos apresento foi feita por mim, a partir dos textos originais “Confessio” e “Epistola ad
milites Corotici”, que encontrei na edição bilínguie latim-francês, publicada pelo teólogo
Richard P. C. Hanson em Paris, no ano de 1978. Como auxílio também consultei o original
destes textos na Internet (http://celt.ucc.ie/index.html), publicados pelo projeto do
departamento de história da University College Cork: Celt- Corpus of eletronic Texts e duas
traduções do latim para o inglês. A primeira, publicada pela Christian Classics Ethereal
Library e disponibilizada (por ser considerada domínio público) no endereço:
http://www.ccel.org/ccel/patrick/confession.html e uma segunda tradução de John Skinner.
Para a Carta a Coroticus também consultei uma versão digitalizada de Ludwig Bieler e
disponível no seguinte endereço: http://www.iol.ie/~santing/patrick/CoroticusFrame.htm.
Eu priorizei a tradução de idéias e não de palavras, mas sempre que possível, elegi as
palavras mais próximas do texto latino. Outra coisa que irão perceber é que sempre que,
segundo meu juízo, uma idéia necessitou de mais explicações, adicionei uma nota explicativa
a ela no fim do texto. Acredito que dessa forma o texto pode ser melhor compreendido.
Gostaria de dizer que tenho a esperança de que esta tradução das cartas de São Patrício
possa ser de utilidade para toda comunidade acadêmica, principalmente os estudiosos da
história da Igreja, de Idade Média, celtólogos, etc. Que outros pesquisadores se animem a
traduzir outros documentos referentes à história da Irlanda e a história dos povos celtas em
geral para o português.



LIBRI EPISTOLARUM SANCTI PATRICII EPISCOPI.
LIBER PRIMVS: CONFESSIO
OS LIVROS DAS CARTAS DO BISPO SÃO PATRÍCIO.
PRIMEIRO LIVRO: CONFISSÃO

1) Ego Patricius peccator rusticissimus et minimus omnium fidelium et
contemptibilissimus apud plurimos patrem habui Calpornium diaconum filium quendam
Potiti presbyteri, qui fui uico † bannauem taberniae †: uillulam enim prope habuit, ubi ego
capturam dedi. Annorum eram tunc fere sedecim. Deum enim uerum ignorabam et Hiberione
in captiuitate adductus sum cum tot milia hominum| - secundum merita nostra, quia a Deo
recessimus et praecepta eius non custodiuimus et sacerdotibus nostris non oboedientes
fuimus, qui nostram salutem admonebant: et Dominus induxit super nos iram animationis
suae et dispersit nos in gentibus multis etiam usque ad ultimum terrae, ubi nunc paruitas mea
esse uidetur inter alienigenas.
1) Eu, Patrício, um pecador, o mais rústico e o menor entre todos os fiéis,
profundamente desprezível para muitos, tive por pai o diácono Calpurnius, filho do falecido
Potitus, um presbítero que foi morador de um vilarejo chamado Bannavem Taberniae
I
; Ele
tinha uma pequena casa de campo bem próxima, onde eu fui capturado. Naquela época eu
tinha cerca de dezesseis anos de idade. Eu ignorava o verdadeiro Deus e junto com milhares
de pessoas fui capturado e conduzido ao cativeiro na Irlanda segundo o nosso merecimento,
por afastarmos-nos bastante de Deus, não guardamos os seus preceitos, nem sermos
obedientes aos nossos sacerdotes, que nos exortavam a respeito da nossa salvação. E o Senhor
lançou sobre nós a violência de sua cólera e nos dispersou entre vários povos
II
até os confins
da terra, onde agora na minha pequenez, me encontro entre estrangeiros.
2) Et ibi Dominus aperuit sensum cordis mei incredulitatis, ut uel sero
rememorarem delicta mea et ut conuerterem toto corde ad Dominum Deum meum, qui
respexit humilitatem meam et misertus est | adolescentiae et ignorantiae meae et custodiuit me
antequam scirem eum et antequam saperem uel distinguerem inter bonum et malum et
muniuit me et consolatus est me ut pater filium.
2) E lá o Senhor abriu o entendimento do meu coração de incredulidade
III
, afim
de que, mesmo muito tarde, me recordasse dos meus pecados e me convertesse de todo
coração ao Senhor meu Deus, que considerou a minha insignificância e teve misericórdia da
minha mocidade e ignorância. Ele me protegeu antes que eu o conhecesse e antes que eu
soubesse distinguir entre o bem e o mal e me fortificou e consolou como um pai faz ao filho.
3) Vnde autem tacere non possum, neque expedit quidem, tanta beneficia et
tantam gratiam quam mihi Dominus praestare dignatus est in terra captiuitatis meae; quia haec
est retributio nostra, ut post correptionem uel agnitionem Dei exaltare et confiteri mirabilia
eius coram omni natione quae est sub omni caelo.
3) Por esta razão não posso me calar, nem seria isto apropriado, diante de tantas
dádivas e graças que o Senhor dignou-se a me conceder na terra do meu cativeiro; porquanto
esta é nossa maneira de retribuir, afim de que depois da correção de Deus e de reconhecê-lo,
exaltar e confessar suas maravilhas diante de todas as nações que estão debaixo do céu.
4) Quia non est alius Deus nec umquam fuit nec ante nec erit post haec praeter.
Deum Patrem ingenitum, sine principio, a quo est omne principium, omnia tenentem, ut
dicimus; et huius filium| Iesum Christum, quem cum Patre scilicet semper fuisse testamur,
ante originem saeculi spiritaliter apud Patrem inenarrabiliter genitum ante omne principium,
et per ipsum facta sum uisibilia et inuisibilia, hominem factum, morte deuicta in caelis ad
Patrem receptum, et dedit illi omnem potestatem super omne nomen caelestium et terrestrium
et infernorum et omnis lingua confiteatur ei quia Dominus et Deus est Iesus Christus, quem
credimus et expectamus aduentum ipsius mox futurum, iudex uiuorum atque mortuorum, qui
reddet unicuique secundum facta sua; et effudit in uobis| habunde Spiritum Sanctum, donum
et pignus immortalitatis, qui facit credentes et oboedientes ut sint filii Dei et coheredes
Christi: quem confitemur et adoramus unum Deum in trinitate sacri nominis.
4) Porque não há outro Deus, nunca houve antes, nem haverá no futuro, além de
Deus pai não gerado, sem princípio, do qual procede todo o princípio, quem tudo possui, bem
como tem nos sido dito; e seu filho Jesus Cristo, que assim como o pai evidentemente sempre
existiu, antes do começo dos tempos em espírito com o pai, inefável
IV, criado antes da origem
do mundo, e por ele mesmo foram criadas todas as coisas visíveis e invisíveis. Ele foi feito
homem, venceu a morte e foi recebido no céu junto do pai, e foi-lhe dado todo poder absoluto
sobre todo nome no céu, na terra e no inferno para que assim toda língua confesse que Jesus
Cristo é Senhor e Deus, em quem nós cremos e esperamos o advento de sua iminente volta,
como juiz dos vivos e dos mortos. Este que dará para cada um segundo os seus feitos, e
derramou em nós abundantemente o seu Espírito Santo, o dom e a garantia da imortalidade,
que tornou os crentes e obedientes em filhos de Deus e co-herdeiros de Cristo: àquele que
confessamos e adoramos, O único Deus na trindade do seu santo nome.
5) Ipse enim dixit per prophetam: Inuoca me in die tribulationis tuae et liberabo te
et magnificabis me. Et iterum inquit: Opera autem Dei reuelare et confiteri honorificum est.
5) Pois ele mesmo disse por intermédio do profeta: “Invoque-me no dia das suas
tribulações e eu te libertarei e tu me glorificarás”
V e novamente disse: “É honroso revelar e
confessar as obras de Deus”.
6) Tamen etsi in multis imperfectus sum opto fratibus et cognatis meis scire
qualitatem meam, ut possint perspicere uotum animae meae.
6) Apesar de imperfeito em muitas coisas, desejo que meus irmãos e parentes
conheçam a minha natureza, para que possam perceber os desejos de minha alma.
7) Non ignoro testimonium Domini mei, qui in psalmo testatur: Perdes eos qui
loquuntur mendacium. Et iterum inquit: Os quod mentitur occidit animam. Et idem Dominus
in euangelio inquit: | Verbum otiosum quod locuti fuerint homines reddent pro eo rationem in
die iudicii.
7) Eu não ignoro o testemunho do meu Senhor, que no Salmo diz: “Tu destróis os
que proferem mentira”
VI
; e novamente disse: A boca mentirosa traz a morte para a alma
VII
. E
igualmente o Senhor disse no evangelho: No dia do Juízo os homens prestarão contas de cada
palavra vã que disseram.
8) Vnde autem uehementer debueram cum timore et tremore metuere hanc
sententiam in die illa ubi nemo se poterit subtrahere uel abscondere, sed omnes omnino
reddituri sumus rationem etiam minimorum peccatorum ante tribunal Domini Christi.
8) Deste modo é que vigorosamente devera eu recear, com temor e tremor, a
sentença daquele dia em que ninguém poderá escapar e nem se esconder, mas todos, sem
exceção alguma, prestarão contas até dos menores pecados diante o tribunal do Senhor Cristo.
9) Quapropter olim cogitaui scribere, sede et usque nunc haesitaui; timui enim ne
incederem in linguam hominum, quia non legi sicut et ceteri, qui optime itaque iura et sacras
litteras utraque pari modo combiberunt et sermones illorum ex infantia nunquam mutarunt,
sed magis ad perfectum semper addiderunt. Nam sermo et loquela nostra translata est in
linguam alienam, sicut facile potest probari ex saliua scripturae meae qualiter sum ego in
sermonibus | instructus atque eruditus, quia, inquit, sapiens per linguam dinoscetur et sensus
et scientia et doctrina ueritatis.
9) Por esta razão tenho pensado em escrever, mas até agora tenho hesitado; na
verdade temi me expor na língua dos homens, porque não me instrui da mesma maneira que
os outros, que têm assimilado bem tanto a lei como as Sagradas Escrituras e nunca mudaram o
idioma desde a infância, mas ao contrário, sempre o tem aperfeiçoado. Enquanto a nossa
linguagem e idioma foram traduzidos para uma língua estrangeira, assim facilmente se pode
provar a partir de uma amostra dos meus escritos a minha qualidade em retórica, a minha
instrução e também erudição, porque, está escrito: “A sabedoria será reconhecida pelo modo
de falar, no entendimento, e no conhecimento da doutrina da verdade”.
10) Sed quid prodest excusatio iuxta ueritatem, praesertim cum praesumptione,
quatenus modo ipse adpeto in senectute mea quod in iuuenture non comparaui? Quod
obstiterunt peccata mea ut confirmarem quod ante perlegeram. Sed quis me credit etsi dixero
quod ante praefatus sum? Adolescens, immo paene puer inuerbis, capturam dedi, antequam
scirem quid adpeterem uel quid uitare debueram. Vnde ergo hodie erubesco et uehementer
pertimeo denudare imperitiam meam, quia desertis breuitate sermone explicare nequeo, sicut
enim spiritus gestit et animus, et sensus monstrat adfectus.
10) Mas porque me desculpar perto da verdade, especialmente com presunção, de
modo que somente agora me aproximando da minha velhice posso obter o que não consegui
na minha juventude? Porque meus pecados impediram-me de confirmar o que anteriormente
tinha lido superficialmente. Mas quem acreditará em mim ainda que repita o que disse antes?
Um jovenzinho, talvez longe disso, quase um garoto imberbe
VIII
, capturado antes que
soubesse o que deveria buscar ou evitar. Então, consequentemente, hoje me envergonho e
ardentemente temo expor minha ignorância, porque eu não sou eloqüente
IX, assim
verdadeiramente, não consigo expressar como o espírito está ávido por fazer e tanto a alma
quanto o entendimento se mostram dispostos.
11) Sed si itaque datum mihi fuisset sicut et ceteres, uerumtamen non silerem
propter retribuitionem, et si forte uidetur apud | aliquantos me in hoc praeponere cum mea
inscientia et tardiori lingua, sed etiam scriptum est enim: linguae balbutientes uelociter discent
loqui pacem. Quanto magis nos adpetere debemus, qui sumus, inquit, epistola Christi in
salutem usque ad ultimum terrae, et si non deserta, sed † ratum et fortissimum † scripta in
cordibus uestris non atramento sed spiritu Dei uiui. Et iterum Spiritus testatur et rusticationem
ab Altissimo creatam.
11) Mas se esta graça fosse me dada como foi aos outros, em gratidão eu
verdadeiramente não me calaria, e se por acaso me expus aos outros e me coloquei perante
eles com minha ignorância e meu modo lento de falar, verdadeiramente está escrito: “As
línguas balbuciantes com velocidade aprendam a falar da paz”. Quanto mais devemos atingi-
lo, nós que somos como é dito: Uma carta de Cristo em saudação até os confins da terra... [Et
si non deserta, sed † ratum et fortissimum†]...
X Escrito em vossos corações não com tinta,
mas com o Espírito Santo do Deus vivo. E outra vez mais: O Espírito testifica que até mesmo
a vida dos rústicos (rusticidade) é criada pelo Altíssimo.
12) Vnde ego primus rusticus profuga indoctus scilicet, qui nescio in posterum
prouidere, sed illud scio certissime quia utique priusquam humiliarer ego eram uelut lapis qui
iacet in luto profundo: et uenit qui potens est et in sua misericordia sustulit me et quidem |
scilicet sursum adleuauit et collocauit me in summo pariete; et inde fortiter debueram
exclamare ad retribuendum quoque aliquid Domino pro tantis beneficiis eius hic et in
aeternum, quae mens hominum aestimare non potest.
12) Por isso eu, o maior dos camponeses
XI
, fugitivo, evidentemente ignorante,
alguém que não é capaz de prever o futuro, mas sabe com certeza que, em todo o caso, antes
de ter sido humilhado, eu era como uma pedra que jazia no lodo profundo. E aquele que tem
todo o poder veio a mim e em sua misericórdia me levantou bem alto, colocou-me no topo do
muro; e de lá corajosamente devo exclamar em gratidão ao Senhor por tantos benefícios agora
e por todo o sempre, benefícios tão grandes que a mente humana não pode estimar.
13) Vnde autem ammiramini itaque magni et pusilli qui timetis Deum et uos
domini cati rethorici audite ergo et scrutamini. Quis me stultum excitauit de medio eorum qui
uidentur esse sapientes et legis periti et potentes in sermone et in omni re, et me quidem,
detestabilis huius mundi, prae ceteris inspirauit si talis essem - dummodo autem - ut cum metu
et reuerentia et sine querella fideliter prodessem genti ad quam caritas Christi transtulit et
donauit me in uita mea, si dignus fuero, denique ut cum humilitate et ueraciter deseruirem
illis.
13) Dessa maneira, espantem-se grandes e pequenos que temem a Deus e vós,
senhores, oradores eloqüentes
XII
, ouvi, pois e examinai cuidadosamente. Quem me chamou,
eu, um estúpido, do meio daqueles que são vistos como sábios e peritos na lei, poderosos na
palavra e em todas as coisas? Eu, verdadeiramente miserável neste mundo, sendo inspirado
mais que os outros- contanto que- com temor e reverência e sem querela, fielmente pudesse
me mostrar ao povo para quem o amor de Cristo me trouxe e deu-me em minha vida, se eu
fosse digno, para servi-los verdadeiramente com humildade e sinceridade.
14) In mensura itaque fidei Trinitatis oportet distinguere, sine reprehensione
periculi notum facere donum Dei et consolationem aeternam, sine timore fiducialiter Dei
nomem ubique expandere, ut etiam post| obitum meum exagaellias relinquere fratibus et filiis
meis quos in Domino ego baptizaui tot milia hominum.
14) Assim, pois, na medida da minha fé na trindade, me convém reconhecer e sem
noção do perigo, proclamar o dom de Deus e a sua consolação eterna, confiantemente e sem
temor difunndir o nome de Deus por toda parte, afim de que mesmo depois da minha morte,
eu deixe uma herança
XIII
para os meus irmãos e filhos e a tantos milhares de homens que
batizei no Senhor.
15) Et non eram dignus neque talis ut hoc Dominus seruulo suo concederet, post
aerumnas et tantas moles, post captiuitatem, post annos multos in gentem illam tanta gratiam
mihi donaret; quod ego aliquando in iuuentute mea nunquam speraui neque cogitaui.
15) E eu não era digno, nem de tal natureza que o senhor concedesse ao seu
pequeno servo, após provações e tantas penas, depois do cativeiro e após muitos anos, tantas
graças me desse naquele povo; uma coisa que no tempo da minha juventude eu jamais
esperei, nem mesmo imaginei.
16) Sed postquam Hiberione deueneram - cotidie itaque pecora pascebam et
frequens in die orabam - magis ac magis accedebat amor Dei et timor ipsius et fides augebatur
et spiritus agebatur, ut in die una usque ad centum orationes et in nocte prope similiter, ut
etiam in siluis et monte manebam, et ante lucem excitabar ad orationem per niuem per gelu
per pluuiam, et nihil mali sentiebam neque ulla pigritia erat in me - sicut modo uideo, quia
tunc spiritus in me feruebat.
16) Mas, depois que alcancei a Irlanda e que eu passei a apascentar o rebanho
cotidianamente e orava várias vezes ao dia, mais e mais o amor de Deus e o meu temor e fé
por ele cresceram e o meu espírito tocado de tal maneira, que em dia cheguei a contar mais de
cem orações e de noite quantidade semelhante, e ainda ficava nas florestas e nas montanhas,
acordava antes da luz do dia para orar na neve, no gelo e na chuva, e nenhum mal eu sentia e
nenhuma preguiça estava em mim, como percebo agora, porque o espírito ardia dentro de
mim.
17) Et ibi scilicet quadam nocte in somno audiui uocem dicentem mihi: <>, et iterum post paululum tempus audiui responsum
dicentem mihi: | <> - et non erat prope, sed forte habebat ducenta
milia passus et ibi numquam fueram nec ibi notum quemquam de hominibus habebam - et
deinde postmodum couersus sum in fugam et intermisi hominem cum quo fueram sex annis et
ueni in uirtute Dei, qui uiam meam ad bonum dirigebat et mihil metuebam donec perueni ad
nauem illam.
17) E lá naturalmente uma noite no meu sono eu ouvi uma voz dizendo para mim:
“Fazes bem em jejuar, pois brevemente partirás para a tua pátria” e novamente muito pouco
tempo depois ouvi uma voz me dizendo: “Eis que teu navio está pronto” e não era em um
lugar perto não, pelo contrário, estava a duzentas milhas de distância onde eu nunca havia
estado e não havia ninguém conhecido. Então pouco tempo depois eu me coloquei em fuga e
abandonei o homem com quem estivera seis anos e avancei na virtude de Deus, que dirigiu
meu caminho para o bem e eu nada temi até que alcancei aquele navio.
18) Et illa die qua perueni profecta est nauis de loco suo, et locutus sum ut haberem
unde nauigare cum illis et gubernator displicuit illi et acriter cum indignatione respondit:
<>, et cum haec audiissem separaui me ab illis ut
uenirem ad tegoriolum ubi hospitabam, et in itinere coepi orare et antequam orationem
consummarem audiui unum ex illis et fortiter exclamabat post me: <>, et statim ad illos reuersus sum, | et coeperunt mihi dicere: <<>>- et in illa die itaque reppuli
sugere mammellas eorum propter timorem Dei, sed uerumtamem ab illis speraui uenire in
fidem Iesu Christi, quia gentes erant - et ob hoc obtinui cum illis et protinus nauigauimus;
18) E naquele mesmo dia o navio estava de partida, e eu disse que tinha condições
de navegar com eles. O capitão se desagradou e rispidamente irado respondeu: “de modo
algum tente ir conosco” tendo ouvido isto me separei deles para uma pequena cabana onde
estava ficando, e no caminho comecei a orar e antes que terminasse a oração escutei um deles
gritando bem alto depois de mim: “venha rapidamente, porque os homens estão te chamando”
e imediatamente voltei pra junto deles, e começaram a me dizer: “venha, porque de boa fé
recebemos-te, faça conosco amizade do modo que desejar” e naquele dia então me recusei a
lhes sugar as mamas
XIV pelo temor de Deus, mas, entretanto esperava que eles viessem a ter
fé em Jesus Cristo, porque eram gentios
XV. Por isso continuei com eles e sem demora nos
colocamos ao mar.
19) Et post triduum terram cepimus et uiginti octo dies per desertum iter fecimus et
cibus defuit illis et fames inualuit super eos, et alio die coepit gubernator mihi dicere: <> Ego enim confidenter dixi illis: <>, et aduuante Deo ita factum est:
ecce grex porcorum in uia ante oculos nostros apparuit, et multos ex illis interfecerunt et ibi
duas noctes manserunt et bene refecti et carnes eorum releuati sunt, quia multi ex illis
defecerunt et secus uiam semiuiui redicti sunt, et post hoc summas gratias egerunt Deo et ego
honorificatus sum sub oculis eorum, et ex hac die cibum habundanter habuerunt; etiam mel
siluestre inuenerunt et mihi partem obtulerunt et unus ex illis dixit: Immolaticium est; Deo
gratias, exinde nihil gustaui.
19) E depois de três dias alcançamos a terra e caminhamos vinte e oito dias através
de uma região desértil até que a comida acabou e a fome nos alcançou. Um dia o capitão
começou a me dizer: “Por que acontece isso Cristão? Tu dizes que teu Deus é grande e
onipotente, porque razão você não pode orar por nós? Pois podemos morrer de fome; é
provável que jamais vejamos outro ser humano”. Eu então lhes disse confiantemente:
convertam-se pela fé de todo o coração ao Senhor Deus meu, pois nada é impossível para ele
e hoje mesmo ele mandará alimento para vós em vosso caminho até que se fartem, pois em
toda a parte ele traz abundância. E com a graça de Deus isto realmente aconteceu: eis que uma
vara de porcos apareceu no caminho diante dos nossos olhos, e muitos dentre os porcos foram
mortos. E neste lugar por duas noites permaneceram e fartaram-se daquelas carnes dos porcos
e foram revigorados da fome, porque muitos deles desfaleciam e de outra forma teriam sido
abandonados semimortos à beira do caminho. Depois disto renderam extremas graças a Deus
e eu fui honrado aos seus olhos, e a partir daquele dia tiveram alimento abundantemente,
descobriram mel silvestre e ofereceram parte a mim e um deles disse: é um sacrifício; Graças
a Deus, deste nada provei.
20) Eadem uero nocte eram dormiens et fortiter temptauit me| Satanas, quod
memor erro quamdiu fuero in hoc corpore, et cecidit super me ueluti saxum ingens et nihil
membrorum meorum praeualens. Sed unde me uenit ignarum in spiritu ut Heliam uocarem?
Et inter haec uidi in caelum solem oriri et dum clamarem>Heliam, Heliam>> uiribus meis,
ecce splendor solis illius decidit super me et statim discussit a me omnem grauitudinem, et
credo quod a Christo Domino meo subuentus sum et spiritus eius iam tunc clamabat pro me et
spero quod sic erit in die pressurae meae, sicut in euangelio inquit: In illa die, Dominus
testatur, non uos estis qui loquimini sed spiritus Patris uestri qui loquitur in uobis.
20) Na mesma noite eu estava dormindo e Satanás violentamente tentou-me, da
forma que eu me lembrarei enquanto neste corpo estiver, ele caiu sobre mim como um
enorme rochedo e nenhum dos meus membros podia se mexer. Mas de onde me veio à idéia,
ignorante espiritual que sou, de clamar por Elias?
XVI
Neste meio tempo vi no céu o sol
surgindo e durante o clamar “Elias, Elias, com toda a minha força” eis que o esplendor
daquele sol caiu sobre mim imediatamente e me sacudiu livrando-me de todo o peso, creio
que fui ajudado por Cristo, meu Senhor, e este espírito agora chamava por mim e espero que
assim seja no dia da minha aflição, como diz no evangelho: Naquele dia, diz o Senhor, não
sois vós que falais, mas o espírito de vosso pai que fala em vós.
21) Et iterum post annos multos adhuc capturam dedi. Ea| nocte prima itaque mansi
cum illis. Responsum autem diuinum audiui dicentem mihi: <> Quod ita factum est: nocte illa sexagesima liberauit me Dominus de manibus eorum.
21) E mais uma vez, anos nais tarde fui feito cativo pela segunda vez. Na primeira
noite, eu permaneci com eles. Ouvi, então, uma voz divina me dizendo: “você permanecerá
dois meses com eles” e assim aconteceu: na sexagésima noite o meu Senhor me libertou das
mãos deles.
22) Etiam in itinere praeuidit nobis cibum et ignem et siccitatem cotidie donec
decimo die peruenimus homines. Sicut superius insinuaui, uiginti et octo dies per desertum
iter fecimus et ea nocte qua peruenimus homines de cibo uero nihil habuimus.
22) Além disso, Mesmo na viagem (Deus) nos proveu de alimento, fogo e tempo
seco todos os dias, até que no décimo dia encontramos gente. Assim como sugeri mais acima,
viajamos vinte e oito dias através de terras desabitadas e de fato na noite que encontramos
gente nada tínhamos de alimento.
23) Et iterum post paucos annos in Brittanniis eram cum parentibus meis, qui me ut
filium susceperunt et ex fide rogauerunt me ut uel modo ego post tantas tribulationes quas ego
pertuli nusquam ab illis discederem, et ibi scilicet uidi in uisu noctis uirum uenientem quasi
de Hiberione, cui nomem Victoricus, cum epistolis innumerabilibus, | et dedit mihi unam ex
his et legi pricipium epistolae continentem <<>>, et cum recitabam
principium epistolae putabam ipso momento audire uocem ipsorum qui erant iuxta siluam
Vocluti quae est prope mare occidentale, et sic exclamauerunt quasi ex unu ore:<<>>, et ualde compunctus sum corde et
amplius non potui legere et sic expertus sum. Deo gratias, quia post plurimos annos praestitit
illis Dominus secundum clamorem ilorum.
23) E depois de uns poucos anos eu estava de novo na Bretanha com meus pais,
que me acolheram como um filho e rogaram-me intensamente que eu, após ter passado por
tantas tribulações que nunca partisse para longe deles; e neste lugar naturalmente vi numa
visão noturna um homem vindo como que da Irlanda, cujo nome era Victoricus
XVII
, com
inumeráveis cartas, e deu para mim uma delas e logo no princípio da carta estava escrito: “A
voz dos irlandeses” e enquanto eu recitava o princípio da carta, pareceu-me naquele momento
ouvir as vozes daqueles que estavam perto da floresta de Vocluti que fica perto do mar
ocidental, e ainda exclamavam como se fosse uma só voz: “Nós te rogamos, santo jovem,
venha e caminhe novamente entre nós” e eu estava tão profundamente tocado no meu coração
que nem pude ler mais e assim despertei. Graças a Deus, porque depois de muitos anos, o
Senhor concedeu-lhes a sua súplica.
24) Et alia nocte-nescio, Deus scit, utrum in me an iuxta me - uerbis peritissime,
quos ego audiui et non potui intellegere, nisi ad postremum orationis sic effitiatus est: <>, et sic expertus sum gaudibundus.
24) E outra noite –não sei, Deus o sabe, se dentro de mim ou próximo a mim-
foram pronunciadas algumas palavras bem próximo, eu as ouvi, mas não pude compreendê-
las, a não ser no final: “Aquele que deu a sua vida por ti, o próprio é que fala dentro de ti.” E
deste modo acordei jubiloso.
25) Et iterum uidi in me ipsum orantem et eram quasi intra corpus meum et audiui
super me, hoc est super interiorem hominem, et ibi fortiter orabat geminibus, et inter haec
stupebam et ammirabam et cogitabam quis esset qui in me orabat, sed ad postremum orationis
sic effitiatus est ut sit Spiritus, et sic expertus sum et recordatus sum apostolo dicente: Spiritus
adiuuat infirmitates orationis nostrae: nam quod oremus sicut oportet nescimus: Sed ipse
Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus, quae uerbis exprimi non possunt; et
iterum: Dominus aduocatus noster postulat pro nobis.
25) E uma outra vez, o vi orando em mim, era como que dentro do meu corpo e o
ouvia acima de mim, isto é, acima do homem interior, e lá orava fortemente com gemidos, e
no meio disto eu estava pasmo e admirado e pensava quem seria esse que orava dentro de
mim, mas após o final da oração foi-me revelado que era o Espírito, e assim fui desperto e
recordei-me das palavras do apóstolo: O Espírito nos auxilia na debilidade de nossas orações,
pois não sabemos orar como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos
inexprimíveis, que não podemos narrar, e mais uma vez: O Senhor, nosso advogado intercede
por nós.
26) Et quando temptatus sum ab aliquantis senioribus meis, qui uenerunt, et
peccata mea, contra laboriosum episcopatum meum, | utique illo die fortiter impulsus sum ut
caderem hic et in aeternum; sed Dominus pepercit proselito et peregrino propter nomem suum
benigne et ualde mihi subuenit in hac conculactione. Quod in labe et in obprobrium non male
deueni! Deum oro ut non illis in peccatum reputetur.
26) E quando fui posto a prova por alguns dos meus senhores, que vieram até mim
e relembraram os meus pecados contra o meu árduo episcopado. Naquele dia especialmente,
fui fortemente abalado e poderia ter caído de uma vez por todas; mas o Senhor me poupou um
convertido e peregrino, pelo amor do seu próprio nome, de forma benévola veio em minha
assistência quando estava sendo esmagado. Eu oro a Deus que não lhes será imputado como
um pecado que eu caísse em desgraça e desonra.
27) Occasionem post annos triginta inuenerunt me aduersus uerbum quod
confessus fueram antequod essem diaconus. Propter anxietatem maesto animo insinuaui
amicissimo meo quae in pueritia mea una die gesseram, immo in una hora, quia necdum
praeualebam. Nescio, Deus scit, si habebam tunc annos quindecim, et Deum uium non
credebam, neque ex infantia mea, sed in morte et in incredulitate mansi donec castigatus sum
et in ueritate humiliatus sum a fame et nuditate, et cotidie.
27) Noutra ocasião, trinta anos depois, eles trouxeram contra mim um fato que eu
tinha confessado antes de ser diácono. Por causa da ansiedade e inquietude da minha alma, eu
contei a um amicíssimo meu o que um dia na minha meninice tinha feito, mais precisamente
em um momento, porque ainda não era resistente. Eu não sei, Deus o sabe, se eu tinha 15
anos, e não acreditava no Deus vivo, nem nunca tinha crido desde a minha infância, mas
permanecia na morte e na incredulidade até que fui castigado e humilhado cotidianamente
pela fome e pela nudez.
28) Contra, Hiberione non sponte pergebam, donec prope deficiebam, sed hoc
potius bene mihi fuit, qui ex hoc emendatus sum a Domino, et aptauit me ut hodie essem quod
aliquando longe a me erat, ut ego curam haberem aut satagerem pro salute aliorum, quando
autem tunc etiam de me ipso non cogitabam.
28) Por outro lado, não fui para a Irlanda espontaneamente, estava a ponto de
desistir, mas isso, no entanto foi para mim um bem, pois por isso fui repreendido pelo Senhor,
e ele preparou-me para que hoje fosse o que eu ainda estava longe de ser, a fim de que eu
tivesse o cuidado ou me preocupasse pela salvação dos outros, quando ao contrário, naquela
época não pensava em nada além de mim mesmo.
29) Igitur in illo die quo reprobatus sum a memoratis supradictis ad noctem illam
uidi in uisu noctis scriptum erat contra faciem meam sine honore, et inter haec audiui
responsum diuinum dicentem mihi: Male uidimus faciem designati, nudato nomine, nec sic
praedixit: Male uidisti, sed: Male uidimus, quasi sibi se iunxisset, sicut dixit: Qui uos tangit
quasi qui tangit pupillam oculi mei.
29) Então naquele dia em que fui reprovado como mencionei acima, eu tive uma
visão à noite de um texto diante de minha face sem honra, e enquanto isso, ouvi uma voz
divina dizendo para mim: com desgosto vimos a face do escolhido, despido de seu nome, e
ele não disse: você viu com desgosto, mas: nós vimos com desgosto. Como se ele mesmo se
juntasse a mim, ele então disse: Aquele que te tocar é como se tocasse a menina dos meus
olhos.
30) Idcirco gratias ago ei qui me in omnibus confortauit, ut non me impediret a
profectione quam statueram et de mea quoque opera quod a Christo Domino meo didiceram,
sed magis ex eo sensi in me uirtutem non paruam et fides mea probata est coram Deo et
hominibus.
30) Por este motivo eu dou graças a ele que em tudo me confortou, para que eu não
fosse impedido do caminho que decidi seguir e também da minha obra que para a qual fui
chamado por Cristo meu Senhor, porém a partir daí eu senti em mim uma virtude não pouca e
a minha fé foi provada na presença de Deus e dos homens.
31) Vnde autem audenter dico non me reprehendit conscientia mea hic et in
futurum: teste Deo habeo quia non sum mentitus in sermonibus quos ego retuli uobis.
31) Por isso então eu digo corajosamente, que minha consciência não me reprova.
Nem agora e nem no futuro: Deus é minha testemunha que não tenho mentido nessas palavras
que eu vos tenho dito.
32) Sed magis doleo pro amicissimo meo cur hoc meruimus audire tale responsum.
Cui ego credidi etiam animam! Et comperi ab aliquantis fratibus ante defensionem illam
(quod ego non interfui nec in Brittanniis eram, nec a me oriebatur) ut et ille in mea absentia
pulsaret pro me; etiam mihi ipse ore suo dixerat: <<>>, quod ego non eram dignus. Sed unde Uenit illi postmodum ut coram cunctis,
bonis et malis, et me publice dehonestaret quod ante sponte et laetus indulserat, et Dominus,
qui maior omnibus est?
32) Porém eu lamento que por causa de meu amigo íntimo mereçamos ouvir tal
palavra. Aquele em que confiei à alma! E descobri por um bom número de irmãos, que diante
daquela defesa (que eu não estava presente, nem estava eu na Bretanha, nem foi eu que a
provoquei) ele em minha ausência lutou por mim, assim disse-me de sua própria boca: eis que
tu serás elevado ao grau do episcopado, ao qual eu não era digno. [mas daí veio ele pouco
depois publicamente desonrar-me na presença de todos, bons e maus, e porque anteriormente
de forma espontânea e alegre perdoara-me, e o Senhor, que é o maior de todos?].
33) Satis dico. Sed tamen non debeo abscondere donum Dei quod largitus est nobis
in terra captiuitatis meae, quia tunc fortiter inquisiui eum et ibi inueni illum et seruauit me ab
omnibus iniquitatibus (sic credo) propter inhabitantem Spiritum eius, qui operatus est usque
in hanc diem in me. Audenter rursus. Sed scit Deus, si mihi homo hoc effatus fuisset, forsitan
tacuissem propter caritatem Christi.
33) já disse o suficiente. Mas ainda assim, não posso esconder o presente de Deus
que foi dado a nós na terra do meu cativeiro, porque eu o busquei fortemente e lá o encontrei
e ele me preservou de todas as iniqüidades (assim creio) por meio da habitação do seu
espírito, que opera em mim até os dias de hoje. Corajosamente de novo, mas Deus sabe, se
isso foi concedido a mim por homem, eu podia ter mantido silêncio pelo próprio amor de
Cristo.
34) Vnde ergo indefessam gratiam ago Deo meo, qui me fidelem seruauit in die
temptationis meae, ita ut hodie confidenter offeram illi sacrificium ut hostiam uiuentem
animam meam Christo Domino meo, |qui me seruauit ab omnibus angustiis meis, ut et dicam:
Quis ego sum, Domine, uel quae est uocatio mea, qui mihi tanta diuinitate cooperasti, ita ut
hodie in gentibus constanter exaltarem et magnificarem nomem tuum ubicumque loco fuero,
nec non in secundis sed etiam in pressuris ut quicquid mihi euenerit siue bonum siue malum
aequaliter debeo suscipere et Deo gratias semper agere, qui mihi ostendit ut indubitabilem
eum sine fine crederem et qui me audierit ut ego inscius et in nouissimis diebus hoc opus
tampium et tam mirificum auderem adgredere, ita ut imitarem quippiam illos quos ante
Dominus iam olim praedixerat praenuntiaturos euangelium suum in testimonium omnibus
gentibus ante finem mundi, quod ita ergo uidimus itaque suppletum est: ecce testes sumus
quia euangelium praedicatum est usque ubi nemo ultra est.
34) Assim eu dou incansáveis graças ao meu Deus, que me conservou fiel no dia
da minha tentação, de sorte que hoje confiantemente ofereço a ele a minha alma como
sacrifício vivo ao Cristo Senhor meu, que me protegeu de todas as minhas angústias, por isso
digo: quem sou eu, oh Senhor, qual é minha vocação? Que a mim de uma maneira tão divina
aparecestes, para que hoje entre os gentios constantemente eu exaltasse e glorificasse teu
nome em qualquer lugar que fosse, não só na bonança, mas também na tribulação, de modo
que qualquer coisa que aconteça a mim, seja de bem seja de mal, devo aceitar igualmente e a
Deus devo sempre dar graças, que me mostrou que devo indubitavelmente para sempre nele
confiar e que me encoraja para que, ignorante, nos últimos dias, ouse encarregar-me de uma
obra tão maravilhosa, para que eu possa imitar um daqueles que, há muito tempo, o Senhor
pré-ordenou como mensageiros do seu evangelho em testemunho a todos os povos até o fim
do mundo, assim vemos e assim está acontecendo: Eis que nós somos testemunhas, porque o
evangelho tem sido pregado até lugares mais distantes onde não há ninguém.
35) Longum est autem totum per singula enarrare laborem meum uel per partes.
Breuiter dicam qualiter piisimus Deus de seruitute| saepe liberauit et de periculis duodecim
qua periclitata est anima mea, praeter insidias multas et quae uerbis exprimere non ualeo. Nec
iniuriam legentibus faciam; sed Deum auctorem habeo qui nouit omnia etiam antequam fiant,
ut me pauperculum pupillum idiotam tamem responsum diuinum creber admonere.
35) Levaria muito tempo narrar meus labores, em detalhes, um por um. Vou dizer
brevemente como o piedoso Deus frequentemente tem me livrado da servidão, e de doze
perigos pelos quais minha alma foi ameaçada, além de muitas ciladas que não sou capaz de
descrever. Nem quero injuriar os leitores; mas tenho Deus criador, que conhece todas as
coisas antes mesmo que elas venham a existir, como testemunha de que embora eu fosse um
pobrezinho desamparado e ignorante, todavia por meio de profecias divinhas frequentemente
me aconselha.
36) Vnde mihi haec sapientia, quae in me non erat, qui nec numerum dierum
noueram nequem Deum sapiebam? Vnde mihi postmodum donum tam magnum tam salubre
Deum agnoscere uel diligere, sed ut patriam et parentes amitterem?
36) De onde me veio esta sabedoria, que para mim não existia, eu que nem o
número de dias conhecia e nem a Deus conhecia? De onde me veio em seguida dom tão
grande e tão saudável de conhecer a Deus e amá-lo, mesmo tendo deixado à pátria e os pais?
37) Et munera multa mihi offerebantur cum fletu et lacrimis et offendi illos, nec
non contra uotum aliquantis de senioribus meis, sed gubernante Deo nullo modo consensi
neque adquieui illis - non mea gratia, sed Deus qui uincit in me et resistit illis omnibus, ut ego
ueneram ad Hibernas gentes euangelium praedicare et ab incredulis costumelias perferre, ut
audirem obprobrium peregrinationis meae, et persecutiones multas usque ad uincula et ut
darem ingenuitatem meam pro utilitate aliorum et, si dignus fuero, | promptus sum ut etiam
animam meam incunctanter et libentissime pro nomine eius et ibi opto impendere eam usque
ad mortem, si Dominus mihi indulgeret,
37) E muitas dádivas me foram oferecidas com choro e lágrimas e eu os ofendi,
contrariamente ao desejo de um bom número dos meus senhores; mas sendo governado por
Deus, não entrei em consenso e nem me delonguei com eles, não por minha graça, mas Deus
que venceu em mim e resistiu contra todos eles, afim de que eu viesse aos povos da Irlanda
pregar o evangelho e suportar as injúrias dos incrédulos, para que possa se ouvir o infortúnio
das minhas peregrinações e muitas perseguições e até prisões; de maneira que possa dar
minha liberdade pelo bem de outros, e se digno for, estou pronto para dar até mesmo minha
vida sem hesitação e de boa vontade, pelo nome do Senhor e nesse lugar escolho devotar
minha vida até a morte, se assim o Senhor me permitir.
38) Quia ualde debitor sum Deo, qui mihi tantam gratiam donauit ut populi multi
per me in Deum renascerentur et postmodum consummarentur et ut clerici ubique illis
ordinarentur ad plebem nuper uenientem ad credulitatem, quam sumpsit Dominus ab extremis
terrae, sicut olim promiserat per prophetas suos: Ad te gentes uenient ab extremis terrae et
dicent: sicut falsa comparauerunt patres nostri idola et non est in eis utilitas; et iterum: Posui
te lumen in gentibus ut sis in salutas usque ad extremum terrae.
38) Porque sou grande devedor de Deus, que tamanha graça me concedeu, que
muitos povos através de mim renasceriam em Deus, e como seria confirmado depois, os
clérigos seriam ordenados por eles em toda parte em favor das pessoas que recentemente
viriam a acreditar, esses que o Senhor atraiu dos confins da terra, assim como já foi prometido
pelos seus profetas: “para ti virão povos dos confins da terra” e dirão: porque nossos pais nos
deixaram apenas ídolos falsos e não há mais neles proveito; e mais: ponho-te como luz para
os gentios para que tu possas levar salvação até os confins da terra.
39) Et ibi uolo expectare promissum ipsius, qui utique nunquam| fallit, sicut in
euangelio pollicetur: Venient ab oriente et occidente et recumbent cum Abraham et Isaac et
Iacob, sicut credimus ab omni mundo uenturi sunt credentes.
39) Eu desejo então esperar por sua promessa, que jamais falha, assim como no
evangelho está escrito: virão do oriente e do ocidente e sentar-se-ão a mesa com Abraão, Isac
e Jacó. Assim como acreditamos que os crentes virão do mundo inteiro.
40) Idcirco itaque oportet quidem bene et diligenter piscare, sicut Dominus
praemonet et docet dicens: Venite post me et faciam uos fieri piscatores hominum; et iterum
dicit per prophetas: Ecce mitto piscatores et uenatores multos, dicit Deus, et cetera. Vnde
autem ualde oportebat retia nostra tendere, ita ut multitudo copiosa et turba Deo caperetur et
ubique essent clerici qui| baptizarent et exhortarent populum indigentem et desiderantem,
sicut Dominus inquit in euangelio, ammonet et docet dicens: Euntes ergo nunc docete omnes
gentes baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti docentes eos obseruare
omnia quaecumque mandaui uobis: et ecce ego uobiscum sum omnibus diebus usque ad
consummationem saeculi; et iterum dicit: Euntes ergo in mundum uniuersum praedicate
euangelium omni creaturae; qui crediderit et baptizatus fuerit saluus erit; qui uero non
crediderit condempnabitur; et iterum: Praedicabitur hoc euangelium regni in universo mundo
in testimonium omnibus gentibus et tunc ueniet finis; et item Dominus per prophetam
praenuntiat inquit: Et erit|in nouissimis diebus, dicit Dominus, effundam de spiritu meo super
omnem carnem et prophetabunt filii uestri et filiae uestrae et iuuenes uestri uisiones uidebunt
et seniores uesri somnia somniabunt et quidem super seruos meos et super ancillas meas in
diebus illis effundam de spiritu meo et prophetabunt; et in Osse dicit: Vocabo non plebem
meam plebem meam et non misericordiam consecutam misericordiam consecutam et erit in
loco ubi dictum est: Non plebs mea uos, ibi uocabuntur filii Dei uiui.
40) Por este motivo então, é necessário verdadeiramente pescar bem e
diligentemente, assim como o Senhor prediz e ensina dizendo: “Sigam-me e farei de vós
pescadores de homens”; e ainda pelos profetas: “Eis que eu envio muitos pescadores e
caçadores”, diz Deus, etc. Portanto é muito importante lançar nossa rede, para que uma
imensa multidão seja apanhada para Deus e em toda parte haja clero para batizar e exortar o
povo necessitado e ansioso. Assim como o Senhor disse no evangelho, admoestando e
instruindo: “Ide, pois agora por todas as nações ensinando e batizando-os em nome do pai, do
filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar em todas as ocasiões tudo o que vos
ensinei, e eis que eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”; e ainda
diz: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura, quem crer e for batizado será
salvo; quem não crer verdadeiramente será condenado”. E ainda: Este evangelho do reino será
pregado por todo o mundo como testemunha para todos os povos e então virá o fim; e
igualmente o Senhor anunciou por meio do profeta: E acontecerá nos últimos dias, diz o
Senhor, que eu derramarei do meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos farão
profecias e as vossas filhas também, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão
sonhos e na verdade sobre os meus servos e minhas servas derramarei do meu Espírito
naqueles dias, e eles profetizarão; como em Oséias diz: Eu chamarei aqueles que não são meu
povo de meu povo e aqueles que não alcançaram misericórdia eu os chamarei de
misericordiosos e no lugar em que foi dito a eles, vocês não são meu povo, serão chamados
“filhos do Deus vivo”.
41) Vnde autem Hiberione qui numquam notitiam Dei habuerunt nisi idola et
inmunda usque nunc semper coluerunt quo modo nuper perfecta est plebs Domini et filii Dei
nuncupantur, filii Scotorum et filiae regulorum monachi et uirgines Christi esse uidentur?
41) Assim, tal como acontece na Irlanda onde nunca tiveram conhecimento de
Deus, mas que até o presente momento, só conheciam ídolos e coisas impuras, como que
recentemente estão se tornando um povo do Senhor e sendo chamados de filhos de Deus, os
filhos dos Scotos e as filhas dos reis
XVIII
, são vistas como monjas e virgens de Cristo?
42) Et etiam una benedicta Scotta genetiua nobilis pulchrerrima adulta erat, quam
ego baptizaui; et post paucos dies una causa uenit ad nos, insinuauit nobis responsum
accepisse a nuntio Dei et monuit eam ut esset uirgo Christi et ipsa Deo proximaret: Deo |
gratias, sexta ab hac die optime et auidissime arripuit illud quod etiam omnes uirgines Dei ita
hoc faciunt - non sponte partrum earum, sed et persecutiones patiuntur et improperia falsa a
parentibus suis et nihilominus plus augetur numerus (et de genere nostro qui ibi nati sunt
nescimus numerum eorum) praeter uiduas et continentes. Sed ex illis maxime laborant quae
seruitio detimentur: usque ad terrores et minas assidue perferunt; sed Dominus gratiam dedit
multis ex ancillis suis, nam etisi uetantur tamen fortiter imitantur.
42) E ainda uma abençoada irlandesa [Scota], nobre, linda e de idade adulta, que eu
batizei; poucos dias depois veio a nós e nos informou que tinha recebido uma profecia de um
mensageiro de Deus e sido convidada a ser uma virgem de Cristo e aproximar-se de Deus.
Graças a Deus, que seis dias depois, excelentemente e avidamente ela tomou o caminho que
todas as virgens de Deus tomam, mas não com o consentimento dos pais dela, mas suportando
perseguições e as reprovações imerecidas de seus parentes. Apesar disso o número delas
aumenta (a respeito das que são de nossa raça nascidas lá desconhecemos o número)
XIX além
das viúvas, e aquelas que mantêm a continência
XX. Mas entre elas as que mais trabalham são
as que são mantidas na escravidão. Além de terrores, elas suportam ameaças constantes; mas
o Senhor concede muitas graças as suas servas, pois mesmo apesar da prisão (sendo
proibidas) elas resolutamente seguem o seu exemplo.
43) Vnde autem etsi uoluero amittere illas et ut pergens in Brittanniis - et
Libentissime paratus eram quasi ad patriam et parentes; non id solum sed etiam usque ad
Gallias uisitare fratres et ut uiderem faciem sanctorum Domini mei: scit Deus quod ego ualde
optabam, sed alligatus Spiritu, qui mihi protestatur si hoc fecero, ut futurum reum me esse
designat et timeo perdere laborem quem inchoaui, et non ego sed Christus Dominus qui me
imperauit ut uenirem esse cum illis residuum aetatis meae, si Dominus uoluerit et custodierit
me ab omni uia mala, ut non peccem coram illo;
43) Por isso, mesmo que desejasse me separar deles a fim de ir para Bretanha, e de
boa vontade estaria preparado para ir para minha pátria e meus pais, e não somente lá, mas
mesmo até a Gália para visitar meus irmãos e para contemplar a face dos santos de meu
Senhor: Deus sabe o quanto eu desejei isso, mas atado ao Espírito que me atestou que se
fizesse isso, seria designado como culpado. E eu temo perder o trabalho que comecei, e não
eu, mas Cristo o Senhor, que me ordenou que viesse estar com eles o resto dos meus dias, se o
Senhor desejou isso e me protegeu de todo mau caminho, não devo pecar contra ele;
44) Spero autem hoc debueram, sed memet ipsum non credo | quamdiu fuero in
hoc corpore mortis, quia fortis est qui cotidie nititur subuertere me a fide est praeposita
castitate religionis non fictae usque in finem uitae meae Christo Domino meo, sed caro
inimica semper trahit ad mortem, id est ad inlecebras inlicitate perficiendas; et scio ex parte
quare uitam perfectam ego non egi sicut et ceteri credentes, sed confiteor Domino meo, et non
erubesco in conspectu ipsius, quia non mentior, ex quo cognoui eum a iuuentate mea creuit in
me amor Dei et timor ipsius, et usque nunc fauente Domino fidem seruaui.
44) Espero que eu faça como devo, mas não confio em mim, enquanto estiver neste
corpo mortal, porque forte é e cotidianamente esforça-se para desviar-me da fé e da
verdadeira santidade de uma religião não fingida a qual aspiro guardar até o fim da vida
minha por Cristo meu Senhor, mas a carne inimiga sempre arrasta para a morte, isto é para
suas seduções, para as coisas ilícitas. E eu sei em parte que não levo uma vida perfeita assim
como outros crentes, mas reconheço diante do meu Senhor, e não me envergonho em sua
presença, porque não minto, desde que o vim a conhecê-lo em minha juventude cresceu em
mim o amor de Deus e o temor a ele, e até agora pela graça de Deus, tenho mantido a fé.
45) Rideat autem et insultet qui uoluerit, ego non silebo neque abscondo signa et
mirabilia quae mihi a Domino monstrata sunt ante multos annos quam fierent, quasi qui nouit
omnia etiam ante tempora saecularia.
45) Que ria e me insulte quem assim o desejar, eu não me calarei e nem esconderei
os sinais e maravilhas que foram mostrados a mim pelo Senhor de muitos anos antes que
acontecessem, ele que sabe todas as coisas antes mesmo do começo dos tempos.
46) Vnde autem debueram sine cessatione Deo gratias agere, qui saepe indulsit
insipientiae meae neglegentiae meae et de loco non in uno quoque ut non mihi uehementer
irasceretur, qui adutor datus sum, et non cito adquieui secundum quod mihi ostensum fuerat et
| sicut Spiritus suggerebat, et misertus est mihi Dominus in milia milium, quia uidit in me
quod paratus eram, sed quod mihi pro his nesciebam de statu meo quid facerem, quia multi
hanc legationem prohibebant, etiam inter se ipsos pos tergum meum narrabant et dicebant: <<>> - non ut causa malitiae,
sed non sapiebat illis, sicut et ego ipse testor, intellegi propter rusticitatem meam – et non cito
agnoui gratiam quae tunc erat in me; nunc mihi sapit quod ante debueram.
46) Deste modo, devo incessantemente dar graças a Deus, que frequentemente
perdoou minha insensatez e negligência, em mais de uma ocasião para não se irar
violentamente comigo, que fui colocado como ministro, e não concordei prontamente com o
que foi revelado a mim, segundo o que o Espírito me sugeria, e o Senhor misericordioso foi
em milhares de vezes, porque viu que eu estava preparado, mas que eu não sabia o que fazer
nessas circunstâncias, só poderia fazer algo relativo ao meu gênero de vida, porque muitos
tentavam impedir a minha missão, eles estavam falando entre si nas minhas costas dizendo:
Porque razão este homem se atira ao perigo no meio de estrangeiros que não conhecem a
Deus? Não por malícia, porque eles não sabiam isso, mas eu mesmo posso testificar que eles
perceberam a minha rusticidade, e eu não estava pronto para reconhecer a graça que então
estava em mim; agora eu sei que deveria tê-lo feito bem antes.
47) Nunc ergo simpliciter insinuaui fratibus et conseruis meis qui mihi crediderunt
propter quod praedixi et praedico ad roborandam et confirmandam fidem uestram. Vtinam ut
et uos imitemini maiora et potiora faciatis! Hoc erit gloria mea, quia filius sapiens gloria
patris est.
47) Agora, pois tenho simplesmente colocado para meus irmãos e companheiros de
serviço, que acreditaram em mim por causa do que proferi e ainda profiro para fortificar e
reforçar vossa fé. Queira Deus que façam maiores e melhores obras! Isto será minha glória,
porque o filho sábio é a glória do pai.
48) Vos scitis et Deus qualiter inter uos conuersatus sum a iuuentute mea in fide
ueritatis et in sinceritate cordis. Etiam ad gentes illas inter quas habito, ego fidem illis praestui
et praestabo. Deus scit neminem illorum circumueni, nec cogito, propter Deum et | ecclesiam
ipsius, ne excitem illis et nobis omnibus persecutionem et ne per me blasphemaretur nomem
Domini; quia scriptum est: Vae homini per quem nomem Domini blasphematur.
48) Vós sabeis, assim como Deus, como me empenhei no meio de vós desde a
minha juventude na fé, na verdade e na sinceridade de coração. Assim para os povos entre os
quais vivo eu mostrei e ainda mostro a fé. Deus sabe que não defraudei a nenhum deles, nem
considero isso, pelo próprio Deus e sua Igreja, para que não despertasse perseguição contra
eles e contra nós todos e para que o nome do Senhor não seja blasfemado por minha causa.
Porque está escrito: Ai do homem pelo qual o nome do Senhor for blasfemado.
49) Nam etsi imperitus sum in omnibus tamem conatus sum quippiam seruare me
etiam et fratibus Christianis et uirginibus Christi et mulieribus religiosis, quae mihi ultronea
munuscula donabant et super altare iactabant ex ornamentis suis et iterum reddebam illis et
aduersus me scandalizabantur cur hoc faciebam; sed ego propter spem perennitatis, ut me in
omnibus caute propterea conseruarem, ita ut <> me in aliquo titulo infideli caperent uel
ministerium seruitutis meae nec etiam in minimo incredulis locum darem infamare siue
detractare.
49) Pois embora eu seja ignorante em todas as coisas, ainda assim me esforcei para
guardar alguns e a mim também. Ainda também aos meus irmãos cristãos, as virgens de
Cristo e as mulheres religiosas, que para mim davam espontaneamente alguns pequenos
presentes e costumavam jogar ao altar e seus adornos. Eu devolvia a elas e se escandalizavam
comigo por causa disso e me perguntavam por que eu agia assim; mas eu, na esperança da
eternidade, me protegi de todas as coisas, de forma que não pudessem lesar-me no meu
ministério alegando qualquer desonestidade e que nem mesmo esse mínimo detalhe desse
qualquer margem para difamação ou depreciação por parte dos incrédulos.
50) Forte autem quando baptizaui tot milia hominum sperauerim ab aliquo illorum
uel dimidio scriptulae? Dicite mihi et reddam uobis, aut quando ordinauit ubique Dominus
clericos per modicitatem meam et ministerium gratis distribui illis, si poposci ab aliquo |
illorum uel pretium uel calciamenti mei, dicite aduersus me et reddam uobis.
50) Por acaso quando batizei milhares de pessoas esperava mesmo que fosse a
metade de qualquer coisa deles? Se assim foi, digam-me e eu vos restituirei. E quando o
Senhor ordenou clérigos em todas as partes por intermédio da minha humilde pessoa e o
ministério gratuitamente eu conferi a eles, se pedi em qualquer lugar qualquer recompensa
deles, que seja o valor de um par de sapatos, digam-me na minha frente e os restituirei.
51) Magis ego impendi pro uobis ut me caperent et inter uos et ubique pergebam
causa uestra in multis periculis etiam usque ad exteras partes, ubi nemo ultra erat et ubi
numquam aliquis peruenerat qui baptizaret aut clericos ordinaret aut populum consummaret:
donante Domino diligenter et libentissime pro salute uestra omnia generaui.
51) Mais eu fiz todos os esforços por vós para que me recebessem e no meio de vós
em todo lugar, me empenhei pela vossa causa, em muitos perigos mesmo nas regiões mais
remotas onde não havia ninguém e ninguém havia vindo antes para batizar, ordenar clérigos
ou confirmar pessoas. Diligentemente e com alegria, pela graça de Deus, para vossa salvação.
52) Interim praemia dabam regibus praeter quod dabam mercedem filiis ipsorum
qui mecum ambulant, et nihilominus comprehenderunt me cum comitibus meis et illa die
auidissime cupiebant interficere me, sed tempus nondum uenerat, et omnia quaecumque
nobiscum inuenerunt rapuerunt illud et me ipsum ferro uinxerunt et quartodecimo die absoluit
me Dominus de potestate eorum et quicquid nostrum fuit redditum est nobis propter Deum et
necessarios amicos quos ante praeuidimus.
52) De vez em quando, dei presentes aos reis e também dei recompensas aos seus
filhos que viajavam comigo, todavia me prenderam com meus companheiros e naquele dia
desejaram com muita avidez matar-me, mas minha hora ainda não havia chegado, e tudo que
puderam encontrar conosco eles saquearam e me prenderam a ferros; e no décimo quarto dia o
Senhor me libertou do poder deles e tudo o que era nosso nos foi devolvido por amor a Deus e
por conta dos amigos imprescindíveis que antes fizemos.
53) Vos autem experti estis quantum ego erogaui illis qui iudica|bant per omnes
regiones quos ego frequentius uisitabam. Censeo enim non minimum quam pretium
quindecim hominum distribui illis, ita ut me fruamini et ego uobis semper fruar in Deum. Non
me paenitet nec satis est mihi: adhuc impendo et superimpendam; potens est Dominus ut det
mihi postmodum ut meipsum impendar por animabus uestris.
53) Vós sabeis por experiência própria o quanto eu os pagava para que aqueles que
julgavam por todas as regiões que eu frequentemente visitava. Penso que verdadeiramente
distribui a eles nada menos que o preço de quinze homens, afim de que pudessem desfrutar da
minha companhia e eu da vossa sempre, em Deus. Não me arrependo e nem considero o
bastante: ainda pago e pagarei ainda mais; poderoso é o Senhor para conceder que logo eu
possa gastar o meu próprio ser pelas vossas almas.
54) Ecce testem Deum inuoco in animam mean quia non mentior: neque ut sit
occasio adulationis uel auaritiae scripserim uobis neque ut honorem spero ab aliquo uestro;
sufficit enim honor qui nondum uidetur sed corde creditur; Fidelis autem qui promisit:
nunquam mentitur.
54) Eis que invoco o testemunho divino sobre minha alma como prova de que não
estou mentindo: nem escreveria a vós para dar ocasião de lisonja ou avareza, nem esperaria
pela honra de qualquer de vós; suficiente na verdade é a honra que não é vista, mas na qual o
coração confia; fiel é o que promete; ele nunca mente.
55) Sed uideo iam in praesenti saeculo me supra modum exaltatum a Domino, et
non eram dignus neque talis ut hoc mihi praestaret; dum scio certissime quod mihi melius
conuenit paupertas et calamitas quam diuitiae et diliciae . (Sed et Christus Dominus pauper
fuit| pro nobis, ego uero miser et infelix, etsi opes uoluero iam non habeo, neque me ipsum
iudico), quia cotidie spero aut internicionem aut circumueniri aut redigi in seruitutem siue
occasio36
cuiuslibet, sed nihil horum uereor propter promissa caelorum, quia iactaui meipsum
in manus Dei omnipotentis, qui ubique dominatur, sicut propheta dicit: Iacta cogitatum tuum
in Deum, et ipse te enutriet.’’
55) Mas vejo que aqui mesmo tenho sido exaltado sobremodo pelo Senhor, eu não
era digno de que ele me concedesse isso, porquanto eu sei com certeza que a pobreza e a
calamidade se adequariam melhor a mim do que a riqueza e o deleite (mas Cristo o Senhor se
fez pobre por nós) eu realmente miserável e infeliz sou e mesmo que quisesse a riqueza não
posso, nem é este meu próprio juízo; porque cotidianamente espero ser morto, traído ou
reduzido à servidão se a ocasião surgir, mas nada temo por causa das promessas celestiais,
porque me lancei nas mãos de Deus onipotente, que reina para todo o sempre, assim como diz
o profeta: “lançai a sua carga sobre Deus e ele vos sustentará”.
56) Ecce nunc commendo animam meam fidelissimo Deo meo, pro quo legationem
fungor in ignobilitate mea, sed quia personam non accipit et elegit me ad hoc officium ut unus
essem de suis minimis minister.
56) Eis que agora recomendo minha alma ao meu fidelíssimo Deus, por quem
cumpro a minha missão apesar da minha insignificância, mas porque ele não faz acepção de
pessoas e me escolheu para esta obra para que eu fosse um dos menores de seus ministros.
57) Vnde autem retribuam illi pro omnibus quae retribuit mihi. Sed quid dicam uel
quid promittam Domino meo, quia nihil ualeo nisi ipse mihi dederit? Sed scrutatur corda et
renes quia satis et nimis| cupio et paratus eram ut donaret mihi bibere calicem eius, sicut
indulsit et ceteris amantibus se.
57) Por esta razão eu devo retribuí-los por tudo que ele me tem retribuído. Mas o
que deveria dizer ou prometer ao meu Senhor, só tenho aquilo que ele próprio me concedeu?
Mas deixe que ele sonde meu coração e minhas entranhas porque almejo muito por isso,
demasiadamente até, e estou pronto para que ele me conceda beber do seu cálice, assim como
concedeu a outros que o amaram.
58) Quapropter non contingat mihi a Deo meo ut numquam amittam plebem suam
quam adquisiuit in ultimis terrae. Oro Deum ut det mihi perseuerantiam et dignetur ut reddam
illi testem fidelem usque ad transitum meum propter Deum meum.
58) Pela vontade do meu Deus, que eu jamais seja separado do seu povo que ele
ganhou nos lugares mais remotos da terra. Eu oro a Deus para que ele me dê perseverança e
que ele me conceda ser uma fiel testemunha por amor a ele desde agora até o tempo da minha
passagem ao meu Deus.
59) Et si aliquid boni umquam imitatus sum propter Deum meum, quem diligo,
peto illi det mihi ut cum illis proselitis et captiuis pro nomine suo effundam sanguinem meum,
etsi ipsam etiam caream sepulturam aut miserissime cadauer per singula membra diuidatur
canibus aut bestiis asperis aut uolucres caeli comederent illud. Certissme reor, si mihi hoc
incurrisset, lucratus sum animam cum corpore meo, quia, sine ulla dubitatione, in die illa
resurgemus in claritate solis, hoc est in gloria Christi Iesu redemptoris nostri, quasi filii Dei
uiui et coheredes Christi et conformes futuri imaginis| ipsius; quoniam ex ipso et per ipsum et
in ipso regnaturi sumus.
59) E se em qualquer momento fiz algo bom por amor ao meu Deus, a quem amo,
imploro que ele me conceda, derramar meu sangue pelo seu nome, junto com os convertidos e
cativos, seja mesmo eu insepulto ou meu cadáver miserável seja partido membro a membro
pelos cães ou pelas feras selvagens, ou ainda devorado pelos pássaros do céu. Certamente
penso que se isso ocorresse a mim, eu ganharia como recompensa minha alma e meu corpo,
porque além de qualquer dúvida naquele dia ressuscitaremos na claridade do sol, isto é, na
glória de Cristo nosso redentor, como filhos do Deus vivo e co-herdeiros de Cristo, destinados
a ser conforme a sua imagem, porque através dele, por ele e nele, reinaremos.
60) Nam sol iste quem uidemus <> iubente propter nos cotidie oritur, sed
numquam regnabit neque permanebit splendor eius, sed et omnes qui adorant eum in poenam
miseri male deuenient; nos autem, qui credimus et adoramus solem uerum Christum, qui
numquam interibit, neque qui fecerit uoluntatem ipsius, sed manebit in aeternum quomodo et
Christus manet in aeternum, qui regnat cum Deo Patre omnipotente et cum Spiritu Sancto
ante secula et nunc et per omnia secula saeculorum amen.
60) Pois o sol que vemos nasce todos os dias para nós sob seu comando, mas nunca
governará e nem irá durar o seu esplendor, mas antes todos os que o adoram irão
desgraçadamente a punição; mas nós que acreditamos e adoramos o verdadeiro sol, Cristo,
que nunca morrerá, nem aquele que fizer a sua vontade, mas permanecerá para sempre
exatamente como Cristo permanece para eternamente, e que reina com Deus pai todo
poderoso e com o Espírito Santo antes do começo dos tempos e agora e para sempre. Amém.
XXI

61) Ecce iterum iterumque breuiter exponam uerba Confessionis meae. Testificor
in ueritate et in exultatione cordis coram Deo et sanctis angelis eius quia numquam habui
aliquam occasionem praeter euangelium et promissa illius, ut umquam redirem ad gentem
illam unde prius uix euaseram.
61) Eis que reiteradamente tenho relatado as palavras da minha confissão. Eu
testifico na verdade e na exultação do meu coração perante Deus e seus santos anjos que tive
apenas um motivo, o evangelho e suas promessas, para voltar àquela nação, da qual havia
previamente escapado com dificuldade.
62) Sed precor credentibus et timentibus Deum, quicumque dignatus fuerit
inspicere uel recipere hanc scripturam quam Patricius peccator indoctus scilicet Hiberione
conscripsit, ut nemo umquam dicat quod mea ignorantia, si aliquid pusillum egi uel
demonstrauerim secundum Dei placitum, sed arbitramini et uerissime credatur quod donum
Dei fuisset. Et haec est Confessio mea antequam moriar.
62) Mas eu imploro aos que crêem e temem a Deus, que se dignem a examinar,
bem como receber este texto composto pelo pecador Patrício, indouto, escrito na Irlanda, que
ninguém jamais atribua a minha ignorância, qualquer coisa insignificante que eu possa ter
exposto segundo agrado de Deus, mas aceite e verdadeiramente acredite que isso foi um dom
de Deus. Esta é a minha confissão antes de morrer.

LIBER SECVNDVS: EPISTOLA AD MILITES COROTICI
SEGUNDO LIVRO: CARTA AOS SOLDADOS DE COROTICUS

1. Patricius peccator indoctus scilicet Hiberione constitutus episcopum me esse fateor.
Certissime reor a Deo accepi id quod sum. Inter barbaras itaque gentes habito proselitus et
profuga ob amorem Dei; testis est ille si ita est. Non quod optabam tam dure et tam aspere
aliquid ex ore meo effundere; sed cogor zelo Dei, et ueritas Christi excitauit, pro dilectione
proximorum atque filiorum, pro quibus tradidi patriam et parentes et animam meam usque ad
mortem. | Si dignus sum, uiuo Deo meo docere gentes etsi contempnor aliquibus.

1. Eu Patrício, um pecador verdadeiramente ignorante, residente na Irlanda, me declaro
um bispo. Eu estou Certíssimo de que recebi de Deus isto que sou. E assim vivo entre
bárbaros, um estrangeiro e fugitivo pelo amor de Deus. Ele mesmo é testemunha de que assim
o é. Não que eu desejasse pronunciar de minha boca palavras tão duras e tão ásperas; mas sou
constrangido pelo zelo de Deus, e sou levado a fazê-lo pela verdade em Cristo, por causa do
amor dos meus próximos e também dos meus filhos, pelos quais abandonei minha pátria,
minha família e minha própria vida até o ponto da morte. Se sou digno, eu vivo por meu
Deus, para ensinar aos gentis, ainda que seja desprezado por alguns.

2. Manu mea scripsi atque condidi uerba ista danda et tradenda, militibus mittenda
Corotici, non dico ciuibus meis neque ciuibus sanctorum Romanorum sed ciuibus
daemoniorum, ob mala opera ipsorum. Ritu hostili in morte uiuunt, socii Scottorum atque
Pictorum apostatarumque. Sanguilentos sanguinare de sanguine innocentium Christianorum,
quos ego in numero Deo genui atque in Christo confirmaui!

2. Com minha mão eu escrevi e também formulei estas palavras para serem dadas,
transmitidas e enviadas aos soldados de Coroticus. Eu não falo aos meus concidadãos, nem
aos cidadãos dos santos romanos, mas aos cidadãos dos demônios, por causa de suas próprias
obras más. Assim como os inimigos, eles vivem na morte, associados aos Scotos e aos
apóstatas Pictos ensangüentados com o sangue que despojam de cristãos inocentes, aos quais
em grande número gerei para Deus e os confirmei em Cristo.

3. Postera die qua crismati neophyti in ueste candida – flagrabat in fronte ipsorum dum
crudeliter trucidati atque mactati gladio supradictis – misi epistolarum cum sancto presbytero
quem ego ex infantia docui, cum clericis, ut nobis aliquid indulgerent de praeda uel de
captiuis baptizatis quos ceperunt: cachinnos fecerunt de illis.

3. No dia seguinte ao que os neófitos receberam a unção em vestes brancas, – o perfume
ainda podia ser sentido em suas testas quando foram assassinados e massacrados à espada
pelas pessoas supracitadas – Eu enviei uma carta ao santo presbítero a quem eu institui desde
a infância, com clérigos, pedindo que nos deixasse ter um pouco de suas prezas bem como
dos batizados que tinham capturado: eles apenas escarneceram deles.

4. Idcirco nescio quid magis Lugeam: an qui interfecti uel quos ceperunt uel quos
grauiter zabulus inlaqueauit. Perenni poena gehennam pariter cum ipso mancipabunt, quia
utique qui facit peccatum seruus est et filius zabuli nuncupatur.

4. Por este motivo, eu não sei o que lamentar mais: aqueles que foram assassinados, os
que foram capturados, ou aqueles que violentamente o demônio enlaçou. Assim como eles,
serão escravizados no inferno numa pena eterna, porque todo aquele que comete pecado é um
escravo e será chamado filho do diabo.


5. Quapropter resciat omnis homo timens Deum quod a me alieni sunt et a Christo Deo
meo, pro quo legationem fungor, patricida, fratricida, lupi rapaces deuorantes plebem Domini
ut cibum panis, sicut ait: Iniqui dissipauerunt legem tuam, Domine, quam in supremis
temporibus Hiberione optime benigne plantauerat atque instructa erat fauente Deo.

5. Portanto, que todo homem temente a Deus saiba que eles são estranhos para mim e
para o Cristo meu Deus, de quem sou embaixador. Parricidas! Fratricidas! Lobos vorazes que
devoram o povo do Senhor como se fosse pão, como é dito: os iníquos destroem a tua lei, oh
Senhor, a qual nos últimos tempos ele plantou na Irlanda bondosamente e com excelência e
que foi organizada pela graça de Deus.

6. Non usurpo. Partem habeo cum his quos aduocauit et praedestinauit euangelium
praedicare in persecutionibus non paruis usque ad extremum terrae, estsi inuidet inimicus per
tyrannidem Corotici, qui Deum non ueretur nec sacerdotes ipsius, quos elegit et indulsit illis
summam diuinam sublimam potestatem, quos ligarent super terram ligatos esse et in caelis.

6. Não sou um usurpador. Eu compartilho com aqueles que foram chamados e
predestinados para pregar o evangelho em meio a graves perseguições até os confins da terra,
ainda que o inimigo manifeste sua inveja através da tirania de Coroticus, que não teme a Deus
e nem os seus sacerdotes, aos quais ele delegou, dando-lhes o mais alto, divino e sublime
poder, para que o que ligarem na terra seja ligado no céu.

7. Vnde ergo quaeso plurimum, sancti et humiles corde, adulari talibus non licet nec
cibum nec potum sumere cum ipsis nec elemosinas ipsorum recipi debeat donec crudeliter
paenitentiam effusis lacrimis satis Deo fasciant et liberent seruos Deis et ancillas Christi
baptizatas, pro quibus mortuus est et crucifixus.


7. Por este motivo, então, eu procuro veementemente, santos e humildes de coração, não
é lícito adular tais pessoas, nem comer, nem beber com eles, nem receber suas esmolas até
que tenham oferecido rigorosa penitência. Derramado bastante lágrimas a Deus, colocando
em liberdade os servos de Deus e os criados batizados de Cristo, por quem ele morreu e foi
crucificado.

8. Dona iniquorum reprobat Altissimus. Qui offert sacrificium ex substantia pauperum
quasi qui uictimat filium in conspectu patris sui. Diuitias, inquit, quas congregauit iniuste
euamentur de uentre eius, trahit illum angelus mortis, ira draconum mulcabitur, interficiet
illum lingua colubris, comedit autem cum ignis inextinguibilis. Ideoque: |Vae qui replent se
quae non sunt sua, uel: Quid prodest homini ut totum mundum lucretur et animae suae
detrimentum patiatur?

8. O Altíssimo reprova as ofertas dos iníquos. Aquele que oferece um sacrifício dos bens
dos pobres é como aquele que imola um filho na presença de seu pai. Está escrito: As riquezas
acumuladas injustamente serão vomitadas do seu ventre, o anjo da morte o afasta, será
atormentado pela ira dos dragões, a língua da serpente o matará, será consumido pelo fogo
inextinguível. Por este motivo : Aí daqueles que ficarem repletos de coisas que não são suas,
bem como: De que adianta ao homem ganhar o mundo todo e perder a sua alma?

9. Longum est per singula discutere uel insinuare, per totam legem carpere testimonia de
tali cupiditate. Auaritia mortale crimem. Non concupisces rem proximi tui. Non occides.
Homicida non potest esse cum Christo. Qui odit fratem suum homicida adscribitur. Vel: Qui
non diligit fratem suum in morte manet. Quanto magis reus est qui manus suas coinquinauit in
sanguine filiorum Dei, quos nuper adquisiuit in ultimis terrae per exhortationem paruitatis
nostrae?

9. Seria demasiado longo discutir tudo e apresentar em detalhes, recolhendo da lei
testemunha contra tal cobiça. A avareza é um pecado mortal. Não cobices os bens do teu
próximo. Não matarás. Um homicida não pode estar com Cristo. Aquele que odeia seu irmão
é taxado como homicida. Bem: aquele que não ama seu irmão prevalece na morte. Quão
maior culpado é aquele que maculou suas mãos com o sangue dos filos de Deus, os quais
recentemente adquiriu dos confins da terra graças a exortação de nossa pequenez?

10. Numquid sine Deo uel secundum carnem Hiberione ueni? Quis me compulit?
Alligatus sum Spiritu ut non uideam aliquem de cognatione mea. Numquid a me piam
misericordiam quod ago erga gentem illam qui me aliquando ceperunt et deuastauerunt seuos
et ancillas domus patris mei? Ingenuus fui secundum carnem; decorione patre nascor. Vendidi
enim nobilitatem meam – non erubesco neque me paenitet – pro utilitate aliorum; denique
seruus sum in Christo genti exterae ob gloriam ineffabilem perennis uitae quae est in Christo
Iesu Domino nostro.

10. Acaso eu vim para Irlanda sem Deus ou segundo a Carne? Quem me compeliu? Eu
estou ligado ao espírito para não ver nenhum dos meus parentes. Acaso procede de mim ter
misericórdia por um povo que outrora me fez cativo e me lançou fora, junto com os servos e
criador da casa de meu pai? Eu nasci livre segundo a carne, sou nascido de pai decurião. Mas
vendi minha nobre posição - Não tenho vergonha e nem me arrependo - por causa dos bens
alheios, porque sou servo em Cristo a uma nação estrangeira, para a glória inefável da vida
eterna que está em Jesus cristo nosso Senhor.

11. Et si mei me non cognoscunt, propheta in patria sua honorem non habet. Forte non
sumus ex uno ouili nequem unum Deum patrem habemus, sicut ait: Quit non est mecum
contra me est, et qui non congregat mecum spargit. Non conuenit: Vnus destruit, alter
aedificat. Non quaero quae mea sunt.
| Non mea gratia sed Deus qui dedit hanc sollicitudinem in corde meo ut unus essem de
uenatoribus siue piscatoribus quos olim Deus in nouissimis diebus ante praenuntiauit.

11. E se os meus não me conhecem, um profeta não tem honra em sua pátria. Talvez não
sejamos oriundos do mesmo aprisco e nem tenhamos o mesmo Deus como pai, assim como
está escrito: quem não é por mim é contra mim, e quem comigo não ajunta, espalha. Não
convém que um edifique e o outro destrua. Não busco meus próprios interesses, não por mim,
mas por Deus que tem dado esta tranqüilidade ao meu coração, para que seja um de seus
caçadores e pescadores, os quais Deus outrora anunciou que viriam nos últimos dias.


12. Inuidetur mihi. Quid faciam, Domine? Valde despicior. Ecce oues tuae circa me
laniantur atque depraedantur, et supradictis Latrunculis, iubente Corotico hostili mente. Longe
est a caritate Dei traditor Christianorum in manus Scottorum atque Pictorum. Lupi rapaces
deglutierunt gregem Domini, qui utique Hiberione cum summa diligentia optime crescebat, et
filii Scottorum et filiae regulorum monachi et uirgines Christi enumerare nequeo. Quam ob
rem iniuria iustorum non te placeat; etiam usque ad inferos non placebit.

12. Sou odiado. Que devo fazer, oh Senhor? Sou muito desprezado. Eis as suas ovelhas ao
meu redor, elas são dizimadas e afugentadas por ladrões, estes que citei mais acima, enviados
por ordem do Hostil Coroticus. Longe do amor de Deus, ele entrega os cristãos nas mãos dos
Scotos e dos Pictos. Lobos vorazes que tem devorado o rebanho do Senhor, o qual na Irlanda
estava crescendo excelentemente com o maior cuidado; e os filhos dos Scotos e filhas dos
pequenos reis que eram monges e virgens de Cristo, que não posso enumerar. Não se alegre,
pois, com a injúria cometida aos justos; pois até mesmo o inferno não se alegra.

13. Quis sanctorum non horreat iocundare uel conuiuium fruere cum talibus? De spoliis
defunctorum Christianorum repleuerunt domos suas, de rapinis uiuunt. Nesciunt miseri
uenenum letale cibum porrigunt ad amicos et filios suos, sicut Eua non intellexit quod utique
mortem tradidit viro suo. Sic sunt omnes qui male agunt: mortem perennem poenam
operantur.

13. Qual dos santos não sentiria horror em alegrar-se ou desfrutar de uma convivência
desta natureza? Eles têm enchido suas casas com os despojos de cristãos mortos, eles vivem
da rapina. Os miseráveis não sabem que o alimento que oferecem aos amigos e filhos seus é
um veneno mortal, assim como Eva compreendeu que era morte o que ela deu ao seu marido.
Assim são todos os que fazem o mal: recebem a morte eterna como pena.

14. Consuetudo Romanorum Gallorum Chistianorum: mittunt uiros sanctos idoneos ad
Francos et ceteras gentes cum tot milia solidorum ad redimentos captiuos baptizatos. Tu
potius interficis et uendis illos genti exterae ignoranti Deum; quasi in lupanar tradis membra
Christi. Qualem spem habes in Deum, uel qui te consentit aut qui te conmmunicat uerbis
adulationis? Deus iudicabit. Scriptum est enim: Non solum facientes mala sed etiam
consentientes damnandi sunt.

14. Este é o costume dos cristãos Galo-Romanos: Enviam homens santos e idôneos aos
Francos e outros povos com milhares de Solidus para resgatar os batizados cativos. Você
prefere matar e vendê-los a povos estrangeiros que não conhecem a Deus. Engana os
membros de Cristo como se estivessem em um lupanar. Que esperança tens em Deus, ou
quem pensa como você ou conversa com você com palavras de bajulação? Deus julgará. Pois
as escrituras dizem: Serão condenados não somente aqueles que fazem o mal, mas também
aqueles que consentem com ele.
15. Nescio quid dicam uel quid loquar amplius de defunctis filiorum Dei, quos gladius
supra modum dure tetigit. Scriptum est enim: Flete cum flentibus, et iterum: Si dolet unum
membrum condoleant omnia membra. Quapropter ecclesia plorat et plangit filios et filias suas
quas adhuc gladius nondum interfecit, sed prolongati et exportati in longa terrarum, ubi
peccatum manifeste grauiter impudenter habundat, ibi uenundati ingenui | homines, Christiani
in seruitute redacti sunt, praesertim indignissimorum pessimorum apostatarumque Pictorum.

15. Eu não sei o que dizer e nem o que falar mais dos filhos de Deus que foram mortos, os
quais a espada tão severamente atingiu. Pois está escrito: chorai com os que choram e ainda:
se um membro sofre, que todos os membros sofram com ele. Por isso, a Igreja chora e
lamenta os seus filhos e filhas que ainda a espada não assassinou, mas que foram removidos e
levados a terras distantes, onde o pecado abunda gravemente, manifestadamente e
dascaradamente. Lá homens inocentes são vendidos, cristãos são reduzidos à escravidão,
principalmente aos mais indignos e abomináveis: os apóstatas pictos.

16. Idcirco cum tristitia et maerore uociferabo: O speciosissimi atque amantissimi fratres
et filii quos in Christo genui enumerare nequeo, quid faciam uobis? Non sum dignus Deo
neque hominibus subuenire. Praeualuit iniquitas iniquorum super nos. Quasi extranei facti
sumus. Forte non credunt unum baptismum percepimus uel unum Deum patrem habemus.
Indignum est illis Hiberionaci sumus. Sicut ait: Nonne unum Deum habetis? Quid
dereliquistis unusquisque proximum suum?
16. Por isso, levanto a minha voz com tristeza e aflição: oh! Amados e belos irmãos e
filhos que em Cristo gerei, tantos que não posso enumerar, o que posso fazer por vós? Não
sou digno de obter ajuda nem de Deus e nem dos homens. A iniqüidade dos inimigos
prevaleceu sobre nós. Fomos feitos como que estrangeiros. Talvez eles não acreditem que
recebemos um e o mesmo batismo e que temos um e o mesmo pai. Para eles é indigno que
sejamos irlandeses. Assim como é dito: Não tendes vós nenhum Deus? Por que cada um de
vocês desampara seu próximo?

17. Idcirco doleo pro uobis, doleo, carissimi mihi; sed iterum gaudeo intra meipsum: non
gratis laboraui uel peregrinatio mea in uacuum non fuit. Et contigit scelus tam horrendum |
ineffabile, Deo gratias, creduli baptizati, de saeculo recessistis ad paradisum. Cerno uos:
migrare coepistis ubi nox non erit neque luctus neque mors amplius, sed exultabitis sicut
uituli ex uinculis resoluti et conculcabitis iniquos et erunt cinis sub pedibus uestris.

17. Por esta razão me aflijo por vós, eu sofro, meus amados, mas por outro lado, lá no
fundo eu me alegro: eu não trabalhei em vão e minha peregrinação não foi inútil. E se este
crime tão horrendo, indescritível, aconteceu, graças sejam dadas a Deus, crentes batizados,
pois foram retirados do mundo para o paraíso. Vejo-vos assim: peregrinaram para onde não
haverá mais noite, nem choro e nem morte, mas se exultarão como bezerros que se libertaram
de seus entraves e esmagarão os iníquos e eles serão como cinzas debaixo de vossos pés.


18. Vos ergo regnabitis cum apostolis et prophetis atque martyribus. Aeterna regna capietis,
sicut ipse testatur inquit: Venient ab oriente et occidente et recumbent cum Abraham et Isaac
et Iacob in regno caelorum. Foris canes et ueneficos et homicidae, et: Mendacibus periuris
pars eorum in stagnum ignis aeterni. Non immerito ait | apostolus: Vbi iustus uix sallus erit,
peccator et impius transgressor legis ubi se recognoscit?

18. Vocês então reinarão junto com os apóstolos e profetas e também os mártires. Vocês
tomarão posse de um reino eterno, assim como ele mesmo disse: virão do oriente e do
ocidente e sentar-se-ão a mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. De fora ficarão
os cães, os feiticeiros e os homicidas e: Aos mentirosos e aos que dão falso testemunho
estarão reservadas suas partes no lago de fogo eterno. Não é sem razão que o apóstolo disse:
se o justo foi salvo penosamente, onde se encontrarão os pecador e o ímpio transgressor da
lei?


19. Vnde enim Coroticus cum suis sceleratissimis, rebellatores Christi, ubi se uidebunt,
qui mulierculas baptizatas praemia distribuunt ob miserum regnum temporale, quod utique in
momento transeat? Sicut nubes uel fumus, qui utique uento dispergitur, ita peccatores
fraudulenti a facie Domini peribunt; iusti autem epulentur in magna constantia cum Christo,
iudicabunt nationes et regibus iniquis dominabuntur in saecula saeculorum. Amem.


19. Onde então Coroticus com seus infames criminosos, rebeldes contra Cristo, onde se
verão? Aqueles que distribuíram jovens mulheres batizadas como prêmios por um reino
temporal miserável que em um momento passa? Como nuvens e fumaça que o vento espalha,
assim os pecadores fraudulentos perecerão ante a face do Senhor; os justos, porém,
participarão de um grande banquete em grande perseverança com Cristo, eles julgarão as
nações e dominarão sobre os reis iníquos pelos séculos dos séculos. Amém.

20. Testificor coram Deo et Angelis suis quod ita erit sicut intimauit imperitiae meae. Non
mea uerba sed Dei et apostolorum atque prophetarum quod ego latinum exposui, qui
numquam enim mentiti sunt. Qui crediderit saluus erit, qui uero non credideri
condempnabitur. Deus locutus est.

20. Eu testifico perante Deus e seus anjos que assim será, como ele me fez compreender
minha ignorância. Não são as minhas palavras, mas as de Deus, dos apóstolos e a dos
profetas, que nunca mentem, que eu tenho colocado em latim. Aquele que crer será salvo, mas
aquele que não crer será condenado. Disse Deus.

21. Quaeso plurimum ut quicumque famulus Dei promptus fuerit ut sit gerulus litterarum
harum, ut nequaquam subtrahatur uel abscondatur a nemine, sed magis potius legatur coram
cunctis plebibus et praesente ipso Corotico. Quod si Deus inspirat illos ut quandoque Deo
resipiscant, ita ut uel sero paeniteant quod tam impie gesserunt – homicida erga fratres
Domini – et liberent captiuas baptizatas quas ante ceperunt, ita ut mererentur Deo uiuere et
sani efficiantur hic et in aeternum! Pax Patri et Filio et Spiritui Sancto. Amem.

21. Eu peço veementemente a qualquer um que seja um servo de Deus disposto a ser um
portador desta carta que nada dela seja suprimido ou escondido por ninguém, mas ao
contrário, seja lida na presença de todo mundo e na presença do próprio Coroticus. Que deus
possa inspirá-los para que, em algum momento, possam recuperar a razão perante Deus, bem
como, mesmo tarde, arrepender-se de seus ímpios atos – homicidas dos irmãos do Senhor – e
liberar as batizadas cativas que outrora foram feitas prisioneiras, para que possam merecer
viver para Deus e sejam feitos íntegros aqui e na eternidade! A paz do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Amém.


BIBLIOGRAFIA

BARBIERI, Fabio P. Saint Patrick in legend and history. In: History of Britain, 2002.
BROWN, Peter. A ascensão do cristianismo no Ocidente. Lisboa: Presença, 1999.
CAHILL, Thomas. Como os irlandeses salvaram a civilização. Rio de Janeiro: Objetiva,
1999.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. “Apresentação”. In: JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea.
Vida de Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.24.
HANSON, R. P. C. Introduction. In: ___________. Confession et Lettre a Coroticus. Paris:
Du Cerf, 1978.
_____________. Saint Patrick: his origins and career. New York: Oxford University Press,
1968.
HILLGARTH, J. N. Cristianismo e Paganismo: A conversão da Europa Ocidental. São Paulo:
Masdras, 2004.
JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea. Traduzida por JÚNIOR, Hilário Franco. São
Paulo: Companhia Das Letras: 2003.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1995.
LE ROUX, Françoise & GUYONVARC`H, Christian-J. A civilização Celta. Lisboa: Europa-
América, 1999.
_____________. A sociedade Celta. Lisboa: Europa-América, 1995.
MACDONNELL, Clare. Who Was St. Patrick? In: www.catholicHerald.com. Acessado no
dia: 02 de Fevereiro de 2007.
O'MATHÚNA, Dónal P. Saint Patrick: His Life and Beliefs at Ashland Theological Seminary,
Ohio: Ashland, 1992.
SKINNER, John. The Confession of Saint Patrick.United States of America: Dell Publishing
Group 1998.
The Real Saint Patrick. In: http://www.cprf.co.uk/articles/stpatrick.htm. Acessado no dia: 02
de Fevereiro de 2007.
THOMPSON, E.A. Who was Saint Patrick? New York: St. Martin’s Press, 1985.

Obras de Referência
BUSARELLO, Raulino. Dicionário Báscio Latino-Português. Florianópolis: Editora da
UFSC, 2003.
FARIA, Ernesto. Gramática de língua latina. Brasília: FAE, 1995.
SILVA, José Pereira da et all: Manual prático de latim medieval. Rio de Janeiro:
CIFEFIL/Dialogarts, 1999.
STOCK, Leo. Conjugação dos verbos latinos. Lisboa: Presença, 2000.
TORRINHA, Francisco. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1942.


NOTAS
I
No texto latino original está escrito: “qui fuit Vico Bannavem Taberniae”. Vicus pode ser
traduzido como uma reunião de bairros, ruas, aldeia, lugar, propriedade no campo, quinta,
terras, herdade. Existem traduções que usam o termo congregação, outras preferem vilarejo. A
tradução francesa de Richard P.C. Hanson que usei como guia usa o termo francês “hameau”
que em português quer dizer: aldeia, lugarejo. Preferi o termo vilarejo.


II
“In gentibus” pode ser traduzido aqui como um conjunto de pessoas, descendências, povos,
gentes, habitantes de um lugar, nações, etc.

III
Literalmente: de meu coração de incredulidade. A frase latina é: “Dominus apervit sensum
cordis mei incredulitatis”. O senhor abriu o “sensum”, (note o acusativo (m). Sensus, us
[sentio]: sentido, órgão dos sentidos, faculdade de sentir, sensibilidade, sensação, sentimento,
modo de sentir, modo de ver, pensamento, idéia, significado, inteligência, etc.) do meu
coração (cordis mei) de incredulidade (incredulitatis). No francês: Le Seigneur ouvrit
L´intelligence de mon coeur incrédule. No inglês: The Lord opened my mind to an awareness
of my unbelief. A meu ver importa a idéia de que Patrício foi acordado por Deus do seu
estado pecaminoso, percebeu sua incredulidade e se converteu. Que isso aconteceu por
intervenção de Deus e não pelas forças de Patrício e que isso ocorreu na Irlanda na época de
seu cativeiro.

IV Inenarrabiliter: inefável. Algo que não se pode descrever com palavras, tamanho a sua
maravilha e impossibilidade de explicação racional.

V Trata-se do Salmo 50.15 escrito por Asafe, o chefe dos cantores quando Davi era rei. Na
tradução para o português da bíblia, por João Ferreira de Almeida este versículo se encontra
traduzido da seguinte forma: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me
glorificarás”.

VI
Salmo 5.6.

VII
Literalmente: Aqueles que mentem assassinam a alma. (Os quod mentitur occiditi
animam).

VIII
Sigo as indicações da tradução francesa de Hanson que em nota cita uma interpretação
possível de que no século VI o latim vulgar confundia frequentemente as letras b e v. assim
também podendo ser inverbis (incapaz de falar). No entanto Hanson mantém a tradução
imberbe.

IX Com um pequeno vocabulário não posso me exprimir; pois não sou capaz de me exprimir
com concisão diante de homens instruídos. Traduzi por falta de eloqüência o que é tido no
latim: quia desertis brevitate sermone explicare nequeo.

X Nesta parte o texto está gravemente corrompido. [Et si non deserta, sed † ratum et
fortissimum†] no francês Hanson ainda traduz as primeiras palavras: Et, si cette lettre n´est
pás eloqüente, du moins... Eu preferi manter como está no manuscrito para que o leitor
acompanhasse o texto até o momento de sua interrupção.

XI
Ao pé da letra: o mais rústico.

XII
Domini cati Rethorici: mestres da retórica.

XIII
A palavra latina aqui é “exagaellias”. Em francês se traduz por Héritage (literalmente
herança), em inglês se traduz por Foundations (fundação, alicerce, base, etc.).

XIV Trata-se de um antigo costume irlandês: sugar as mamas de um homem em sinal de
amizade. Irish eclesiastical Record 52,1938,9.293-299 et M.A O’Brien e Missellanea
Hibérnica. 13 ‘suegere mammellas’ in confessio Patricii, Etudes Celtiques3, 1908 p.372-373.

XV A palavra “gentes” aqui pretende assinalar uma oposição. Esta palavra é usada quando se
quer assinalar gentil em oposição a judeu ou cristão, pode significar também bárbaro em
oposição a romano, etc. Neste caso quer fazer referência aos que não são cristãos. Patrício a
usa para se referir aos outros, os irlandeses.

XVI
Os contemporâneos de Patrício notam a semelhança entre Helias, o profeta e Hélios, o sol.
Patrício pode ter confundido inconscientemente os dois. Quanto à questão “por que Elias” o
próprio Patrício ignorava o “porquê” tanto que ele se agitava durante o sono. Os antigos
irlandeses adoravam o sol. Esta é uma nota da tradução francesa, feita por Hanson, da
confissão. Confession et Lettre a Coroticus, Paris, 1978, página 93. Esta questão é levantada
Devido à palavra “Heliam”, porque no texto latino está escrito: “Sed unde me venit ignarum
in spiritu u Heliam vocarem?”.

XVII
Gostaria de informar ao leitor acerca da decisão que tomei no que tange a tradução de
todos os nomes próprios encontrados nestas duas cartas escritas por São Patrício. Em todos os
textos que possuo e outros que consultei pela internet acerca dos assuntos envolvendo a
patriciologia e as traduções de documentos relacionados a Patrício, percebi que existe uma
tradição de se manter em latim os nomes: Bannavem Taberniae, Voclut, Victoricus,
Calpurnius, Potitus e Coroticus. Isso ocorre em Bieler, Hanson, Thompson, De Paor, Bury e
outros estudiosos do tema. Assim, temos em inglês, por exemplo: “Saint Patrick- Letter to
Coroticus” (tradução de Ludwig Bieler); em francês: “Livre des épitres de Saint Patrick
évêque- Livre II: Lettre aux soldats de Coroticus” (tradução de Hanson). Todos os outros
nomes próprios encontrados nas duas cartas de Patrício são traduzidos para os idiomas em que
as traduções estão sendo feitas: Jesus Cristo, Elias, Bretanha, Irlanda, Abraão, Isac, Jacó,
Oséias, Gália, Eva etc. Vale também ressaltar que não encontrei nenhuma tradução em que o
nome de São Patrício fosse mantido em latim. Assim como fez Hanson, podemos encontrar
uma possível explicação para esta opção de não se traduzir os nomes que mencionei na obra
Codices Patriciani Latini de Ludwig Bieler. Nesta obra, Bieler seleciona, classifica, enumera e
analisa os vários manuscritos que contém a Confissão e a Carta aos soldados de Coroticus.
Ele divide as cartas de acordo com os manuscritos em que foram encontradas e com isso
chega a 7 grupos: 1) Oriundas de Armagh; 2) Encontradas nas Vitae Sanctorum mensis
Martii; 3) Retiradas dos manuscritos do British Museum (Londres); 4) Escritas nas últimas
folhas de um manuscrito sobre vida de santos encontrado no século XI que pode ser
consultado na Biblioteca municipal de Roeun; 5) Retiradas de um manuscrito escrito no
século XII provavelmente em Salisbury; 6) Encontradas igualmente em um outro manuscrito
escrito em Salisbury também no século XII; 7) Retiradas de um manuscrito do século XII que
fazia parte das Vitae Sanctorum encontradas em Arras. Pode ser encontrada atualmente na
Biblioteca municipal de Arras. Em cada um destes manuscritos, os nomes: Bannavem
Taberniae, Voclut, Victoricus, Calpurnius, Potitus e Coroticus aparecem de uma maneira.
Assim encontramos, por exemplo, as variações: Victoricus; Victoricius; Victricius;
Victoricum etc; Temos ainda: Coroticus, Ceredig, Cerdic, Caradock etc. Na tradução que
Hanson fez, por exemplo, ele manteve as formas em latim e apenas mencionou que seguiu a
classificação de número 1 proposta por Bieler (Victoricus-Coroticus) que é oriunda do
manuscrito de Ferdomnach escrito em Armagh no ano de 807. Não encontrei tradução para estes nomes em nenhum idioma moderno, em todos os documentos que consultei eles estão
em latim, talvez pela falta de unanimidade entre os manuscritos que causaria uma dificuldade
na tradução. Minha opção então foi por mantê-los também em latim conforme esta tradição.
Assim sendo, esta escolha está em conformidade com a obra de Thompson, Hanson e
principalmente de Bieler, sem dúvida um dos maiores eruditos quando o assunto é São
Patrício e o cristianismo irlandês.

XVIII
Filiae regulorum: filhas de pequenos reis da Irlanda. No período em que Patrício esteve
na Irlanda, esta era dividida em Tuaths e cada tuatha tinha o seu rei.

XIX As de nossa origem que lá nasceram, desconhecemos o número. No texto latino está: Et de
genere nostro qui ibi nati sunt nescimus numerum eorum. As traduções desse texto trazem
uma querela sobre esta frase. Algumas pretendem que “genere nostro”, em francês “notre
race”, signifique “irlandês”; outras traduções pretendem que signifique “bretão” devido ao
grande número de bretões que habitavam a Irlanda nesse período e porque o próprio Patrício
era Bretão. Quanto à “qui ibi nati sunt” alguns pretendem que se trate de “renascidas” no
sentido de “nascer de novo” fazendo menção a batismo. Eu não o creio e por isso preferi
traduzir ao pé da letra. Para isso me baseio na tradução francesa de Hanson e na nota que ele
coloca na página 117, onde cita a parte da confissão de São Patrício, versículo 38, linhas 2 e
3. nestas linhas, Patrício claramente fala de renascimento no sentido de renascer em Deus e
ele usa a palavra “renascerentur”. Se aqui quisesse tratar desta questão, penso que usaria o
mesmo tema.

XX As que mantêm e prezam pelo domínio próprio, que se abstém dos prazeres, etc.

XXI
Em nota a tradução francesa, Hanson levanta a possibilidade de Patrício ter encerrado aqui
a sua confissão. Esta opinião é devido à forma litúrgica do fim deste versículo 60: Ante
saecula et nunc et per omnia saecula saeculorum. Amem. Assim pergunta-se se o próprio
Patrício não teria acrescentado mais tarde os capítulos 61 e 62.


Continue lendo...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

São Beda, o Venerável (672-735).

História eclesiástica das gentes dos anglos
São Beda, o Venerável


Livro I
Índice
Prefácio


Ao gloriosíssimo Rei Ceolvulp, Beda, servo e sacerdote de Cristo.

Livro I

I. Da situação da Bretanha e Irlanda e dos seus antigos habitantes.

II. Caio Júlio César, o primeiro romano que veio até a Bretanha.

III. Cláudio, o segundo dos romanos que vieram até a Bretanha, tornou as Ilhas Órcadas sujeitas ao Império Romano; e Vespasiano, enviado por ele, colocou a Ilha de Wight sob seu domínio.

IV. Lúcio, rei da Bretanha, escreve ao papa Eleutério, desejando se tornar cristão.

V. Como o imperador Severo dividiu e separou aquela parte da Bretanha de todo o resto com uma fortificação.

VI. O reino de Diocleciano, e como ele perseguiu os cristãos.

VII. A paixão de Santo Albano e seus companheiros, que naquele tempo derramaram seu sangue por Nosso Senhor [305 d.C.].

VIII. As perseguições cessam, e a igreja na Bretanha goza de paz até o tempo da heresia ariana [307­-337 d.C.].

IX. Como durante o reinado de Graciano, Maximus, tendo se tornado imperador na Bretanha, retornou à Gália com um poderoso exército [A.D. 383.].

X. Como, no reino de Arcádio, Pelágio, um bretão, desafiou insolentemente a Graça de Deus.

XI. Como, durante o reinado de Honório, Graciano e Constantino tornaram-se tiranos na Bretanha. A seguir, ocorre o assassinato do primeiro na Bretanha e do segundo na Gália.

XII. Os bretões, tendo sido arrasados pelos escotos e pictos, buscam o socorro dos romanos que, vindo uma segunda vez, constróem uma muralha em torno da ilha. Mas sendo novamente invadidos pelos inimigos já mencionados, os bretões são levados a uma situação ainda mais angustiante que antes.

XIII. No reino de Teodósio, o Jovem, Paládio foi enviado aos escotos que acreditavam em Cristo; os bretões, implorando a assistência de Aécio, o cônsul, não conseguiram obtê-la [446 d.C.].

XIV. Os bretões, compelidos pela fome, expulsam os bárbaros de seus territórios; logo houve abundância de milho, prazer, peste e a subversão da nação [426­-447 d.C.].

XV. Os anglos, tendo sido convidados para vir à Bretanha, a princípio obrigaram o inimigo a se afastar; entretanto, não muito depois, unindo-se em aliança a eles, mostraram suas armas aos seus confederados [450­-456 d.C.].

XVI. Os bretões obtiveram sua primeira vitória sobre os anglos, sob o comando de Ambrósio, um romano.

XVII. Como Germânico, o bispo, chegando de barco à Bretanha com Lupus, primeiramente acalmou a tempestade do mar, e depois aquela dos pelagianos, por força divina [429 d.C.].

XVIII. O mesmo homem santo deu visão à filha cega de um tribuno, e então veio até Santo Albano, lá recebendo algumas de suas relíquias e deixando outras dos abençoados apóstolos e outros mártires.

XIX. Como o mesmo homem santo, estando detido lá por uma indisposição, através de suas preces apagou um incêndio que havia se iniciado entre as casas, e foi ele mesmo curado de uma doença por uma visão [429 d.C.].

XX. Como os mesmos bispos pediram a assistência dos Céus aos bretões em uma batalha, e então retornaram para casa [429 d.C.].

XXI. Tendo a heresia pelagiana revivido, Germano, retornando à Bretanha com Severo, inicialmente curou um jovem aleijado, e então, havendo condenado ou convertido os hereges, restauraram a saúde espiritual ao povo de Deus [447 d.C.].

XXII. Os bretões, estando livres por um tempo das invasões estrangeiras, se desgastaram através das guerras civis, e então se dedicaram a crimes ainda mais hediondos.

XXIII. Como o papa Gregório enviou Agostinho com outros monges para pregar à nação inglesa, e encorajou-os, através de uma carta de exortação, a não cessar o seu trabalho [596 d.C.].

XXIV. Como ele escreveu ao Bispo de Arles para entretê-los [596 d.C.].

XXV. Agostinho, chegando à Bretanha, primeiro pregou na Ilha de Thanet ao Rei Etelberto, e tendo obtido licença, entrou no reino de Kent, de modo a pregar lá [597 d.C.].

XXVI. Santo Agostinho seguiu a doutrina e modos de vida da igreja primitiva, e estabeleceu sua sede episcopal na cidade real [A.D. 597].

XXVII. Santo Agostinho, tendo sido feito bispo, envia mensagem ao papa Gregório para deixá-lo ciente do que fora feito, e recebe sua resposta a respeito das dúvidas que havia proposto a ele [597 d.C.].

XXVIII. O papa Gregório escreve ao bispo de Arles para que dê assistência a Agostinho no trabalho de Deus [601 d.C.].

XXIX. O mesmo papa envia a Agostinho o pálio, uma epístola e diversos ministros da Palavra [601 d.C.].

XXX. Uma cópia da carta que papa Gregório enviou ao abade Mélito, que então ia à Bretanha [601 d.C.].

XXXI. O papa Gregório, por carta, exorta Agostinho a não se glorificar de seus milagres [601 d.C.].

XXXII. O papa Gregório envia cartas e presentes ao rei Etelberto.

XXXIII. Agostinho recupera a igreja de nosso Salvador, e constrói o mosteiro de São Pedro Apóstolo; Pedro é o primeiro abade do mesmo [602 d.C.].

XXXIV. Etelfrid, rei dos nortumbrianos, tendo derrocado as gentes dos escotos, os expulsa dos territórios dos anglos [603 d.C.]

Prefácio

Ao gloriosíssimo rei Ceovulp, Beda, servo e sacerdote de Cristo

Com toda a presteza enviei a História Eclesiástica das Gentes dos Anglos que publiquei recentemente a seu pedido, rei, com toda a presteza para que o senhor a lesse e desse sua aprovação. Agora eu a envio novamente para ser transcrita e examinada mais completamente e com toda a ponderação. Eu não posso deixar de louvar a sinceridade e o zelo com os quais o senhor não apenas deu ouvidos às palavras da Sagrada Escritura mas também laboriosamente cuidou de se familiarizar com as ações e os ditos de antigos homens de renome, especialmente de sua própria gente.

Pois se a história relata boas coisas de bons homens, o ouvinte atento é animado a imitar aquilo que é bom; ou se menciona atos maus de pessoas malvadas, ainda assim o ouvinte religioso e piedoso, rechaçando aquilo que é doloroso e perverso, fica ainda mais fortemente animado a fazer aquelas coisas que sabe serem boas e dignas de Deus. História que o senhor, também sendo profundamente sensato, está desejoso que deva ser tornada completamente familiar para o senhor e para aqueles sobre os quais a Divina Providência quis que o senhor governasse, devido ao seu grande cuidado com o bem estar geral destes.

Mas com o intuito de remover toda a ocasião de dúvida da veracidade daquilo que escrevi, tanto para o senhor quanto para outros leitores ou ouvintes desta história, tomarei o cuidado de brevemente citar de quais autores, em grande parte, eu construí a mesma. Minha principal autoridade e auxílio neste pequeno trabalho foi o douto e reverendo abade Albino, homem instruído em toda a sorte de conhecimento, educado na Igreja de Canterbury por aqueles veneráveis e cultos homens, arcebispo Teodoro, de abençoada memória, e o abade Adriano, e que transmitiu para mim através de Notelmo, o piedoso sacerdote da Igreja de Londres, seja por escrito ou através da narração feita por este mesmo Notelmo, tudo que pensou ser digno de memória que havia sido feito na província de Kent ou nas áreas adjacentes pelos discípulos do abençoado papa Gregório, da forma que ele havia aprendido, seja nos documentos escritos, seja através das tradições de seus ancestrais.

O mesmo Notelmo, indo à Roma posteriormente, e tendo pesquisado nos arquivos da sagrada Igreja Romana com a permissão do atual papa Gregório, encontrou lá algumas epístolas do abençoado papa Gregório e de outros papas, e retornando para casa, através do conselho do já citado muito reverendo padre Albino, trouxe-as para mim para serem inseridas na minha história.

Desta forma, do início deste volume até o tempo no qual a nação inglesa recebeu a fé de Cristo, temos colecionado os escritos de nossos predecessores e destes recolhemos grande parte do material de nossa história. Mas daquele tempo até o presente, o que se passou na Igreja de Canterbury, feito pelos discípulos de São Gregório ou seus sucessores, e sob quais reis estes eventos se sucederam, foi transmitido para nós por Notelmo, fruto da labuta do já mencionado abade Albino. Eles também me informaram parcialmente sob quais bispos e reis as províncias dos saxões do Oriente e do Ocidente, e também dos anglos do Oriente, bem como os nortumbrianos, receberam a fé de Cristo.

Resumindo, eu estava fortemente animado a assumir este trabalho devido às persuasões deste mesmo Albino. De forma similar, Daniel, o muitíssimo reverendo bispo dos saxões do Ocidente que ainda vive, me comunicou por escrito algumas coisas relacionadas à história eclesiástica daquela província, e daquela próxima a ela, a dos saxões do Sul, como também da ilha de Wight. Mas agora, através do piedoso ministério de Cedd e Ceadda, a província dos mercianos foi trazida para a fé de Cristo, fé que eles não conheciam antes, e aquela dos saxões do Oriente foi recuperada da mesma forma, após havê-la expulsado; e o modo como aqueles padres viveram e morreram foi-nos ensinado pelos irmãos do mosteiro, construído por eles e chamado de Lastingham.

Foi-nos elucidado quais transações eclesiásticas ocorreram na província dos anglos do Oriente em parte através dos escritos e tradição de nossos ancestrais e em parte através do muito reverendo abade Ésio. Soubemos o que foi feito em prol da divulgação da fé e qual foi a sucessão sacerdotal na província de Lindsey através das cartas do muito reverendo prelado Cunebert ou pelo relato oral de outras pessoas de bom crédito. Eu não recebi de nenhum autor em particular o que foi feito na Igreja por toda a província dos nortumbrianos, do tempo em que eles receberam a fé de Cristo até o momento presente, somente através do testemunho fiel de inúmeras testemunhas, que poderiam saber ou lembrar de algo, além do que já era de meu próprio conhecimento. Aqui deve ser observado tudo que escrevi concernente ao nosso mais santo padre, bispo Cutberto, seja neste volume ou em meu tratado sobre sua vida e feitos, eu parcialmente tirei e fielmente copiei do que encontrei escrito sobre ele pelos irmãos da igreja de Lindisfarne.

Ao mesmo tempo tive o cuidado de acrescentar coisas que eu mesmo tinha conhecimento pelo testemunho fiel daqueles que o conheceram. Eu humildemente peço ao leitor que se ele achar nisto que escrevemos qualquer coisa que não tenha sido contada de acordo com a verdade, que não impute a mesma a mim que, como requer a regra da História, tenho trabalhado sinceramente para colocar por escrito tudo aquilo que pude colher de relato comum, para a instrução da posteridade.

Mais ainda: eu imploro a todos os homens que ouvirão ou lerão esta história de nossa nação, que pelas minhas muitas enfermidades tanto de corpo quanto de espírito, ofereçam freqüentes súplicas ao Trono da Graça. E eu peço ainda que, em recompensa por este trabalho que tenho registrado, das diversas regiões e cidades cujos eventos eram mais dignos de nota e mais gratos aos ouvidos de seus habitantes, eu possa como prêmio ter o benefício de suas piedosas preces.

Livro I

I - Da situação da Bretanha, da Irlanda e de seus antigos habitantes

A Bretanha, uma ilha no oceano, em outros tempos chamada de Albion, está situada entre o norte e o ocidente, avistando, apesar fazê-lo de uma considerável distância, as costas da Germânia, Gália e Espanha, que formam a maior parte da Europa. Se estende por 800 milhas de comprimento em direção norte, e por 200 milhas de largura, exceto onde diversos promontórios aumentam sua largura, e pelos quais sua extensão se torna de 3675 milhas. Ao sul, pela praia mais próxima da Gália belga, a primeira localidade na Bretanha que se abre às vistas é a cidade de Porto Rutubi, nome corrompido pelos ingleses para Reptacestir. A distância de lá, através do mar, até Gessoriacum, a mais próxima praia dos morini, é de cinqüenta milhas, ou como alguns escritores dizem, 450 furlongs. Na parte de trás da ilha, onde ela se abre para o oceano infinito, temos as ilhas chamadas Órcadas.

A Bretanha possui excelentes grãos e árvores e está bem adaptada para a alimentação do gado e das bestas de carga. Ela também produz vinho em alguns lugares e possui muitos pássaros de diversos tipos, do mar e da terra; também pode se destacar pelos rios abundantes de peixes e por suas muitas nascentes. Tem a maior abundância de salmão e enguias; focas, golfinhos e baleias são muitas vezes pescadas, além de toda a sorte de mariscos, como mexilhões, nas quais muitas vezes se encontram excelentes pérolas de todas as cores, vermelhas, roxas, violetas e verdes, mas principalmente brancas. Há também grande abundância de mariscos-da-pedra, dos quais é feita uma tintura escarlate, uma cor muito bela, que nunca esmaece com o calor do sol ou com a água da chuva, mas quanto mais antigo a tintura, mais bela se torna a cor.

A ilha possui tanto sal quanto nascentes de águas quentes, e destas fluem rios que abastecem os banhos, próprios para todas as idades e sexos, e organizados de acordo. Pois a água, como diz São Basil, recebe a qualidade do calor quando passa por certos metais, e se torna não apenas quente, mas fervente. A Bretanha também possui muitos veios de metal precioso, como o cobre, o ferro, o chumbo e a prata, tem abundância de excelente azeviche, que é preto brilhante e faiscante diante o fogo, e quando aquecido espanta as serpentes; ao ser aquecido através de fricção, segura firmemente aquilo que é aplicado a ele, como o âmbar. A ilha foi anteriormente embelezada com vinte e oito nobres cidades, além de inumeráveis castelos, que foram todos fortemente cercados com muralhas, torres, portões e trancas.

Por estar situada quase que abaixo do Pólo Norte, as noites são claras no verão, tanto que, à meia-noite, os que as contemplam muitas vezes ficam em dúvida se o lusco-fusco do entardecer continua ou se é aquele do amanhecer que chega; pois o sol, à noite, retorna para debaixo da terra, pelo caminho das regiões do norte que não ficam a grandes distâncias dele. Por esta razão, os dias são de longa duração durante o verão, e, em oposição, as noites o são no inverno, pois o sol nesta época se refugia nas regiões do sul, e, portanto, as noites têm a duração de 18 horas. Desta forma, as noites são extraordinariamente curtas no verão, e os dias no inverno, de apenas seis horas equinociais. Enquanto isso, na Armênia, Macedônia, Itália e outros países da mesma latitude, o dia ou noite mais longos se estendem apenas por quinze horas, e os mais curtos por nove.

Esta ilha no presente, seguindo o número de livros nos quais a Lei Divina foi escrita, contém cinco nações, os anglos, os bretões, os escotos, os pictos e os latinos, cada um em seu dialeto peculiar cultivando o estudo sublime da Verdade Divina. O idioma latino se tornou, devido ao estudo das Escrituras, comum a todos os povos.

Esta ilha inicialmente não possuía outros habitantes além dos bretões, de quem deriva seu nome, e estes, adentrando a Bretanha vindos da Armórica, como já foi relatado, tomaram posse das áreas situadas ao sul da mesma. Tendo iniciado pelo sul, eles se tornaram mestres da maior parte da ilha, quando então a nação dos pictos, da Cítia, como se relatou, tomou o caminho do mar em alguns poucos grandes barcos, levados pelos ventos para além das praias da Bretanha. Chegaram então à costa norte da Irlanda, onde, encontrando a nação dos escotos, imploraram permissão para se estabelecer junto destes, sem conseguir sucesso em seu pedido. A Irlanda é a maior ilha próxima à Bretanha, e fica a leste dela; mas, na medida que é menos extensa que a Bretanha para o norte, por outro lado, se estende muito mais ao sul, em oposição à parte norte da Espanha, apesar de um mar espaçoso se colocar entre elas.

Os pictos, como foi dito, chegando a esta ilha por mar, desejavam ter uma parte dela doada a eles para que lá pudessem se estabelecer. Os escotos responderam que a ilha não poderia conter a ambos, mas disseram eles: “Podemos oferecer bom conselho sobre o que fazer. Sabemos que existe um outra ilha, não distante da nossa, na direção do oriente, que muitas vezes vislumbramos na distância, quando os dias estão claros. Se vocês forem até lá, conseguirão se estabelecer; ou, se sofrerem oposição, terão a nossa ajuda.”

Desta forma, navegando até a Bretanha, os pictos começaram a habitar a parte norte da mesma, pois os bretões tinham a posse da parte sul. Ora, os pictos não tinham esposas. Assim as pediram aos escotos, que não consentiriam cedê-las em quaisquer outros termos, a não ser que, quando surgisse alguma dificuldade, eles deveriam escolher um rei da linhagem das mulheres ao invés da dos homens. Este costume, como é bem sabido, tem sido observado entre os pictos até o dia de hoje.

No prosseguimento do tempo, além dos bretões e pictos, a Bretanha recebeu uma terceira nação, os escotos: Migrando da Irlanda sob o seu líder, Reuda, seja por meios justos, seja por força de armas, asseguraram para si aqueles povoados entre os pictos que ainda hoje possuem. Do nome do seu comandante, eles são até hoje chamados de Dalreudins, pois em sua língua, Dal significa “uma parte”.

A Irlanda, em tamanho, pela qualidade e serenidade de seu clima, em muito ultrapassa a Bretanha, pois quase nunca a neve se acumula por mais de três dias; nenhum homem faz feno durante o verão para a provisão do inverno, ou constrói estábulos para suas bestas de carga. Não se encontram répteis naquele lugar, e nenhuma serpente pode viver lá. Apesar de muitas vezes transportadas até lá da Bretanha, assim que o navio se aproxima da praia e o odor do ar chega até elas, elas morrem. Ao contrário, quase tudo na ilha é bom contra veneno. Em suma, soubemos que quando pessoas eram mordidas por serpentes, raspas de folhas trazidas da Irlanda eram colocadas em água e dadas para beber a estas pessoas.

Imediatamente expulsavam o veneno que se espalhava, acalmando o inchaço. A ilha é plena de leite e mel e não há falta de vinhas, peixe ou pássaros, sendo incrível para gamos e cabras. Em propriedade é o país dos escotos que, migrando de lá, como já foi dito, adicionaram uma terceira nação à Bretanha, junto com os bretões e os pictos.

Existe um grande golfo de mar que anteriormente dividia a nação dos pictos da dos bretões. Tal golfo, vindo do ocidente, invade profundamente a terra onde até os dias de hoje fica Aicluith, forte cidade dos bretões. Os escotos se estabeleceram lá chegando pelo lado norte desta baía.

II - Caio Júlio César, o primeiro romano que veio até a Bretanha

A Bretanha jamais havia sido visitada pelos romanos, sendo totalmente desconhecida por eles antes do tempo de Caio Júlio César, que, no ano 693 após a construção de Roma, sexagésimo ano antes da incarnação de Nosso Senhor, era cônsul, juntamente com Lucius Bibulus, e após esse tempo, enquanto fazia guerra contra germanos e gauleses, que eram separados apenas pelo rio Reno, entrou na província dos morini, onde se encontra a mais próxima e curta passagem para a Bretanha. Ali, tendo providenciado cerca de oitenta navios de carga e navios com remos, navegou até a Bretanha, onde, sendo primeiramente tratado com dureza em batalha e encontrando uma violenta tempestade, perdeu uma parte considerável de sua frota, um não menor número de soldados e quase todos os seus cavalos.

Retornando à Gália, ele colocou suas legiões em abrigos de inverno e deu ordens para a construção de seiscentos barcos dos dois tipos. Com estes, ele novamente fez a passagem para a Bretanha no início da primavera, mas, enquanto marchava com um grande exército ao encontro do inimigo, os navios, estando ancorados, foram jogados uns contra os outros ou jogados em direção da areia e naufragados por uma tempestade. Quarenta deles sucumbiram e o resto foi, com muita dificuldade, consertado.

No primeiro ataque, a cavalaria de César foi derrotada pelos bretões. Labienus, o tribuno, foi morto. Num segundo encontro, com grande dano para seus homens, ele fez com que os bretões batessem em retirada. De lá prosseguiu para o rio Tâmisa, onde uma imensa quantidade dos inimigos se posicionara na margem mais distante do rio, sob o comando de Cassibelaun, e fizeram paliçada na margem e em quase todo o passo debaixo d’água com estacas pontiagudas. Restos dessas estacas podem ser vistos até o dia de hoje, tendo aparentemente a grossura da coxa de um homem.

Recobertas com chumbo, elas permanecem fixas e imóveis no fundo do rio. Esta barragem foi evitada pelos romanos, e como os bárbaros foram incapazes de enfrentar o choque com as legiões, esconderam-se na floresta, de onde atormentavam dolorosamente os romanos com repetidos ataques. Entrementes, a forte cidade de Trinovantum, com seu comandante Androgeus, se rendeu a César, dando a ele quarenta reféns. Muitas outras cidades, seguindo seu exemplo, fizeram tratados com os romanos.

Com a assistência dessas cidades, e com muita dificuldade, César finalmente tomou a cidade de Cassibelaun, situada entre dois pântanos, fortificada pelas florestas adjacentes e plenamente fornecida de tudo o que era necessário. Depois disso, César retornou à Gália, mas mal havia colocado suas legiões em abrigos de inverno quando foi repentinamente assediado e perturbado com guerras e tumultos levantados contra ele por todos os lados.

III - Cláudio, o segundo dos romanos que vieram até a Bretanha, tornou as ilhas Órcadas sujeitas ao Império Romano. Vespasiano, enviado por ele, colocou a ilha de Wight sob seu domínio

No ano de Roma de 798, Cláudio, quarto imperador desde Augusto, tinha o desejo de provar-se como um benéfico príncipe para a República, e energicamente se inclinou para a guerra e a conquista, organizando uma expedição para a Bretanha, que parecia estar excitada a ponto de uma rebelião pela recusa dos romanos de entregar certos desertores. Ele foi o único, antes ou depois de Júlio César, que havia ousado colocar os pés na ilha. Entretanto, dentro de poucos dias, sem nenhuma luta ou derramamento de sangue, a maior parte da ilha rendeu-se em suas mãos. Ele também adicionou ao império romano as ilhas Órcadas, que estão no oceano além da Bretanha. Então, retornando a Roma no sexto mês após sua partida, ele deu a seu filho o título de Britânico. Ele concluiu essa guerra no quarto ano de seu império, que é o quadragésimo sexto da Encarnação de Nosso Senhor. Nesse ano ocorreu uma severíssima escassez de comida na Síria, que nos Atos dos Apóstolos é relatada como tendo sido prevista pelo profeta Agabus.

Vespasiano, imperador após Nero, tendo sido enviado pelo mesmo Cláudio até a Bretanha, anexou ao domínio romano a Ilha de Wight, que é próxima à Bretanha ao sul e tem aproximadamente trinta milhas de comprimento do oriente ao ocidente, doze de norte a sul, estando a seis milhas de distância da costa sul da Bretanha na sua extremidade oriente, e apenas três milhas na extremidade ocidente. Nero, sucedendo Cláudio no Império, não tentou coisa alguma em assuntos marciais. Portanto, entre outros inúmeros detrimentos trazidos ao estado romano, ele quase perdeu a Bretanha, pois sob seu governo duas muito nobres cidades foram tomadas e destruídas.

IV - Lucius, rei da Bretanha, escreve ao papa Eleutério, desejando se tornar cristão

No ano 156 da encarnação de Nosso Senhor, Marco Antônio Vero, décimo quarto desde Augusto, tornou-se imperador junto com seu irmão, Aurélio Cômodo. No tempo destes, Eleutério, um homem santo, presidia a igreja romana e Lucius, rei dos bretões, enviou uma carta a ele, pedindo que pudesse se tornar um cristão por seu comando. Ele logo obteve seu piedoso pedido, e os bretões mantiveram sua fé, que haviam recebido incorrupta e na sua totalidade, em paz e tranqüilidade, até a época do imperador Diocleciano.

V - Como o imperador Severo dividiu e separou aquela parte da Bretanha de todo o resto com uma fortificação

No ano da Graça de 189, Severo, um africano, nascido em Leptis, província de Trípoli, recebeu o púrpura imperial. Ele foi o décimo sexto desde Augusto, e reinou dezessete anos. Sendo naturalmente rígido e tendo se engajado em muitas guerras, ele governou o estado com vigor, mas com bastante discórdia. Tendo saído vitorioso das terríveis guerras civis que ocorreram em seu tempo, ele foi chamado à Bretanha pela revolta de quase todas as tribos confederadas.

Após muitas e perigosas batalhas, ele achou por bem dividir aquela parte da ilha que ele havia recuperado dos outros povos não conquistados, não com uma muralha, como imaginam alguns, mas com uma fortificação. Pois uma muralha é feita de pedras, mas uma fortificação, com a qual os campos são fortificados para repelir os assaltos dos inimigos, é feita de tijolos de leiva, cortados da terra, e levantados acima do chão por toda a volta como uma parede, tendo à sua frente um fosso de onde os tijolos de leiva foram retirados com fortes varas de madeira tendo sido fixadas no seu topo.

Dessa forma, Severo construiu um grande fosso e uma poderosa fortificação, engrandecida com diversas torres, do mar ao mar. Logo depois caiu doente e morreu em York, deixando dois filhos, Bassiano e Geta. Geta morreu, julgado inimigo público, mas Bassiano obteve o império, tendo tomado o nome de Antonino.

VI - O reino de Diocleciano e como ele perseguiu os cristãos

No Ano da Encarnação de Nosso Senhor de 286, Diocleciano, trigésimo terceiro desde Augusto e escolhido imperador pelo exército, reinou vinte anos, e tornou Maximiano, chamado de Herculius, seu colega no império. Em seu tempo, certo Carausius, de muito baixa origem, mas um soldado habilidoso e capaz, tendo sido indicado para guardar os litorais, naquele tempo infestados pelos francos e saxões, agiu mais para o prejuízo que para a vantagem do estado. Pelo fato de não ter devolvido aos seus donos a pilhagem recuperada dos ladrões, mantendo-a toda para si, suspeitou-se que fora por negligência intencional que deixara o inimigo infestar as fronteiras. Sabendo, portanto, que uma ordem havia sido enviada por Maximiano para que fosse executado, ele tomou para si os mantos imperiais e a posse da Bretanha, e depois de ter com galhardia mantido sua posse pelo espaço de sete anos, foi finalmente executado através da traição de um associado seu, Alectus. O usurpador, tendo desta forma tomado a ilha de Carausius, manteve a posse dela por três anos, e foi então exterminado por Asclepiodotus, capitão da guarda pretoriana, que feito isso, ao fim de dez anos, restaurou a Bretanha ao Império Romano.

Entrementes, Diocleciano no Oriente e Maximiano Herculius no Ocidente ordenaram que as igrejas fossem destruídas e que os cristãos fossem assassinados. Esta perseguição era a décima desde o reinado de Nero, e foi mais duradoura e sangrenta que todas as que a precederam, pois deu-se ininterruptamente por um período de dez anos, com a queima de igrejas, a marginalização de pessoas inocentes e o abate dos mártires. Após certo tempo, ela alcançou também a Bretanha, e muitas pessoas, com a constância dos mártires, morreram por professar sua fé.

VII - A paixão de Santo Albano e seus companheiros, que naquele tempo derramaram seu sangue por Nosso Senhor [305 d. C.]

Naquele tempo sofreu santo Albano, de quem o padre Fortunato, em seu “Louvor às Virgens”, onde menciona os abençoados mártires que chegaram ao Senhor de todas as partes do mundo, diz: “Na ilha da Bretanha nasceu o santificado Albano. Este Albano, sendo ainda pagão, no tempo em que as crueldades de príncipes malvados assolavam os cristãos, ofereceu hospitalidade em sua casa a um certo homem do clero, que fugia de seus perseguidores. Ele observou que este homem estava em estado de prece contínua, em vigília noite e dia. Então, repentinamente, a Graça Divina brilhou sobre ele, que pôs-se a imitar o exemplo de fé e pia atitude que havia sido posta à sua frente.

Assim, sendo gradualmente instruído pelas salutares admoestações deste padre, ele lançou longe a escuridão da idolatria e tornou-se cristão, com toda a sinceridade de seu coração. Estando o já mencionado padre hospedado por alguns dias com ele, chegou aos ouvidos do malvado príncipe que este santo confessor de Cristo, cuja hora do martírio ainda não havia chegado, estava escondido na casa de Albano. E foi então que ele enviou alguns soldados para fazer uma severa busca. Quando chegaram à casa do mártir, santo Albano imediatamente se apresentou aos soldados, ao invés do seu convidado e mestre, no hábito ou comprido casaco que aquele usava, e foi levado amarrado perante o juiz.

Aconteceu que este juiz, na hora em que Albano foi trazido à sua frente, estava em pé em frente ao altar, oferecendo sacrifício aos demônios. Quando viu Albano, enraivecendo-se muito pelo fato de que ele havia daquela forma, de vontade própria, colocado a si mesmo nas mãos dos soldados e incorrido em tamanho perigo no lugar do seu convidado, ele comandou que este fosse arrastado até as imagens dos demônios, diante das quais ele estava, dizendo, “Por teres escolhido esconder uma pessoa rebelde e sacrílega ao invés de entregá-lo aos soldados, para que seu desprezo pelos deuses encontrasse o castigo merecido por tal blasfêmia, tu sofrerás toda a punição reservada a ele se não abandonares a crença da tua religião.”

Mas santo Albano, tendo-se voluntariamente declarado um cristão aos perseguidores da fé, não estava sequer amedrontado pelas ameaças do príncipe, pelo contrário, vestindo a armadura da guerra espiritual, publicamente declarou que não obedeceria aquela ordem. Então disse o juiz, “De que família ou raça tu és?” Respondeu Albano: “- No que isto concerne a ti, de onde fui gerado? Se você deseja saber a verdade de minha religião, que seja dado a conhecer a você que eu sou agora um cristão, e preso pelas obrigações cristãs.” “­ Eu pergunto o seu nome,” disse o juiz, “diga-o imediatamente.” Ele replicou: “- Eu sou chamado de Albano por meus pais, e venero e adoro o verdadeiro Deus vivo, que criou todas as coisas.” Então o juiz, inflamado por sua ira, disse: “- Se você deseja usufruir da felicidade da vida eterna, não hesite em oferecer sacrifício aos grandes deuses.” Albano retrucou: “- De nada adiantam estes sacrifícios que você oferece aos demônios; eles não podem atender os pedidos e desejos daqueles que enviam as suas súplicas. Pelo contrário, aquele que oferecer sacrifício a estas imagens receberá as infinitas dores do inferno como recompensa.”

Ao ouvir estas palavras, e irado ao extremo, o juiz ordenou que este santo confessor de Deus fosse chicoteado pelos algozes, acreditando que pelas tiras do chicote poderia abalar a constância daquele coração, sobre o qual palavras não prevaleceram. Este, sendo muito cruelmente torturado, suportou a tortura pacientemente, ou mesmo alegremente, por Nosso Senhor. Quando o juiz percebeu que ele não seria conquistado por torturas ou afastado do exercício da religião cristã, ordenou que fosse morto. Sendo levado até sua execução, ele chegou a um rio, que corria entre a muralha da cidade e a arena onde seria executado com uma correnteza bastante forte.

Neste lugar ele viu uma multidão de pessoas de ambos os sexos e de diversas idades e condições sociais, que indubitavelmente estavam ali congregadas por instinto divino para assistir o abençoado confessor e mártir, e tinham de tal forma tomado a ponte sobre o rio que ele não podia passar para o outro lado naquela noite. Em suma, quase todos tinham saído, de forma que o juiz permaneceu na cidade sem acompanhantes. Santo Albano, portanto, tomado por um ardente e devoto desejo de chegar rapidamente ao martírio, aproximou-se do riacho, e ao levantar seus olhos para o céu, o canal imediatamente secou, e ele percebeu que a água havia partido e feito um caminho para que ele passasse. Entre os outros, o executor que devia causar sua morte observou isto e, movido por inspiração divina, correu ao encontro dele no seu local de execução e, lançando longe a espada que já carregava desembainhada, caiu a seus pés, rogando sofrer com o mártir que ele havia recebido ordem de executar, ou, se possível, no lugar deste.

Enquanto este, de perseguidor se tornava companheiro de fé, e os outros algozes hesitavam tomar a espada que estava caída no chão, o reverendo confessor, acompanhado pela multidão, subiu uma colina, a aproximadamente 500 passos do lugar e adornada, ou melhor, vestida com todos os tipos de flores, tendo seus lados nem perpendiculares, nem em forma de penhasco, mas possuidores de uma suave inclinação que terminava em uma muito bela planície, merecedora pela sua bela aparência de ser o cenário dos sofrimentos de um mártir. No topo desta colina, santo Albano orou para que Deus lhe desse água, e imediatamente uma fonte viva brotou diante de seus pés, com seu curso confinado, para que todos os homens percebessem que o rio também havia secado em consequência da presença do mártir. Nem era provável que o mártir, que não havia deixado que permanecesse água no rio, quisesse alguma no topo da colina, a não ser que achasse tal coisa apropriada à ocasião.

O rio, tendo executado seu sagrado serviço, retornou ao seu curso natural, deixando um testemunho de sua obediência. Neste lugar, portanto, a cabeça do tão corajoso mártir foi cortada, e ali ele recebeu a coroa da vida, que Deus prometeu àqueles que O amam. Mas aquele que deu o golpe maldoso não foi permitido regozijar a morte do falecido, pois seus olhos caíram ao chão junto com a cabeça do abençoado mártir.

Naquele mesmo instante o soldado que através da admoestação divina recusou dar o golpe mortal no santo confessor foi decapitado. Está claro que apesar de não ter sido regenerado pelo batismo ele foi limpo belo banho em seu próprio sangue, e tornou-se merecedor de entrar no reino dos céus. Então o juiz, assombrado com a nova de tantos milagres do céu, ordenou que cessasse imediatamente a perseguição, começando a honrar a morte dos santos, através da qual ele antes achara que estes pudessem ser afastados da fé cristã. O abençoado Albano sofreu a morte no vigésimo segundo dia de junho, próximo à cidade de Verulano, hoje chamada pelas gentes dos anglos de Verlamacestir, ou Varlingacestir, onde depois, quando foram restaurados os tempos de paz cristã, uma igreja de maravilhoso artesanato e apropriada ao seu martírio foi erigida. Neste lugar não cessa até hoje a cura de pessoas doentes, e a freqüente sucessão de maravilhas.

Ao mesmo tempo sofreram Aarão e Júlio, cidadãos de Chester, e muitos outros de ambos os sexos em diversas localidades, que, após terem suportado tormentos vários, e terem seus membros arrancados de uma maneira nunca antes vista, entregaram suas almas para o alto, para gozar na cidade celeste a recompensa dos sofrimentos pelos quais tinham passado.

VIII - As perseguições cessam e a Igreja na Bretanha goza de paz até o tempo da heresia ariana [307­337 d. C.]

Quando cessou a tempestade de perseguições, os fiéis cristãos que durante o tempo do perigo haviam se escondido em florestas, desertos e cavernas secretas, apareceram em público, reconstruíram as igrejas que haviam sido lançadas ao chão, fundaram, erigiram e terminaram os templos dos santos mártires. Desta forma, demonstraram suas insígnias de vitória em todos os lugares. Eles ainda organizaram festivais e celebraram seus ritos sagrados com corações e bocas limpas. Esta paz teve continuidade nas igrejas da Bretanha até o tempo da fúria ariana, a qual tendo corrompido todo o resto do mundo com o veneno de suas flechas, infectou também esta ilha, apesar de estar tão removida do compasso do mundo. Quando a peste foi desta forma trazida do outro lado do mar, abriram-se as comportas, e toda a sorte de veneno e heresia imediatamente correu para a ilha, e ali foram recebidos por seus habitantes, sempre amigos de algo novo, e nunca se agarrando firmemente a coisa alguma.

Neste tempo, Constâncio, que, enquanto Diocleciano era vivo governou a Gália e a Espanha, um homem de extraordinária mansidão e cortesia, morreu na Bretanha. Este homem deixou um filho de nome Constantino, nascido de sua concubina Helena, como imperador dos galeses. Eutrópio escreve que Constantino, tendo se tornado imperador na Bretanha, sucedeu seu pai no trono. No seu tempo a heresia ariana se iniciou, e apesar de ter sido detectada e condenada no Concílio de Nicéia, ainda assim infectou não somente todas as igrejas do continente, mas mesmo aquelas das ilhas, com doutrinas pestilentas e fatais.

IX - Como durante o reinado de Graciano, Maximus, tendo se tornado imperador na Bretanha, retornou à Gália com um poderoso exército [383 d. C.]

No ano 377 da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, Graciano, quadragésimo desde Augusto, teve o controle do império após a morte de Valente, apesar de ter reinado desde muito antes com seu tio Valente e seu irmão Valentiniano. Considerando o estado do Império, constantemente atormentado e quase à ruína, ele procurou por alguém com habilidades que pudessem remediar os males existentes. Sua escolha caiu em Teodósio, um espanhol. A este ele revestiu com o púrpura dos mantos reais em Sirmium, e o fez imperador da Trácia e das províncias do Oriente. Neste tempo, Maximus, um homem de valor e probidade e merecedor das honras de Augusto se não tivesse através da usurpação e da tirania quebrado o juramento de fidelidade que havia feito, foi declarado imperador pelo exército e passou para a Gália.

De lá, através de traição, matou o Imperador Graciano, que estava consternado por esta repentina invasão e tentava escapar para a Itália. Seu irmão, Valentiniano, expulso da Itália, fugiu para o Oriente, onde foi recebido por Teodósio com afeição paterna, logo restaurando o Império. Maximus o tirano, sitiado em Aquiléia, foi neste lugar preso e executado.

X - Como, no reino de Arcádio, Pelágio, um bretão, desafiou insolentemente a Graça de Deus

No ano do Senhor de 394, Arcádio, filho de Teodósio, quadragésimo terceiro desde Augusto, assumindo o Império com seu irmão Honório, teve o controle deste por treze anos. Em seu tempo, Pelágio, um bretão, espalhou por todos os cantos a infecção de sua pérfida doutrina contra a assistência da Graça Divina, sendo auxiliado nisto pelo seu comparsa Juliano, da Campânia, cuja ira havia sido despertada pela perda de seu episcopado, do qual ele havia sido privado por santo Agostinho. Os outros patriarcas ortodoxos, tendo citado muitos milhares de autoridades católicas contra eles, ainda assim não corrigiram sua loucura, ao contrário, sua insensatez foi assaz aumentada pela contradição, e eles se recusaram abraçar a verdade, fato que Próspero, o Retórico, expressou belamente neste verso heróico:

“Um escriba vil, cheio de infernal veneno mesquinho,

Ousou escrever contra o grande Agostinho;

Serpente presunçosa! Vindo de qual ninho noturno

Ousas arrastar-te pela terra e observar um ser humano?

Tu fostes alimentado pelas planícies bretãs cercadas de mar,

Ou então, em teu seio, o enxofre Vesuviano está a reinar.”

XI - Como, durante o reinado de Honório, Graciano e Constantino tornaram-se tiranos na Bretanha. A seguir, ocorre o assassinato do primeiro na Bretanha e do segundo na Gália

No ano de 407, Honório, filho mais jovem de Teodósio e quadragésimo quarto imperador desde Augusto, dois anos antes da invasão de Roma por Alarico, rei dos Godos – quando as nações dos Alanos, Suevos, Vândalos, e muitas outras com essas arrasaram toda a Gália, atravessando o Reno – fez com que Graciano Municipal fosse marcado como um tirano e morto. Em seu lugar foi escolhido Constantino como imperador, um dos soldados mais cruéis, apenas pelo seu nome e sem nenhum valor que o recomendasse. Assim que tomou para si o comando, atravessou a fronteira da França. Ali, sendo muitas vezes incomodado por bárbaros com seus tratados falsos, causou muito dano ao Império. Então, o conde Constâncio, pelo comando de Honório, marchou através da Gália com um exército, cercou Constantino e o matou na cidade de Arles. Seu filho Constante, que criou César com um monge, foi também executado por Gerôncio, seu próprio conde, em Vienne.

Roma foi tomada pelos Godos no ano de 1164, desde sua fundação. Então os romanos cessaram de reinar na Bretanha, quase 470 anos após Caio Júlio César ter desembarcado na ilha. Eles residiam dentro da fortificação que, como mencionamos, Severo construiu, dividindo a ilha na sua parte sul, como dão testemunho até hoje as cidades, templos, pontes e estradas pavimentadas construídas lá; mas eles tinham o direito de domínio em todas as partes da Bretanha, e também sobre as ilhas além dela.

XII - Os bretões, tendo sido arrasados pelos escotos e pictos, buscam o socorro dos romanos que, vindo uma segunda vez, constróem uma muralha em torno da ilha. Mas sendo novamente invadidos pelos inimigos já mencionados, os bretões são levados a uma situação ainda mais angustiante que antes

Desde aquele tempo, a parte sul da Bretanha, destituída de soldados armados, de armazéns de material de guerra e de toda a sua juventude, que tinha sido levada dali pela dureza dos tiranos para nunca mais retornar, foi totalmente exposta à rapina, sendo totalmente ignorante a respeito do uso de armas. Dessa forma, eles sofreram muitos anos sob duas nações estrangeiras bastante selvagens, os escotos do ocidente e os pictos do norte. Chamamos estas nações de estrangeiras não por estarem situadas fora da Bretanha, mas porque eram distantes daquela parte da ilha possuída pelos bretões; dois braços de mar ficavam entre elas, um dos quais penetra profundamente por dentro da Bretanha, do oceano oriental, e o outro do ocidental, apesar de não chegarem a tocar um ao outro. O braço oriental tem no meio dele a cidade de Giudi. O oriental tem nele, ou melhor, no seu lado direito, a cidade de Alcluith, que em sua língua significa “Rocha Cluith”, pois fica próxima ao rio deste nome.

Devido ao levante destas nações, os bretões enviaram mensageiros a Roma com cartas escritas de forma lamentosa, implorando por socorro e prometendo submissão perpétua, desde que o inimigo iminente fosse afastado. Uma legião armada foi enviada imediatamente e, chegando na ilha e atacando o inimigo, matou uma multidão destes, expulsou o restante dos territórios de seus aliados, e os tendo salvo de seus cruéis opressores, os aconselharam a construir uma muralha entre os dois mares, atravessando a ilha, para que esta os protegesse e mantivesse o inimigo à distância. Dessa forma, eles retornaram para suas casas em grande triunfo. Os habitantes da ilha, ao levantarem a muralha – não de pedra, como tinham sido aconselhados, pois possuíam artesão capaz de tal tarefa, mas de barro – tornaram-na inútil.

Entretanto, eles a estenderam por muitas milhas entre as duas baías ou braços de mar, os quais já mencionamos, a fim de que, onde a defesa por água não existisse, eles pudessem usar a fortificação para defender suas fronteiras dos levantes inimigos.

Deste trabalho que foi erigido, ou seja, de uma fortificação de largura e altura extraordinárias, existem traços evidentes que podem ser vistos até hoje. Ela inicia a aproximadamente duas milhas de distância do mosteiro de Abercurnig, no ocidente, em um lugar chamado no idioma picto de Peanfahel, mas no idioma dos anglos de Penneltun, e corre na direção oeste, terminando próxima à cidade de Alcluith.

Mas os antigos inimigos, quando perceberam que os soldados romanos haviam partido, voltaram imediatamente por mar, invadiram as fronteiras, pisotearam e percorreram todos os lugares como homens moendo milho maduro, dominando quem se opunha a eles. Então, mensageiros foram novamente enviados a Roma, implorando ajuda, para que sua desesperada nação não fosse completamente extirpada, e para que o nome de uma província romana, por tanto tempo valorizada por eles, fosse derrubado pelas crueldades de estrangeiros bárbaros e se tornasse completamente desprezível.

Conseqüentemente, uma legião foi novamente enviada, e chegando inesperadamente no outono, causou grande devastação ao inimigo, fazendo com que todos aqueles que pudessem escapar fugissem para além-mar; onde antes carregavam prazerosamente seus espólios sem oposição alguma. Então os romanos disseram aos bretões que no futuro eles não poderiam levar a cabo tão custosas expedições por sua causa. Aconselharam-nos, ao invés disto, a manejar suas armas como homens, e a tomar para si a responsabilidade de enfrentar seus inimigos, que não eram poderosos demais para eles, a não ser que fossem detidos pela covardia.

Assim, pensando que poderiam ser de alguma ajuda a seus aliados, que estavam sendo forçados a abandonar, eles construíram uma forte muralha de pedra de costa a costa, em uma linha reta entre as cidades que tinham sido construídas ali por medo do inimigo, não muito distante da trincheira de Severo. Esta muralha famosa, que ainda pode ser vista, foi construída com esforços públicos e privados, e os bretões também deram sua ajuda. Tem oito pés de largura, doze pés de altura, em uma linha reta de leste a oeste, como as pessoas ainda podem ver.

Tendo terminado esta muralha, deram ao desencantado povo um bom conselho como exemplo, fornecendo-lhes armas. Além disso, construíram torres na costa sul, com uma distância apropriada uma da outra, onde estavam seus navios, porque ali também ocorreram levantes bárbaros, e então se despediram de seus amigos, para nunca mais retornar.

Após sua partida, escotos e pictos, compreendendo que os romanos haviam declarado que não voltariam mais, voltaram rapidamente, e, tornando-se mais confiantes que antes, ocuparam toda a parte norte mais distante da ilha, até a muralha. Então, uma trêmula guarda foi posta na muralha, onde eles sofriam dia e noite, cobertos de medo. No outro lado, os inimigos os atacavam com ganchos, através dos quais os covardes defensores eram derrubados da muralha e lançados ao chão.

Finalmente, o bretões, abandonando sua muralha e suas cidades, fugiram e se dispersaram. O inimigo os perseguiu, e a matança foi maior que em qualquer ocasião anterior, pois os miseráveis nativos foram despedaçados por seus inimigos como ovelhas são despedaçadas por feras. Desta forma, sendo expulsos de suas casas e destituídos de suas posses, eles escaparam da morte por inanição, roubando e pilhando uns aos outros, adicionando seus problemas domésticos às calamidades causadas pelos estrangeiros até que todo o território ficou destituído de comida, com exceção daquela que podia ser caçada.


Tradução: Profª. Assunção Medeiros

Continue lendo...

Hierarquia Celeste - Anônimo (~séc. V).


Hierarquia Celeste
São Dinis, o Areopagita (Pseudo-Dioníso)
________________________________


Introdução.

O presente trabalho consiste na apresentação da obra de referência obrigatória no estudo da Angeologia, "Hierarquia Celeste" de São Dinis, o Areopagita.

A apresentação tem por base o texto publicado nas "Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys l’Areopagite" traduzido para o francês, anotado e comentado por Maurice de Gandillac numa edição apresentada em 1980 pela Editora Aubier na sua coleção "Bibliothèque Philosophique". É importante advertir desde já que o texto aqui exposto não corresponde a uma tradução rigorosa e integral da obra para o português. Pretende-se somente proporcionar uma abordagem relativamente facilitada a um texto que nada tem de fácil, nem no seu estilo, nem no seu conteúdo.

São Dinis o Areopagita foi discípulo de São Paulo, o qual ministrou a ele os primeiros conhecimentos dos mistérios divinos. Encontramos a respeito dele uma referência nos Atos dos Apóstolos: "Assim saiu Paulo do meio deles. Todavia algumas pessoas, agregando-se a ele, abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita..." (At 17:33-34).

Ele teria sido o primeiro ateniense convertido por São Paulo e foi o primeiro bispo de Atenas. A sua obra teve grande impacto em toda a igreja sobretudo após a divulgação que se iniciou em meados do século V. Em sua teologia transparece uma forte formação filosófica imbuída do pensamento neo-platônico.

Os seus textos mais conhecidos no nosso tempo são: "Hierarquia Celeste", "Hierarquia Eclesiástica", "Os Nomes de Deus", "Teologia Mística" e 10 cartas.

As críticas históricas, tanto as que procuram examinar as evidências externas como as que se dedicam à investigação do próprio texto, afirmam que as obras não pertencem a São Dinis, mas a um autor desconhecido do século IV ou V. Esse hipotético autor é designado por uns como pseudo-Dinis o Areopagita e por outros como Dinis o pseudo-Areopagita. Alguns afirmam que somente no ano 533 num concílio realizado em Constantinopla os textos de São Dinis o chamado "Corpus dionysiacum" fazem a sua aparição na história.

É claro que os críticos para fazerem valer as suas teses têm que contradizer São Gregório de Nazianzo, São Jerônimo, Orígenes, São Máximo o Confessor, Liberatus de Cartago, além de muitos outros autores.

Sabe-se que existiram doutrinas e costumes elaborados mantidos secretamente desde os tempos de São Paulo, visto que São Basílio o Grande e Tertuliano referiram-se a alguns deles. É possível ainda admitir a existência de contraposições posteriores. Mas a conjunção desses dois fatores era pouco grata aos defensores de ambas as teses.

De qualquer forma, além dessa polêmica, os textos afirmam-se de modo especial em virtude do seu valor interno. Os cristãos ortodoxos foram sempre aqueles que os invocaram em virtude da sua retidão dogmática, solidez filosófica e profundidade espiritual. Entre eles destacam-se São Máximo o Confessor, São João Damasceno, São Teodoro o Estudita, São Symeão o Novo Teólogo e São Gregório de Palamas. Entre outros aprofundamentos teológicos podemos citar a teologia apofática como aquela que tem em São Dinis o seu deliberador.

Os seus textos se difundiram largamente tanto no ocidente como no oriente cristão. São Máximo o Confessor (580-662) fixa-nos definitivamente no seio da tradição oriental. Até São Gregório de Palamas e mesmo depois dele São Dinis é considerado como o verdadeiro inspirador de toda a mística. No ocidente foi necessário esperar mais dois séculos para que a importância do "Corpus dionysiacum" se impusesse através de João Scot que demonstrou entusiasmo por ele.

A "Hierarquia Celeste" é constituída de 15 capítulos ao longo dos quais São Dinis nos fala da iluminação divina, da relação entre os símbolos, das alegorias e dos mistérios divinos a eles associados, da função hierárquica, do significado dos nomes dos anjos, da composição das três grandes ordens angélicas e das imagens utilizadas para a representação dos seres angélicos. Porém, para conhecermos a obra nada melhor do que mergulharmos no próprio texto.

Pe. Sérgio

Capítulo I.

A Luz irradia do Pai. A Luz saí d’Ele para nos iluminar com os Seus excelentes dons. Apenas Ela nos restabelece e nos eleva. É Ela que nos converte à unidade do Pai segundo as Sagradas Escrituras: "Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas..." (Rom 11: 36).

"Toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito vêm do alto e descende do Pai das Luzes..." (Tg 1: 17).

É por isso que invocando Jesus, Luz do Pai, através do Qual temos acesso ao Pai, princípio de toda a Luz, elevemos nossos olhos tanto quanto pudermos até as iluminações provenientes das Sagradas Escrituras e iniciemos na medida das nossas forças, no conhecimento da hierarquia das inteligências celestes tal como nos revelam as próprias Escrituras: "(O Verbo) era a Luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo" (Jo 1:9).

Os santos que primitivamente regularam os nossos ritos religiosos, organizaram a nossa hierarquia sagrada segundo o modelo das hierarquias celestes. Essas hierarquias encontram-se revestidas na sua descrição de uma variedade de figuras e formas materiais para que elevemos a nossa compreensão de forma analógica desses símbolos, às realidades espirituais, das quais esses símbolos são apenas imagens.

De fato, é para nós impossível a contemplação das hierarquias celestes sem utilizarmos meios materiais adequados a nossa natureza para nos guiarmos nessa contemplação. A beleza manifesta-se na harmonia das figuras, os aromas agradáveis representam a iluminação intelectual, a luz material representa a efusão de luz imaterial e a recepção da Santa Eucaristia manifesta a participação em Jesus.

A nossa própria hierarquia imita a hierarquia celeste o tanto quanto possível enquanto instituição humana, a fim de que ela entre em colegialidade com o sacerdócio angélico.

Capítulo II.

É necessário que elevemos a nossa compreensão a partir das alegorias com as quais as inteligências celestes nos são representadas nas Sagradas Escrituras, a fim de não deduzirmos como pensaria qualquer pessoa desprevenida, que as inteligências celestes têm vários pés e vários rostos, que elas se assemelham ao gado como os bois, que apresentam o aspecto selvagem do leão, o bico curvo da águia, ou ainda, que possuem asas e penas como as aves. Não devemos imaginá-las como rodas inflamadas girando no céu, como guerreiros a cavalos armados de lanças, nem sob outras formas que as Sagradas Escrituras nos transmitem através de uma variedade de símbolos reveladores.

Se os teólogos aplicaram essa imaginação poética às inteligências celestes foi porque tiveram em conta o caráter humano da nossa inteligência, a fim de nos proporcionarem um meio de elevação espiritual adaptado a nossa natureza.

Se aceitarmos essas alegorias como figurações de realidades que não podemos conhecer nem contemplar, julgaremos que as imagens usadas pelas Sagradas Escrituras para representar as inteligências celestes são inadequadas ao seu objetivo, que os nomes atribuídos aos anjos não correspondem senão muito parcialmente às realidades que sugerem. Contrapomos, que para materializar os anjos os teólogos deveriam ter utilizado imagens tanto quanto possível adequadas ao seu objeto, utilizando substâncias que consideramos como sendo as mais nobres, ao invés de ligar à essas realidades uma multiplicidade de figuras retiradas do que poderia ser considerado como pertencendo às mais baixas realidades terrestres. Assim, a alegoria seria mais rica de ensinamentos espirituais e não nos arriscaríamos a ofender a dignidade das potências divinas. Com efeito, não seríamos levados a imaginar que o céu está cheio de rebanhos de leões, manadas de cavalos, bandos de pássaros e de outros animais com essas alegorias inadequadas?

Mas se procurarmos a verdade estará claro para nós, que os autores Sagrados tiveram o cuidado providencial de simultaneamente dar expressão contida a tudo isso que os nossos contraditores consideram um ultraje às potências divinas e nos pouparão dos riscos de uma ligação excessiva a tudo que tais símbolos podem ter de baixo e vulgar.

Se é necessário dar figura ao desfigurado, dar forma ao que está sem forma, não é somente porque somos incapazes de contemplar diretamente essas realidades, mas porque convém às passagens místicas das Sagradas Escrituras ocultar sob a forma de enigmas, a santa e misteriosa unidade dessas inteligências que não pertencem a esse mundo. Porque nem todos são santos e como dizem as Sagradas Escrituras: "Mas nem em todos há a ciência..." (1Co 8:7).

Quanto ao caráter inadequado das imagens escriturísticas, é necessário responder a essa objeção afirmando que a revelação do sagrado se faz de dois modos: o primeiro modo procede por imagens adequadas ao seu objeto; o segundo modo pelo contrário passa pela inadequação das imagens que modela levada até à extrema inacreditibilidade, até o absurdo. É por isso que as Sagradas Escrituras se referem a Trindade sobreessencial com os nomes de Razão, Inteligência e Essência, manifestando assim o que convém atribuir a Deus de racionalidade e sabedoria: designando-A como Substância que subsiste por si própria, como causa verdadeira da existência de todos os seres, ou ainda, como Luz e Vida.

Essas designações são seguramente mais santas e parecem de algum modo superiores às imagens materiais. Mas na realidade elas são menos deficientes que as outras se se pretender significar toda a Verdade da própria Divindade que está para lá de toda a essência e de toda a vida e que não se caracteriza por nenhuma luz, da qual nenhuma razão e nenhuma inteligência pode dar uma imagem autêntica.

É por isso que também acontece de celebrar-se nas mesmas Escrituras a Trindade, representando-A de um modo que não é desse mundo, por imagens que não se Lhe assemelham de modo algum. Elas descrevem-Na como invisível, ilimitada e incompreensível, não procurando significar o que Ela é, mas o que Ela não é.

A meu ver, essa segunda maneira de celebrar a Santíssima Trindade Lhes convém melhor, porque seguindo a tradição sagrada nós temos razão em dizer que Ela não é nada do que são os outros seres, e nós ignoramos essa indefinível Sobreessência que não se pode pensar nem dizer.

Assim, as negações são verdadeiras no que concerne aos mistérios divinos, enquanto que toda afirmação pela positiva permanece inadequada. Convém mais ao caráter secreto d’Aquele que permanece em si próprio incomum, não revelar o invisível a não ser através de imagens sem semelhança com o seu objeto.

(São Dinis nos introduz em dois métodos teológicos: o afirmativo ou Catafático e o negativo ou Apofático. O primeiro, que São Dinis considera menos adequado, refere-se a Deus através de afirmações como: Deus é Amor, Verdade, Mestre, Senhor, Pai, Todo-Poderoso, Santo, Eterno, etc. O método Apofático proposto por São Dinis procede pela negativa, como também nos fala São João Crisóstomo, o reconhecimento da incompreensibilidade de Deus é a única maneira de compreendê-Lo. Esse método refere-se a Deus como sendo Inacessível, Inexprimível, Invisível, Incompreensível, Imutável, etc.).

Portanto, longe de humilhar as legiões celestes as alegorias honram-nas, porque mostram até que ponto essas legiões que não pertencem a este mundo excluem toda a materialidade.

(Temos que entender esse termo "materialidade" como empregado para designar uma materialidade terrena. De fato, só Deus é espírito puro e todas as criaturas mesmo as angélicas são dotadas de alguma materialidade).

A utilização de figuras sagradas de natureza mais elevada nos induziria mais facilmente a erros, porque elas nos levariam a imaginar as essências celestes como figuras de ouro, ou como seres luminosos lançando raios, ou como seres de bela estatura revestidos de suntuosas vestes repletas de esplendor, ou sob todas as outras formas do mesmo gênero de que a teologia fez uso para representar as inteligências celestes: "O que falava comigo tinha uma cana de ouro de medir, para medir a cidade, as suas portas e o muro" (Apoc 21:15).

"Como estivessem olhando para o céu, quando Ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de branco..." (At 1:10). "E, fixando Nele os olhos todos os que estavam sentados no conselho, viram o Seu rosto como o rosto de um anjo" (At 6:15). "Passados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do Monte Sinai um anjo na chama de uma sarça que ardia" (At 7:30). "Porque um anjo do Senhor desceu do Céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra e sentou sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago. A sua veste branca como a neve" (Mt 28:2-3).

Não importa qual imagem possa servir de ponto de partida para a bela contemplação, o que importa é que possamos nos apoiar em figurações materiais para aplicar a esses seres que são inteligíveis e inteligentes as metáforas sem semelhança com o objeto do qual falamos atrás, na condição de nunca esquecermos a grande diferença existente entre o comportamento dos seres inteligentes e o comportamento dos seres sensíveis (esses são privados de razão).

As alegorias sagradas são usadas pelos teólogos não somente para revelarem as ordens celestes, mas também para manifestarem os mistérios de Deus. Ainda que se refiram a Ele fazendo apelo às mais belas imagens como: Sol de Justiça; Estrela da Manhã (Apoc 22:16; Núm 24:17; 2Pdr 1:19), Luz Radiante (Jo 1:5) e apelo a símbolos de nível mediano como: Fogo que queima sem consumir (Êx 3:2), Água que conduz à plenitude da vida e de metáforas vulgares quando se fala por exemplo de Ungüento suave; Pedra Angular (Ef 2:20), mesmo assim as Sagradas Escrituras fazem ainda uso de figuras animais quando atribui a Deus qualidades do leão e da pantera ou quando apresenta-O como um leopardo ou como um urso que perdeu os seus filhos (Os 13:7).

Finalmente, o apelo à metáfora mais indigna de todas e que parece ser a mais inadequada: com efeito, não foi sob a forma de um vaso de terra que os admiráveis intérpretes dos ministérios divinos nos representaram?

Por tudo isso, vemos que nada há de absurdo, quando os teólogos representam igualmente as essências celestes por imagens inadequadas que não apresentam nenhuma semelhança com o seu modelo original. Talvez não tivéssemos procurado a interpretação espiritual minuciosa dessas santas realidades, se não tivéssemos perturbados pelo caráter disforme das imagens que nas Sagradas Escrituras representam os anjos.

Capítulo III.

Hierarquia é uma santa ordem, um saber e uma ação tão próxima quanto possível da forma divina elevada à imitação de Deus na medida das iluminações divinas. Na sua simplicidade, na sua bondade, na sua perfeição fundamental, na perfeição que convém a Deus, comunica a cada ser segundo o seu mérito uma parte da sua própria luz. Ela o aperfeiçoa através da iniciação divina, revestido da sua própria forma, de modo harmonioso e estável àqueles que ela aperfeiçoou.

A finalidade da hierarquia consiste em conferir às criaturas tanto quanto possível a semelhança divina para uní-las a Deus. Deus é para a hierarquia, com efeito, o mestre de todo o conhecimento e de toda a ação. Ela não cessa de contemplar a Sua divina bondade e dos seus seguidores ela faz imagens perfeitas de Deus. Tendo recebido a plenitude do Seu esplendor elas são capazes, seguindo os preceitos da Trindade, de transmitir essa luz até mesmo aos seres que lhe são hierarquicamente inferiores.

Assim, quando se fala de hierarquia, se entende por isso uma certa ordenação perfeitamente santa, imagem do esplendor divino, tendendo tanto quanto possível e sem sacrilégio assemelhar-se Àquele que é o seu próprio princípio. Para cada um dos membros da hierarquia a perfeição consiste em imitar a Deus o melhor que puder, tornando-se "cooperadores" Dele.

"Efetivamente, nós somos cooperadores de Deus..." (1Cor 3:9).

Se, por exemplo, a ordem hierárquica impõe a uns a função de receber a purificação e a outros a de purificar; a uns a de receber a iluminação e a outros a de iluminar; a uns a de receber o aperfeiçoamento e a outros a de aperfeiçoar; cada um imitará a Deus segundo o modo que convém a sua própria função.

Convém, que os purificados se libertem de toda a impureza e de toda a dissemelhança; que os iluminados recebam a plenitude da luz divina e que elevem a sua inteligência até atingirem a capacidade de contemplar; que os perfeitos tenham abandonado toda a imperfeição e tomem parte da perfeição dos iniciados; e que os iluminadores, com inteligências mais transparentes que as outras, difundam essa luz por todos os lados e por todos aqueles que forem dignos dela.

Assim, cada escalão da ordem hierárquica na medida de suas forças eleva-se para a cooperação divina e ao seu redor cada um revela essa cooperação às inteligências que amam a Deus, cumprindo na virtude e sob a ação da Graça o que a própria Divindade cumpre graças ao Seu caráter sobreessencial.

Capítulo IV.

Antes de mais nada, queremos afirmar em primeiro lugar que foi por bondade que a Divindade criou essa ordem hierarquia, porque Lhe pertence esse Bem totalmente transcendente a chamar todos os seres para entrarem em comunhão com Ela na medida da capacidade de cada um. É por isso que tudo que existe tem alguma relação com a Divindade, a Causa Universal, porque sem a participação n’Ela que é a essência e o princípio de todo o ser, nada existiria.

É, portanto, a esses seres que recebem de forma inicial e múltipla a participação divina e que revelam ao seu redor de modo original e múltiplo o mistério da Divindade, que é atribuído de forma louvável e sublime o título de seres angélicos — pois eles receberam em primeiro lugar a iluminação e é por intermédio deles que nos são transmitidas essas revelações que ultrapassam a todos nós. Como ensina a teologia, a Lei nos foi transmitida pelos anjos.

"Para que é então a Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a descendência, a quem tinha sido feita a promessa, e foi promulgada pelos anjos na mão de um mediador" (Gál 3:19).

Foram os anjos que guiaram os nossos veneráveis antepassados em direção às realidades divinas; tanto nos tempos que precederam a Lei, como no tempo da Lei; tanto na prescrição a eles de regras de conduta desviando-os de uma vida repleta de erros e de pecados, assim como na revelação da interpretação da santa hierarquia e das visões secretas dos mistérios que não são deste mundo; como também ainda na revelação das profecias divinas.

"Vós, que recebestes a Lei por ministério dos anjos e não a guardastes" (At 7:53). "Este viu claramente numa visão, cerca da hora de Noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele e lhe dizia: Cornélio" (At 10:3).

Se argumentar-se que Deus manifestou-Se sem intermediários a algum santo, que se saiba que nunca ninguém O viu e nem jamais O verá, porque essa verdade provem claramente das Sagradas Escrituras e é a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto.

"Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a conhecer" (Jo 1:18). "...Que é o Único que possui a imortalidade e que habita numa Luz inacessível, O qual não foi nem pode ser visto por nenhum homem, ao qual seja dada honra e império sempiterno. Amém" (1Tim 6:16).

Seguramente, Deus apareceu a certos homens piedosos segundo o modo que convinha a Sua divindade, revelando-Se por visões adaptadas à medida dos visionários. A santa teologia tem razão ao chamar visão divina ― Teofania ― a essa espιcie de apariηão, na qual se reflete a semelhança divina segundo o modo que convém à figuração do infigurável, isto é, elevando espiritualmente os visionários para as realidades divinas. Com efeito, através dessa visão os visionários recebem a plenitude da iluminação divina e uma certa iniciação sagrada em relação aos mistérios de Deus. Os nossos ilustres antepassados não foram iniciados através dessas visões, senão por intermédio das potências celestes.

Há de se cogitar, que a tradição escriturística afirma que os mandamentos da Lei foram transmitidos diretamente por Deus a Moisés. Certamente! Mas se as Sagradas Escrituras assim se exprimem é para que não ignoremos que essas prescrições são a própria imagem da Lei divina e sagrada. A teologia ensina sabiamente que essas prescrições vieram até nós por intermédio dos anjos, para que a ordem instituída pelo Divino Legislador nos ensine que é por intermédio de seres hierarquicamente superiores que se elevam espiritualmente para o Divino aqueles que Lhe são inferiores.

"Porque, se a palavra anunciada pelos anjos ficou firme, e toda a prevaricação e desobediência recebeu a justa retribuição que merecia..." (Hebr 2:2).

Mesmo ao que concerne ao mistério divino do amor de Jesus pelos homens foram os anjos que em primeiro lugar receberam a iniciação. E foi por intermédio deles que esse conhecimento desceu até nós.

Foi assim que o divino Gabriel ensinou ao grande sacerdote Zacarias que o filho que iria ter contra toda a sua esperança, mas pela graça de Deus, seria o profeta da obra divino-humana, através do qual Jesus operaria para bem do mundo e para a sua salvação.

Igualmente o arcanjo Gabriel ensinou à Santíssima Virgem Maria que nela se cumpriria o mistério da Encarnação. Um outro anjo instruiu José sobre a verdade dos acontecimentos e sobre o cumprimento das promessas divinas feitas a Davi. Foi um anjo que difundiu a boa nova aos pastores, que eram de algum modo homens purificados pela vida tranqüila que levavam e afastados das multidões, ao mesmo tempo que os exércitos celestes transmitiam a toda a terra o célebre cântico de glorificação "Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens a quem Ele ama".

Por intermédio dos anjos José foi avisado que ele deveria partir para o Egito e assim novamente quando de seu regresso a Judéia. Não falou também Jesus a nós como um mensageiro quando Ele nos comunicava a vontade do Pai?

Capítulo V.

Importa agora procurar a razão pela qual os teólogos chamam anjos a todas as essências celestes indistintamente, enquanto reservam o termo angélico mais propriamente à ordem mais baixa que é subordinada às legiões dos Arcanjos, dos Principados, das Potestades, das Dominações, essências das quais a tradição revela e as Escrituras reconhecem como superiores.

Ora, nós afirmamos que em toda a ordenação sagrada as ordens superiores possuem todas as iluminações das ordens inferiores, sem que essas últimas participem nos privilégios das que lhe são superiores. É por isso que os teólogos chamam de anjos os escalões mais altos e mais santos das essências celestes, porque eles são reveladores da iluminação divina.

Quando fazemos referências à ordem inferior não seria adequado designar os seus membros de Principados, Tronos ou Serafins, porque eles não participam de modo algum das capacidades das essências celestes que possuem um nível superior. O que podemos afirmar é que se todos os anjos recebem um nome comum isto se sucede também pelo fato das potências celestes possuírem em comum o poder de permanecerem em harmonia com Deus e de entrarem em comunhão com a luz que vem de Deus.

Capítulo VI.

Quais e quantas são as ordens desses seres que vivem no Céu? Como é que cada hierarquia recebe a sua consagração ou o seu aperfeiçoamento? Afirmo que apenas o Princípio Divino poderia responder exatamente a essas questões. Mas os seres angélicos não ignoram nem as qualidades que lhes são próprias, nem a hierarquia sagrada que os rege e que não pertence a este mundo.

É impossível conhecermos os segredos das inteligências que vivem no céu, a menos que Deus nos revele por intermédio dessas mesmas inteligências, as quais não ignoram a sua própria natureza. Portanto, não faremos nada de nossa própria autoria e nos contentaremos em expor na medida dos nossos conhecimentos essas visões angélicas, tal como os santos teólogos as contemplam e tal como eles a nós revelaram.

Os seres angélicos dividem-se em três ordens e possuem nove nomes.

A primeira ordem rodeia a Deus de modo permanente e está unida a Ele constantemente. Ela está em primeiro lugar e não possui qualquer mediação: são os Tronos santíssimos e os batalhões notáveis por seus números de olhos e de asas que recebem os nomes de Querubins e Serafins. Eles têm uma proximidade de Deus superior a todos os outros. Essa ordem de três batalhões formam uma só e constitui a primeira hierarquia de nível igual.

A segunda ordem compõe-se de Virtudes, Dominações e Potestades constituindo a segunda hierarquia.

A terceira ordem constitui a última hierarquia celeste. É a ordem dos Anjos, Arcanjos e Principados.

Capítulo VII.

Todos os nomes atribuídos às inteligências celestes designam capacidades para eles receberem a semelhança divina.

Querubim em hebraico significa "aquele que arde". Significa também "massa de conhecimento e efusão de sabedoria".

A primeira hierarquia é a mais sublime de todas e graças a sua proximidade com Deus recebe primeiro que as outras as aparições Dele e os seus nomes revelam o modo como se ligam a Ele.

Os Serafins têm como qualidades especiais o movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor dum constante movimento que não conhece diminuição, o poder de elevarem eficazmente as suas semelhanças aos que lhes são inferiores, comunicando-lhes o mesmo ardor a mesma chama e o mesmo calor. Eles têm o poder de purificarem a evidente e indestrutível aptidão para conservarem a sua própria luz, o seu poder de iluminação e a faculdade de abolirem todas as trevas.

Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino, a acolherem em si a plenitude dos dons que transmitem sabedoria e a comunicá-los em seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi transmitida.

Os Tronos, sublimes e luminosos, indicam a ausência total de qualquer concessão aos bens inferiores e a tendência contínua para os cumes, que sublinha bem o fato de eles nada terem em comum com o que lhes está abaixo. Eles indicam a sua infalível aversão a toda indignidade, a grande concentração de toda a sua capacidade para se manterem constante e firmemente perto do Altíssimo, a capacidade de receberem indiferentemente todas as visitações da Divindade, o privilégio que têm de servirem de assento a Deus e o seus zelos em se abrirem aos dons de Deus.

Essa é a explicação de seus nomes na medida do que nos é possível revelar aos homens.

Resta-nos dizer o que entendemos pela suas hierarquias. Que o objetivo de toda hierarquia é imitar constantemente a Deus; que toda a função hierárquica consiste em acolher e transmitir a pureza sem mistura da luz divina e da sabedoria, como já o dissemos.

Agora proponho-me a mostrar o que as Escrituras revelam das suas hierarquias.

Esses seres angélicos constituem uma só hierarquia inteiramente homogênea. Devemos pensar que eles são puros não apenas por estarem livres de todo o pecado e de tudo o que é profano, mas porque eles ignoram toda a imaginação material; porque estão acima de toda a fraqueza; porque a sua sublime pureza ultrapassa a de quaisquer outras inteligências angélicas; porque conservam sem qualquer perda ou corrupção a estabilidade perpétua do poder que possuem de estarem em harmonia com Deus.

Eles são igualmente contemplativos. Não porque contemplem intelectualmente símbolos nem porque se elevem espiritualmente através de santas alegorias, mas porque recebem em toda a plenitude o saber de uma Luz superior através da contemplação desse Ser Sobreessencial e triplamente luminoso, que está na origem e no princípio de toda a beleza. Eles têm igualmente o mérito de entrarem em comunhão com Jesus através de uma verdadeira proximidade, pois tomam parte no conhecimento de Suas operações divinas, uma vez que lhes foi dada no mais alto grau a capacidade de imitarem a Deus. Eles entram em contato tanto quanto lhes é possível com as virtudes, pelas quais Ele exerce a Sua ação divina face aos homens e manifesta o Seu amor por eles.

Eles são perfeitos não pela iluminação de uma sabedoria que lhes permitiria analisar a variedade dos santos mistérios, mas pela plenitude duma deificação, pela ciência superior que possuem na qualidade de mensageiros das operações divinas. É diretamente de Deus que eles recebem a iniciação sagrada e é graças a esse poder de se elevarem diretamente até Deus, que eles devem a superioridade sobre todos os outros seres.

Os teólogos mostram claramente que as ordens inferiores das essências celestes aprendem de seus superiores tudo o que lhes concernem às operações divinas, enquanto que a ordem mais elevada é iniciada por Deus. Eles nos revelam, que certos anjos são iniciados por aqueles que possuem um nível mais elevado que o seu e que aprendem através desses, que Deus é o Senhor das potências celestes, o Rei da Glória, que sob a forma humana subiu aos céus. Outros recebem de Jesus Cristo a sua iniciação sem intermediários, recebendo d’Ele antes de todos os outros a revelação da obra redentora que Ele levou a cabo por amor aos homens.

"Eu sou (responderá Ele) O que falo a justiça, e venho para defender e salvar" (Is 63:1).

Assim é, tanto quanto eu posso conhecer, essa primeira ordem das essências celestes, aquela que rodeia a Deus e que se situa na Sua vizinhança, aquela que envolve o Seu perpétuo conhecimento. Ela pode não somente contemplar, mas ainda receber iluminações e sustentar-se do maná divino.

Digna ao mais alto nível, de entrar em comunhão e em cooperação com Deus, essa primeira ordem assemelha-se tanto quanto pode à bondade dos poderes e das operações próprias a Deus.

É por isso que a teologia nos transmite os hinos que cantam esses anjos, onde se manifesta o caráter transcendente da sua sublime iluminação. Se ousarmos utilizar uma imagem terrena, eles se assemelham à voz de uma torrente tempestuosa quando gritam: "Bendita seja a glória do Senhor, que se vai do seu lugar" (Ez 3:12). Outros anjos entoam o hino célebre e venerável: "Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3).

Nessa primeira ordem das essências celestes estão os lugares divinos, onde segundo a expressão das Sagradas Escrituras a Divindade "repousa". Essa ordem ensina também aos outros anjos que a Divindade é una. Una em Três Pessoas e que Ela exerce a sua Providência benfeitora desde as essências que vivem no céu até as mais baixas criaturas terrenas, pois Ela é o Princípio e a Causa de toda a essência e é Ela que envolve o universo inteiro de modo sobreessencial num abraço irresistível.

Capítulo VIII.

Abordaremos agora a segunda ordem das inteligências celestes iniciando-nos no conhecimento das Dominações, Virtudes e Potestades.

Cada uma dessas denominações revela a forma própria de cada inteligência angélica de imitar e se configurar a Deus.

O nome das santas Dominações significa a elevação espiritual livre de qualquer compromisso terreno tal como convém a uma entidade incorruptível e verdadeiramente livre, tendendo com um firme vigor para o verdadeiro princípio de toda a Dominação, recebendo ela e os seus subordinados à medida das suas forças a semelhança do Senhor e participando do princípio constante e divino de toda a Dominação.

No que concerne às santas Potestades o seu nome indica uma certa vigorosidade corajosa em todos os atos pelos quais se configuram a Deus. Uma vigorosidade que exclui qualquer enfraquecimento de forças no recebimento das iluminações divinas que lhe é outorgada; uma vigorosidade que se eleva corajosamente até a imitação de Deus e que não abandona a ascensão à forma divina e cujo olhar permanece rigidamente direcionado para a fonte de toda a potestade Sobreessencial. Porque essa vigorosidade torna-se imagem da potestade, da qual ela assume a forma, ligando-se a ela com todas as suas forças para fazer descer sobre as essências inferiores o seu processo dinâmico e deificante.

O nome das Virtudes indica que ela tem o nível igual das Dominações e Potestades. Ela é disposta harmonicamente e sem confusão para receber os dons divinos. Ela indica ainda que o poder intelectual que lhe pertence é perfeitamente ordenado e que longe de abusar do seu poder ela se eleva harmoniosamente para as realidades divinas, conduzindo na sua bondade as essências inferiores e imitando tanto quanto pode a virtude fundamental, que é a fonte de toda a virtude sem deixar de difundí-la na medida de sua capacidade.

Eis como a segunda hierarquia das inteligências celestes manifesta a sua identidade com Deus. É assim que ela se purifica, se ilumina e se aperfeiçoa graças às iluminações divinas que lhe são transmitidas pelos membros da primeira ordem hierárquica.

Essa tradição, que se transmite regularmente de anjo a anjo, simbolizará a nós essa perfeição que vinda de longe, se confunde descendo progressivamente do primeiro ao segundo nível. Do mesmo modo, as evidentes perfeições das realidades divinas são mais perfeitas que as participações nas visões divinas que se fazem através de intermediários. Assim parece-me que a participação imediata das ordens angélicas que mais se aproximam de Deus é mais clara que a dos anjos cuja iniciação é mediata. É por isso que segundo os termos consagrados pela nossa tradução as primeiras inteligências iluminam e purificam as que têm um nível (hierárquico) inferior, de modo que essas últimas elevadas por intermédio da primeira até o princípio Universal e Sobreessencial tomem parte tanto quanto lhes é possível nas iluminações e nos aperfeiçoamentos operados por Aquele, que é o princípio de toda a perfeição.

A Lei Universal, pela qual as essências celestes da segunda ordem participam por intermédio das de primeira ordem nas iluminações divinas, é instituída pelo Princípio Divino.

Deus no Seu amor paternal pelos homens depois de ter corrigido Israel para convertê-lo e reconduzí-lo ao caminho da salvação, livrou-o em primeiro lugar da barbárie vingativa das nações, a fim de assegurar o aperfeiçoamento aos homens submetidos a Sua providência e praticou em seguida o ato de libertá-lo de seu cativeiro e de devolvê-lo a sua antiga felicidade. Como diz as Sagradas Escrituras segundo a visão de um de seus teólogos Zacarias (Zac 1:8-17), parece ter sido um anjo da primeira ordem, daqueles que vivem junto de Deus, que recebeu do próprio Deus as palavras consoladoras. Foi enviado ao encontro do primeiro um outro anjo pertencente aos níveis inferiores para receber e transmitir a iluminação e que uma vez iniciado na vontade divina, confiou ao teólogo a santa nova de que Jerusalém refloresceria e que multidões de homens a repovoariam.

Um outro teólogo Ezequiel declara que essa lei foi santamente instituída por Deus e que na Sua glória mais elevada do que qualquer outra, Ele comanda os Querubins.

"Estes são os mesmos animais que eu vi debaixo do Deus de Israel, junto do rio Cobar; e conheci que eram Querubins" (Ez 10:20).

Deus no Seu amor paternal pelos homens e querendo punir Israel para os ensinar ordenou por um ato de justiça que os inocentes fossem separados dos responsáveis. É o primeiro dos Querubins que segundo o texto sagrado recebe a santa ordem e se reveste de um manto que caí até os pés como símbolo da sua função sagrada. Em seguida, somente o Princípio Divino de toda a ordem prescreve ao primeiro dos anjos que o segredo da decisão divina seja transmitido àqueles anjos que usam armas destruidoras. Lhe é ordenado ainda que atravesse toda a cidade de Jerusalém e marque os inocentes nas suas frontes. Aos outros anjos Ele ordena: "Passai pelo meio da cidade, seguindo-o, e feri: não sejam compassivos os vossos olhos, nem tenhais compaixão alguma. O velho, o jovem e a donzela, o menino e as mulheres, matai todos, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o tau; começai pelo Meu santuário. Começaram, pois pelos anciãos que estavam diante da casa do Senhor" (Ez 9:5-6).

E que dizer ainda daquele anjo que anunciou a Daniel: "Desde o princípio das tuas preces, foi dada esta ordem, e eu vim para ta descobrir, porque tu és um varão de desejos; toma, pois, bem sentido no que vou dizer-te e compreende a visão" (Dan 9:23).

Ou daquele que recebe o fogo do meio dos Querubins: "E (o Senhor) falou ao homem que estava vestido de roupas de linho, dizendo: Vai ao meio das rodas que estão debaixo dos Querubins, enche a tua mão de carvões ardentes, que estão entre os Querubins, e espalha-os sobre a cidade..." (Ez 10:2).

E ainda daquele que demonstra mais claramente a boa ordem que preside aos anjos: o Querubim que toma o fogo e o põe nas mãos daquele que estava vestido de roupas de linho (Ez 10:6-7).

Que dizer igualmente daquele que chamou o divino Gabriel e lhe disse: "Ouvi a voz dum homem no meio de Ulai, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão" (Dan 8:16).

Ou que dizer enfim de todos os outros exemplos fornecidos pelos santos teólogos?

Capítulo IX.

Falta-me contemplar a terceira ordem que termina a hierarquia angélica e que se compõe de Principados, Arcanjos e Anjos. Creio que em primeiro lugar é preciso explicar o sentido desses nomes sagrados.

O nome dos Principados celestes significa que eles possuem na ordem sagrada um princípio e uma hegemonia de forma divina; que eles possuem das potências de comando da mais alta conveniência o poder de se converterem inteiramente ao Princípio que está acima de todo o princípio e de conduzirem os outros para eles com uma autoridade primordial e de revelarem o Princípio Sobreessencial de toda a ordem pela harmonia do seu comando.

Os Santos Arcanjos têm o mesmo nível que os Principados celestes e formam uma única hierarquia juntamente com os Anjos.

A ordem dos Arcanjos, graças ao seu lugar intermediário na hierarquia, participa nos dois extremos uma vez que ela entra em comunhão com os Principados e com os Anjos. Em um dos extremos ela participa no sentido de sua conversão ao Princípio Sobreessencial e lhe confere a unidade graças aos poderes invisíveis da harmonização; no outro extremo ela participa no sentido de também pertencer ao nível dos intérpretes, recebendo hierarquicamente a iluminação por intermédio das potências do primeiro nível transmitida aos Anjos e por intermédio desses transmitida a nós na medida em que cada um possa recebê-la através dos segredos divinos.

Como já dissemos, os Anjos terminam e completam a regra das inteligências celestes, porque são eles que possuem entre elas o mais baixo grau da qualidade angélica e se nós os designamos por anjos é precisamente porque por seu intermédio se manifesta a sua hierarquia mais claramente aos nossos olhos.

A ordem superior (Tronos, Querubins e Serafins) mais próxima — pela sua dignidade — do Santuário Secreto inicia misteriosamente a segunda ordem, aquela que se compõe das Dominações, Potestades e Virtudes, que por outro lado comanda os Principados, Arcanjos e Anjos. A segunda ordem revela os mistérios menos secretamente que a primeira ordem mas menos abertamente que a última. A função reveladora pertence à ordem dos Principados, Arcanjos e Anjos. É ela que através dos graus da sua própria ordenação preside as hierarquias humanas, a fim de que se produzam de modo ordenado a elevação para Deus, a conversão, a comunhão, a união e ao mesmo tempo o movimento que provem de Deus que gratifica liberalmente todas as hierarquias e dons e as ilumina, fazendo com que essas hierarquias humanas entrem em comunhão com essa função reveladora. Daí resulta, que a teologia reserva aos Anjos o cuidado pela nossa hierarquia chamando a Miguel o arconte (magistrado da Grécia antiga) do povo judeu e aos outros anjos arcontes de outras nações, porque: "Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo os números dos filhos de Israel" (Dt 32:8) (versão dos 70).

Se nos perguntarmos como é que apenas o povo judeu foi elevado às iluminações de origem divina? É necessário dizer que os anjos preencheram de justiça a sua função de vigilância e não é culpa deles se outras nações se envolveram no culto de falsos deuses. Foram essas nações, com efeito, que pelos seus próprios movimentos abandonaram a via da ascensão espiritual para o divino. Foi à medida do seu orgulho e da sua presunção que elas veneraram os ídolos que lhes pareciam divinos. O povo hebreu testemunha propriamente essa verdade, pois a ele sucedeu-se o mesmo acidente. Porque as Sagradas Escrituras dizem: "O meu povo calou-se, porque não teve ciência. Porque tu (ó sacerdote) rejeitaste a ciência, também Eu te rejeitarei a ti" (Os 4:6).

Nem a nossa vida é necessariamente determinada, nem a liberdade dos seres submetidos à Providência das luzes divinas priva essas luzes do seu poder de iluminação providencial. Mas é a suficiente assimilação das visões — e da sabedoria que por elas é transmitida — que impede toda a participação nos dons luminosos da bondade paternal e constitui obstáculo a sua difusão, na medida em que torna as comunicações desiguais, pequenas ou grandes, obscuras ou claras, enquanto que a Fonte Radiante permanece única e simples sempre idêntica a si própria e superabundante. É assim mesmo entre as outras nações, nações das quais nós nos elevamos para o oceano indefinido e generoso dessa Luz Divina, que difunde os Seus dons sobre todos os seres. É para o único Princípio Universal que os anjos encarregados de cuidar de cada nação elevaram todos aqueles que os quiseram seguir.

Lembremo-nos de Melquisedec que teve em si próprio um grande amor a Deus, do Deus Altíssimo e Verdadeiro. Os conhecedores da Sabedoria Divina não se contentaram em chamá-lo de amigo de Deus, mas chamaram-no de Sacerdote para indicar claramente aos homens sensatos que o seu papel não foi somente o de converter-se ao culto do verdadeiro Deus, mas ainda enquanto grande sacerdote teve a função de conduzir a outros na ascensão espiritual, a qual leva à Única e Verdadeira Divindade.

"E Melquisedec, rei de Salém, trazendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo" (Gên 14:18).

Não nos esqueçamos do faraó que aprendeu sob a forma de visão de um anjo dedicado ao cuidado dos egípcios (Gên 41:1-7), tal como do príncipe dos Babilônios que aprendeu através do seu anjo particular; a solicitude do poder universal (Dan 12). Ministros do verdadeiro Deus, os anjos foram instituídos como condutores dessas nações para interpretarem as visões enviadas por Deus sob a forma alegórica, por intermédio de homens cuja santidade era próxima a dos anjos como Daniel e José; porque no Universo há um só Princípio e uma só Providência. Não poderíamos imaginar que Deus partilhasse o governo do povo judeu com anjos ou falsos deuses. As expressões que nos poderiam fazer crer nisso, devem ser interpretadas segundo um sentido sagrado. Elas não significam que Deus tenha partilhado o governo da humanidade, mas sim que neste mundo em que a Providência universal do Altíssimo tinha confiado para a salvação de todos os povos com anjos encarregados de os conduzir a Ele, foi só Israel que converteu-se à Luz e confessou o verdadeiro Senhor. Por isso, para mostrar que Israel tinha se devotado ao culto do verdadeiro Deus as Sagradas Escrituras exprimem-se assim: "A porção, porém, do Senhor é o Seu povo" (Dt 32:9).

Mas para mostrar que um dos anjos foi designado para a função de conduzir esse povo à confissão d’Aquele que é o Princípio Único e Universal, a teologia relata igualmente que Miguel preside ao governo do povo judeu. "Mas Eu te anuciarei o que está expresso na Escritura da Verdade; e em todas estas coisas ninguém Me ajuda senão Miguel, que é o vosso príncipe" (Dan 10:21).

As Sagradas Escrituras nos ensinam assim de modo claro, que não existe mais do que uma só Providência para o universo inteiro. Providência sobreessencialmente, transcendente a toda a potência visível ou invisível. Na medida do possível, todos os anjos dedicados a cada nação elevam para essa Providência aqueles que os seguem de bom grado.

Capítulo X.

Concluamos, portanto, que a ordem mais antiga dentre as inteligências que envolvem Deus, iniciada nos mistérios pelas iluminações que lhe vêem do próprio Princípio de toda a iluminação, recebe purificação, iluminação e aperfeiçoamento graças ao Dom das iluminações mais secretas da Divindade.

Depois dessa e proporcionalmente a sua natureza vem a segunda ordem, depois a terceira e por último a hierarquia humana. Todas as ordens se elevam hierarquicamente para o Princípio fundamental de toda a harmonia. Elas são reveladoras e mensageiras das que as precedem. Deus as distinguiu segundo os modos de harmoniosa deificação que convém em particular a cada uma. Os teólogos dizem que os Serafins trocam mútuos clamores mostrando assim segundo creio e de modo claro, que os primeiros transmitem aos segundos conhecimentos teológicos. "Clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos" (Is 6:3).

Capítulo XI.

Uma vez colocada essas questões convem considerar porque razão nos acostumamos a chamar igualmente "potências celestes" a todas as essências angélicas. Não podemos dizer como o fizemos para o termo Anjo, que a ordem das Santas Potestades é a última das ordens e que as essências superiores participam na iluminação das ordens inferiores e que essas últimas não tomam parte na iluminação das primeiras. Tal explicação não justificaria a extensão do nome de potestades celestes a todas as inteligências divinas dos Serafins, dos Tronos ou das Dominações em virtude do princípio segundo o qual as ordens inferiores não participam nas propriedades das superiores. Restariam os Anjos e antes deles os Arcanjos, os Principados e as Virtudes que os teólogos subordinam às Potestades e que recebem freqüentemente na linguagem comum o nome de potestades ou potências celestes ao mesmo título que os outros anjos.

Ao usar o nome de potestades para designar todas as essências não introduzimos nenhuma confusão nas propriedades de cada ordem. No seio de todas as inteligências divinas distinguimos com efeito três qualidades: a essência, a potência e o ato. Se nos ocorre designá-las indistintamente por essências ou potências celestes importa considerar que o fazemos por rodeio de palavras e não se trata de atribuir na totalidade às essências subordinadas a eminente propriedade das santas potestades. Como já foi dito, as ordens superiores possuem as propriedades das inferiores, porque somente uma parte das iluminações primordiais é transmitida às ordens inferiores à medida de suas capacidades.

Capítulo XII.

Vejamos um outro problema que é colocado a quem quer que se envolva no estudo escriturístico minucioso: Uma vez que as últimas ordens não participam inteiramente nas ordens superiores, porque é que os grandes sacerdotes da hierarquia humana recebem nas Sagradas Escrituras o título de anjos do Senhor Todo Poderoso?

"Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos" (Ml 2:7; cf.Apoc 2:1).

Creio que o uso desse termo não contradiz as definições dadas até o momento. Quando se diz que às inteligências da terceira ordem falta a inteira potência, integral e sublime que pertence às ordens mais antigas, entende-se que elas participam na medida de suas forças numa comunhão única e universal, harmoniosa e sintética. Assim é, por exemplo, que se a ordem dos Querubins participa numa sabedoria mais elevada, as legiões formadas de essências inferiores participam também na sabedoria, mas de forma mais parcial. A participação geral na sabedoria é a característica comum a todas as inteligências que vivem em conformidade com Deus.

O que não é comum é o caráter mais ou menos imediato e primordial dessa participação, grau que se define para cada essência na medida de suas próprias capacidades. Essa verdade pode ser aplicada sem risco a todas as inteligências divinas, porque assim como as primeiras ordens possuem as propriedades de suas subordinadas, também as últimas possuem as propriedades das suas superiores, não do mesmo modo, mas de modo inferior. Eu não vejo inconveniente que um grande sacerdote da hierarquia humana seja chamado de anjo pelos teólogos, porque ele participa segundo a sua própria capacidade no papel de intérprete dos anjos e na medida de suas possibilidades tende a imitar o seu poder revelador.

Notaremos, que a teologia concede o título de deuses às essências celestes e chama também "deuses" aos homens que se distinguem pelo seu amor a Deus e pela sua santidade: "Jacó pôs àquele lugar o nome de Fanuel, dizendo: Eu vi a Deus face a face, e a minha alma foi salva" (Gên 32:30). "E o Senhor disse a Moisés: Eis que Te constituí deus do faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta" (Êx 7:1). "Eu disse: Sois deuses" (Sl 81:6).

Ora, o mistério divino é transcendente; o seu caráter sobreessencial separa-o de todas as coisas e nenhum ser vivo merece em propriedade ser nomeado do mesmo modo. Toda a inteligência que tende integralmente ― no máximo da sua potência ― para a união com Deus e que se eleva incessantemente tanto quanto pode para as iluminações divinas imitando o próprio Deus, se isso se pode dizer à medida de suas forças, então merece bem o título de divina.

Capítulo XIII.

Prossigamos o nosso caminho e examinemos porque é que se diz que um dos teólogos recebeu a visita de um Serafim. Notemos que Serafim é um anjo da primeira ordem, das mais antigas essências celestes, o qual desce para purificar o profeta.

"Voou para mim um dos Serafins, o qual trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz" (Is 6:6).

Alguns intérpretes respondem que em virtude da definição já dada aos nomes que se atribuem em comum a todas as inteligências, as Sagradas Escrituras não afirmam que a inteligência que desce para purificar o teólogo pertence a essa ordem superior que se situa próxima a Deus, mas que se trata de um dos anjos que nos são designados a título de ministro sagrado encarregado da purificação do profeta. Seria um desses anjos que teria recebido por semelhança o nome de Serafim, em virtude da operação que realiza apagando pelo fogo os pecados que as Sagradas Escrituras enumeram e restabelecendo na obediência de Deus aquele que tinha sido purificado. Assim, segundo esse estudo minucioso, as Sagradas Escrituras falando simplesmente de Serafim não designam uma dessas inteligências que se situam nas proximidades de Deus, mas designam outras das potências purificadoras que nos são dedicadas.

Um outro estudioso oferece uma solução referente a isso para nos tirar desse embaraço. Esse grande mensageiro, que aparece ao teólogo para iniciá-lo nos segredos divinos, "relatou" a Deus e depois à hierarquia primordial a santidade da sua própria operação purificadora. O estudioso que assim falava, afirmava que a potência divina se difunde por todo lado e penetra todas as coisas de modo irresistível, permanecendo misteriosa não somente pela sua total e sobreessencial transcendência, mas ainda pelo mistério pelo qual envolve todas as suas operações providenciais. Portanto, está claro que a potência divina se revela a quem quer que seja dotado de inteligência e que esteja à medida de suas capacidades receptoras.

Tendo doado sua própria luz às essências mais antigas, ela usa em seguida o serviço dessas mesmas essências para transmitir essa mesma luz de modo harmonioso às essências de ordem inferior, segundo a aptidão visionária de cada ordem. Por outro lado, se preferirmos uma expressão mais clara com imagens mais adequadas temos: a difusão do raio solar atravessa mais facilmente a primeira matéria que é mais transparente que todas as outras. Através dessa matéria o seu próprio esplendor brilha de modo mais visível, mas quando se depara com matérias mais opacas a sua potência de difusão se obscurece, porque as matérias penetradas resistem pela sua própria natureza à passagem da efusão luminosa e esta resistência aumenta progressivamente ao ponto de quase impedir inteiramente a passagem do raio luminoso.

Pela mesma razão, o calor do fogo transmite-se melhor nos corpos que são mais aptos a recebê-lo e que pelo seu movimento interno de ascensão se aproximam mais da sua semelhança, mas logo que se aproxima de substâncias refratárias a sua chama permanece sem efeito ou pelo menos não deixa mais do que um ligeiro traço. O melhor ainda é dizer: o fogo não atua sobre substâncias que não têm afinidade com ele a não ser por intermédio de corpos já familiarizados, de modo a fazer o fogo chegar aos objetos inflamáveis e somente em seguida através deles aquecer a água ou outra substância rebelde à combustão.

É através dessa lei harmoniosa que rege toda a natureza, que o Princípio maravilhoso de toda a ordem visível e invisível manifesta originalmente por efusões benfeitoras a chama da sua própria luz às essências superiores, que por seu intermédio aquelas que vêm depois delas participam na luz divina. Com efeito, essas essências que confessam Deus em primeiro lugar e que tendem mais que todas as outras para a virtude divina, merecem ser as primeiras na imitação divina. São elas que na sua bondade distribuem generosamente às ordens inferiores esse esplendor que as penetra, que por sua vez as distribuem às outras subordinadas. É assim que gradativamente a que precede, distribui à seguinte a luz divina que ela própria recebeu, a qual se distribui providencialmente sobre todas as essências à medida das suas capacidades.

Capítulo XIV.

O que significam os números atribuídos tradicionalmente aos anjos.

Mas ainda é conveniente a meus sentidos refletir sobre essa tradição escriturística que atribui aos anjos os números de mil vezes mil e dez mil vezes dez mil (Daniel 7:10), retornando sobre eles mesmos e multiplicando por eles mesmos os números mais elevados que nós conhecemos, para nos revelar claramente que o número das legiões celestes para nós escapa de todas as medidas.

Tal é, com efeito, a multidão desses exércitos bem-aventurados que não são desse mundo, que ela ultrapassa a ordem débil e restrita de nossos sistemas de numeração material e que só pode ser conhecida e definida pela sua própria inteligência e sua própria ciência que não são desse mundo, mas que pertencem ao céu e que elas receberam como dom perfeitamente generoso da Tearquia, pois essa Tearquia conhece o infinito, Ela é a fonte de toda sabedoria, o princípio comum e supraessencial de toda existência, a causa que dá classificação de essência a todo ser, a potência que contem e o termo que abarca a totalidade do universo.

Duplo papel das essências celestes,

Capítulo XV.

Quais são as imagens figurativas das potências angélicas: o fogo, a forma humana, os olhos, o nariz, as orelhas, a boca, o tato, as pálpebras, as sobrancelhas, a flor da idade, os dentes, os ombros, os braços, as mãos, o coração, o peito, o dorso, os pés, as asas, a nudez, a vestimenta, os véus brilhantes, o manto sacerdotal, os cintos, os bastões, as lanças, os machados, as correntes, os ventos, as nuvens, o bronze, o âmbar, os coros, os aplausos, as nuanças das pedras coloridas, a forma de leão, aquela do boi e da águia, os cabelos, os mantos cavalares, os rios, os carros, as rodas e a alegria que se atribui aos anjos.

Continuando nossa reta eis o que nos resta dizer. O olho de nossa inteligência vai afrouxar, se você vê bem, o esforço pelo qual ele se ensaiava de maneira angélica nas mais altas visões. Nós vamos descer de novo aos planos da divisão e da multiplicidade para a diversidade polimórfica das figuras que os anjos assumem. Retornaremos em seguida aos nossos passos e subiremos das imagens para a simplicidade das essências celestes. Mas saiba primeiramente (Maurice de Gandillac acrescenta aqui: "somente isso") que as interpretações sagradas das imagens figurativas revelam às vezes que as mesmas ordens das essências celestes, tanto iniciam quanto são iniciadas, que aquelas da última ordem iniciam e que aquelas da primeira ordem são iniciadas e que elas possuem todas, como se diz, potências superiores, médias e inferiores, sem que portanto exegeses (estudos) desse gênero tenham nada de irracional. Com efeito, pretender que todas juntas, tais ordens sejam iniciadas por aquelas que as precedem e que essas últimas recebam delas a mesma iniciação, ou ainda, que as superiores iniciando as inferiores, sejam a seguir iniciadas por aquelas mesmas que elas iniciaram, seria o puro absurdo e a confusão total. Mas afirmando-se que as mesmas essências iniciam e são iniciadas nós não entendemos por essa afirmação, que elas iniciam as mesmas que as iniciaram: nós apenas queremos dizer que cada uma delas é iniciada por aquelas que as precedem e que ao mesmo tempo elas iniciam aquelas que a seguem.

Não há então nenhuma inconveniência em afirmar que as figurações sagradas que as Escrituras nos apresentam, podem se atribuir às vezes sem modificação, propriamente e verdadeiramente, às vezes às potências primeiras, às vezes às médias, às vezes às últimas. Por exemplo: o poder de se elevar ao alto por um movimento constante de conversão, aquele de executar em torno de si próprio uma indefectível revolução conservando suas próprias potências, o poder de participar na potência providencial comunicando-se processivamente com as ordens inferiores, tudo isso convem, sem mentir, a todas as essências celestes, a algumas todas as vezes (como se disse muitas vezes) de modo eminente e total, às outras de modo parcial e inferior.

É necessário que abordemos agora o problema colocado e que comecemos a elucidação das figuras, procurando o porquê da Teologia, como se pode constatar, situar as alegorias tiradas do fogo quase acima de todas as outras. Você notará, com efeito, que ela não só nos apresenta rodas de fogo ardente (Dan 7:9), mas ainda animais como brasas de fogo ardente (Ez 1:13) e homens com semelhança de fogo (Ez 1:27) (Maurice traz "brilhantes como de fogo"). Ela imagina em volta das essências celestes mãos cheias de brasas acesas (Ez 10:2) e rios de fogo (Dan 7:10). Ela afirma em outra passagem que os tronos são de chamas de fogo (Dan 7:9) e invoca a etmologia da palavra serafins para declarar que essas inteligências superiores são incandescentes e para lhes atribuir as propriedades e os atributos do fogo. No total, quer se trate da alta ou da baixa hierarquia, é sempre para as alegorias tiradas do fogo que vão suas preferências. Me parece que de fato, é a imagem do fogo que revela melhor o modo pelo qual as inteligências celestes se conformam a Deus. É por isso que os Santos Teólogos descrevem freqüentemente sob forma incandescente essa essência suprasubstancial que escapa a toda figuração e é essa forma que fornece mais de uma imagem visível daquilo que nós ousamos chamar de propriedade teárquica.

O fogo sensível é, por assim dizer, presente em toda parte e ilumina tudo sem se misturar com nada, permanecendo sempre totalmente separado. Ele brilha com um clarão total e permanece ao mesmo tempo secreto, pois em si ele permanece desconhecido fora de uma matéria que revele sua operação própria. Não se pode suportar o seu clarão nem contemplá-lo face a face, mas seu poder se estende por toda parte e de lá onde ele nasce ele tira tudo para si fazendo dominar (essas duas palavras faltam em Maurice) seu ato próprio. Por essa transmutação ele faz dom de si a qualquer um que se aproxime por pouco que seja: ele regenera os seres por seu calor vivificante (Maurice traz "por sua vivificação"), ele os clareia por suas brilhantes iluminações, mas em si, ele permanece puro e sem mistura. Ele tem o poder de decompor os corpos sem sofrer ele mesmo nenhuma alteração. Ele se agita vivamente. Ele vive nas alturas, ele escapa a toda atração terrestre, ele se move sem cessar, ele se move por si próprio e ele move os outros. Seu domínio se estende por toda a parte, mas ele não se deixa prender em lugar algum. Ele não precisa de ninguém. Ele se aumenta insensivelmente, manifestando sua grandeza em toda matéria que o acolhe. Ele é ativo, poderoso, invisível e presente por toda a parte. Negligenciado, ele parece que não existe. Mas, sob o efeito dessa fricção que é como uma oração, ele aparece bruscamente com todas as suas qualidades; logo se o ve tomar um voo irresistível e é sem perder nada de si que ele se comunica jubilosamente em torno de si. Encontraremos ainda, mais uma propriedade do fogo que se aplica como uma imagem sensível às operações da Tearquia. Os conhecedores da Sabedoria Divina o sabem bem já que atribuem figuras incandescentes às essências celestes, revelando assim que formas elas assumem e tanto quanto lhes é possível, a semelhança de Deus.

Mas eles usam também para os figurar alegorias antropomórficas, porque o homem possui uma inteligência; porque ele é capaz de olhar para o alto; porque ele se mantem firme e direito; porque sua natureza é aquela de um príncipe e de um chefe; porque se é verdade que no plano sensível os animais desprovidos de razão tem maiores poderes que os do homem, no entanto, é ele que domina todos pelo entendimento de sua potência intelectual, pela soberania de seu poder racional, pelo caráter naturalmente livre e independente da sua alma.

Quer me parecer ainda mais, que cada parte do corpo humano pode nos fornecer muitas imagens que se aplicam perfeitamente (essas seis últimas palavras faltam em Maurice) às potências celestes. Pode-se dizer que as faculdades visuais significam sua tendência a se elevar, em plena claridade, para as Luzes Divinas assim como a maneira pela qual elas recebem impassivelmente as iluminações teárquicas com toda simplicidade "ternamente", com flexibilidade, sem resistência, em um voo rápido e puro. O discernimento dos odores significa o poder de agarrar ao máximo as suaves emanações que ultrapassam a inteligência, de discernir da ciência segura seus contrários e deles fugir absolutamente. O ouvido significa o poder de participar na inspiração teárquica e dela tirar o saber que ela contem. O paladar significa a plenitude dos alimentos intelectuais e a arte de se abeberar (matar a sede) na fecundidade dos canais divinos; o tato, a arte de distinguir seguramente o útil do nocivo; as pálpebras e as sobrancelhas, o cuidado com o qual elas conservam as visões intelectuais de Deus; a adolescência e a juventude a constante floração das potências vitais; os dentes, a perfeição com a qual eles dividem o alimento que eles recebem, pois cada essência intelectual tendo recebido de uma essência mais divina, em dom, a intelecção unitiva, a divide e a multiplica providencialmente para elevar espiritualmente tanto quanto possa a essência inferior (daquela que ela é encarregada).

As espáduas (ombros), os braços e as mãos, representam o poder de fazer, de agir, de operar; o coração é o símbolo de uma vida conforme a Deus e que espalha em sua bondade sua própria potência vital sobre os seres submetidos a sua Providência; o peito revela a muralha inexpugnável (segura) ao abrigo da qual um coração generoso espalha seus dons vivificantes; o dorso (costa) figura a reunião de todas as potências que engenharam a vida; os pés, o caráter móvel e rápido desse curso perpétuo que os conduz para as realidades divinas. É por isso que as alegorias divinas colocam asas nos pés das santas inteligências, pois as asas significam uma rápida elevação espiritual, uma elevação celeste, uma progressão para o alto, uma ascensão que libera a alma de toda baixeza; A ligeireza das asas simbolizam a ausência de toda atração terrestre, o impulso total e puro, isento de todo peso, para os cimos; o corpo e os pés nús significam desembaraço, liberação, independência, purificação relativamente a toda suprafluidez exterior, assimilação máxima à divina simplicidade.

Mas como a sabedoria, toda junta una e variada, veste sua nudez e as representa como portadoras de equipamentos, é necessário explicar agora, tanto quanto pudermos, as santas vestimentas e os instrumentos sagrados que se atribuem às inteligências celestes.

Eu penso que a toga luminosa e incandescente significa a forma divina; segundo o simbolismo do fogo, essa potência de iluminação que elas extraem da morada celeste que lhes foi determinada e que é o próprio lugar da luz; enfim o caráter totalmente inteligível da iluminação delas e totalmente intelectual da visão delas. A toga pontifical significa o poder de se elevar espiritualmente até os espetáculos divinos e místicos e aí consagrar uma vida inteira. Os cinturões significam o cuidado com o qual elas conservam suas potências genéticas; o poder que elas tem de se recolher, de unificar suas potências mentais reentrando nelas mesmas, e se dobrando novamente harmoniosamente (Maurice traz "facilmente") sobre si no círculo indefectível (infalível) da própria identidade delas.

As varas representam o poder real, a soberanidade, a retitude com a qual elas conduzem todas as coisas a seu acabamento; as lanças e os machados, sua arte de discriminar o que é estrangeiro, a sutileza, a atividade e a eficácia de suas potências de análise; os equipamentos dos geometras e dos arquitetos, seu poder de fazer fundação, de edificar e de acabar, e em geral, tudo que concerne à elevação espiritual e a conversão providencial de seus subordinados. Acontece também às vezes, que os instrumentos com os quais os representamos simbolizam os julgamentos de Deus à respeito dos homens, uns representando as correções disciplinares ou os castigos merecidos, outros representando o socorro divino em circunstâncias difíceis "nos incêndios", o fim da disciplina ou o retorno a anterior felicidade, ou ainda o dom de novos benefícios, pequenos ou grandes, sensíveis ou intelectuais. Em suma, uma inteligência perspicaz não ficaria embaraçada em fazer corresponder os sinais visíveis às realidades invisíveis.

Acrescentemos, que os chamamos ventos, para mostrar a rapidez com a qual elas agitam por toda parte de maneira quase instantânea, o vai-e-vem do alto para baixo e de baixo para o alto, pelo que elas elevam suas subordinadas até o cimo mais alto e pelo que elas inclinam suas superiores a descer processivamente para se comunicarem com as essências inferiores e exercer a Providência delas para com essas últimas. Poder-se-ia dizer também que o nome de vento, que significa um espírito aéreo, revela a maneira pela qual as inteligências divinas vivem em conformidade com Deus; pois esse nome contem a imagem e a marca da atividade teárquica (como foi mostrado mais explicitamente na Teologia Simbólica dando a exegese dos quatros elementos) graças a seu movimento natural e vivificante, graças a indomável impetuosidade de sua marcha adiante, graças ao mistério para nós incognoscível (desconhecido) dos princípios e dos fins de seu movimento: "não sabes, (diz a Escritura) donde vem, nem para onde vai" (Jo 3:8).

Mas, a Escritura as representa também sob a forma de nuvens (Ez 10:4) para significar assim que as santas inteligências contêm de um modo que não é daqui de baixo, a plenitude da luz secreta; que tendo recebido em primeira mão e sem orgulho excessivo a efusão primordial dessa luz, elas a transmitem a suas subordinadas em segunda mão e de modo generoso tanto quanto essas últimas possam receber; enfim elas possuem uma fecundidade que doa a vida e que faz crescer os seres e que os aperfeiçoa derramando sobre eles a chuva da inteligência, e chamando por chuvaradas fecundantes para partos vivificantes o seio que as recebeu.

Se a teologia atribui além disso às essências celestes a forma do cobre e do âmbar e aquela das pedras multicores (Ez 8:2; 40:3; Apoc 21:19-20), é porque o âmbar que reune em si as formas do ouro e da prata simboliza por sua vez a pureza incorruptível, inesgotável, indefectível (infalível) e intangível que pertencem ao ouro e o clarão luminoso, brilhante e celeste que pertencem à prata. Quanto ao cobre pelas razões que foram ditas ele lembra seja o ouro seja o fogo. E no que concerne às formas multicores das pedras crê-se que elas representam no branco, a luz; no vermelho, o fogo (1da pág.seg.) (essas quatro palavras faltam em Maurice); no amarelo, o ouro; no verde, o apogeu da juventude. Para cada espécie você encontrará assim um ensinamento espiritual na exegese simbólica das imagens que ela representa.

A figura do leão (Ez 1:10; Apoc 4:7) deve revelar esse esforço soberano, veemente, indomável, pelo qual as essências celestes imitam tanto quanto elas podem o mistério da inefável (encantadora) Tearquia, envolvendo intelectualmente os traços desse mistério, disfarçando-os modesta e misticamente sobre a via sobre a qual a iluminação divina as eleva.

A figura do boi (Ez 1:10; Apoc 4:7) marca a força e a potência, o poder de escavar sulcos intelectuais para receber as fecundas chuvas do céu, enquanto os chifres (essas 4 palavras faltam em Maurice) simbolizam a força conservadora e invencível.

A figura da águia (Ez 1:10; Apoc 4:7) indica a realeza, a tendência aos cumes, o voo rápido, a agilidade, a prontidão, a engenhosidade em descobrir os alimentos fortificantes, o vigor de um olhar estendido livremente, diretamente e sem desvio para a contemplação desses raios, dos quais a generosidade do Sol teárquico multiplica-os.

A figura do cavalo (Apoc 6:2-8) significa a obediência e a docilidade. Se eles são brancos, essa limpidez tão próxima quanto possível da luz divina; se eles são baios (castanho ou amarelo torrado), o caráter misterioso; se eles são de uma cor entre o branco, o amarelo e a camurça, o poder do fogo e sua eficácia; se eles são pretos com o dorso tendendo ao azul escuro e o baixo dorso tendendo ao branco, a síntese dos opostos e o poder de passar de um ao outro, essa adaptação dos superiores aos inferiores e dos inferiores aos superiores que nasce da conversão de uns e do cuidado providencial dos outros.

Se nós não tivéssemos o desígnio (intenção) de conservar nesse tratado proporções harmoniosas, nós poderíamos considerar cada parte dos animais que acabamos de citar, todos os detalhes de sua estrutura física e nós não estaríamos errados de aplicar esses detalhes às potências celestes segundo o procedimento das imagens diferentes (da pág.seg.; ver todo o cap.II). É assim que, para quem quer se elevar do sensível ao espiritual as faculdades irascíveis (iradas) desses animais ensinam essa virilidade da inteligência, da qual a cólera é o último eco; suas faculdades concuspiscentes (desejo de bens ou gozo material) ensinam o desejo amoroso que provam os anjos à volta de Deus; mais sinteticamente todas as sensações das bestas privadas de razão e a multiplicidade de suas partes ensinam as intelecções imateriais das essências celestes e suas potências sem diversidade. Mas para quem sabe raciocinar, esses exemplos bastam; dizendo melhor, a exegese de uma só dessas imagens paradoxais esclarece por analogia todos os símbolos do mesmo tipo.

É necessário examinar ainda o que significa a aplicação alegórica às essências celestes dos nomes de rios, de rodas e de carros (Dan 7:10; Ez 10:2; 2Rs 2:11). Os rios de fogo significam esses canais teárquicos que generosamente não cessam de escoar seus fluxos sobre as essências celestes e que conservam assim sua vivificante fecundidade. Os carros significam essa comunidade que se liga ao mesmo varão do carro (nota do tradutor: entenda-se os carros da época como carroças) essências de nível igual. Quanto às rodas aladas que avançam sem desvio nem inclinação, elas significam o poder de rolar de maneira reta, em linha reta sobre a via reta e sem desvio, graças a uma rotação perfeita que não pertence a esse mundo. Mas a alegoria sagrada das rodas da inteligência se presta ainda a uma outra exegese que corresponde a um outro ensinamento espiritual. Como diz, com efeito, o teólogo, deu-se a elas o nome de galga que em hebreu significa ao mesmo tempo revolução e revelação (Ez 10:13). Essas rodas inflamadas e que recebem a forma divina tem o poder de rolar sobre elas mesmas, porque elas se movem perpetuamente em torno do imutável bem; elas têm também o poder de revelar, pois elas iniciam nos mistérios; e elas elevam espiritualmente as inteligências de baixo, ao mesmo tempo que fazem descer as iluminações mais elevadas até as mais humildes.

Resta-nos explicar o que as Escrituras entendem quando elas falam da alegria das ordens celestes (Lc 15:10). Essas ordens, com efeito, não saberiam de maneira nenhuma sentir as volúpias apaixonadas que os homens conhecem. O que se quer dizer por conseqüência é que elas participam da alegria divina por ocasião do retorno de pecadores: elas experimentam uma felicidade calma e verdadeiramente divina, uma felicidade boa e sem inveja ao vigiar providencialmente e ao salvar aqueles que se convertem a Deus; uma alegria inefável (encantadora), a qual adveio com freqüência também a homens santos graças as visitações deificantes das iluminações divinas.

Tais são minhas explicações concernentes às alegorias sagradas. Se elas estão distantes de revelar exatamente as iluminações, elas ao menos economizarão, eu penso, a humilhação de nos prendermos ao caráter imaginativo desses símbolos. Mas se nos reprovassem o fato de não termos feito menção a todas as potências, a todos os atos, a todas as alegorias que as Escrituras contêm relativamente ao anjos, nós teríamos o direito de justificar algumas de nossas omissões reconhecendo que nós ignoramos a ciência das realidades que não são desse mundo e que para nos conduzir a essa ciência nos fizeram falta as luzes de um iniciador. Quanto a outras omissões concernentes a questões análogas àquelas que nos tratamos, elas se explicam pelo duplo cuidado de não estender nosso tratado para outras medidas e respeitar o nosso silêncio a respeito de mistérios que nos ultrapassam.

Continue lendo...

Compare Produtos, Lojas e Preços
Compare Produtos, Lojas e Preços
Compare Produtos, Lojas e Preços
Compare Produtos, Lojas e Preços
Compare Produtos, Lojas e Preços
Compare Produtos, Lojas e Preços